Falta
de base é mesmo "O" problema?
Tem
sido comum se confundir o sintoma com a doença. Por exemplo, se você
pergunta a um professor qual o problema da educação, ele
provavelmente irá responder "falta de base". No entanto,
se você perguntar a esse mesmo docente o que causa o problema da
miséria no mundo, ele dificilmente irá responder "falta de
dinheiro". Embora sejam respostas análogas para perguntas
semelhantes, a primeira angariou um respeito reverencial inegável,
enquanto a segunda pode ser colocada facilmente na categoria de
chiste. Todos riem quando, em uma comédia, o assassino diz, "não
fui eu que matei; foi a bala", mas todos se mantêm impassíveis,
quando um docente afirma, "o problema da educação é que os
alunos não têm base".
O
óbvio quase ingênuo tem sido vendido como opinião de respeito, a
uma platéia mesmerizada. E em nenhum outro lugar a surrada desculpa
de falta de base tem sido mais utilizada do que na arena dos cursos
de exatas.
Cursos
de exatas são, tradicionalmente, os recordistas nacionais de
reprovação e retenção, nas universidades de todo país. E, como
aluno finalista de Física, fiquei intrigado com diversos fenômenos
que observei, durante todo o decorrer da graduação. Fenômenos que
pouco ou nada têm a ver com falta de base. Gostaria de citar três
deles.
O
fenômeno mais comum é, de longe, o que chamo de deslumbramento. Inúmeros
alunos veneram seus professores mais incompreensíveis, porque vêem
na falta de clareza um aval da genialidade. A situação lembra
bastante a do camponês da idade média, que ficava boquiaberto com
as missas rezadas em latim – ele estava certo de que
presenciava algo importante, embora não fizesse a mínima idéia do
que o padre dizia. No caso da Física, era comum que certos
professores fossem mais admirados na medida em que fossem menos
compreendidos. Um dos casos que mais me chamou a atenção foi o de
um grupo de alunos de nível médio que faziam parte de um programa
de bolsas de estudos patrocinado pela universidade. Esses alunos,
todos originários de escolas públicas da periferia, se deslocavam
para a universidade a fim de terem aulas com um pós-doutor do
departamento de Física. O docente simplesmente se esqueceu de que
se tratavam de alunos de nível médio, e as aulas eram lecionadas
com análise vetorial avançada (gradientes, divergentes,
rotacionais, etc.). Os adolescentes, é claro, não entendiam
absolutamente nada. Contudo, ficavam extasiados apenas com a idéia
de que estavam ali, sentados, sendo assessorados por alguém que, na
opinião deles, pairava bem acima dos meros mortais. Para eles, o
problema não era a falta de coerência do professor, em não
perceber que sua platéia era formada por garotos – o problema,
para eles, eram eles mesmos! Estavam deslumbrados demais para atribuírem
alguma falha ao docente. Infelizmente, casos como este são
corriqueiros, nos corredores dos cursos de exatas. O grande problema
é que os acadêmicos costumam eleger esses professores como
modelos, e reprisam esses modelos quando precisam, eles próprios,
lecionar. O resultado tem sido catastrófico.
Mas
o fenômeno do deslumbramento parece conseqüência de outro, ainda
mais amplo – o culto à dificuldade. Alunos de cursos de exatas
possuem uma sintomática predileção por problemas difíceis. É fácil
perceber que a auto-estima desses estudantes é baseada em sua
capacidade de resolver problemas complexos. O efeito colateral disso
é o desenvolvimento de um crescente preconceito contra problemas
simples. Alguns colegas que hoje lecionam nas escolas da rede pública
chegam a evitar problemas fáceis, ainda que relevantes do ponto de
vista didático, por puro preconceito. Isso ocorre porque foram
criados em um ambiente que desmerece a simplicidade, já que nobre
é aquele que se dedica ao que é mais difícil. Existe, por
exemplo, o costume de se passar listas de exercícios com um grau de
dificuldade exagerado, antes que o aluno tenha desenvolvido a
capacidade de resolvê-los. O docente não se importa com o
descompasso entre o que ele próprio resolve, em sala de aula, e o
que ele exige do aluno, em suas listas e provas. Cheguei a
presenciar casos de colegas que passavam listas de exercícios tão
difíceis a seus estudantes de nível médio, que até mesmo os
finalistas da graduação em Física teriam dificuldades em resolvê-los.
Constatei que o professor, nesses casos, havia decorado, a duras
penas, a resolução daqueles exercícios, e agora cobravam o mesmo
dos garotos num prazo muito menor. A falta de fiscalização, em
sala de aula, costuma encobrir esse tipo de problema, e a desculpa
da falta de base do aluno é perfeita para mascarar dificuldades
pedagógicas do próprio docente. E não apenas isso – o culto à
dificuldade influencia o professor na escolha do livro didático. Não
raro testemunho colegas que escolhem os livros a serem adotados não
tanto pela clareza das explicações, mas pela dificuldade dos exercícios.
É irônico notar que Albert Einstein, o cientista patrono da Física,
tenha sido um grande crítico dessa espécie de comportamento –
segundo o célebre físico alemão, a maioria dos professores perde
tempo perguntando questões que se destinam a descobrir o que um
aluno não sabe, enquanto a verdadeira arte de questionar tem, como
propósito, descobrir o que um aluno já sabe, ou é bem capaz de
saber.
Nas
licenciaturas, as disciplinas de educação são obrigatórias. As
aulas, nessas matérias, se baseiam na leitura de longos textos,
escritos por pedagogos renomados. Logo, tive a chance de presenciar
ocasiões em que os acadêmicos de exatas eram solicitados a lerem
alguns trechos de livros, em voz alta, ou a escreverem
suas opiniões sobre determinados assuntos. Esses alunos
apresentavam dificuldades tão severas, na leitura dos textos, que,
em certos momentos, a própria docente se mostrava embaraçada
(embora procurasse disfarçar a surpresa). Os futuros licenciados
também evitavam, ao máximo, escrever qualquer coisa, e o que
produziam era próximo de um amontoado de frases desconexas. Aos
poucos, ficavam nítidas suas limitações em comunicação e
expressão. E, com o passar do tempo, reuni um número significativo
de episódios que deixavam entrever os reflexos dessas limitações,
quando o estudante de exatas passava a lecionar nas escolas de
nível médio. Lecionar é se comunicar. Portanto, limitações na
capacidade de se comunicar afetam diretamente a qualidade das
aulas. O caso mais ilustrativo foi o de uma aluna de licenciatura,
que procurou seu professor em busca de auxílio na resolução de
uma equação diferencial. O professor começou dizendo, "você
monta a equação e...". Silêncio. Houve uma pausa que se
alongou mais do que o necessário. Não havia um quadro branco por
perto. Não havia uma folha de papel próxima. "... E só
resolve a equação". Nada mais disse. Ele não conseguia se
expressar em palavras. Não surpreende, portanto, a grande safra de
professores de exatas que entram na sala, copiam tudo o que está
numa folha diretamente no quadro, lêem o que acabaram de escrever,
e vão embora. As dificuldades de comunicação também podem ser
verificadas nos autores de livros didáticos. Os trechos de prosa
que não contêm fórmulas são escassos, pouco esclarecedores, e,
em alguns casos, escritos de maneira canhestra.
Há
casos em que a falta de base deixa de ser uma desculpa viável para
o baixo rendimento em ciências exatas. O matemático Don Cohen é
autor de inúmeros livros de Matemática, entre eles Calculus By and For Young People, em que o autor descreve um projeto
inovador – ensinar cálculo diferencial e integral a crianças a
partir de 7 anos de idade. Obviamente, trata-se de alunos que
dominam apenas os rudimentos de aritmética e álgebra, e, portanto,
se enquadram bem no que os professores costumam definir como
“aluno do ensino médio sem base”. Os resultados com essas crianças
são bastante animadores, e lançam dúvidas sobre a legendária
dificuldade das ciências exatas. A filosofia adotada por Cohen é a
de que os assuntos não são realmente difíceis; a linguagem
escolhida é que não tem sido a melhor. A opinião é a mesma do
grupo japonês Transnational College of LEX, uma equipe especializada em línguas e
idiomas, que segue a premissa de que a linguagem usada por um
escritor é tão ou mais importante do que a mensagem a ser
transmitida. Para provar sua tese, o grupo lançou 3 livros que
rapidamente se tornaram best-sellers em seus respectivos campos –
um livro de matemática (Who Is Fourier?, sobre séries de Fourier), um livro de física (What
is Quantum Mechanics?, sobre mecânica quântica), e um livro de
biologia (What is DNA?,
sobre genética). Vale ressaltar que essas não são obras de
divulgação científica – todo o formalismo matemático se faz
presente, tanto no texto de matemática quanto no de física (What
is Quantum Mechanics? chegou a receber elogios de professores de
Harvard e do MIT). A diferença é que cada uma das demonstrações
matemáticas é exaustivamente explicada através de textos fartos e
claros, sem o uso abusivo de jargão técnico. São, portanto,
exemplos de que o deslumbramento, a cultura da dificuldade e as
limitações nas habilidades comunicativas podem ser explicações
mais plausíveis para o fracasso recorrente no aprendizado de ciências
exatas.
Dizer
que o problema da educação é falta de base faz parte de uma longa
tradição de se atribuir a culpa ao elo mais fraco da relação –
o aluno. Falta de base é mero sintoma. O problema, de fato, é o
que causa essa falta de base. E é muito provável que nosso quinhão
de culpa seja bem maior do que todos nós, professores, estamos
dispostos a admitir.
por
FÁBIO
PRESTES DE OLIVEIRA