por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

 

E agora, Joseph?

 

Então, é verdade? Os candidatos do partido democrata americano conseguiram reaver suficientes cadeiras no congresso para voltarem à maioria? E agora, o que vai acontecer?

Esta é a tal da pergunta dos muitos milhões de dólares, pelo menos tantos quantos foram gastos na eleição, com anúncios bem sujinhos, jogando aquilo pra lá e pra cá, a torto e a direito. A campanha política nos Estados Unidos é tão suja e tão baixa como a do Brasil, podem crer. Ficamos sabendo detalhes da vida particular dos candidatos, coisas sobre seus pecadinhos fiscais, erros administrativos, etc.

Mas, depois de doze anos, já era hora do povo americano colocar de volta a maioria democrática no congresso. Em 1994, os republicanos, liderados por Newt Gingrich, fizeram a pantomima de se apresentarem nas escadarias do congresso e assinarem o que chamaram de “Contrato com a América”, em que prometiam, como disse o senador Bob Dole na ocasião, “diminuir os programas federais, as leis e as regras de A a Z. De Amtrak aos estudos zoológicos.” Nesta ocasião, convém lembrar, o presidente Bill Clinton estava no seu segundo ano de governo. Ele pôde, então, reagrupar as suas forças, e re-pensar o restante de seu governo, que foi de mais seis outros anos. Isto é: Bill Clinton governou por seis dos oito anos do seu governo com um congresso de maioria republicana.

Aquele congresso (cuja maioria se estendeu até esta eleição de novembro de 2006), foi responsável pela não aprovação de um novo salário mínimo. Este também foi o congresso que, cuja câmara federal, sob a batuta de Tom DeLay, fez o impeachment de Bill Clinton por sua relação com Monica Lewinski. Se não fosse pelo julgamento no senado, em 1999, que não concedeu os 2/3 suficientes para retirar Clinton do poder, este teria sido o fim da sua presidência. Quando George W. Bush foi eleito em 2000, com o senado e o congresso em maioria republicana, eles “deitaram e rolaram.”

Como diz o ditado, “o poder corrompe.” E, lógico, “o poder absoluto corrompe absolutamente.” Os republicanos, com o poder no legislativo e no executivo, passaram a reinar praticamente sem freios, aprovando o que lhes convinha, rejeitando tudo o que não beneficiava seus interesses. A aprovação do presidente estava garantida.[1] Os resultados não se fizeram esperar, e foram de vários teores, de vários alcances, todos eles com potencial influência no país (e no mundo) pelos anos vindouros. Existem muitos exemplos, e vamos selecionar alguns. Comecemos com os que envolvem a situação interna do país.

Por exemplo, é “presente” deste legislativo republicano a colocação de juízes conservadores na corte suprema (talvez para garantir a eleição de outro Bush, se for necessário no futuro?). Também é “presente” deste legislativo uma série de medidas para restringir o direito ao aborto, e para cortar a verba para vários programas educacionais e artísticos. O número de bolsas de estudo para estudantes carentes diminuiu, e, em alguns casos, desapareceu completamente. O tão falado contrato republicano com a América então foi uma maneira de apertar o cinturão? Não exatamente. Enquanto o cinturão do povo americano ia sendo apertado, os deputados e senadores republicanos se deleitavam com projetos que beneficiavam diretamente a seus correligionários nos seus estados de origem. Ou então simplesmente se envolviam com personagens como Isaak Abrammoff, o “lobbyista” que acabou sendo preso no ano passado por suas ações, incluindo o suborno de deputados como Tom DeLay. Tom DeLay é o mesmo deputado que, em 1998, presidia a câmara de deputados que votou pelo impeachment de Bill Clinton. Convém lembrar que recentemente Tom DeLay teve que apresentar sua renúncia quando sua ligação com Abrammoff foi revelada, e daí vieram outras revelações de corrupção e suborno envolvendo dezenas de pessoas. Também com a estampa de aprovação deste congresso foi o corte de impostos, que beneficiou aos ricos de maneira desmesurada, e tentou comprar a consciência dos eleitores pobres com um “retorno” de cerca de $600 dólares para algumas famílias. E, pra finalizar, neste mesmo grupo de deputados republicanos, se encontrava Mark Foley, da Flórida, que renunciou ao seu cargo um mês antes da eleição porque explodiu o escândalo com a revelação de suas mensagens pornográficas enviadas a menores que trabalhavam na câmara.

Das medidas tomadas pelo legislativo republicano que afetam os Estados Unidos em relação ao resto do mundo, podemos citar a aprovação da construção de uma cerca dividindo os Estados Unidos do México, a aprovação da guerra do Afeganistão, e a aprovação da guerra contra o Iraque, também conhecida como “guerra contra o terror.” Destas guerras, o povo americano agora em maioria concorda, resultou um crescente sentimento negativo do mundo inteiro contra os Estados Unidos, o aumento da insegurança interna e externa, além da perda de centenas de milhares de vidas iraquianas, e já cerca de 3 mil soldados americanos. O número de feridos, aleijados, desalojados, ainda é difícil de calcular. Tudo sob a batuta dos republicanos, que também presidiram, juntamente com W. Bush, à desvalorização do dólar e ao desbaratamento da balança positiva deixada por Bill Clinton, e sua substituição por uma dívida que já chega aos trilhões de dólares.[2] Em seis anos, todas estas “conquistas”!

Mas isto foi antes. Agora, aqui estão os democratas em maioria outra vez. A situação do presidente W. Bush é diferente da que se apresentou a Bill Clinton em 1994 quando o congresso passou às mãos dos republicanos. Alguns analistas inclusive acham que a perda da maioria democrata no congresso, naquela altura da presidência de Clinton — somente dois anos depois de ser eleito pela primeira vez — foi benéfica, porque ele teve que entrar em diálogo com os deputados e senadores republicanos, e isto ocasionou a redução do déficit, e mudanças no sistema de assistência social (Welfare). W. Bush, por sua vez, tem somente dois anos mais de presidência, em um ponto em que em geral os presidentes querem se certificar que deixam um legado de seu governo. E o que temos com este presidente? Como vai reagir ele efetivamente em sua relação e negociações com um congresso dominado pelo outro partido?

Para termos uma idéia do que pode acontecer daqui em diante, temos que revisar o que W. Bush fez até agora com os que estavam contra ele, e quais medidas tomou. Antes, porém, devemos colocar em destaque o que ele disse no dia da apuração das eleições, quando ele se referiu à derrota como uma “thumping” — “cacetada,” e afirmou que ele pretende trabalhar com o congresso para resolver problemas que o país confronta no momento. Os democratas já escutaram esta toada antes, em 2004, quando, ao ser reeleito, Bush prometeu a mesma coisa, e continuou com sua retórica em que o mundo se divide em dois grupos, os que estão a favor dele e são seus amigos, e os que não concordam com ele e são seus inimigos. É desta ocasião os seus famosos slogans que diziam que os democratas estavam errados quanto aos impostos, e eram frouxos na defesa nacional. Esta não é exatamente uma atitude promissora em termos da possível aliança com os democratas e a tentativa de fazer correções aos muitos erros cometidos durante o poder republicano no legislativo e no executivo.

O que seria preciso para que esta aliança se traduzisse em uma divisão mais eqüitativa da riqueza do país, e a diminuição das tensões internacionais? Posto muito simplesmente, o ego do presidente deveria ser menor. Infelizmente, do homem que, ao saber que a maioria dos países, e mais as Nações Unidas, estavam contra a invasão do Iraque, disse que não importava, que “nós vamos fazer o serviço sozinhos”, não se pode esperar uma mudança tão radical a ponto dele reconhecer que a situação no Oriente Médio já não pode ser resolvida por um país somente, ou por armas, ou por bombas somente. Ou que o envio de ainda mais tropas americanas, ou que a desmoralização do primeiro ministro “eleito” no Iraque, ou que a continuada pose de machão, vão resolver a situação.

Para mim, moradora neste país, comprometida com o futuro de pessoas maravilhosas, talentosas, generosas, que eu conheço aqui, e das instituições que amo e admiro, esta eleição recolocando os democratas na câmara e no senado é um raio de esperança que as coisas melhorem. Mas, ao mesmo tempo, esta eleição me mostra como a democracia é uma coisa frágil, e como a segurança mundial é uma coisa vulnerável: as coisas boas levam muito tempo para serem construídas, e podem ser destruídas rapidamente, quando a balança do poder pende para um único lado. É na arte da diplomacia e da negociação, do diálogo e do reconhecimento e respeito das diferenças pessoais, culturais, religiosas, nacionais, etc., que repousa a nossa esperança de paz para nosso mundo. A política do “a ferro e fogo” é antiquada, inadequada, inaceitável. Espero que estas últimas eleições dos Estados Unidos nos coloquem outra vez de volta no longo mas sempre proveitoso caminho para encontrar a paz e a justiça. Sempre, sempre vale a pena tentar.


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[1]  Uma estatística interessante: até julho de 2006, o presidente George W. Bush nunca tinha emitido um veto contra leis aprovadas no congresso. (O veto à permissão da continuação da pesquisa utilizando “células de tronco” foi o primeiro.) Esta ausência de vetos indica claramente que o presidente e a maioria republicana no congresso trabalhavam praticamente em uníssono. Ver um excelente artigo Josh Burek, na revista The Christian Science Monitor,  em que ele aponta para o fato de que, embora outros presidentes americanos tenham governado com a maioria no congresso, “few, if any, have gotten the level of disciplined backing that Mr. Bush gets from House and Senate Republicans”—“ poucos, se é que algum, conseguiu o mesmo nível de apoio disciplinado que o Sr. Bush recebe da câmara e do senado republicanos.” http://www.csmonitor.com/2005/0816/p01s04-uspo.html

[2]  Ver artigo de André Gunder Frank na revista Global Research, do Centro de Pesquisa sobre a Globalização, “America's Spiraling External Debt and the Decline of the US Dollar; Why the Emperor has no Clothes” — “A crescente dívida externa da América e o declínio do dólar americano; Porque o imperador não tem roupas.” http://www.globalresearch.ca/articles/FRA501A.html 

 

por EVA PAULINO BUENO

   

 

 

 

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