por MÁXIMO DANIEL LAMELA ADÓ

Mestrando em Teoria Literária na Universidade Federal de Santa Catarina, onde se graduou em Ciências Sociais

 

RESENHA

HEBECHE, Luiz. Memória e desejo. Porto Alegre, AGE, 2005

____________________________________________________________

 

O dilema de perscrutar a lucidez no romance Memória e Desejo

 

O escritor Luiz Hebeche, autor do romance: Memória e Desejo, publicado recentemente (2005) pela AGE editora, pode ser “identificado” como um ser fronteiriço. Nasceu na cidade de Quaraí no estado do Rio grande do Sul. Quaraí faz fronteira com a cidade uruguaia de Artigas, unidas pela ponte De la Concordia sobre o rio Cuareim. Ser fronteiriço, neste caso, é crescer sabendo que o espaço, politicamente denominado: fronteira; nada mais é que o lado de lá do além ponte. Quaraí e Artigas se separam e se unem pelas margens de um rio ou pelo arco de uma ponte. O mais adequado neste caso seria denominar este espaço de: Quaraíartigas, Brasiluruguai ou Artigasquaraí, Uruguaybrasil ou ainda, esquecer o que seja “adequado” e deixar que a mistura se faça e possa permanecer num espaço que é seu, de forma salutar, sem a demarcação de fronteiras. Na minha opinião, transitar entre as margens, sem constituir fronteiras, parece ser a indagação da textualidade literária de Luiz Hebeche, pois, sua literatura tem uma potente inquietação filosófica.

A relação entre filosofia e literatura é um assunto que “pede” que nos debrucemos por um “longo tempo”, para assim, apenas sublinhar ou nortear a possibilidade de uma prática venatória que nos confronte com alguns índices sobre o tema. No entanto, podemos afirmar, que tal relação não se guiou, desde sempre, por uma convenção categórica, que definimos hoje separadamente: filosofia e literatura. Sabe-se, que não podemos identificar o objeto literário de forma rigorosa, mas sabe-se também que a explicitação filosófica se faz através da exposição oral ou escrita, assim, a filosofia pode ser “lida” na forma convencional como uma categoria literária. Todavia, podemos apontar para textos e escritores convencionalmente lidos ou tidos como literários que apresentam particularidades filosóficas como: Dostoievski, Goethe, Camus, Proust, Celine, Machado de Assis entre outros tantos.

O romance que ora resenhamos, Memória e Desejo, pelo ponto de vista de um personagem narrador, a partir do seu fazer cotidiano, leva-nos a digressões filosóficas e a questionamentos sobre a “forma de vida” da sociedade contemporânea. O narrador, vive um momento de busca de sentido, tal momento é assombrado pelo sentimento do fim das utopias da modernidade, que seriam as ilusões, e pelos desejos que seriam a potência desencobridora de ilusões. O desejo é potência encoberta pela ilusão, e para expressar sua vitalidade deve desviar a ilusão. Contudo, desviar a ilusão para potencializar o desejo, causa sofrimento e dor, pois neste momento, cai-se num vazio, no abismo do sem razão, e para curar o horror ao vazio, paradoxalmente, devem surgir novas ilusões que substituem as anteriores, ou, quem sabe, apenas as renovam.  Apesar disso, o inominado narrador - em todo romance só temos um índice para o seu nome a partir de algumas iniciais: MS – vive o desvanecimento das ilusões nos traços da memória de um passado, que um dia foi cheio de futuro. Ou quem sabe, MS acredite, como Proust,  que a aventura do homem consista em voltar no tempo até ver como o passado pode projetar uma sombra de si mesmo, e a essa sombra denominar: futuro.  No entanto, chegar a uma resposta para esta questão é eliminar a questão de seu existir, pois chegar a uma resposta para o dilema da aventura do homem, seria perscrutar a lucidez na procura de um caminho, quem sabe antropológico, de resgatar pela memória a trajetória desse homem que pergunta por ele mesmo. Mas essa é a questão crucial. MS pergunta: “Como confiar na memória se ela é traída pelo desejo? A memória é o território dos desejos mortos. Por isso, é difícil confiar nela.” (p.17) Para MS confiar na memória como um instrumento de resposta é descartar dela o desejo. 

Neste romance de narrativa linear, lemos em especial, o monólogo interior de um personagem/narrador sem nome e sem trabalho seguro, uma “indeterminação”. A única possibilidade de um nome que determine a identidade do narrador é dada pelas iniciais “MS” em uma dedicatória num livro de Cristina Bamberg, sua amiga morta. E esta é uma importante possibilidade, mesmo que  infinita de combinações, de dar-lhe um nome, um significado, pois é o nome aquilo que de fato sinaliza a primeira marca fixa da identidade, pois diferente do corpo, ela sugere não só em presença, mas também em ausência (pela assinatura) quem somos e de onde viemos. A angustia existencial desse personagem, não é só narrada pelos seus dilemas cotidianos, mas também, tal angustia é repassada por contigüidade ao leitor na vertigem de encontrar-lhe um nome, dar-lhe um sentido.

 MS é um cidadão comum, que vive em Porto Alegre, casado com Alessandra Haddad e pai de Léo. Alessandra é dançarina do ventre e filha de um rico negociante de origem árabe. Este cidadão comum, num dia qualquer, vive suas “aventuras” cotidianas, reencontra amigos no Johan Sebastian Bar, revisita seu passado a partir do índice dado pelo telejornal: a morte de sua amiga Cristina Banberg. Ou nos encontros fortuitos, como quando reencontra um mendigo nas proximidades do mercado público, e recorda o “velho pintor” que o leva a discorrer sobre a pintura a vida e a morte. Os índices de seu passado, o fazem perscrutar o dilema da lucidez perdidos nos labirintos da memória. Tudo é suscitado por um sinal que traz a tona à lembrança de Cristina Bamberg, a morta que adorava cogumelos, e como diz MS: “(...) é preciso algo mais para apanhar a beleza dos cogumelos, pois, diferentemente daquelas flores, cuja a beleza é espontânea, eles têm algum porquê cinzento; e, ao menos para mim, eles lembram acontecimentos que se situam entre o obscuro e o grotesco, entre a alucinação e a morte; enfim, imagens que remetem para o aspecto perturbador da beleza” (p. 28). Memória e desejo é uma narrativa que, assim como os cogumelos que descreve MS, remete para ao aspecto perturbador da beleza. Não a beleza espontânea, mas a beleza que não traz em sua presença a regra de seu jogo. MS como o “velho pintor”, vive o dilema de perscrutar a lucidez e saber que “nunca serão entendidos” ou ainda o de “sempre pintar o mesmo quadro”. Muitos indícios deixam um livro, assim como muitos indícios deixou Cristina Bamberg. MS ao recordar o “velho pintor” diz: “Mais tarde entendi que o segredo de um quadro está num outro quadro e que, portanto, só os pintores podem apreendê-lo, pois como entender um quadro se não pintando outro?” (p.74). Assim, lemos que um livro se lê com outros livros, um livro engendra outros livros, e esse ler “é” escrever. “Memória e desejo” é mais um fio da urdidura dessa trama: a literatura. E lê-lo é ler esse engendramento, não só quando no último capítulo diretamente se resvala, com um trecho de The waste land de T.S.Eliot e nos deparamos com o título tema do romance, mas ao inevitavelmente confrontar que as “peripécias” de MS convocam de arrasto aos inúmeros personagens da literatura universal, por carregar em si o dilema e o amor das histórias que compõem a existência da humanidade.

por MÁXIMO DANIEL LAMELA ADÓ

 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico  

leia +

A narrativa de intenso vitalismo de Junta-Cadáveres

 

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2006 - Todos os direitos reservados