Iraque
- corte e corra?
Sob
este título, a revista “The Economist” publicou no número
3501/vol 382 de 28/10 a 3/11/06 um editorial em que analisa as opções
da política norte-americana no Iraque, às vésperas das eleições
de 7 de novembro nos EUA.
A
questão do Iraque é central nas políticas dos EUA e da Grã-Bretanha,
não somente porque têm suas forças armadas envolvidas no conflito
– 150 mil soldados dos EUA e 12 mil da Grã-Bretanha – além de
soldados poloneses, italianos, japoneses e de outros países. O
Iraque tornou-se o epicentro das tensões e conflitos que assolam o
mundo ocidental, desde o ataque às torres gêmeas do World Trade
Center de Nova Iorque em 11/9/2001, as invasões sucessivas do
Afeganistão e Iraque, supostamente para derrotar o terrorismo. Ora
fala-se de “choque de civilizações”, ora de uma nova cruzada
contra a intolerância e a violência incontida dos islâmicos.
Caricaturas
do profeta Muhamad publicadas em um jornal dinamarquês despertaram
a ira e a revolta de centenas de milhões de islâmicos, desde o
Extremo Oriente – Malásia, Indonésia, Bangladesh, Índia e
Paquistão – até o Atlântico – Marrocos, Argélia, Mauritânia
– e reações ainda mais iradas surgiram no Oriente Médio,
convulsionado pelo conflito entre Israel e os palestinos e a ameaça
representada pelo programa nuclear do Irã.
O
Iraque – a antiga Mesopotâmia localizada entre os rios Eufrates e
Tigre foi, ao lado da China e do Egito, um dos berços da civilização
humana. Sumérios, acádios, assírios, babilônios e persas
ocuparam sucessivamente esse território extremamente fértil e propício
à agricultura irrigada; hoje com 434 mil km2 e
aproximadamente 23 milhões de habitantes.
Em
sua marcha vitoriosa, as colunas gregas sob o comando de Alexandre
Magno, ocuparam as principais cidades da Mesopotâmia, e continuaram
sua expansão pelo Afeganistão e a Pérsia, a caminho da Índia. A
história do Iraque foi e continua sendo uma das mais trágicas e
pode ser concebida como uma confirmação de hipótese sobre
“ascensão e queda” de grandes impérios. Sucessivas invasões
destruíram o complexo sistema de canais de irrigação, base de uma
economia agrícola altamente desenvolvida que propiciou os recursos
e a base material para o crescimento e expansão das cidades. No fim
do século VII da Era Cristã, os árabes conquistaram, como um
vendaval, as terras férteis e seguiram em sua expansão até a Pérsia,
Índia e, mais tarde, Indonésia. Sob as dinastias dos Omayadas e
Abbassydas iniciou-se um novo ciclo de florescimento econômico e
cultural, tendo Bagdá como centro e irradiando sua cultura até a
Espanha e África do Norte, particularmente na época do lendário
califa Harun al Rashid. A partir do século X da Era Cristã, as
invasões dos mongóis devastaram novamente a Mesopotâmia, deixando
sua população num estado de penúria que não foi superado pela
conquista de toda região pelos turcos que dominaram um vasto império,
estendendo-se do Afeganistão até a África do Norte.
Durante
a I Guerra Mundial, quando ficou evidente a derrota próxima dos exércitos
otomanos, foi estabelecido um acordo secreto entre franceses e britânicos
(Acordo Sykes-Picot, 1916) pelo qual decidiu-se a divisão dos
territórios turcos, cabendo aos primeiros a Síria e o Líbano,
enquanto o Iraque, a Palestina, o Egito e a Arábia ficariam com os
ingleses.
Finda
a Guerra, os ingleses tentaram entronar Faiçal, um filho de
Hussein, o xerife de Meca que tinha colocado sob as ordens de
Lawrence das Arábias dezenas de milhares de guerreiros árabes
ajudando na derrota dos turcos como rei de Damasco. Os franceses
reagiram e a Grã-Bretanha foi obrigada a retirar Faiçal,
oferecendo-lhe como compensação o título de Rei do Iraque.
O
acordo foi sancionado em 1920 pela Liga das Nações, que confirmou
no mesmo ato o mandato da Inglaterra sobre a Palestina. Na parte
oriental foi estabelecido o Rei Abdallah, outro filho de Hussein,
cujo reino e o de seus herdeiros se mantêm ao longo de décadas graças
à Legião Árabe, uma força militar fiel de beduínos, treinada e
armada pelos britânicos.
O
lado ocidental do Rio Jordão, onde se estabeleceram os colonos
judeus, foi reconhecido em 1947 pelas Nações Unidas como Estado de
Israel, o que deu início a uma série infindável de conflitos
armados com os palestinos e os países árabes vizinhos.
Em
1958, com a queda da monarquia e a ascensão de militares ao poder,
a influência dos ingleses diminuiu gradualmente, devido aos
sentimentos nacionalistas dos oficiais militares e da população.
Esses sentimentos nacionalistas e anticolonialistas já se
manifestaram durante a II Guerra Mundial quando, em 1941, com o avanço
dos alemães pela Rússia e pela Líbia, ameaçava cortar as rotas
marítimas e terrestres entre a Inglaterra e a Índia, oficiais
militares egípcios e iraquianos tentaram um golpe de Estado contra
os britânicos.
A
seqüência dos acontecimentos segue de perto o movimento
nacionalista dos militares no Egito que depuseram o Rei Farukh, em
1956. Enquanto o Egito foi rapidamente dominado pelos coronéis sob
o comando de Gamal Abdel Nasser, o Iraque passou por um período
turbulento de vários golpes militares até 1968, quando o poder foi
conquistado pelo partido Baath, que se dizia “socialista”. Em
1979, após um outro golpe militar, Saddam Hussein assumiu o
governo, no qual se manteve até 2003. Tal como Nasser, seu ídolo,
com seu discurso panarábico e suas ações anticolonialistas que
nacionalizou o Canal de Suez e lutou contra a Grã-Bretanha, França
e Israel, numa guerra na qual foi salvo da derrota pela intervenção
diplomática conjunta dos EUA e da URSS. Ambos os ditadores
alimentaram certamente o sonho de um mundo árabe unido, sob o
comando de um novo “Napoleão” árabe. Nasser faleceu em 1970,
mas Saddam Hussein continuou em sua política bélica internamente,
contra as etnias xiita e curda, que foram reprimidas, intimidadas e
massacradas pelas tropas sob o comando dos sunitas.
Tendo
eliminado qualquer oposição interna, Saddam Hussein lançou-se, em
1980, numa guerra contra o Irã xiita que durou oito anos e causou a
morte de 1,5 milhão de soldados. Comprovadamente, o Iraque usou,
durante a guerra, de armas químicas, cuja matéria-prima foi
fornecida pela Grã-Bretanha e EUA, tementes da expansão dos xiitas
iranianas sob o comando dos ayatolás. Terminou o conflito, sem
vencedores ou perdedores, por imposição de um cessar-fogo das Nações
Unidas. Dois anos mais tarde, as tropas do Iraque invadiram o Kuait,
país também rico em petróleo. A reação das potências
ocidentais não demorara. As tropas dos EUA invadiram o Iraque,
obrigaram os soldados iraquianos a retirar-se do Kuait e facilmente
poderiam ter chegado até Bagdá derrubando Saddam Hussein.
Entretanto,
o cálculo estratégico das potências ocidentais levou-as a parar
diante de Bagdá e assim manter o regime ditatorial de Saddam.
Certamente, contribuiu para essa opção o temor de uma expansão do
Irã, em aliança com os xiitas iraquianos.
Ironia
da História, em 2003, após o ataque e derrubada das torres gêmeas
do World Trade Center em Nova Iorque, o governo Bush (filho) decidiu
invadir outra vez o Iraque, ignorando resolução das Nações
Unidas e a resistência da maioria dos países, inclusive China, Rússia,
França e Alemanha. As razões alegadas e nunca confirmadas foram a
ameaça do Iraque à paz mundial por desenvolver e armazenar armas
químicas, biológicas e nucleares. Ademais, Saddam Hussein seria
parceiro de Osama Bin Laden.
Nada
adiantaram os relatórios da Comissão de Inspeção das Nações
Unidas, negando a existência dessas armas no Iraque, nem o Relatório
Kelly, um assessor de Tony Blair que foi morto ou teria se suicidado
em circunstâncias misteriosas. Outro relatório, de um diplomata
norte-americano foi rechaçado por Bush, que somente dois anos mais
tarde iria confessar que sua decisão de iniciar o conflito estava
baseada em informações falsas da CIA.
Ademais,
por arrogância ou ignorância, o governo Bush parecia desconhecer
que no final da II Guerra Mundial, quando parecia próxima a derrota
do Japão, o governo do presidente Roosevelt tinha encomendado à
antropóloga cultural Ruth Benedict um estudo para decifrar e
antever as reações do povo japonês a uma provável ocupação de
seu território. Não consta que uma iniciativa semelhante tenha
sido preconizada e realizada para aprender sobre a cultura e os
povos árabe-islâmicos.
Curiosamente,
verificou-se posteriormente que tanto o planejamento da campanha
militar quanto aos planos de reconstrução do Iraque tinham sérias
falhas e se mostraram totalmente irrealistas. As autoridades
militares e os soldados norte-americanos esperavam ser recebidos com
flores e o povo aclamando os invasores por derrubar a ditadura e
prometendo a instalação de um regime democrático.
O
balanço, neste final de 2006 é trágico: 2800 soldados americanos
apesar de equipados com as armas mais modernas foram mortos, 20 mil
feridos, com muitos casos de amputação ao ponto de ser necessário
construir às pressas um novo hospital especializado, e mais de 30
mil soldados foram retirados por necessitarem de cuidados médicos
especiais, provavelmente psiquiátricos, por causa dos traumas da
guerra. Com isto, aumentou a rejeição da população americana e
inglesa à guerra exercendo pressão sobre Bush e Blair, e levou à
derrota acachapante dos republicanos nas eleições de 7 de novembro
de 2006.
A
captura de Saddam Hussein e seu julgamento por crimes de guerra,
particularmente o genocídio de mais de 180 mil curdos e xiitas, não
melhorou a situação. Não diminuíram os ataques de
“insurgentes”, nem as represálias dos invasores que afetam,
sobretudo, a população civil. O Iraque está destruído, sua
infra-estrutura de energia e transporte, escolas, hospitais e prédios
estão em escombros e a população está de luto permanente. O número
de vítimas civis, difícil de calcular, se eleva segundo algumas
estimativas a 600 mil; outros falam em 900 mil e a cada dia morrem
pessoas nos atentados à bomba e nas emboscadas.
Não
existem mais leis ou instituições que garantam pelo menos a
sobrevivência da população. Além dos soldados invasores,
aproximadamente 180 mil, há um exército crescente de mercenários
que atuam como “seguranças” para funcionários das empresas
estrangeiras, políticos, tecnocratas e jornalistas cuja remuneração
está bem mais elevada do que do soldado militar. Estão também
fora da jurisdição militar, o que lhes permite cometer além de
corrupção generalizada, assassinatos, estupros, torturas, abusos
sexuais e tráfico de drogas e armas. Dificilmente poderia-se alegar
que o Iraque “progrediu”, mesmo depois de terem capturado e
levado a julgamento Saddam Hussein, que foi proibido de revelar suas
relações com o ex-secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, e com o
clã dos Bush (pai e filho).
Os
mesmos que forneceram a matéria-prima para a fabricação de armas
químicas usadas contra os iranianos e curdos recusaram
posteriormente o envio de material para a fabricação de vacinas
contra difteria, alegando que poderia servir também para produzir
armas biológicas.
Eis,
em resumo, a situação do Iraque após a invasão das potências
ocidentais, hoje atoladas e assoladas no que parece ser um beco sem
saída. Bush falou de uma nova estratégia duas semanas antes das
eleições, mas até agora absolutamente nada explicou ou
especificou. A situação é trágica, pois a cada dia fica mais
claro que ninguém entre os falcões americanos, nem entre os
democratas vitoriosos no último pleito tem uma proposta concreta e
sustentável.
Fala-se
numa república federativa, dividindo o país em três regiões,
mais ou menos autônomas. É verdade, o Iraque nunca se constituiu
uma nação com identidade, idioma e cultura comuns a todos. Parece
fácil dividir o território entre os curdos, xiitas e sunitas, mas
a proposta não leva em conta os deslocamentos forçados de milhões
de pessoas de etnias e religiões diferentes, mantidas unidas
durante as últimas décadas, pela mão de ferro do ditador. Os
curdos até ficariam contentes com a confirmação de sua relativa
autonomia, já que em seu território estão localizadas as maiores
jazidas e poços de petróleo. Os xiitas (a maioria) que ficariam em
território sunita temem a vingança dos grupos armados sunitas que
durante o regime de Saddam Hussein ocuparam os principais postos no
governo, nas forças armadas, na política e nos negócios. Os
sunitas, por sua vez, receiam a perda total dos rendimentos da
exploração e exportação de petróleo, esteio principal da
economia. Os xiitas, odiados e eternas vítimas dos sunitas
preparam-se para uma vingança pela opressão secular e formaram uma
milícia bem treinada e armada, sob o comando de Muqtadar-al-Sadre,
que controla parte de Bagdá e outras regiões, sem que os
americanos ousassem prendê-lo.
Os
EUA apostam, após desmontar as antigas forças armadas de Saddam
Hussein, na constituição de um novo exército que se encarregaria,
após a saída dos americanos, da segurança do país. Entretanto,
os avanços nesta direção são extremamente lentos e muitas vezes
desencorajadores. Parte dos novos recrutas desertam, vendendo suas
armas aos insurgentes e, mesmo quando treinados, não têm ânimo
para enfrentar a violência e a ferocidade dos mesmos. O comando
norte-americano prometeu que para cada três brigadas iraquianas,
treinadas e armadas às custas do contribuinte americano, será
retirada uma brigada dos EUA do Iraque.
Dado
o tempo necessário para o recrutamento, seleção e treinamento mínimo
dos jovens iraquianos, estimados em seis meses, a estratégia
norte-americana levaria pelo menos uma década para concretizar-se.
Até lá, o que espera a população do Iraque, são a continuação
dos massacres, tentativas de “limpeza étnica”, guerra civil,
enfim, uma vida infernal sem fim em vista.
O
que agrava essa situação é a retomada da violência e conflitos
armados no Afeganistão, supostamente pacificado e democratizado,
onde ressurgiram adeptos do Talebã, de Osama Bin Laden e outras
gerações de guerreiros, muitas vezes estimulados pelos chefes
tribais que contestam o governo central de Hamid Karzai, em Cabul.
Alguém
se arrisca em apontar uma saída do atoleiro em que se meteram os
americanos e ingleses? Ou, estarão esses dois países em um “callejón”,
um beco sem saída?
Por
isso, é pertinente a pergunta do “The Economist” – “cut and
run”? embora evoque o espectro da derrota catastrófica no Vietnã,
quando os soldados “descalços” derrotaram os 500 mil soldados
norte-americanos dotados de armamentos dos mais modernos.
A
História se repete, duas vezes, como tragédia?
por
HENRIQUE
RATTNER