RESENHA
HEBECHE,
Luiz. Memória e desejo. Porto Alegre, AGE, 2005
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O
dilema de perscrutar a lucidez no romance Memória e Desejo
O
escritor Luiz Hebeche, autor do romance: Memória e Desejo, publicado
recentemente (2005) pela AGE editora, pode ser “identificado”
como um ser fronteiriço. Nasceu na cidade de Quaraí no
estado do Rio grande do Sul. Quaraí faz fronteira com a cidade
uruguaia de Artigas, unidas pela ponte De la Concordia sobre
o rio Cuareim. Ser fronteiriço, neste caso, é
crescer sabendo que o espaço, politicamente denominado: fronteira;
nada mais é que o lado de lá do além ponte. Quaraí e Artigas se
separam e se unem pelas margens de um rio ou pelo arco de uma ponte.
O mais adequado neste caso seria denominar este espaço de: Quaraíartigas,
Brasiluruguai ou Artigasquaraí, Uruguaybrasil ou ainda, esquecer o
que seja “adequado” e deixar que a mistura se faça e possa
permanecer num espaço que é seu, de forma salutar, sem a demarcação
de fronteiras. Na minha opinião, transitar entre as margens, sem
constituir fronteiras, parece ser a indagação da textualidade
literária de Luiz Hebeche, pois, sua literatura tem uma potente
inquietação filosófica.
A
relação entre filosofia e literatura é um assunto que “pede”
que nos debrucemos por um “longo tempo”, para assim, apenas
sublinhar ou nortear a possibilidade de uma prática venatória que
nos confronte com alguns índices sobre o tema. No entanto, podemos
afirmar, que tal relação não se guiou, desde sempre, por uma
convenção categórica, que definimos hoje separadamente: filosofia
e literatura. Sabe-se, que não podemos identificar o objeto literário
de forma rigorosa, mas sabe-se também que a explicitação filosófica
se faz através da exposição oral ou escrita, assim, a filosofia
pode ser “lida” na forma convencional como uma categoria literária.
Todavia, podemos apontar para textos e escritores convencionalmente
lidos ou tidos como literários que apresentam particularidades
filosóficas como: Dostoievski, Goethe, Camus, Proust, Celine,
Machado de Assis entre outros tantos.
O
romance que ora resenhamos, Memória e Desejo, pelo ponto de
vista de um personagem narrador, a partir do seu fazer cotidiano,
leva-nos a digressões filosóficas e a questionamentos sobre a
“forma de vida” da sociedade contemporânea. O narrador, vive um
momento de busca de sentido, tal momento é assombrado pelo
sentimento do fim das utopias da modernidade, que seriam as ilusões,
e pelos desejos que seriam a potência desencobridora de ilusões. O
desejo é potência encoberta pela ilusão, e para expressar sua
vitalidade deve desviar a ilusão. Contudo, desviar a ilusão para
potencializar o desejo, causa sofrimento e dor, pois neste momento,
cai-se num vazio, no abismo do sem razão, e para curar o horror ao
vazio, paradoxalmente, devem surgir novas ilusões que substituem as
anteriores, ou, quem sabe, apenas as renovam.
Apesar disso, o inominado narrador - em todo romance só
temos um índice para o seu nome a partir de algumas iniciais: MS
– vive o desvanecimento das ilusões nos traços da memória de um
passado, que um dia foi cheio de futuro. Ou quem sabe, MS acredite,
como Proust, que a
aventura do homem consista em voltar no tempo até ver como o
passado pode projetar uma sombra de si mesmo, e a essa sombra
denominar: futuro. No
entanto, chegar a uma resposta para esta questão é eliminar a
questão de seu existir, pois chegar a uma resposta para o dilema da
aventura do homem, seria perscrutar a lucidez na procura de um
caminho, quem sabe antropológico, de resgatar pela memória a
trajetória desse homem que pergunta por ele mesmo. Mas essa é a
questão crucial. MS pergunta: “Como confiar na memória se ela é
traída pelo desejo? A memória é o território dos desejos mortos.
Por isso, é difícil confiar nela.” (p.17) Para MS confiar na memória
como um instrumento de resposta é descartar dela o desejo.
Neste
romance de narrativa linear, lemos em especial, o monólogo interior
de um personagem/narrador sem nome e sem trabalho seguro, uma
“indeterminação”. A única possibilidade de um nome que
determine a identidade do narrador é dada pelas iniciais “MS”
em uma dedicatória num livro de Cristina Bamberg, sua amiga morta.
E esta é uma importante possibilidade, mesmo que
infinita de combinações, de dar-lhe um nome, um
significado, pois é o nome aquilo que de fato sinaliza a primeira
marca fixa da identidade, pois diferente do corpo, ela sugere não só
em presença, mas também em ausência (pela assinatura) quem somos
e de onde viemos. A angustia existencial desse personagem, não é só
narrada pelos seus dilemas cotidianos, mas também, tal angustia é
repassada por contigüidade ao leitor na vertigem de encontrar-lhe
um nome, dar-lhe um sentido.
MS
é um cidadão comum, que vive em Porto Alegre, casado com
Alessandra Haddad e pai de Léo. Alessandra é dançarina do ventre
e filha de um rico negociante de origem árabe. Este cidadão comum,
num dia qualquer, vive suas “aventuras” cotidianas, reencontra
amigos no Johan Sebastian Bar, revisita seu passado a partir
do índice dado pelo telejornal: a morte de sua amiga Cristina
Banberg. Ou nos encontros fortuitos, como quando reencontra um
mendigo nas proximidades do mercado público, e recorda o “velho
pintor” que o leva a discorrer sobre a pintura a vida e a morte.
Os índices de seu passado, o fazem perscrutar o dilema da lucidez
perdidos nos labirintos da memória. Tudo é suscitado por um sinal
que traz a tona à lembrança de Cristina Bamberg, a morta que
adorava cogumelos, e como diz MS: “(...) é preciso algo mais para
apanhar a beleza dos cogumelos, pois, diferentemente daquelas
flores, cuja a beleza é espontânea, eles têm algum porquê
cinzento; e, ao menos para mim, eles lembram acontecimentos que se
situam entre o obscuro e o grotesco, entre a alucinação e a morte;
enfim, imagens que remetem para o aspecto perturbador da beleza”
(p. 28). Memória e desejo é uma narrativa que, assim como
os cogumelos que descreve MS, remete para ao aspecto perturbador da
beleza. Não a beleza espontânea, mas a beleza que não traz em sua
presença a regra de seu jogo. MS como o “velho pintor”, vive o
dilema de perscrutar a lucidez e saber que “nunca serão
entendidos” ou ainda o de “sempre pintar o mesmo quadro”.
Muitos indícios deixam um livro, assim como muitos indícios deixou
Cristina Bamberg. MS ao recordar o “velho pintor” diz: “Mais
tarde entendi que o segredo de um quadro está num outro quadro e
que, portanto, só os pintores podem apreendê-lo, pois como
entender um quadro se não pintando outro?” (p.74). Assim, lemos
que um livro se lê com outros livros, um livro engendra outros
livros, e esse ler “é” escrever. “Memória e desejo” é
mais um fio da urdidura dessa trama: a literatura. E lê-lo é ler
esse engendramento, não só quando no último capítulo diretamente
se resvala, com um trecho de The waste land de T.S.Eliot e
nos deparamos com o título tema do romance, mas ao inevitavelmente
confrontar que as “peripécias” de MS convocam de arrasto aos inúmeros
personagens da literatura universal, por carregar em si o dilema e o
amor das histórias que compõem a existência da humanidade.
por
MÁXIMO DANIEL
LAMELA ADÓ