Cotas!?
Pra quê cotas?
A
discussão das cotas para a população negra nas universidades
brasileiras criou uma grande celeuma entre os intelectuais,
inclusive os de esquerda. É certo que, neste caso, não podemos
falar em mocinhos e bandidos, em racistas e anti-racistas, pois
existem personalidades progressistas dos dois lados da trincheira.
Porém,
se observarmos atentamente a lista de personalidades anti-cotas
podemos constatar uma fortíssima presença de liberais (democratas
e conservadores), a maioria dos quais ligados ao tucanato paulista e
quando olhamos para a sociedade brasileira constatamos que são os
setores mais conservadores que oferecem as maiores resistências à
implantação de qualquer política inclusiva, voltada para os
pobres e negros. O jornal Folha
de São Paulo assumiu o comando desta resistência no Estado de
São Paulo – uma posição que foi criticada pelo próprio
ombudsman do jornal. Sem nenhuma ponta de vergonha, e senso de ridículo,
esses senhores lançam sua palavra de ordem: nada de privilégios!
O
Manifesto contra as cotas e a retórica liberal
Albert
O. Hirschman no seu livro A
retórica da intransigência – que na versão original
intitulava-se The rhetoric of reaction – procurou analisar os 200 anos das
argumentações e estratagemas utilizados pelos reacionários para
impedir qualquer reforma do sistema. Ele sintetizou estes argumentos
em três tipos: perversos, fúteis e ameaçadores.
Não
podendo se lançar de peito aberto contra as medidas progressistas,
os reacionários buscavam demonstrar que, se aplicadas, elas
poderiam ser perversas, pois reforçariam o que se queria eliminar;
fúteis, por não conduzirem à mudança alguma e, mesmo, ameaçadoras
por trazerem conseqüências perigosas, causando males ainda maiores
do que aqueles que queriam ver eliminados. Conclusão: é melhor
deixar tudo como está para ver como é que fica.
Quando
as primeiras leis sociais foram criadas na Europa, os conservadores
logo alertaram que, aparentemente, poderiam ser boas, mas se
aplicadas contribuiriam para desagregação moral da sociedade. A
previdência pública ou o auxílio aos desempregados induziriam o
povo à preguiça e a vagabundagem. Assim, o efeito seria o contrário
do que desejavam os reformadores sociais.
Os
aumentos dos salários e a concessão de direitos sociais para os
trabalhadores aumentariam os encargos patronais – e a carga tributária
- e isto acarretaria mais desemprego, fome e miséria. Portanto,
seria melhor ganhar menos e estar trabalhando. A cada proposta de
redução gradual da hora trabalhada, a burguesia alardeava a
bancarrota do sistema. E, segundo eles, quem pagaria por este ato
irresponsável seriam os próprios trabalhadores.
No
Brasil as coisas não foram muito diferentes. Basta ver as argumentações
daqueles que eram contra toda e qualquer reforma no sistema
escravista, como o fim do trafico negreiro, a lei do ventre livre ou
do sexagenário. Cada uma dessas leis – ainda que protelatórias -
foi contraposta por uma série de argumentações que tinham como
mote a previsão da desintegração econômica do Brasil, com conseqüências
catastróficas para os próprios negros escravizados.
Todos
os fazendeiros se diziam sinceramente a favor de seus escravos. A
escravidão era encarada por eles como uma forma de proteção aos
trabalhadores cativos, visto que os escravos tinham
“estabilidade” e não podiam ser demitidos. Eles tinham comida,
tratamento de saúde e segurança durante os anos de velhice, sem
ter que pagar nada. Não eram como os pobres operários ingleses
jogados à própria sorte quando perdiam seus empregos ou se
aposentavam.
Assim,
segundo os conservadores, as reformas progressistas (ou
progressivas) estavam sempre fadadas ao fracasso e a produzir
efeitos indesejáveis para aqueles que deveriam proteger: os
escravos, os pobres, os operários, as mulheres etc. O fracasso da
experiência socialista seria uma prova irrefutável da justeza de
tais idéias.
O
manifesto dos liberais contra as cotas não foge desta “retórica
da intransigência” que nos fala Hirschman. Vejamos: o Manifesto,
entre outras coisas, afirma: “Políticas dirigidas a grupos
'raciais' estanques em nome da justiça social não eliminam o
racismo e podem até produzir o efeito contrário, dando respaldo
legal ao conceito de raça, e possibilitando o acirramento do
conflito e da intolerância”. Ou seja, garantir a maior participação
de pobres e negros nas universidades, nas programações das TVs,
nas chefias das empresas pode “acirrar o conflito e a intolerância”.
Em
outra passagem o manifesto afirma: “A invenção de raças
oficiais tem tudo para semear esse perigoso tipo de racismo, como
demonstram exemplos históricos e contemporâneos. E ainda bloquear
o caminho para a resolução real dos problemas de desigualdades”.
Aqui
a argumentação chega a ser perversa. Ela tenta confundir as atuais
medidas de cotas, que têm caráter democrático, com a política
racial adotada no passado recente pela Alemanha nazista e África do
Sul. Não tem a coragem de fazer tal afirmação e por isso só
insinua. Os liberais conservadores teriam, assim, que por um sinal
de igualdade entre as políticas afirmativas adotadas pelo governo
do Congresso Nacional Africano e a política segregacionista dos
governos da “supremacia branca”.
Segundo
o Manifesto, a lei de cotas e o Estatuto da igualdade racial seriam
versões atualizadas e pós-modernas do Main Kampf – livro biográfico
de Hitler que pregava a inferioridade das raças não-arianas e sua
eliminação. A situação
de um jovem branco sendo obrigado por uma lei a conviver numa sala
de aula ou num estúdio de TV com jovens negros seria, para ele,
quase a mesma situação de um judeu obrigado e viver e morrer num
campo de concentração alemão.
É
interessante que o Manifesto afirma que as cotas “bloqueiam o
caminho da resolução real dos problemas da desigualdade”, mas não
se preocupa em demonstrar por que isto ocorreria.
Afinal, uma política de cotas – como qualquer outra política
afirmativa – não conflita com o processo de ampliação “dos
serviços públicos de qualidade nos setores de educação, saúde e
previdência, em especial a criação de emprego”. Ao contrário
do que busca fazer crer o Manifesto anti-cotas, estas duas propostas
não são conflitantes e sim complementares.
O
que muitos dos signatários do manifesto teriam que explicar é: por
que, durante anos, compactuaram com o desmonte do Estado brasileiro
promovido pelo tucanato e, inclusive, por que fizeram campanha para
sua volta ao poder?
A
retórica liberal e a retórica socialista
Sabemos
que o limite da ideologia jurídica liberal burguesa é a garantia
da igualdade formal de direitos. Para os socialistas os limites
burgueses são os patamares básicos (mínimos) para construção do
um projeto que deve se assentar, fundamentalmente, na igualdade real
– econômica e social.
De
fato, como diz o Manifesto anti-cotas, o “princípio da igualdade
política e jurídica dos cidadãos é um fundamento essencial da
República e um dos alicerces sobre o qual repousa a Constituição
brasileira”. Eis aqui expressa com todas as letras a síntese do
constitucionalismo liberal-democrático burguês: garantir para
todos os cidadãos e cidadãs a igualdade política e jurídica. A
igualdade econômico-social, que garantiria o pleno exercício das
demais liberdades, está para além do horizonte (de classe) desses
setores sociais.
Assim,
é um erro grosseiro a conclusão a que chegam os liberais de que
“este princípio (da igualdade política e jurídica) se
encontraria ameaçado de extinção por diversos dispositivos dos
projetos de lei de Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial”. Será
que a garantia de cotas raciais e sociais estariam violando a
igualdade política e jurídica dos cidadãos? Acredito que não.
Isso
me lembra o brado dos escravistas contra as leis emancipatórias
que, segundo eles, ameaçavam o sagrado direito de propriedade. Ou a
grita dos capitalistas quando da aprovação das leis sociais que,
também segundo eles, violariam a liberdade individual ao impedir a
livre negociação entre patrões e empregados. Como já se disse:
quantos crimes podem ser cometidos em nome da liberdade.
A
lógica socialista, pelo contrário, afirma que as cotas (sociais ou
raciais) podem ajudar a construir as condições mais justas para
que a maioria da população possa exercer seus direitos a educação,
a saúde, a cultura, aos melhores empregos e salários.
Sem
dúvida, o direito burguês foi um grande avanço na história da
humanidade. Nas sociedades pré-capitalistas - escravista ou feudal
– a legislação tratava desigualmente os desiguais e
institucionalizava os privilégios de classe, de estamento e, mesmo,
de casta. O direito no capitalismo, pelo contrário, passou a tratar
os desiguais de maneira igualitária.
Esta
verdadeira revolução político-jurídica tinha um motivo. No
capitalismo o produtor direto (o operário) deve ser juridicamente
livre e igual aos proprietários dos meios de produção. Esta é a
condição necessária para que a sua força de trabalho se
constitua como sua propriedade inalienável e que possa ser
livremente vendida no mercado de trabalho – ou seja, trocada por
um salário. Sem a predominância de tal relação mercantil não
poderia existir o capitalismo como uma relação de produção específica.
A luta das classes populares conseguiu que isso fosse estendido para
esfera do direito político.
Ao
longo do século XX, o agravamento das lutas sociais levou que novos
direitos fossem incorporados à “cesta básica” da cidadania
moderna. Refiro-me aos direitos sociais. Todos eles conquistados
contra a retórica reacionária, que os acusavam de macular a
liberdade apregoada pelo liberalismo burguês clássico.
Os
direitos sociais conquistados nos marcos do capitalismo – embora dêem
mais conteúdo à democracia - não podem estabelecer de fato uma
igualdade plena nos demais planos do direito: jurídico e político.
A existência da propriedade privada dos meios de produção – a
cisão da sociedade entre explorados e exploradores – é um limite
intransponível para realização plena tanto da liberdade quanto da
igualdade. Esta foi uma das grandes descobertas das teorias
socialistas, especialmente do marxismo.
O
socialismo não tem o poder de eliminar, da noite para o dia, todos
os elementos do direito burguês. Mas, introduz mudanças
importantes neste terreno. A principal delas é a tentativa de dar
maior conteúdo às liberdades formais do capitalismo. Dar conteúdo
significa ampliar a igualdade social. O que, por sua vez, significa
adotar políticas que favoreçam ou privilegiem, como gostam de
falar nossos liberais, as camadas populares.
Assim,
o direito no socialismo, como o direito pré-capitalista, começa
tratar desigualmente os socialmente desiguais. O que parece aos
olhos liberais um recuo é, na verdade, um grande e importante avanço
– um salto de qualidade. O direito socialista é negação da negação
dos direitos classistas. O direito feudal e escravista tratava
desigualmente os desiguais, justamente para manter a desigualdade. O
direito socialista o faz para conseguir uma maior homogeneidade
social.
Marx,
se referindo a conquista da regulamentação da jornada de trabalho,
afirmou que aquela havia sido a primeira vitória da “economia política
do trabalho” sobre a “economia política do capital”, pois a
ditadura (liberal) do mercado deixava de imperar soberana numa
pequena parcela das relações sociais.
Poderíamos, por analogia, afirmar que a política de cotas
é uma vitória dos pressupostos do direito socialista sobre o
direito burguês, ainda sob o capitalismo.
As
leis de cotas e o povo uno
Alguns
afirmam que a lei de cotas abstrai o fato de o povo brasileiro ser
um povo uno e, por isso, ao propor identidades assentadas na cor da
pele estaria contribuindo para minar esta unidade, construída ao
longo dos séculos, e abrindo a porta para ampliação do racismo.
Esta
tese, que pouco tem de marxista, se esquece que reconhecer a existência
de um povo brasileiro, não significa desconhecer que ele se divide
em classes, sexos, etnias, religiões etc. Que ele, atualmente, é
cindido por profundas contradições, que podem ser constatadas nas
inúmeras estatísticas oficias.
Esta
argumentação anti-cotas pode muito bem servir para condenar os
que, por exemplo, afirmam a existência da luta de classes no país.
Este, por sinal, foi o mote de todas as correntes nacionalistas
conservadoras ao longo da nossa história. Para elas os que
advogavam a existência da luta de classes, e tomavam partido diante
dela, deveriam ser considerados inimigos da nação e eliminados
dela.
Os
socialistas, ao contrário, afirmam que são as diferenças sociais
gritantes – que penalizam especialmente os pobres não-brancos –
que engendraram a desagregação da sociedade brasileira e
dificultaram o processo de construção da Nação brasileira, ainda
inconcluso.
Felizmente,
se isto não é compreendido pelas elites o é pela grande maioria
do povo brasileiro. Vejamos a pesquisa publicada pelo instituto
Data-Folha. Nela se constatou, para surpresa de muitos, que 65% da
população apóiam as cotas raciais e apenas 25% são contrários a
elas. As coisas ficam ainda mais nítidas quando a questão são as
cotas sociais: 87% concordam com a sua adoção. Uma verdadeira
unanimidade nacional.
Outro
dado interessantíssimo constatado pela pesquisa é que, quando se
trata das cotas raciais, o corte não é de cor e sim de classe.
Pois a média de brancos e negros pobres que defendem as cotas
raciais é bastante parecida. As cotas perdem apenas entre as
pessoas que ganham acima de 10 salários mínimos (57%) e com nível
universitário (55%). Entre os que ganham até dois salários mínimos
a aceitação é de 70% e o de escolaridade até o fundamental de
71%. Se a pesquisa apenas envolvesse os empresários, a vitória dos
contrários às cotas seria acachapante.
Repetiria o fenômeno que ocorreu na última eleição
presidencial.
O
tucano Bolívar Lamounier justificou estes dados afirmando que “as
pessoas mais escolarizadas conseguem avaliar melhor questões que
exigem ‘uma reflexão conceitual’ e sabem que a adoção de
cotas pode trazer implicações graves para o futuro do país”.
Para ele apenas os instruídos – e bem remunerados – tem condição
de pensar o futuro do Brasil. Sem comentários.
Se
a pesquisa fosse realizada há dez ou vinte anos atrás os
resultados poderiam ser bastante diferentes. Existia uma forte
presença da ideologia meritocrática, mesmo entre as camadas
populares, que induzia as pessoas a acreditar que somente os mais
capazes intelectualmente (e culturalmente) poderiam ascender na
vida. Assim, nada mais natural que um filho de classe média (ou
burguesa), que fez um bom colégio particular, pudesse acessar a uma
universidade pública (e gratuita) e que o filho de uma família
negra e pobre, mesmo tendo concluído o colégio, não o pudesse.
Essa seria a ordem natural e imutável das coisas.
Foram
as grandes lutas sociais travadas no país, a organização e
politização dos setores populares, que permitiram, inclusive, um
operário nordestino - e sem nem mesmo ter completado o ginasial -
pudesse chegar ao posto mais alto da República. Se um operário tem
capacidade para ser presidente, porque os negros pobres não a tem
para ingressar nos cursos de nível superior.
As
pesquisas realizadas nas universidades que já praticam o sistema de
cotas puseram abaixo o pouco que ainda havia de respeitabilidade na
ideologia meritocrática, engendrada pelas classes médias.
Refiro-me a ilusão de que os exames de ingresso assentados em
provas (e títulos) eram os únicos válidos para avaliar a real
capacidade dos alunos postulante a uma cadeira universitária.
Hoje,
graças à implantação de políticas afirmativas, está provado
que os alunos que entraram através das cotas são tão bons e, em
alguns casos, até melhores que os aprovados nos vestibulares
convencionais, que têm sido verdadeira barreira ao acesso de pobres
e negros.
Os
dados demonstram o quanto é equivocado esta idéia que os
vestibulares são garantidores de igualdade de oportunidades. Eles têm
um viés que favorece determinada parcela da população e excluem
outras. Ele, de forma alguma, é mais democrático e mais
universalista que o critério de cotas sociais ou raciais. Só
aqueles que têm os olhos encobertos pela ideologia meritocrática
– pequeno-burguesa – não conseguem ver esta verdade cristalina.
As classes populares, pelo contrário, já conseguem enxergar e
exigem o fim das discriminações acobertadas pelo discurso da
competência e da igualdade de oportunidades.
Sobre
a existência das raças humanas e as cotas
Nestes
últimos anos a ciência, graças ao avanço da genética, fez uma
gigantesca descoberta: as raças não existem. Em outras palavras a
única raça é a raça humana. A letra original da Internacional
comprovou-se verdadeira. Assim, os homens de ciência apenas
comprovaram de maneira cabal aquilo que os comunistas já sabiam e
cantavam em suas canções revolucionárias.
O
problema é que alguns passaram a se utilizar desta descoberta para
dizer que não se pode falar mais em luta anti-racista. Afinal, não
se pode se falar de algo que não existe. Nesta hora me vem o famoso
ditado, que suponho seja espanhol, "Brujas no creo, pero de que
las hay, las hay...".
O
racismo é uma ideologia e como toda ideologia se materializa em práticas
sociais. A constatação, por mais importante que seja, de que não
existem raças, não é suficiente para eliminar o preconceito de
cor e as conseqüências nefastas ocasionadas por ele. Até porque o
racismo tem bases bastante profundas, seculares. Assim como a
simples confirmação da igualdade entre homens e mulheres não
garante a mulher uma efetiva igualdade de condições e nem elimina
o machismo.
Lênin
dizia: “se os axiomas geométricos se opusessem aos interesses dos
homens, certamente se tentaria abatê-los”. A constatação científica
de que homens e mulheres, negros e brancos, homo e heterossexuais são
iguais não tem o dom de, por si só, acabar com a discriminação
que pesa sobre eles. Pois eles, ao contrário dos axiomas geométricos,
se opõem à interesses bastante poderosos.
Somente
os iluministas – e seus herdeiros, os socialistas utópicos –
acreditavam que tudo era uma questão de convencimento e que pela
razão todos chegariam um dia a verdade.
No entanto, não foi por meio de convencimento que a elite
racista dos Estados Unidos e da África do Sul tiveram que aceitar a
integração dos negros na sua sociedade. Nenhuma verdade científica
(ou bula papal) levaria os reacionários a aceitar compartilhar
pacificamente o seu poder e privilégios com o povo trabalhador.
Medidas
paliativas – os revolucionários e as reformas.
A
última questão que trataremos é o velho problema da relação
entre reforma e revolução. Muitos dizem que as leis de cotas são
paliativas e não resolvem o problema da desigualdade social. Outros
afirmam que isto apenas criará uma classe média negra que tenderá
a se afastar dos demais trabalhadores. As cotas teriam o efeito
nocivo de criar a ilusão de existir uma democracia racial no
Brasil. Citam como exemplo o caso norte-americano.
Não
há duvida de que as cotas raciais e sociais se inserem no campo das
reformas. Mas, isto não significa minimizar a sua importância,
pois as reformas cumprem um papel na redução da miséria e opressão
que vive a classe trabalhadora e contribui para ampliar a
democracia. Duas coisas que ajudam a acumular forças para atingir o
objetivo principal que é a conquista de uma sociedade socialista.
Isto se torna mais fácil quando as reformas são resultados de
lutas amplas e massivas, dirigidas por correntes comprometidas com a
transição socialista.
Os
críticos afirmam que a conquista da cota, por si, não acabará com
o racismo. É verdade, tal qual a conquista do direito ao voto para
as mulheres e sua inserção no mercado de trabalho não acabaram
com o sexismo. No entanto, não podemos deixar de constatar que a
crescente participação política e social das mulheres, ainda no
capitalismo, reduziu o preconceito que recaia sobre elas. No inicio,
ocorreram choques – expressos em livros e filmes, que pouco a
pouco foram sendo reduzidos.
Mesmo
no caso norte-americano não podemos desconhecer o papel
progressista desempenhado pela “discriminação positiva” do
negro. Há trinta anos quase não tínhamos atores ou profissionais
liberais negros. Hoje, por exemplo, existem várias séries
populares em que negros são atores principais – não se trata
mais de produções negras produzidos apenas para negros, como
ocorria nas décadas de 1950 e 1960. Fruto desse movimento
democratizante, hoje, não causa mais tanto espanto casamentos
inter-raciais.
O
fato de termos uma Condollezza Rice, à frente da política
agressiva norte-americana e termos tido um general Collin Power
coordenando o esmagamento do povo iraquiano e afegão, não invalida
a decisão de Lincoln de libertar os escravos, nem o movimento dos
direitos civis e muito mesmo as leis de cotas. Estes fatos, como
outros tantos, revelam apenas os limites das reformas nos marcos de
uma sociedade que permanece estruturalmente desigual e injusta.
por
AUGUSTO
C. BUONICORE