por RAYMUNDO DE LIMA

Formado em psicologia, mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

 

A ‘inclusão’ escolar na novela das oito

“É no interior das salas de aula que se decide o destino de políticas e reformas educacionais”

José Mário P. Azanha

 

Não assisti a cena da novela Páginas da Vida em que a personagem “Helena” (Regina Duarte) invade a sala de aula para dizer a professora, em tom ameaçador, como sua filha adotiva “Clara” deveria ser tratada. Mas soube de mães  favoráveis à indignação de “Helena” e de professores ‘unidos para não serem vencidos’ mandar e-mails culpando a TV Globo. 

Conhecido por misturar ficção e realidade, o autor Manoel Carlos usa a novela para polemizar sobre a “inclusão escolar”. Orfã de mãe, rejeitada pela avó vilã, a pequena “Clara” representa milhares de seres humanos com necessidades especiais metidos na questão real:  a escola pública está preparada para lidar com Síndrome de Down?

Quem tem recursos procura a escola particular capaz de proporcionar uma educação “inclusiva”. Instituições filantrópicas como a APAE, há muito, vêm cuidando de pessoas com todo o tipo de deficiência; acho que o justo movimento de luta pela escola inclusiva não deveria desmerecer o trabalho destas instituições.  Mas a pergunta que não quer calar é: as escolas públicas realmente estão preparadas para atender as pessoas com necessidades especiais? Como ensinar uma criança surda se a professora ignora a língua brasileira de sinais (Libras)? (cf. FSP - Cotidiano, 10/09/2006). Os portadores de autismo podem ser realmente incluídos no ensino escolar?  Se é quase impossível a escola pública ensinar as crianças ‘normais’, como acolher todo tipo de deficiência com método único de “ensinar tudo a todos”, herança comeniana do séc. 17?

“Aprender a lidar com as diferenças é um desafio da democracia”, diz Regina Duarte (Época, 18/set/2006). Mas apenas ter alguém com deficiência em sala de aula não significa que a escola é verdadeiramente ‘inclusiva’, se essa pessoa não recebe a atenção e investimento educativo com profissionais preparados.

Evidentemente, nossa cultura escolar tem sido criticada por ser ‘seletiva’ (FARIA FILHO et al, 2004), no que concerne à cultura social e econômica dos seus alunos e professores; mas usar o discurso da inclusão social sem lastro concreto da vivência cotidiana das escolas é mais um truque político pedagógico que termina causando desconfiança, confusão e mal-estar nos docentes. Como observa Oliveira (2006), está distante o tempo em que os professores sentiam-se felizes como a Alice de Lewis Carroll, na sua entrada no “País das Maravilhas”. Cada “modismo” educacional, com sua nova palavra de ordem, soprado nos ventos da pós-modernidade, obriga os professores a compactuar com a neurose do “coelho-relógio”, apressado, sempre atrasado, dizendo...é tarde, é tarde, é tarde; não lhe sobra tempo livre para o “ócio criativo”, mas, ao contrário, é imposto aos profissionais da educação mais uma atribuição, desafios e responsabilidades. O fracasso escolar é sempre olhado de cima: primeiro, o sistema culpa os professores, para em seguida os professores culparem o aluno pelo seu próprio fracasso em se adaptar ao “novo” método ou “nova” filosofia escolar. Cadê o pensamento crítico e dialético?   

Ficção x realidade  

É preciso prudência diante de novela ou filme feitos para criar polêmica e aumentar a audiência. Exige-se objetividade, sobretudo se estão em jogo interesses particulares ou de uma classe profissional. O professor deve evitar o vício corporativista de defesa incondicional da própria classe, principalmente se uma colega fere a ética desta função. Assim como uma mãe tem o direito de exigir respeito e bom ensino para o filho ‘normal’ ou ‘especial’, também a professora tem  direito de ser respeitada e valorizada pelo seu trabalho, em que pese o fato de serem cada vez numerosos os alunos mal criados por pais negligentes e permissivos.

A professora eticamente posicionada acolhe, respeita e trabalha com cada criança e sua diferença, bem como também a educa para uma boa convivência na escola e na vida. O bom relacionamento na escola também faz parte da aprendizagem, mesmo que ele não tenha visibilidade curricular. Espera-se que a professora tenha capacidade para atender de modo ‘especial’ todas as crianças em sala de aula. Mas as crianças com necessidades especiais (surdez, Down, hiperatividade ou indisciplina) exigem uma atenção especial redobrada dos profissionais da educação. Pais, alunos e autoridades se importam com o grau de estresse da professora? Os órgãos responsáveis preparam psicologicamente o profissional da educação para lidar com o aluno ‘incluído’? 

Fatores internos e externos

Professores hoje são “reféns” de pais negligentes e permissivos, de filhos mal educados, das imposições às escolas geradas por cada governo, de modismos pedagógicos.  Uns jogam apressadamente a culpa na professora, fingindo não ver que ela é mais uma vítima do sistema político-educacional. Outros repetem slogans abstracionistas próprios do meio pedagógico que escondem  a responsabilidade do docente. Na prática concreta, a professora se vê desafiada para lidar com emergências, principalmente quando obrigada a receber alunos tão diferentes que exigem dela formação especializada para compreendê-los e promover sua educação.

Fatores intrínsecos levam a responder mal aos alunos: stress ocupacional, atitude autoritária, dificuldade para estabelecer relacionamentos, preconceitos etc. Fatores externos também contribuem: formação insuficiente para lidar com alunos especiais, desconhecimento sobre a cultura da escola, falta de apoio da equipe pedagógica e dos próprios pais etc. Os concursos públicos não avaliam se o candidato à docência tem vocação e desejo de ensinar. As Secretarias de Educação dos governos não “treinam” os professores para  trabalhar com casos especiais na sala de aula. Desse modo, profissionais da educação sem vocação e sem paixão para seu ofício acabam entregando-se ao desânimo, virando vítimas. Preocupa saber que há professor (a) que adota o estilo faz-de-conta que ensina e aluno que faz-de-conta que aprende; e governo que faz-de-conta que promove a inclusão escolar.  O fingimento educativo precisa ser desmascarando. 

Para superar a condição de vítimas

Invasão de escola por pais ameaçando a  professora pode ser  sintoma de várias coisas, não apenas de “vitimização” da  professora. Uma mãe indignada, mesmo faltando com o respeito e a polidez, deve ser ouvida (e escutada) para investigar se se trata de fato isolado ou se é efeito da própria ‘filosofia’da escola que deixa passar atos violentos de seus funcionários. 

Assim como o Estatuto da Criança e do Adolescente visa defendê-los, também os professores, como todas as profissões, deveriam ter um código de ética, não para ser usado como escudo moral, mas para ser parâmetro ético de conduta  na relação com os alunos, escola, comunidade, pais. Como observou F. Imbert, os professores trabalham com uma moral, mas será que possuem uma ética própria? [RL/ 2006].

 

Referências

AZANHA, José Mario Pires. Cultura escolar brasileira: Um programa de pesquisa. In: Educação: temas polêmicos. São Paulo: Martins Fontes, 1985, p. 67-78.

IMBERT, Francis. A questão da ética no campo educativo. Petrópolis: Vozes, 2001.

FARIA FILHO, Luciano; GONÇALVEZ, Irlen A.; VIDAL, Diana G.; PAULINO, André L. A cultura escolar como categoria de análise de estudo na História da Educação Brasileira. In: rev. Educação e Pesquisa, v.30, n.1, p139-159, jan./abr.2004.

OLIVEIRA, Eloiza da Silva G. O “mal estar docente” como fenômeno da modernidade: os professores no país das maravilhas. Disponível: <http://www.cienciasecognicao.org/artigos/v07/m31677.htm> Acessado em: 2006.

por RAYMUNDO DE LIMA

   

 

 

 

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