por LETÍCIA FRAGA

Docente do Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Estadual de Ponta Grossa, Mestre em Lingüística pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Doutoranda em Lingüística pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

 

RESENHA

SIMÕES, Darcília. Considerações sobre a fala e a escrita: fonologia em nova chave. São Paulo: Parábola, 2006, 119 p.

 

Para entender a relação oralidade/escrita: a importância da fonologia aplicada

 

O livro Considerações sobre a fala e a escrita: fonologia em nova chave, de Darcília Simões, nasceu de um curso de atualização para professores, ministrado pela autora na Faculdade de São Gonçalo (FFP), em 1991. O contato com os professores-cursistas lhe possibilitou avançar nas considerações que se faziam acerca dos problemas verbais em questão.

Ao longo do texto, a autora busca demonstrar, baseada em sua experiência docente, que muitas dificuldades vivenciadas nas classes de alfabetização decorrem de desconhecimentos técnicos, por parte dos docentes, do sistema lingüístico e de suas particularidades internas e externas.

A partir de então, a autora reuniu material suficiente a fim de oferecer suporte aos docentes no sentido de compreender as dificuldades dos seus alunos, quando estes enfrentavam problemas de  natureza gráfica. Esse material é a base da presente proposta de um novo modelo de encaminhamento do processo de aquisição ou aperfeiçoamento da língua escrita.

Fica claro que a autora defende a idéia de que o problema no ensino de fonética e fonologia diz respeito a sua natureza exclusivamente descritiva, ao passo que a tão importante discussão a respeito de sua aplicação real e expressiva na língua viva é deixada de lado.

Logo, o presente livro investe em questões relativas à sala de aula, esse sim um fascinante território a ser explorado em termos fonológicos.

É claro que, para apresentar uma obra de caráter aplicado, a autora não pode prescindir do conhecimento técnico, sem, no entanto, a intenção de fazer uma “descrição minuciosa do sistema fônico da língua portuguesa falada no Brasil”. O objetivo como sempre é levar o leitor para fora, para o lugar onde se concretizam as aplicações pedagógicas.

A obra é dividida em duas partes. Na primeira, apresentam-se alguns subsídios técnico-teóricos: a importância do conhecimento fonológico na apreensão do funcionamento do sistema de uma língua. Para discutir a importância de se dominar a língua materna, a autora parte, então, de uma revisão teórica, a qual considera a variação lingüística e seus reflexos na escrita. Nessa breve mas necessária revisão, discutem-se importantes aspectos fônicos da língua portuguesa que devem ser considerados durante o aprendizado da leitura e escrita.  Afinal, apesar de a aprendizagem da leitura desenvolver-se ao longo dos anos, algumas estruturas fonológicas básicas podem e devem ser assentadas desde as primeiras séries do ensino fundamental, para que o estudante obtenha pontos de partida para o seu aperfeiçoamento, fundamentando sua prática de usuário da língua com uma boa dose de raciocínio lingüístico.

Percebe-se que não se trata de pregar uma mudança radical no ensino e, sim, estimular um trabalho mais racional, menos memorizante, através do qual o aluno possa apropriar-se das estruturas da língua com mais facilidade, já que poderá compreendê-las melhor.

Nunca é demais dizer que ninguém fala como escreve. Por isso a aprendizagem da leitura e da escrita é um processo de alto grau de complexidade, que requer do professor competência técnico-pedagógica específica, para que as dificuldades possam ser minimizadas.

Discutidos os conceitos fundamentais, passa-se a discutir os problemas da ortografia infantil mais comuns, através de uma explícita proposta de abordagem de problemas da escrita infantil.

A sugestão é que a escola conviva com as formas gráficas da língua popular e até mesmo do registro vulgar, pois a ela cabe enriquecer o potencial comunicativo dos alunos, dando-lhe meios e modos de transmitir o que pensam e sentem.

As grafias pseudofonéticas da primeira fase da escrita escolar, se bem trabalhadas, servem de passagem natural que resulta numa base promissora para a futura aquisição das formas dicionarizadas. Além do mais, há muito que se ressalta a importância da exploração do universo imediato da criança como ponto de partida para as aprendizagens em geral. Assim, tomar as formas gráficas emergentes da fala original da criança como elementos deflagradores do processo de aquisição da escrita parece o procedimento mais adequado, pois além de prestigiar o desempenho lingüístico da variante transmitida, vai-se fazendo um paralelo entre o que se fala e o que se escreve/o que se lê, isto é: entre os diferentes modos de se dizer algo oralmente ou por escrito. Assim, os constrangimentos decorrentes da postura tradicional do certo/errado deixam de atuar como entraves no processo de ensino-aprendizagem escolar.

Resumindo: professores preparados orientam desde cedo seus alunos para perceberem as diferenças entre língua falada e língua escrita; perceberem a variação dos usos lingüísticos; atentarem para a necessidade de adequação de registros; compreenderem a não-correspondência entre fonema e letras; aceitarem a natureza convencional da língua – sobretudo na escrita.

Com professores preparados, há muita chance de se evitarem as dificuldades atribuídas, no processo de ensino–aprendizagem do vernáculo, à heterogeneidade e à falta de prontidão do alunado, resultantes de ações pedagógicas impróprias e, muitas vezes, decorrentes de uma carência técnico-teórica docente no que se refere ao domínio da estrutura e do funcionamento da língua materna.

Na segunda e última parte da obra, a novidade: uma seção de estudos aplicados. Nessa estabelece-se uma interessante relação entre a escrita infantil, a história da ortografia do PB e a relação entre oralidade e escrita, a qual é ilustrada pela análise da uma parte da obra de Guimarães Rosa.

Como não apenas diz, mas também faz, Darcília demonstra a possibilidade de um ensino pragmático, com o qual o qual os alunos pode se envolver não por imposição, mas por desejo, por necessidade de melhorar o próprio desempenho lingüístico, de forma a se tornar um cidadão de participação social mais ampla e significativa.

 

por LETÍCIA FRAGA

 

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sobre a autora...

 

Darcilia Marindir Pinto Simões é Doutora em Letras vernáculas pela UFRJ, Mestra em Letras pela UFF.

 

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