por ROBERTO RILLO BÍSCARO

Mestre e doutorando em Língua e Literaturas Inglesa e Norte-americana pela Universidade de São Paulo (USP). Professor da Fundação Educacional de Penápolis/SP

 

_______________

 

* Este artigo é uma versão ligeiramente modificada do primeiro capítulo de minha dissertação de mestrado cujo título é Eles não fumam charuto: a inversão de estereótipos gays na peça Lips together, teeth apart, de Terrence McNally. FFLCH-USP, São Paulo, 2002.

 

______________

 

Publicado em: ArtCultura, Uberlândia

Revista do Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia - v. 8, N. 12, jan/jun. 2006, p. 195-206

 

 

A aids e sua epidemia de significações nos Estados Unidos*

 

Um discurso sempre tem fronteiras povoadas por outros discursos.

Michel Foucault

 

Resumo: Este artigo tem por finalidade demonstrar como a epidemia da aids gerou diversos e díspares discursos e como esses discursos foram aceitos e/ou combatidos pela comunidade gay norte-americana na década de 80 e na primeira metade da década de 90.

Palavras-Chave: aids; história norte-americana contemporânea; movimento gay nos Estados Unidos.

Abstract: I will try to show how the aids epidemics generated several antagonistic discourses and also how the American gay community accepted or rejected them during the 80’s and the first half of the 90’s.

Keywords: aids; contemporary American History; American Gay Movement.

 

 

Ao contrário do que afirmaram os cientistas no começo da década de 1980, a aids não é apenas uma epidemia médico-biológica. Constitui-se também em uma epidemia de caráter moral, social e lingüístico. Paula Treichler afirmou que “a epidemia da aids gerou uma epidemia de significações”.[1] Isso devido ao número enorme e discordante de metáforas e discursos que tem gerado ao longo de mais de duas décadas desde a sua identificação.

Essa epidemia semântica tem sido construída pelo discurso científico, pela mídia, pelo trabalho dos ativistas gays em prol de modificações de termos usados para se descrever a síndrome, representar quem por ela é afetado ou requerer mais verbas para pesquisa e suporte aos doentes, e pelas diversas manifestações artísticas. Uma das maneiras de se fazer um retrospecto parcial da história da aids é através do levantamento de alguns discursos e posturas gerados por ela e sua introjeção ou contestação por parte da sociedade. Minha intenção não é contar a “história da aids”. O que busco é levantar alguns elementos que sirvam como subsídios para que se possa entender melhor como a aids tornou-se sinônimo de homossexualismo, como intensificou a homofobia na sociedade americana, como o discurso científico e o da mídia contribuíram para isso e como esses discursos foram contestados pela comunidade gay.

Primeira metade dos anos 1980

Embora mortes causadas por uma “doença misteriosa” tenham sido registradas entre gays em Nova York, São Francisco e Paris já no final da década de 70, a aids entrou para o imaginário público apenas em 1981, quando os primeiros registros sobre ela apareceram em periódicos: no dia 18 de maio, no The New York Native (um jornal gay), em 5 de junho, na publicação científica Morbidity and Mortality Weekly Report e em 3 de julho, na edição do The New York Times.[2] Não se pode deixar de notar, nessa seqüência de publicações, o fato de que um jornal gay foi o primeiro a trazer o problema a público. Isso já é uma pista a respeito do importante papel de ativismo desempenhado pela comunidade gay durante toda a epidemia da aids. Ela foi a primeira a se cotizar na luta contra a síndrome, prestando assistência aos doentes, por exemplo.

Os artigos falavam de jovens homossexuais masculinos, vivendo em áreas urbanas, levando uma vida sexual “promíscua”, que estavam inexplicavelmente contraindo doenças raras para pessoas de sua faixa etária. Além disso, estavam morrendo em decorrência de algumas dessas doenças, as quais normalmente não levariam pessoas saudáveis à morte. Como uma das doenças mais comuns entre os pacientes era uma forma bastante rara de câncer de pele, não demorou para que o novo mal fosse apelidado de “câncer gay”. Antes da sigla AIDS (Acquired Immune Deficiency Syndrome) ser adotada, em 1982, como nome oficial, usava-se extra-oficialmente a sigla GRID (Gay-Related Immune Deficiency). Nos corredores de alguns hospitais, porém, muitos médicos e profissionais da área de saúde chamavam-na de WOG, as iniciais, em inglês, para a expressão “ira de Deus” (wrath of God). Como se vê, o aspecto moralizante de punição para um comportamento tido como errado esteve associado à aids desde os seus primórdios.

O fato de a aids ter sido detectada inicialmente na comunidade gay trouxe marcas que persistem até os dias de hoje. Ao procurarem algum fator comum entre os doentes, os cientistas não deixaram de notar a altíssima incidência entre gays. Assim, desde o início, a identidade da síndrome esteve intimamente ligada ao homossexualismo. A “vida promíscua” dos homens infectados logo passou a ser um dos motivos alegados para se contraí-la. Essa “vida promíscua” tornava-se ainda mais problemática por envolver práticas sexuais consideradas desviantes, segundo os padrões hetero-normativos da sociedade.

Geralmente, atribui-se à mídia a culpa por termos preconceituosos e carregados de julgamentos morais como “promiscuidade”, “práticas sexuais anormais” e afins. No entanto, no início da epidemia, quando os cientistas sequer tinham chegado à conclusão definitiva de que a aids podia ser transmitida sexualmente, era nesses termos que os portadores, ou as práticas sexuais em que se engajavam, eram descritos em vários textos científicos. A falta de informação mais concreta, por parte dos próprios cientistas, levou a um sem-número de dados e afirmações conflitantes a respeito de quem estava sujeito a contrair aids, assim como a formas de contágio. Tanto a linguagem moralizante quanto o desencontro de dados e informações contribuíram para aferir à aids uma identidade não apenas gay, mas também de culpabilidade por parte de quem a contraísse. Não há que se culpar o discurso científico pelo fato do caráter estigmatizante da aids. Porém, há que se considerar que as noções que a maior parte dos leigos têm a respeito da ciência são suscitadas não através do contato com a “realidade” científica dos laboratórios e testes, mas sim, através das narrativas que chegam a eles pela mídia, que reproduz — bastante simplificadamente — o discurso científico. Desse modo, a partir de informações e dados ambíguos, não é de surpreender a multiplicidade de concepções errôneas a respeito da aids, sua transmissão e portadores.

A aids passou a ser vista como o preço que os homossexuais teriam que pagar pelo “estilo de vida promíscuo” que levavam. Além dos gays, a aids atacou maciçamente, no início, haitianos, usuários de drogas injetáveis e hemofílicos, todos grupos que fugiam ao ideal branco, hetero-normativo saudável, valorizado pela sociedade norte-americana. Nas estatísticas dos relatórios científicos, as pessoas infectadas pelo HIV, que não pertenciam a esses grupos, eram classificadas como “outros”, deixando no anonimato as mulheres ou homens heterossexuais que o contraíssem. Durante anos, muitos cientistas afirmaram categoricamente que os heterossexuais estavam virtualmente imunes. Esse tipo de afirmação, ironicamente, pode ter funcionado como um facilitador para que a aids se disseminasse mais rapidamente entre aquela população, uma vez que os heterossexuais demoraram mais para observar as recomendações de sexo seguro que começaram a surgir não muito tempo após a eclosão da epidemia.

O fato de a aids ter atingido, de forma mais explícita, grupos minoritários, trouxe várias conseqüências. Rapidamente chegou-se ao conceito de “grupos de risco”, ou seja, simplesmente por se pertencer a um dos grupos mais atacados, a pessoa já era identificada como portador em potencial. Não importava o comportamento do indivíduo e sim o grupo de onde se originara. Quando a noção de “comportamentos de risco” veio a ser mais divulgada entre a população, a síndrome já atacava um grande número de pessoas fora dos “grupos de risco”.

A identificação dos “grupos de risco” radicalizou ainda mais a questão da alteridade com relação à epidemia da aids. Ela era considerada um mal do “outro”, do “diferente”, do “exótico”. Isso estava explícito no discurso científico quando classificava os não pertencentes aos “grupos de risco” como “população geral”, como se homossexuais, hemofílicos, usuários de drogas injetáveis e haitianos não fizessem parte da população. Isso só fez aumentar a divisão entre “nós” e “eles” já bastante marcada na sociedade norte-americana, historicamente afeita a processos de guetificação, segregação e exclusão. Não é à toa que muitos advogam que a epidemia da aids foi um fator decisivo no aumento da homofobia, uma vez que o ódio e/ou medo com relação aos homossexuais cresceu em virtude da estereotipação ocasionada pelo conceito de “grupos de risco”.

A própria origem da aids esbarra na questão da alteridade. Não era incomum, na década de 80, um grupo ou país atribuir a origem da síndrome ao “outro”, ao “estrangeiro”. Ninguém quis assumir sua paternidade (como se isso fosse possível). Os heterossexuais culpavam os gays; os gays culpavam a CIA, o Vaticano, ou até mesmo alienígenas (!); os norte-americanos culpavam a África; os africanos culpavam os norte-americanos e assim por diante. Ainda na década de 90, publicaram-se livros e textos científicos, da mídia ou relatos estabelecendo o lugar de origem da aids e como a síndrome atingiu o país de origem do texto que tentava explicá-la. Uma das teorias mais difundidas reza que o vírus surgiu na África e chegou aos EUA, provavelmente via Haiti, ou através de missionários americanos no continente africano. É o que se vê, por exemplo, no relato de um médico indiano que esteve em contato com a epidemia nos EUA, desde o seu início. Logo após dizer que chegara ao país em 1980, o médico afirma que, mais ou menos naquela mesma época: [o] “HIV, o vírus que causa a aids, desembarcava nas cidades portuárias americanas: Nova York, São Francisco e Los Angeles. O vírus chegou da África (talvez via Haiti) transportado na corrente sanguínea de uma ou mais pessoas desconhecedoras de sua existência. Essas pessoas, então, o passaram adiante compartilhando agulhas ou através de sexo anal.”[3]

O discurso de Verghese é típico representante da postura da ciência positivista, sempre pronta a encontrar causas, explicações racionais e, no caso do vírus HIV, data e local precisos para o seu surgimento. Essa suposta capacidade de explicar e catalogar tudo reflete a idéia que a medicina fazia de si mesma na época do surgimento dos primeiros casos de aids. Muitos cientistas consideravam, então, que a aids seria rapidamente controlada, devido aos enormes avanços pelos quais passara a medicina após a Segunda Guerra Mundial, com a criação de antibióticos (que curavam, entre outras, as doenças sexualmente transmissíveis), desenvolvimento de sofisticados tratamentos para diversas doenças antes consideradas incuráveis, realização de transplantes cada vez mais complexos, etc. Isso pode ser atestado pelo relato do doutor Verghese: “sentíamos que esta nova doença, essa misteriosa deficiência imunológica, logo seria compreendida e subjugada. Dizer que aquela era uma época de confiança ilusória e sem precedentes — beirando a arrogância — na medicina ocidental, ainda é dizer pouco.(...). Parecia haver pouco que a medicina não podia fazer.” [4]

Enquanto a aids foi percebida como um problema sociológico (pois era resultante do “estilo de vida gay”), não despertou o interesse de grandes cientistas. Em sua maioria, quem se dedicava ao seu estudo, então, eram cientistas gays, professores-assistentes em algumas universidades ou médicos de hospitais de grandes centros urbanos, onde se registrava a maior parte dos casos. O campo das doenças infecciosas não era um dos mais procurados por quem estivesse disposto a obter fama, rendimentos monetários ou mesmo verbas para pesquisa. O próprio doutor Abraham Verghese aponta, como um dos motivos para sua escolha em atuar nessa área, a relativa facilidade em se conseguir bolsas de estudo ou posições nesse campo da medicina.[5]

Porém, a descoberta, em meados da primeira metade da década de 80, de que a aids era causada por um novo tipo de vírus, mudou as coisas. A possibilidade de abertura de novos caminhos no saber científico levou cientistas renomados e com mais acesso a verbas a se interessarem pelo assunto e procurarem informação junto a seus colegas menos prestigiados, que já se dedicavam ao trabalho de pesquisa. A possibilidade de ganhos econômicos com o patenteamento de testes para se detectar a presença do vírus também não pode ser esquecida. Sejam quais tenham sido os motivos para a escolha, cientistas nos EUA e Europa lançaram-se a estudos mais sistemáticos sobre o HIV e a aids.

Não tem sido incomum o discurso, gerado por membros da comunidade gay, de que o fato de minorias terem sido as primeiras a serem afetadas resultou em um descaso do governo americano no tocante à destinação de verbas para pesquisa e prevenção. Contudo, é preciso situar esse fato dentro de um panorama mais geral. É certo que a emergência da aids deu-se simultaneamente à ascensão de uma direita politicamente poderosa, com fortes bases no fundamentalismo religioso, que estava determinada a contra-atacar as políticas sociais oriundas dos anos 60 e que se apoiava no discurso da moralidade, culpa e noções de valores da família.[6] A administração conservadora de Ronald Reagan, de certa forma, simbolizou a tomada do poder por essa direita. Uma síndrome que atacava membros da sociedade, diametralmente diferentes daquilo que os conservadores julgavam como ideal, certamente não gerou simpatia, e provavelmente nem compaixão enquanto esteve ao largo da “população geral”. O governo neoliberal de Reagan, porém, realizou cortes substanciais nas verbas destinadas à educação e saúde de um modo geral e não apenas no caso da aids, preferindo investir em armamentos a aplicar verbas em programas sociais. A noção de que a escassez de verbas para estudos e prevenção da aids tenha sido gerada única e exclusivamente devido ao seu meio de origem empobrece e obscurece a abordagem de uma situação que era estrutural e não apenas parcial.

Se há quem afirme que o fato de a aids ter atacado primeiro a comunidade gay resultou em descaso com relação a verbas, há quem diga que a percepção da síndrome como inerentemente gay acelerou ou facilitou a obtenção de fundos para pesquisa. Isso porque os gays já eram um grupo bastante visível e já possuíam considerável experiência em mobilizações políticas. Tal experiência fora adquirida ao longo de anos de ativismo, marcadamente a partir do final dos anos 60, quando teve início a chamada liberação gay. Durante boa parte da década de 70, militantes gays trabalharam incessantemente, entre outras coisas, em prol da despatologização do homossexualismo por parte de associações médicas e psiquiátricas norte-americanas, que consideravam aquele tipo de orientação sexual um “desvio”.[7] A experiência adquirida nessas lutas por reconhecimento de direitos — especialmente o desafio ao discurso científico, que sempre almeja adquirir status de verdade incontestável — seria usada a partir da década de 1980, na luta contra a aids e contra os discursos de exclusão e preconceito gerados por ela.

A comunidade gay urbana branca de classe média, especialmente de São Francisco e Nova York, rapidamente começou a formar uma rede de apoio a seus doentes. Nesse ponto, foram ajudados enormemente pelas lésbicas e alguns setores médicos e da igreja. Data de 1982, por exemplo, a criação do grupo ativista Gay Men’s Health Crisis, pelo escritor Larry Kramer, que, em l987, viria a fundar outro grupo influente, o Act Up (Aids Coalition to Unleash Power). Por se tratar de uma comunidade cujo padrão de instrução não era baixo, muitos logo começaram a se informar a respeito do discurso médico-científico, a fim de desafiá-lo no que tinha de incorreto, preconceituoso e ambíguo. Através da participação em congressos científicos — o que muitas vezes significou invasão —, protestos na rua ou em frente de instituições governamentais, distribuição de panfletos e outras táticas, militantes gays protestavam contra asserções como as que diziam que a população heterossexual estava segura, ou contra o uso de palavras e expressões pejorativas como “vida sexual promíscua” ou “práticas sexuais anormais”.

No campo semântico, destacou-se a luta para se abolir o termo “vítima da aids” e substituí-lo por “pessoa com aids” ou “pessoa vivendo com aids”. Já em 1983, na Segunda Conferência Internacional sobre Aids, um comitê de ativistas apresentou uma comunicação protestando contra o uso do termo “vítima”. O conceito de “pessoa com aids” traz em si várias implicações: a possibilidade de se autonomear, uma vez que ressalta o fato de haver um indivíduo que é portador de uma doença; a noção de uma pessoa coexistindo com uma doença e não simplesmente sendo o seu portador, um híbrido de indivíduo e doença; a ênfase na vida e não na morte.[8] O discurso da vitimização, à primeira vista, pode parecer antitético ao discurso da pessoa com aids como alguém culpado, que pagou pelo seu “estilo de vida desregrado”. Entretanto, tal impressão é apenas ilusão de ótica. Susan Sontag nos ensina que “vítimas (referindo-se ao vocábulo e não a pessoas) sugere inocência. E inocência, pela inexorável lógica que governa todos os termos relacionais, sugere culpa”.[9]

Devido à pressão exercida pela comunidade gay, muitos cientistas começaram a mudar as definições e adotar termos mais neutros, como “múltiplos parceiros”, por exemplo. Porém, a ambigüidade e incerteza do discurso científico jamais foram eliminadas.

Quanto à alocação de verbas para pesquisa e prevenção, já em 1984 o Congresso promovia debates sobre a gravidade da situação e a necessidade de ação. Membros da comunidade gay foram chamados a esses debates para darem seu relato ou apresentarem informações ou sugestões de estratégias a serem adotadas.

Não se deve, no entanto, achar que a partir de então a comunidade científica e os órgãos do governo caminharam em um sentido progressivo de práticas que, ou desestigmatizassem a aids ou conferissem apoio e subsídios amplos e irrestritos à pesquisa, prevenção e tratamento. A relação entre a comunidade gay e essas instituições permanecem em constante tensão. Houve avanços e retrocessos no caminho. Isso também vale para a própria comunidade gay, que não pode ser entendida como uniformemente coesa quanto às práticas e táticas adotadas no combate à síndrome e aos discursos por ela gerados.

A luta dos gays, até a metade da década, teve pouca repercussão na mídia. Nas poucas vezes em que se referia à aids, a mídia — tanto impressa quanto eletrônica — apoiava-se, como já foi dito, em simplificações do discurso científico e em estereótipos da comunidade gay. Desse modo, o problema era percebido pela maioria da população como um problema realmente restrito a uma parte ínfima e desvalorizada da sociedade americana.

Um momento de corte

O ano de 1985 foi crucial para o entendimento da história da representação da aids. Dentre os vários acontecimentos, destacou-se o anúncio de que o ator Rock Hudson era portador do vírus HIV e sua subseqüente morte, ainda naquele ano. Não se pode afirmar que a morte de um indivíduo tenha mudado os rumos da história. No entanto, a morte de Hudson serviu como força catalisadora para chamar a atenção do público fora das comunidades mais afetadas.

A partir de então, a síndrome literalmente entrou para a sala de estar das famílias de classe média norte-americanas. A morte do ator fez a aids ir para o horário nobre dos noticiários de TV e para a capa de revistas populares. Em sua maior parte, as pessoas com aids eram fotografadas em seus leitos de morte, em estágios avançados de degeneração ou sozinhas em seus apartamentos, alimentando ainda mais a estigmatização. Os títulos das matérias das revistas carregavam um tom alarmista de que “ninguém mais estava seguro”, parecendo implicar que, enquanto a síndrome restringia-se aos “grupos de risco”, não merecia tal atenção da mídia.

Além do caso Hudson, outros casos de aids vieram à tona naquele ano, como o do garoto Ryan White que havia sido proibido de freqüentar a escola ou da família Burk, cujo marido, hemofílico, havia sido contaminado e transmitira aids à sua esposa e filhos.[10] Ainda que os dois casos tenham sido registrados dentro dos “grupos de risco”, tratava-se de heterossexuais brancos de classe média, aparentemente “normais” aos olhos do grande público. Embora o tom das reportagens fosse notadamente preconceituoso ou mantivesse muitos dos estereótipos associados aos gays ou à aids, é importante notar que a procura por informações sobre prevenção e contágio — por um número muito maior de pessoas do que até então — aumentou sensivelmente a partir daquele ano.

A morte de Hudson provocou também uma crise com relação ao estereótipo do que seria um homossexual. Durante anos, a ator hollywoodiano foi o símbolo do macho branco norte-americano. Em 1985, os heterossexuais americanos assistem pela TV à volta do corpo de um de seus ícones máximos, abatido pela aids, trazido de Paris dentro de um caixão. O estereótipo do gay como alguém efeminado não combinava com a imagem máscula que Hudson projetara durante toda sua carreira. Se alguém tão másculo quanto o ator era na verdade gay, como identificar através de trejeitos, ou qualquer outro elemento visual, um gay? Como se ter certeza de que uma pessoa que aparentemente se comportava como um “homem” não era, na verdade, gay?

Essa crise com relação à imagem que muitas pessoas faziam dos gays, aliada à constatação de que um crescente número de heterossexuais estava sendo contaminado pelo HIV, serviu como estopim deflagrador de uma tremenda histeria “aidsfóbica” e homofóbica. Não era incomum as pessoas culparem os gays pelo surgimento e também propagação da síndrome. Afinal de contas, se os gays podiam ser tão másculos quanto Hudson — que mantivera, inclusive, namoradas — ninguém mais estava seguro, parafraseando a famosa manchete da Life Magazine, de julho de 1985.[11] A maior explicitação do sentimento homofóbico em tempos de epidemias ou desastres naturais parece ser uma constante histórica. Em épocas de peste, guerra ou catástrofes, a perseguição a minorias intensifica-se. Isso se explica pela necessidade de se arrolarem “culpados” para os desastres e/ou apaziguar a ira divina, que é vista como causadora de cataclismos de toda sorte, engendrados por Deus, a fim de punir a desobediência a seus supostos ensinamentos.[12] Em pleno ano de 2001 pôde-se perceber isso. No dia seguinte ao atentado ao World Trade Center, o notório fundamentalista religioso de extrema direita, Jerry Falwell, declarou à imprensa norte-americana que parte da responsabilidade dos atentados era dos gays, pois esses haviam deixado a nação americana moralmente vulnerável e fraca a ataques estrangeiros que expressavam a ira divina.

Além da morte do ator, 1985 marcou a transmissão do primeiro filme para TV a respeito da aids An early frost foi ao ar no dia 11 de novembro, no canal NBC, e gerou telefonemas do país todo durante e após sua exibição. Um serviço especial foi montado e recebeu milhares de ligações de pessoas procurando informação. Ainda na TV, a popular soap opera Dynasty apresentou uma personagem abertamente gay, que se apaixona por um dos membros da família Carrington, protagonista do drama. O ápice do acontecimento é quando a família permite que o casal gay sente-se à mesa para o jantar. Ironicamente, enquanto os telespectadores assistiam ao relacionamento algo explícito dos dois personagens gays, na mesma Dynasty podiam contemplar o corpo emagrecido e a aparência cansada do próprio Hudson, em seu último papel, como interesse romântico para a madrasta de uma das personagens gays.

Segunda metade dos anos 1980

Passado o período de saturação de inserções de notícias sobre a aids, provocada pelo caso Hudson, ela continuou merecendo atenção, de forma mais rotineira, dos meios de comunicação de massa. À medida que o número de casos registrados entre heterossexuais avançava, o medo de contraí-la, por parte da outrora segura “população geral”, também aumentava. O auge desse processo ocorreu entre 1986-87, período marcado por uma verdadeira histeria provocada pelo medo do contágio casual.

Novamente seria muito fácil atribuir à mídia a culpa total por esse estado de coisas. Porém, afirmações apocalípticas a respeito do poder destruidor da síndrome e do estrago que produziria na humanidade vinham também dos órgãos do governo e de cientistas. É do começo de 1987 a afirmação feita pelo então secretário de saúde e serviços humanos, segundo o qual a “aids faria a peste negra — a maior epidemia jamais registrada, que varreu entre um terço e metade da população da Europa — parecer pálida em comparação”.[13] A ambigüidade, como já afirmei anteriormente, sempre presente no discurso da aids, contribuía para maior pânico entre a população leiga. Ao final do mesmo ano, o mesmo secretário afirmou que não se tratava de “uma epidemia maciça, que se alastrasse enormemente na população heterossexual, como muitas pessoas temem”.[14]

O governo tentava fornecer informações a respeito da aids, porém esbarrava no conservadorismo, que impedia um discurso mais direto e eficaz. Manuais de prevenção — como o U.S. guide for schools, editado no fim de 1987 — evitavam a discussão de práticas de redução de formas de contágio como o uso de preservativos ou seringas descartáveis para usuários de drogas. Ao invés disso, pregavam a abstinência como o melhor jeito de se salvaguardar da aids.[15]

Em 1987, Larry Kramer fundou o influente ACT UP como modo de desafiar os discursos dominantes construídos pelo governo, autoridades científicas e mídia. Embora esse tom de desafio não fosse novidade — e houvesse vários outros grupos atuando antes e durante a época de existência do ACT UP —, as formas radicais de atuação do grupo, especialmente a unidade de Nova York, conferiram uma maior radicalização no sentido de tornar a questão da aids visível. Utilizando-se por vezes de táticas de “guerrilha”, os ativistas do grupo não perdiam oportunidade para chamar a atenção da mídia para suas intervenções. Na verdade, muitas vezes a avaliação da eficácia política de suas ações baseava-se no sucesso ou não de terem alcançado destaque nos telejornais de onde quer que a intervenção fosse feita.[16]

Os membros do grupo invadiam convenções médicas; usavam dispositivos legais, como a Lei de Liberdade de Informação, para obter acesso à documentação concernente a testes de novas drogas, como no caso do AZT; conduziam seus próprios testes com grupos alternativos de cientistas e voluntários; promoviam manifestações em locais públicos, muitas vezes utilizando-se de táticas como same sex kiss-ins[17]; faziam distribuição de panfletos e colagem de cartazes visual e/ou textualmente poderosos, com toda sorte de denúncias a respeito de descasos ou idéias que considerassem errôneas, preconceituosas ou segregacionistas; participavam de lobbies no Congresso para liberação de verbas; conclamavam boicotes a produtos ou empresas que apresentassem posturas “aidsfóbicas” ou homofóbicas e praticavam atos de desobediência civil como forma de protesto. Ficaram famosos os episódios em que membros do ACT UP infiltraram-se nos estúdios das redes de TV CBS e PBS, quando da Guerra do Golfo, em 1991, e durante telejornais no horário nobre gritaram slogans contra a guerra aos árabes e em favor de uma guerra contra a aids.[18]

A atuação, por vezes agressiva e muitas vezes polêmica, dos ativistas gays na segunda metade da década de 80, também obteve resultados positivos no contra-ataque a discursos e práticas governamentais, científicas ou da indústria farmacêutica. Um desses resultados observou-se no caso do AZT. Respostas positivas ao tratamento com a droga começaram a ser reportadas em setembro de 1986. Quando o AZT foi colocado no mercado, o laboratório que o produzia, o Burroughs-Wellcome, tinha monopólio de sete anos sobre sua produção. Desse modo, não restaria aos pacientes outra opção senão arcar com os preços altíssimos praticados pela empresa. Muito rapidamente, ações como a invasão de um escritório na sede da companhia, protestos em frente à Bolsa de Valores de Nova York e um tenaz lobby, promovido por ativistas e congressistas, fez com que os preços fossem reduzidos em vinte por cento.[19]

Nesta exposição sobre alguns dos discursos, práticas e comportamentos gerados e/ou intensificados pela aids, tenho enfatizado as respostas da comunidade gay face aos mesmos. Porém, faz-se necessário ressaltar que dentro da comunidade os discursos e formas de atuação não foram, e não são, tão homogêneos como pode levar a crer o meu texto. Os debates internos com relação ao próprio AZT são um bom exemplo disso. Enquanto parte da comunidade cantava loas aos resultados positivos constatados no tratamento com a droga, outra parte denunciava a alta toxicidade e os efeitos colaterais que ela apresentava.

Primeira metade dos anos 1990

A década de 90 começou com críticas dos ativistas com relação ao descaso da administração George Bush e também com outro momento onde uma figura pública atua como força catalisadora para causar uma superexposição da aids na mídia e também outra onda de histeria.

Em 1991, a superestrela do basquete, Earvin “Magic” Johnson, anunciou publicamente que era portador do vírus HIV. Aconteceu, então, a maior cobertura sobre aids na imprensa até os dias de hoje. Ela entrou para a pauta de noticiários que sistematicamente a ignoravam, como a seção de esportes. Johnson tornou-se para os negros o que Rock Hudson fora para os brancos anos antes. Embora a aids atacasse enormemente a comunidade negra, relativamente pouco interesse despertava por parte da imprensa branca ou mesmo da imprensa especializada negra.

A diferença, porém, era que, enquanto Hudson contraíra o vírus através de relações homossexuais, Johnson contraiu-a heterossexualmente (segundo suas declarações). E isso faz uma grande diferença. Hudson apenas parecia heterossexual, enquanto Johnson o era realmente. O medo do contágio heterossexual aumentou ainda mais com a revelação de Johnson. Se, por um lado, o número de pessoas procurando informações sobre transmissão heterossexual da síndrome aumentou, também não faltou, novamente, quem culpasse os gays por terem “originado” a epidemia. Vez mais, pode-se falar em explicitação do sentimento homofóbico. Exemplo concreto disso foi a participação do atleta no programa de Arsenio Hall. Ao mesmo tempo em que o programa apresentou um lado positivo no tocante ao convívio com alguém com HIV (Arsenio abraçou Magic e o tratou “normalmente”, e não como uma vítima deficiente e condenada à morte iminente ou como o portador de algo transmissível através de simples proximidade física), há que se notar a reação da platéia: ao enfatizar que havia contraído o vírus através de múltiplas relações heterossexuais e não através de contato homossexual, o atleta foi aplaudido como se aquilo fosse abonador ou atenuador da circunstância.[20]

Mais ou menos ao mesmo tempo desenrolou-se o drama da jovem Kimberley Bergalis, contaminada no consultório de seu dentista. Bergalis fugia ao estereótipo da pessoa com aids geralmente presente na TV norte-americana: o gay descuidado que contraía aids devido ao “excessivo” número de parceiros ou um ocasional usuário de drogas.[21] Bergalis era uma “inocente” jovem loira, branca e heterossexual. Pesquisas de opinião pública da época mostraram que quase noventa por cento dos entrevistados acreditavam que os profissionais de saúde deviam, por lei, tornar públicos os resultados de seus testes de HIV (que deveriam ser compulsórios para os profissionais da área). Bergalis chegou a prestar depoimento no Congresso a favor da obrigatoriedade do teste em profissionais da saúde.

Surpreendentemente, a despeito de o seu caso ter sido fartamente alardeado pela mídia, a cobertura do seu depoimento e o subseqüente efeito dele em gerar pautas foi pequeno.[22] Outra vez percebe-se a impossibilidade de se tentar homogeneizar os discursos produzidos por qualquer tipo de órgão, sob o risco de se traçar um painel bastante redutor. Como se pode ver nos exemplos de Johnson e Bergalis, a mídia não desempenhou um papel apenas negativo com relação à cobertura dos dois casos.

É comum afirmar-se que a maior sobrevida proporcionada por medicamentos como o AZT — e mais tarde, em meados da década de 90, com a introdução do chamado “coquetel” — e a rotinização da aids através de maciça inserção na mídia ou da crescente informação sobre formas de contágio, levaram a uma aceitação maior por parte da sociedade. Porém, não se trata de algo tão simples assim. Parte da sociedade pode ter chegado a um maior nível de tolerância com relação a gays e pessoas com aids. Porém, pesquisas realizadas no final da década de 90 alertam para um aumento de 32% no número de casos de agressão contra portadores do HIV.[23] Isso demonstra que a comunidade gay continuou — e continua — tendo que combater os variados discursos gerados pela epidemia.

Por outro lado, a rotinização da síndrome, que diminui o estigma a ela associado, confisca o sentido de urgência e alerta que ela exige. O aparecimento do “coquetel” veio junto com a chamada “segunda onda” da aids. Esse fenômeno é descrito por alguns como um reflexo da confiança excessiva nos novos tratamentos e na descoberta de uma cura imediata para o mal. Paradoxalmente, um discurso exatamente contrário a este, que tinha como premissa o fato de que a cura da aids, se algum dia fosse alcançada, ainda estava longe de acontecer, fez com que pessoas deliberadamente assumissem comportamentos de risco a fim de contraí-la mais rapidamente, evitando assim a ansiedade provocada pelo “quando” a aids as atacaria. Obviamente, os dois discursos são extremos de um arco-íris, que apresenta mais do que apenas sete cores.

Diversidade e disparidade de discursos

O exposto até agora pretendeu demonstrar como a epidemia da aids gerou diversos e díspares discursos e como esses discursos foram aceitos e/ou combatidos por alguns setores da sociedade. Não quero, com isso, afirmar que dei conta de todos os discursos gerados e suas repercussões. Também não é minha intenção afirmar que tais discursos aconteceram em sucessão cronológica tal como aquela preconizada pela História positivista, na qual elementos nascem, crescem e morrem. Muito pelo contrário. Os discursos estão sujeitos a perenes transformações, em um incessante movimento de expansão, recrudescimento e/ou transformação, assumindo nuances diferentes dentro dos diferentes contextos sociais, temporais ou locais onde são detectados.

Tendo em mente essa fluidez dos discursos, não é de surpreender tanto a notícia na edição on-line da revista The Advocate, do dia 12 de dezembro de 2001[24], que noticiou a nomeação de Patricia Funderburk Ware para o cargo de diretora executiva do Presidential Advisory Council on HIV and Aids, do governo do presidente George W. Bush. Ware é uma defensora, de longa data, da abstinência sexual como melhor forma de se combater a Aids. Lembremos que o mesmo conselho veio editado nos manuais de educação escolar publicados na segunda metade de década de 80.  

por ROBERTO RILLO BÍSCARO

 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico  

[1] TREICHLER, Paula. How to have theory in an epidemic: cultural chronicles of aids. Durham: Duke University Press, 1999, p. 1.

[2] Cf. ROMÁN, David. Acts of intervention: performance, gay culture, and aids. Bloomington: Indiana University Press, 1998, p. xviii.

[3] VERGHESE, Abraham. My own country: a doctor’s story. New York: Vintage Books, 1995, p. 14.

[4] Idem, ibidem, p. 24.

[5] Ver idem, ibidem, p. 26.

[6] Cf. STURKEN, Marita. Tangled memories: the Vietnam war, the aids epidemic and the politics of remembering. Berkeley: University of California Press, 1997, p. 146.

[7] Ver JAGOSE, Annamarie. Queer theory: an introduction. New York: New York University Press, 1996, p. 30-43.

[8] Cf. STURKER, Marita, op. cit., p. 160 e 162.

[9] SONTAG, Susan. Illness as metaphor and aids and its metaphors. New York: Anchor Books, 1990, p. 99.

[10] Ver TREICHLER, Paula, op. cit., p. 73-86.

[11] Ver idem, ibidem, p. 75.

[12] Cf. FONE, Byrne. Homophobia: a history. New York: Picador USA, 2000, p. 186 e 187.

[13] SONTAG, Susan, op. cit., p. 170.

[14] Idem.

[15] Cf. idem, ibidem, p. 162 e 163.

[16] Cf. ROMÁN, David, op. cit., p. 83.

[17] Expressão sem equivalente em português. Trata-se de manifestações onde pessoas do mesmo sexo beijam-se em público. A intenção é usar a estranheza que tal comportamento provoca perante o grande público para chamar a atenção da mídia.

[18] Cf. TREICHLER, Paula, op. cit., p. 141 e 142.

[19] Cf. idem, ibidem, p. 199 e 200.

[20] Cf. idem, ibidem, p. 143.

[21] Cf. STURKER, Marita, op. cit., p. 156.

[22] Cf. TREICHLER, Paula, op. cit., p. 85.

[23] Cf. FONE, Byrne, op. cit., p. 418.

[24] Ver HEALTHWATCH. Abstinence proponent tapped to head presidential HIV/AIDS advisory panel [artigo online] The Advocate Online. [citado em 12.07. 2002]. Acesso em 12 jul. 2002.

 

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2006 - Todos os direitos reservados