E
agora, Joseph?
Então,
é verdade? Os candidatos do partido democrata americano conseguiram
reaver suficientes cadeiras no congresso para voltarem à maioria? E
agora, o que vai acontecer?
Esta
é a tal da pergunta dos muitos milhões de dólares, pelo menos
tantos quantos foram gastos na eleição, com anúncios bem
sujinhos, jogando aquilo pra lá e pra cá, a torto e a direito. A
campanha política nos Estados Unidos é tão suja e tão baixa como
a do Brasil, podem crer. Ficamos sabendo detalhes da vida particular
dos candidatos, coisas sobre seus pecadinhos fiscais, erros
administrativos, etc.
Mas,
depois de doze anos, já era hora do povo americano colocar de volta
a maioria democrática no congresso. Em 1994, os republicanos,
liderados por Newt Gingrich, fizeram a pantomima de se apresentarem
nas escadarias do congresso e assinarem o que chamaram de
“Contrato com a América”, em que prometiam, como disse o
senador Bob Dole na ocasião, “diminuir os programas federais, as
leis e as regras de A a Z. De Amtrak aos estudos zoológicos.”
Nesta ocasião, convém lembrar, o presidente Bill Clinton estava no
seu segundo ano de governo. Ele pôde, então, reagrupar as suas forças,
e re-pensar o restante de seu governo, que foi de mais seis outros
anos. Isto é: Bill Clinton governou por seis dos oito anos do seu
governo com um congresso de maioria republicana.
Aquele
congresso (cuja maioria se estendeu até esta eleição de novembro
de 2006), foi responsável pela não aprovação de um novo salário
mínimo. Este também foi o congresso que, cuja câmara federal, sob
a batuta de Tom DeLay, fez o impeachment de Bill Clinton por sua
relação com Monica Lewinski. Se não fosse pelo julgamento no
senado, em 1999, que não concedeu os 2/3 suficientes para retirar
Clinton do poder, este teria sido o fim da sua presidência. Quando
George W. Bush foi eleito em 2000, com o senado e o congresso em
maioria republicana, eles “deitaram e rolaram.”
Como
diz o ditado, “o poder corrompe.” E, lógico, “o poder
absoluto corrompe absolutamente.” Os republicanos, com o poder no
legislativo e no executivo, passaram a reinar praticamente sem
freios, aprovando o que lhes convinha, rejeitando tudo o que não
beneficiava seus interesses. A aprovação do presidente estava
garantida.
Os resultados não se fizeram esperar, e foram de vários teores, de
vários alcances, todos eles com potencial influência no país (e
no mundo) pelos anos vindouros. Existem muitos exemplos, e vamos
selecionar alguns. Comecemos com os que envolvem a situação
interna do país.
Por
exemplo, é “presente” deste legislativo republicano a colocação
de juízes conservadores na corte suprema (talvez para garantir a
eleição de outro Bush, se for necessário no futuro?). Também é
“presente” deste legislativo uma série de medidas para
restringir o direito ao aborto, e para cortar a verba para vários
programas educacionais e artísticos. O número de bolsas de estudo
para estudantes carentes diminuiu, e, em alguns casos, desapareceu
completamente. O tão falado contrato republicano com a América então
foi uma maneira de apertar o cinturão? Não exatamente. Enquanto o
cinturão do povo americano ia sendo apertado, os deputados e
senadores republicanos se deleitavam com projetos que beneficiavam
diretamente a seus correligionários nos seus estados de origem. Ou
então simplesmente se envolviam com personagens como Isaak
Abrammoff, o “lobbyista” que acabou sendo preso no ano passado
por suas ações, incluindo o suborno de deputados como Tom DeLay.
Tom DeLay é o mesmo deputado que, em 1998, presidia a câmara de
deputados que votou pelo impeachment de Bill Clinton. Convém
lembrar que recentemente Tom DeLay teve que apresentar sua renúncia
quando sua ligação com Abrammoff foi revelada, e daí vieram
outras revelações de corrupção e suborno envolvendo dezenas de
pessoas. Também com a estampa de aprovação deste congresso foi o
corte de impostos, que beneficiou aos ricos de maneira desmesurada,
e tentou comprar a consciência dos eleitores pobres com um
“retorno” de cerca de $600 dólares para algumas famílias. E,
pra finalizar, neste mesmo grupo de deputados republicanos, se
encontrava Mark Foley, da Flórida, que renunciou ao seu cargo um mês
antes da eleição porque explodiu o escândalo com a revelação de
suas mensagens pornográficas enviadas a menores que trabalhavam na
câmara.
Das
medidas tomadas pelo legislativo republicano que afetam os Estados
Unidos em relação ao resto do mundo, podemos citar a aprovação
da construção de uma cerca dividindo os Estados Unidos do México,
a aprovação da guerra do Afeganistão, e a aprovação da guerra
contra o Iraque, também conhecida como “guerra contra o
terror.” Destas guerras, o povo americano agora em maioria
concorda, resultou um crescente sentimento negativo do mundo inteiro
contra os Estados Unidos, o aumento da insegurança interna e
externa, além da perda de centenas de milhares de vidas iraquianas,
e já cerca de 3 mil soldados americanos. O número de feridos,
aleijados, desalojados, ainda é difícil de calcular. Tudo sob a
batuta dos republicanos, que também presidiram, juntamente com W.
Bush, à desvalorização do dólar e ao desbaratamento da balança
positiva deixada por Bill Clinton, e sua substituição por uma dívida
que já chega aos trilhões de dólares.
Em seis anos, todas estas “conquistas”!
Mas
isto foi antes. Agora, aqui estão os democratas em maioria outra
vez. A situação do presidente W. Bush é diferente da que se
apresentou a Bill Clinton em 1994 quando o congresso passou às mãos
dos republicanos. Alguns analistas inclusive acham que a perda da
maioria democrata no congresso, naquela altura da presidência de
Clinton — somente dois anos depois de ser eleito pela primeira vez
— foi benéfica, porque ele teve que entrar em diálogo com os
deputados e senadores republicanos, e isto ocasionou a redução do
déficit, e mudanças no sistema de assistência social (Welfare).
W. Bush, por sua vez, tem somente dois anos mais de presidência, em
um ponto em que em geral os presidentes querem se certificar que
deixam um legado de seu governo. E o que temos com este presidente?
Como vai reagir ele efetivamente em sua relação e negociações
com um congresso dominado pelo outro partido?
Para
termos uma idéia do que pode acontecer daqui em diante, temos que
revisar o que W. Bush fez até agora com os que estavam contra ele,
e quais medidas tomou. Antes, porém, devemos colocar em destaque o
que ele disse no dia da apuração das eleições, quando ele se
referiu à derrota como uma “thumping” — “cacetada,” e
afirmou que ele pretende trabalhar com o congresso para resolver
problemas que o país confronta no momento. Os democratas já
escutaram esta toada antes, em 2004, quando, ao ser reeleito, Bush
prometeu a mesma coisa, e continuou com sua retórica em que o mundo
se divide em dois grupos, os que estão a favor dele e são seus
amigos, e os que não concordam com ele e são seus inimigos. É
desta ocasião os seus famosos slogans que diziam que os democratas
estavam errados quanto aos impostos, e eram frouxos na defesa
nacional. Esta não é exatamente uma atitude promissora em termos
da possível aliança com os democratas e a tentativa de fazer correções
aos muitos erros cometidos durante o poder republicano no
legislativo e no executivo.
O
que seria preciso para que esta aliança se traduzisse em uma divisão
mais eqüitativa da riqueza do país, e a diminuição das tensões
internacionais? Posto muito simplesmente, o ego do presidente
deveria ser menor. Infelizmente, do homem que, ao saber que a
maioria dos países, e mais as Nações Unidas, estavam contra a
invasão do Iraque, disse que não importava, que “nós vamos
fazer o serviço sozinhos”, não se pode esperar uma mudança tão
radical a ponto dele reconhecer que a situação no Oriente Médio já
não pode ser resolvida por um país somente, ou por armas, ou por
bombas somente. Ou que o envio de ainda mais tropas americanas, ou
que a desmoralização do primeiro ministro “eleito” no Iraque,
ou que a continuada pose de machão, vão resolver a situação.
Para
mim, moradora neste país, comprometida com o futuro de pessoas
maravilhosas, talentosas, generosas, que eu conheço aqui, e das
instituições que amo e admiro, esta eleição recolocando os
democratas na câmara e no senado é um raio de esperança que as
coisas melhorem. Mas, ao mesmo tempo, esta eleição me mostra como
a democracia é uma coisa frágil, e como a segurança mundial é
uma coisa vulnerável: as coisas boas levam muito tempo para serem
construídas, e podem ser destruídas rapidamente, quando a balança
do poder pende para um único lado. É na arte da diplomacia e da
negociação, do diálogo e do reconhecimento e respeito das diferenças
pessoais, culturais, religiosas, nacionais, etc., que repousa a
nossa esperança de paz para nosso mundo. A política do “a ferro
e fogo” é antiquada, inadequada, inaceitável. Espero que estas
últimas eleições dos Estados Unidos nos coloquem outra vez de
volta no longo mas sempre proveitoso caminho para encontrar a paz e
a justiça. Sempre, sempre vale a pena tentar.