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por
LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA
Cientista político e
professor de história da política exterior do Brasil, vencedor
do Troféu Juca Pato, eleito o Intelectual do Ano 2005, é Autor
do livro O Governo João
Goulart - As lutas
sociais no Brasil (1961-1964), que foi best-sellker, quando
lançado em 1977. Ele era amigo de Goulart e esteve exilado no
Uruguai após o golpe militar de 1964.
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Os
últimos tempos de João Goulart
As
condições nos países do Cone Sul, nos meados dos anos 1970, não
ofereciam também a menor segurança. No Chile, sangrento golpe de
estado derrubara o governo constitucional e democrático do
socialista Salvador Allende. Juan Domingo Perón, que voltara à
presidência da Argentina (outubro de 1973) e mantinha excelente
relacionamento com João Goulart,
falecera em 1 de julho de 1974. Como vice-presidente, sua viúva,
Isabel Perón (seu nome verdadeiro era Maria Estela Martinez) ocupou
o governo da Argentina, cujas condições internas, tanto econômicas
quanto políticas, voltaram a deteriorar-se, ao tempo em que atos de
terror e violência se intensificavam, com as organizações
paramilitares – Triple A (Alianza Anticomunista Argentina) e
Comando de la Organización – a assassinarem militantes e líderes
de esquerda, enquanto o Ejército Revolucionario del Pueblo (ERP),
de origem trotskista, e as formaciones especiales da
Juventude Peronista (Montoneros) realizavam seqüestros, atacavam
quartéis e executavam ousadas operações de guerrilhas em Tucumán.
Isabel Perón também fora deposta do governo da Argentina por um
golpe de estado, em março de 1976. E diversos líderes
latino-americanos, que se opunham aos regimes militares, morreram em
Buenos Aires assassinados, e entre eles dois importante políticos
uruguaios, o ex-ministro de estado e ex-senador Zelmar Michelini e o
ex-presidente da Câmara de Deputados, Héctor Gutiérrez Ruiz,
cujos cadáveres foram encontrados juntos, dentro de um automóvel,
em 22 de maio de 1976, bem como o general Juan
José Torres, que fora deposto do governo da Bolívia (1971) com o
apoio do Brasil. Àquela época, os órgãos
de repressão da Argentina, Brasil, Uruguai, Chile, Bolívia e
Paraguai haviam concertado um entendimento e desencadeado,
conjuntamente e com a assistência da CIA, a Operação Condor, com
o objetivo de eliminar toda e qualquer resistência aos regimes
ditatoriais instalados naqueles seis países do Cone Sul .
Goulart,
que montara uma empresa para a exportação de carne e arroz, em
Buenos Aires, onde pretendia residir, recebeu também ameaça de
morte e, segundo se informava, teve seu escritório, naquela cidade,
na Avenida Corrientes, invadido, cofre e armários arrombados, por
um comando cujo objetivo aparentemente fora seqüestrá-lo e matá-lo.
Este fato é contestado por algumas fontes, mas algo estranho, de
qualquer maneira, houve. E alternativa não restou a Goulart senão
passar mais tempo em Mercedes (Argentina), onde possuía uma estância
(La Villa) ou sua fazenda em Maldonaldo, perto de Punta del Este, no
Uruguai. Mas, no Uruguai, onde fora recebido, em 1964, não como
refugiado político e sim como presidente constitucional do Brasil,
e obtivera até mesmo passaporte,
negado pelo governo brasileiro,
a situação igualmente se modificara. Depois do golpe de estado de
27 de junho de 1973, o governo autoritário de Juan Maria Bordaberry
sujeitou-se ainda mais à influência do governo brasileiro, do qual
dependia econômica e politicamente, e começou a criar as maiores
dificuldades para todos os exilados, inclusive para Goulart. Seu
filho, João
Vicente Goulart, com 16 anos, foi preso, teve sua cabeça raspada e
ficou três dias em um quartel. Sua mãe, Maria Tereza Goulart, sob
a alegação de transporte irregular de carne.
O piloto, Rubem Rivero, foi também preso sob a acusação de militância
subversiva. E o próprio Goulart, que tivera de mandar seus filhos
– João Vicente e Denise – para a Inglaterra, com receio de que
fossem seqüestrados,
foi compelido pelo
governo uruguaio a desistir do direito de asilo, dado que não o
podia expulsar, devido aos seus grandes investimentos no país.
Goulart
estava deprimido, ansiando voltar ao Brasil, o que constituía sua
obsessão, e não tomava os devidos cuidados com a saúde, pois,
embora fosse sabidamente cardíaco, continuava a comer sempre a
gordura da carne, fumava e não dispensava algumas doses de whisky.
E, em tais circunstâncias, ele decidiu fazer uma viagem à Europa,
onde não apenas visitaria os filhos em Londres como verificaria as
condições de mudar-se para a França
ou Espanha, onde ficaria perto de seus filhos que estudavam em
Londres. Brizola, naquela ocasião, soube através do serviço
secreto de Cuba, com qual desde 1965 nunca perdera contacto, da
existência de um complô para assassinar Goulart quando ele
passasse por Buenos Aires. Como não lhe queria diretamente falar,
pois suas relações continuavam rompidas, procurou o escritor
Edmundo Moniz, ex-diretor do Correio da Manhã, asilado em
Montevidéu e amigo de ambos, e pediu-lhe que o avisasse do risco
que correria.
Brizola, perguntado então porque ele, pessoalmente, não o fazia,
inventou a desculpa de que Goulart o vira em um posto de gasolina e
não o cumprimentara. Diante dessa evasiva, Edmundo Moniz aceitou a
incumbência e transmitiu a informação a Goulart, que tomou a
iniciativa de ir apartamento de Brizola, a pretexto de visitar sua
irmã Neuza, então adoentada, e despedir-se, dado que estava com a
viagem marcada para a Europa. Brizola, ao saber da presença de
Goulart no prédio, recolheu-se a um dos quartos do apartamento, mas
o escritor e jornalista Josué Guimarães, que lá se encontrava,
bem como outros amigos pressionaram-no para que aparecesse na sala,
com o que ele a muito custo aquiesceu, reconciliando-se assim com o
cunhado, após 12 anos de rompimento.
Mas os dois não conversaram sobre política. Só de assuntos
pessoais, de família.
Pouco
tempo depois, em setembro de 1976, Goulart realizou a viagem à
Europa
e aproveitou para fazer exames no instituto cardiológico de Lyon,
quando passou pela França, e após submeter-se a vários exames,
recebeu uma advertência a respeito de seu estado de saúde, e
escreveu uma carta a Cláudio Braga, que cuidava de seus negócios
em Buenos Aires e a quem confiava assuntos políticos e pessoais,
contando que os resultados foram “bem razoáveis”, considerando
que não se sujeitara “nunca às prescrições médicas e
regimes”.
Também comentou a situação no Brasil, onde “as cousas se
esquentaram”, com a notícia de seu possível regresso,
e se estavam “somando muita detonantes; eleições, situação
econômica - social muito difícil, morte de JK, com repercussões
de toda ordem e da maior magnitude (inesperada completamente para o
governo), graves denúncias no campo moral etc. etc.”.
Goulart
tinha consciência de que não mais podia permanecer nem no Uruguai
nem na Argentina, devido à insegurança que se instalara nesses
dois países, onde recrudesceram os assassinatos dos líderes políticos,
que se opunham aos regimes militares. Mas tinha dúvida sobre o que
fazer. De um lado, excogitava morar em Paris. Do outro, pretendia
regressar a Brasil, mesmo sem anistia política. Assim, logo após
regressar da Europa a Montevidéu, solicitou a Cláudio Braga que
ouvisse a Almino
Afonso, que voltara a Buenos Aires uma viagem ao Brasil apesar
de que estivesse exilado, sobre um possível retorno, mesmo sem
anistia. Almino Afonso foi favorável. Mas nada de ir pela
fronteira, nem de exílio dentro da pátria. Sua idéia era de que
Goulart fizesse outra viagem à Europa, a fim de visitar o papa Paul
VI, e aos Estados Unidos para um encontro com o senador democrata
Edward Kennedy, irmão do ex-presidente John Kennedy e então o
principal oponente das ditaduras militares instituídas na América
Latina, após o que, com ampla divulgação, em New York tomaria um
avião diretamente para o Rio de Janeiro, em franco desafio ao
regime militar e correndo o risco de ser preso.
“Esta opinião foi por mim transmitida a Jango e conversamos várias
vezes no Uruguai, mas ele sempre ordenava "absoluta
reserva", ate sua definitiva autorização para deslanchar a
operação retorno” – recordou Cláudio Braga.
Por
volta de 25 ou 26 de novembro, Goulart telefonou para Cláudio
Braga, pediu-lhe que estivesse às 15 horas no bar do Hotel Columbia
em Montevidéu. Após falar sobre seus interesses na Argentina,
principalmente sobre um grande remate de gado que pretendia fazer em
Mercedes-Corrientes, e orientá-lo sobre todas as providencias a
tomar, Goulart disse a Cláudio Braga:
“Agora
vamos ao mais importante. Viajes primeiro a Bueno Aires e marques um
jantar com Almino, transmitindo-lhe minha decisão de regressar ao
Brasil; ele pode ir pensando na operação regresso, na qual,
certamente, estará incorporando o Waldir (Pires)”.
Quando
ambos caminhavam para o Hotel Alhambra, na parte velha e Montevidéu,
Cláudio Braga ainda várias vezes lhe perguntou, se esta era uma
decisão definitiva. E ele respondeu:
"se
não fosse, eu não estaria mandando tu falares com Almino. As
conversas com Almino são conversas sérias... Ele é um homem sério.
Irei antes conversar com Edward Kennedy, enquanto isso Almino irá
ouvindo a quem ele considerar necessário a essa operação"
Cláudio
Braga cumpriu a missão. Encontrou-se com Almino na confeitaria
Richmond, na calle Florida
em Buenos Aires, e transmitiu-lhe a decisão de Goulart.
“Lembro-me que Almino Afonso disse – mais ou menos – o
seguinte: ele prestará mais uma vez um grande serviço ao país.”
Goulart,
diante de tal perspectiva, estava sob forte tensão. Dado sofrer de
cardiopatia grave e haver-se ampliado sua afecção coronariana, ele
havia parado de beber e começara a fazer violento regime, a fim de
emagrecer, porém mal controlado, e continuou a fumar muito, não
obstante a proibição do médico, e a comer ovos e carnes
gordurosas, conforme o próprio depoimento de sua esposa, Maria
Tereza Goulart.
Grande era, portanto, o perigo de que tivesse outro enfarte, como já
sofrera no Uruguai, em 1969.
De
qualquer forma, Goulart, consciente ou não deste problema,
prosseguiu normalmente suas atividades. Foi encontrar-se com Maria
Tereza, em Maldonado, a fim de irem juntos à fazenda em Tacuarembó
e de lá partirem para Argentina, pelo interior, cruzando o rio
Uruguai, pois não pretendia transitar por Buenos Aires, em virtude
do clima de ameaças lá existente. E na manhã de 5 de dezembro,
com a perspectiva de retornar em
breve ao Brasil mesmo sem anistia,
viajou com Maria Tereza para La Villa, a estância que possuía na
província de Mercedes, Argentina. Fê-lo, sigilosamente. Mas a
viagem fora, decerto, exaustiva, pois Goulart e Maria Tereza
seguiram de avião apenas até Bella Unión, fronteira do Uruguai,
atravessaram de lancha o rio Uruguai para Monte Caseros,
prosseguiram de automóvel até Paso de los Libres, onde almoçaram
com um negociante de gado no Hotel Alejandro I, após o que partiram
para La Villa, distante cerca de 120 km de Uruguaiana, no Brasil.
Lá
eles chegaram à tarde de domingo, dia 5 de dezembro, recebidos pelo
administrador da fazenda, Júlio
Passos. À noite, enquanto conversava com Julio Passos detalhes
sobre o recolhimento do gado para vacinação, Goulart comeu um
churrasco de ovelha e, depois de beber uma xícara de chá,
recolheu-se por volta de 1h ao seu quarto para dormir. Às 2h40m,
porém, Júlio Passos ouviu os gritos de Maria Tereza – a angústia
dos gritos era tamanha que ele pensou que alguém invadira a casa
– e correu até o quarto, onde viu Goulart, deitado, com a mão no
coração, e ela a tentar abrir-lhe os braços para fazê-lo
respirar. Cinco minutos depois, às 2h45m, Goulart estava morto. O médico,
Ricardo Rafael Ferrari, que o motorista Roberto Ulrich, o
“peruano”, correra para buscar, já nada mais pôde fazer. E, após
examinar o corpo, diagnosticou no atestado de óbito, como causa da
morte: enfarte do miocárdio.
Goulart
“passara incólume por uma dezenas de inquéritos”, conforme
Elio Gaspari salientou,
purgara doze anos de exílio, mas a ditadura, o regime autoritário,
instituído pelo golpe de estado de 1964, mostrou a sua face cruel,
desumana e mesquinha. O governo do general Ernesto Geisel, embora se
propusesse a promover, gradativamente, a abertura política, não
decretou luto oficial, o que obrigou José Magalhães Pinto,
presidente do Senado, a mandar baixar a bandeira a meio-pau
hasteada, em sinal de luto, no prédio do Congresso, e o
Departamento de Censura proibiu a transmissão de comentários sobre
a carreira política de Goulart, através do rádio e televisão, só
permitindo “a simples nota do falecimento”, desde que não fosse
“repetida sucessivamente”.
Mesmo a autorização para que o seu corpo fosse sepultado no
Brasil, gerou sérias controvérsias, porque o general Sílvio
Frota, ministro da Guerra, tentou anular a autorização dada pelo
vice-presidente da República general Adalberto Pereira dos Santos,
para que o féretro atravessasse a ponte presidente Justo que ligava
a cidade de Paso de los Libres, na Argentina, a Uruguaiana, no
Brasil.
Não conseguiu. Só assim, doze anos, oito meses e quatro dias após
asilar-se no Uruguai, o presidente constitucional da República, já
sem vida, teve permissão de regressar
ao Brasil para ser enterrado em São Borja, onde nascera.
Perón convidara Goulart a residir na em Buenos Aires e
solicitou-lhe que
se encarregasse da elaboração do plano trienal para exportação
de carnes da Argentina. Goulart chegou a comprar um apartamento
em construção na Avenida del Libertador, em frente do Hipódromo
de Palermo, mas não conseguiu elaborar o plano para exportação
de carnes, porque José López Rega, homem ligado à Triple A
(Aliança Anticomunista Argentina), da extrema-direita , se opôs
à sua designação e impediu que ele tivesse outra audiência
com Perón que já estava bastante enfermo e do qual era secretário
particular. Perón faleceu pouco tempo depois, em 1° de julho
de 1974.
Estavam asilados na Argentina, desde 1973, e foram seqüestrados
no dia 18 de maio de 1976. Foram barbaramente torturados e
assassinados, sendo seus corpos dilacerados.Sobre esses
assassinatos vide Fialho, A. Veiga – Uruguai:
um campo de concentração, Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1979, pp. 136-149.
A Casa Militar do presidente Emílio Garrastazu Médici, sob a
chefia do general João Batista Figueiredo, ofereceu aos adversários
do governo do general Juan José Torres, através do ex-coronel
Juan Ayoroa, dinheiro, armas, aviões e até mercenários, bem
como permissão para instalar áreas de treinamento perto de
Campo Grande (Mato Grosso) e em outros locais próximos da
fronteira. E o golpe de estado, deflagrado pelo general Hugo
Banzer, contou com aberto apoio logístico do Brasil, cujos aviões
militares, sem ocultar as insígnias nacionais, descarregaram
fuzis, metralhadoras e munições em Santa Cruz de la Sierra,
enquanto tropas do II Exército, comandado pelo general Humberto
Melo, estacionavam em Mato Grosso, prontas para intervir na Bolívia,
onde alguns destacamentos chegaram a penetrar. Vide Moniz
Bandeira, L. A. – Estado
Nacional e Política Internacional na América Latina – O
continente nas relações Argentina – Brasil (1930-1992),
São Paulo-Brasília, Editora Ensaio/Editora da Universidade de
Brasília, 2a. Edição, 1995, pp. 244-245.
“Segundo o brigadeiro Márcio Calafange, que foi adido militar
em Santiago durante a ditadura do general Augusto Pinochet, a
cooperação através da Operação Condor envolvia até informações
sobre economistas brasileiros da Comissão Econômica para a América
Latina (Cepal) que eram investigados pela Dina (polícia secreta
chilena). Na lista de brasileiros que a Dina deveria acompanhar
estavam Fernando Henrique Cardoso, classificado como “agitador
com elevado poder de persuasão”, Florestan Fernandes, Caio
Prado Jr. e outros intelectuais e políticos”. Mas àquela
altura, Fernando Henrique Cardoso, que viveu no Chile nos anos
60, já se exilara em Paris. Hollanda, Eduardo – Contreiras, Hélio
– “O Condor Passa”, in IstoÉ
On-line 1596.
O Paraguai, governado pelo general Alfredo Stroessner, concedeu
a Goulart passaporte diplomático, com data de 16 de outubro de
1973. “O incrível acontecia: um presidente derrubado por
militares no Brasil ganha de uma ditadura militar um passaporte
de presente. A vocação latino-americana para o surrealismo se
confirmava numa noite de lua em Assunção. Em que outro lugar
do planeta uma ditadura militar de direita iria dar de mão
beijada um passaporte de presente a um político de esquerda
escorraçado pelo militares?”. Moraes Neto, G., op. cit.,
p.116. Somente em 8
de junho de 1976, já havendo o governo Geisel iniciado a
abertura gradual, foi que o Consulado Geral do Brasil em
Montevidéu concedeu um passaporte a Goulart, sob o número
CA001858, assinado pelo diplomata Raymundo Nonato Loyola de
Castro, chefe do posto. Goulart,
porém, jamais usou este documento de viagem. Id., ibid.,
p. 120
O governo brasileiro negou-lhe até a 2a. via da
carteira de identidade.
Para exportar mais carne, o governo do Uruguai proibira a
comercialização de carne durante certas semanas e ela levava
alguns quilos, do frigorífico de Goulart, para sua residência.
Pouco antes do golpe que derrubou Isabel Perón, o Exército
argentino desbaratou na cidade de La Plata um grupo vinculado à
extrema direita peronista – e integrado por marginais – que,
entre outros planos, confessou o de seqüestrar o filho de
Goulart para exigir alto resgate em dinheiro. Tavares, Flávio
– “Ameaças terroristas não o perturbaram”, in O
Estado de São Paulo, São Paulo, 7.12.1977, p. 7.
Goulart possuía duas fazendas, uma Tacuarembó (El Rincón), e
outra em Maldonaldo (El Milagro), além de uma casa de praia em
Punta del Este. El Rincón,
em Tacuarembó, destinava-se à engorda de gado e ao plantio de arroz. A
fazenda em Maldonaldo, El Milagro, tornou-se
centro de beneficiamento de arroz e de abate-distribuição
de gado, o que fez de Goulart um dos grandes fornecedores de
arroz e carne para o mercado consumidor de Maldonaldo, Punta del
Este e San Carlos.
“Eu sei viver é por lá, na minha região, no Sul. Se me
fecham todas as portas, só me resta comprar um
apartamento por aqui. Pelo menos ficarei perto de meus
filhos, que estão estudando em Londres” – Goulart declarou
ao jornalista Carlos Castello Branco, que o visitou, em Paris,
no Hotel Claridge (Champs Elysées), onde habitualmente se
hospedava. “Seu ar era de indefinível tristeza, embora
aparentasse a paciência e a serenidade que mantinha mesmo nos
momentos de maior tensão” – o jornalista comentou. Castello
Branco, Carlos – “Coluna do Castelo – Como um peão ronda
o seu galpão”, in Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 7.12.1976, p. 2.
Depoimento de Edmundo Moniz ao Autor.
Este relato, entre outras fontes, baseia-se em depoimentos de
Edmundo Moniz e Josué Guimarães, ouvidos pelo Autor em
distintas ocasiões.
Consta que Goulart fora incógnito a Portugal, cujo
primeiro-ministro, o socialista Mário Soares já antes o
convidara a residir em Lisboa. Mario Soares, porém, não se
recorda de haver feito qualquer convite a Goulart, com quem,
pessoalmente, nunca
esteve, nem tem notícia de sua passagem por Portugal.
Entrevista de Mario Soares ao Autor, por telefone, Strasbourg,
abril de 2001. O jornalista Hermano Alves, que era àquela época
correspondente de O Estado de São Paulo,
em Lisboa, e amigo
pessoal de Mário Soares, também não se recorda de
haver transmitido qualquer convite, nem sabe da passagem de
Goulart por Portugal. Entrevista de Hermano Alves ao Autor, por
telefone, Lisboa, abril de 2001.
Carta de Goulart a Cláudio Braga, Lyon 13.9.1976. Arquivo
particular de Cláudio Braga.
Ibid. Íntegra da carta: Lyon, 13/9/76. M/ caro Cláudio: C/ m
abraço amigo desejo a você e a seus familiares, Marcela e
nossos amigos, paz e felicidade.
Por
aqui tudo “andando” mais ou menos bem. Estou concluindo
m/exames médicos c/resultados bem razoáveis, considerando que
não me sujeitei nunca a prescrições e regimes. Alguns
“reparos” 2° os Mestres de Lyon e tudo evoluirá
satisfatoriamente. Soube aqui
que no Brasil as coisas se esquentaram c/a noticia
de meu possível regresso. Creio que se estão somando muitos
detonantes: eleições, situação econômica-social muito difícil
morte de JK c/repercussões de toda a ordem e da maior magnitude
(inesperada completamente para o governo) (Graves denúncias no
campo moral... etc. etc).
Sem
ter tomado nenhuma iniciativa estranho à reação inesperada
também para mim e para outros que lá estão e se sentia bem
informados (militarmente). Bem, de qualquer forma vamos
aguardar... /hora no silencio e expectativa.
As
coisas p/aí, como correm? Caso Mário não tenha dado nenhuma
solução, o que seria bastante
surpreendente convém veres c/ Bijuja a possibilidade de
conseguir algo ao menos pra desapertar até, eu aí, vender lãs
e novilhos. A solução
é tentar algum empréstimo a curto prazo... mas não parar!. Eu
participo também do pensamento de que se trata de um bom negócio.
E
Marcos Paz? E de Mercedes que noticias? Ainda no inverno ou o
tempo e pastagens já estão melhorando? Como fostes de Brasil?
Tudo bem?E o nosso Orpheu? E por Montevidéu tudo em ordem?
Vicente e Denise optimos (sic). Aguardo o neto, pra a quinzena
de outubro. Minha dúvida até o momento: ir e votar ou
aguardar. Em breve tomarei uma decisão t aviando.
Até
breve e outro abraço,
Jango,
Lyon, 13/9/76
E
a nossa Argentina, como está?”
Com Cláudio Braga. Projeto confirmado pelo deputado Almino
Afonso, em discurso na Câmara dos Deputados, em 5 de dezembro
de 1996. Jornal do
Commercio, Recife, 2 de setembro de 2001, 12.
Entrevista de Cláudio Bra ao Autor.
Waldir Pires fora Consultor-Geral da República no governo de João
Goulart e também estava asilado.
Entrevista de Cláudio Braga ao Autor.
Apud Moraes Neto, G., op. cit., p. 125.
Vide declaração de Maria Tereza Goulart a
Lourenço Flores e Rudolfo Lago, in “Jango – sem
vontade de viver, não se consegue viver”, Zero
Hora, Porto Alegre, 2.12.1996. O Autor esteve com
Goulart, em começo de 1976, um mês antes de seu falecimento.
Ele continuava realmente a fumar e ainda estava gordo, apesar de
que, segundo vários depoimentos, houvesse perdido muitos quilos
em dois meses.
De acordo com Manoel Leães,
àquela época, um agente do SNI procurou-o no seu
apartamento, como intermediário de um coronel do Exército, a
fim de transmitir-lhe que Goulart poderia voltar ao Brasil, sem
ser importunado. Desembarcaria em Brasília e apenas seria
ouvido rapidamente pela Polícia Federal. Ele comunicou o fato a
Goulart que lhe pediu fosse ao Rio de Janeiro consultar os
companheiros sobre aquela proposta, mas quando estava a
embarcar, no dia 6 de dezembro de 1976, recebeu um telefonema no
aeroporto, informando-o de que Goulart sofrera um enfarte.
Entrevista de Manuel Leães a Geneton Moraes Neto. Moraes Neto,
G., op. cit., pp. 121-122.
Gaspari, Elio. A Ditadura Encurralada. São Paulo: Companhia das
Letras, 2006, p.
315-318.
Jornal do Brasil,
Rio de Janeiro, 7.12.1976,
1° caderno, p. 18.
Id., 6.12.1986, 1° caderno, 2° clichê, p. 4.
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