Sob
o Sol de Telos:
Modernidade
entre Autonomia e Heterodeterminação
“Nossa
herança não é precedida por nenhum testamento”, afirmaria René
Char. (Apud: ARENDT, 1971: p.213) E eis aqui a necessidade absoluta
de “ser moderno” que foi objeto de desejo e estranhamento no
campo das artes. No entanto, como expressão específica de uma
forma de conhecer e sentir o mundo, as artes foram um dos muitos
campos passíveis a vivenciar os dilemas da modernidade. A noção
de superação crítica – cara aos filósofos iluministas – foi
escravizada pela idéia de progresso técnico/civilização
oitocentista e foi reencenada como “necessidade de ser moderno”
pelas vanguardas culturais e políticas do século XX. Assim, a razão
– weberianamente circunscrita – alcançaria uma precária
legitimidade com a obrigação de dar forma às massas (engenharia
social), esconjurar o carisma e superar a tradição.
Em
termos políticos, a indecisão entre autodeterminação,
ruptura permanente e desejo
de eternidade – característica do espírito da modernidade
– pode ser medida pelo fato de os homens deixarem de estar
satisfeitos com a existência de impérios a erguerem-se e perecerem
num movimento aparentemente estranho à sua vontade. Por conta
disso, passaram a desejar um mundo que pudessem julgar eternamente
duradouro, justamente porque viam a sua obra como absolutamente
nova e definitiva. (ARENDT, 1971: p.222) Portanto, abriu-se um
precipício para o diálogo quando os atributos da eternidade foram
forçados a entrar na mutabilidade da matéria criada, transformando
o entendimento da ruptura e da mudança em processo
de um Ser. A grande tragédia da modernidade foi justamente a
perda do potencial de autoconstituição do sujeito iluminista em nome de uma
história contada como mero capítulo do processo de secularização.(MARRAMAO,
1997: pp.77-83)
Cinema,
artes plásticas e poesia – altera
philosophia – deram formas expressivas aos dilemas
novecentistas presentes em outras áreas do conhecimento. A grande
ironia foi que o mundo desencantado pelos eternos
da técnica e da razão burocrática soubera reinventar novas
demandas por magia. Lembremos, então, com Norbert Elias (1994) que
a condição de mago está justamente relacionada ao desejo de
dominar forças – “externas”, “impessoais”,
“estranhas” – que não se tem domínio de fato, tanto mais
sentido nas sociedades massificadas do século XX, em que a
intensificação da frouxidão dos laços entre indivíduos esteve
na exata proporção de sua anônima interdependência. Assim,
tornou-se evidente que “massa” não significava coletivo
e que a ansiedade dos indivíduos em face ao “impessoal” e à
complexificação de papéis sociais alimentava vários mecanismos
compensatórios de construção da sensação de segurança. Nesse
sentido, a renovação dos saberes científicos e sua hegemonia no
cotidiano na forma de especialidades ou “expert systems” puderam minimamente equilibrar as várias
individualidades inseguras de
si em uma nova instituição: o Estado Burocrático.(GIDDENS,
1991)
Tal
condição civilizacional foi palco de novos paradigmas e campos
para o conhecimento e as artes, mantendo em recorrência as
seguintes constantes opositivas: transformação versus
estrutura; individual versus
coletivo; vontade versus
necessidade; subjetividade versus
objetividade; ordem versus
desordem; cultura versus
natureza; eros versus
civilização; modernidade versus
tradição; moderno versus
atraso. Expressos de forma antitética, esses pares dilemáticos
causaram uma grande derrota para a ética no século XX, justamente
porque a auto-reflexividade presente na noção iluminista de superação
crítica foi deslocada para a realização de um telos burocrático-tecnicista, tornando o futuro a estética da necessidade,
o que significava na prática borrar qualquer distinção entre as matérias
potenciais para ação do conhecimento e um determinado juízo
do sujeito
do conhecimento a seu respeito.
Ora,
mas a base da auto-reflexividade seria justamente o sentimento de
limite, de que algo resiste aos nossos esquemas explicativos. No
entanto, se a crítica torna-se um telos
burocrático-tecnicista, a sua metafísica implícita é insensível
a outras formas de conhecer
e de matéria do mundo do
conhecimento e, deste modo, revela o seu potencial de violência
e supressão da autonomia criativa. Eis o grande paradoxo da
modernidade quando cai numa chave metafísica. Eis o incômodo de
Hannah Arendt.
O
pressuposto básico do princípio
de realidade – categoria central para a delimitação do campo
do saber científico – é justamente a diferenciação qualitativa
dos níveis teórico e empírico. Dependendo da visão específica
de ciência que se considere, as abordagens podem pender mais numa
direção do que em outra, mas a distinção de tais níveis
permanece como chão comum, caso contrário, escaparíamos de
qualquer pressuposto de realidade para cair em formas expressivas de
idealismo, pragmatismo, subjetivismo ou dogmatismo. Logicamente,
dependendo para o lado que mais pese a balança do conhecimento, o
sentido de objetividade sofre alterações.
A
partir da década de 1930, delineia-se um quadro de ruptura com a
forma de fazer e conceber ciência do século XIX, embora não
necessariamente com a relação homem/natureza do ponto de vista da
modernização tecnológica. A meu ver, dois dos principais
contributos metodológicos da Relatividade para as ciências em
geral foram: romper com a idéia de linearidade do tempo e, deste
modo, com a contigüidade da relação causa/efeito; considerar que
qualquer investigação é precedida por um quadro de problemas ou
hipóteses explícitas.
Nesses
termos, os fatos ou fenômenos jamais falariam por si mesmos, não
encerrariam leis explicativas; pelo contrário, seriam resultados do
recorte feito pelo cientista ao propor um tema a ser desenvolvido a
partir de seu quadro de problemas ou hipóteses. Uma vez
estabelecidos os problemas ou hipóteses de trabalho, o cientista
buscará as fontes possíveis (matéria potencial para o conhecimento) que considere melhor
responder as suas demandas, tornando-as fato
passível de conhecimento a partir de seu recorte temático
ou dilemático para, por fim, construir sua teoria explicativa.
Portanto, o fim principal – a explicação de um fenômeno – será
necessariamente aproximativo, falível e parcial. Fundamentalmente:
não há ponto final para o processo do conhecimento. Justamente
quando se estabelece um ponto final obrigatório (todo telos
demanda isso) que um potencial de violência se instala no seio da
autonomia criativa e, por fim, sufoca-a.
Desde
o início, um fenômeno a ser explicado é resultado de um recorte
e, por isso mesmo, o seu resultado é parte.
É nesse sentido que deve ser considerada a noção de conhecimento
científico como parcial e, portanto, não se pode confundi-la com a
idéia de parcialidade
como uma questão de gosto ou preferência subjetiva, ou com a noção
de puro
fato do intelecto ao modo cartesiano. O salto qualitativo do
fazer científico novecentista em relação ao oitocentista foi
justamente ter distinguido fato/fenômeno de matéria
do conhecimento, implicando numa verdadeira revolução na
noção de objetividade científica: concebe-se um sujeito ativo ao
processo do conhecimento que tem o compromisso com a verdade, mas
sabe que sua relação com ela é geneticamente aproximativa.
Portanto,
ao mesmo tempo que não mais se explicava os fenômenos (sociais e
naturais) a partir de leis infalíveis, também não se aboliu a
distinção que funda o princípio de realidade. Tal distinção foi tão somente deslocada
para um patamar mais dialógico,
a partir do qual se pode questionar porquê certa investigação
científica estabeleceu um determinado recorte e não outro para
explicar um fenômeno, impedindo que o papel ativo concedido ao
sujeito do conhecimento transformasse qualquer explicação em uma
questão de gosto ou preferência egônica.
Todas
essas considerações acabam por demonstrar que muitas críticas (pós-)
estruturalistas da década de 1960 parecem um retrocesso
(neo)idealista, já que tenderam a tratar o conhecimento científico
como um “estilo discursivo”(de poder) entre outros, pretendendo
descentrá-lo e diluí-lo num desconstrucionismo crítico absolutamente
desfibrado, cujo efeito mais marcante foi estetizar
a percepção do campo do fazer científico, isto é, ratificar como
inevitável uma espécie de arché
institucional ou psicológica a abrigar indivíduos unidos pela
satisfação de pertencer a um grupo capaz de apreciar/realizar uma
dada forma de saber/belo.
Embora
os debates desconstrucionistas sobre a relação entre saber e poder
tenham sido muito importantes para a constituição de uma metacrítica
para os saberes científicos, artísticos e filosóficos, o seu
principal efeito nas décadas seguintes foi prender a
intelectualidade em novas armadilhas estruturalistas, porém,
expressas agora em escalas culturalistas que foram convenientemente
apropriadas pelos neoconservadores de finais da década de 1980.
Paradoxalmente, os desconstrucionistas não assumiram para si mesmos
que, no fundo, propunham sua própria sedução estruturalista, uma
espécie de fundamento do não-fundamento. Todas as tentativas de
desfazer o encanto dos conceitos fundamentais das formas
de conhecer centradas no sujeito passaram pelo paradigma da
linguagem, cuja autonomia tomou o lugar da subjetividade e assumiu a
forma de destino epocal de
todo Ser, ao ponto mesmo
de se diluírem todas as fronteiras entre a lógica e a retórica, a
fala séria e a fictícia. (HABERMAS, 1990: pp.237-240)
Ora,
o simples ato de se pretender explicar um fenômeno a partir de hipóteses
explícitas já informaria que há algo resistindo à vontade do sujeito
do conhecimento, que alguma coisa lhe escapa ou não se reduz às
suas estruturas lingüísticas,
categorias ou juízos e, portanto, impede qualquer fusão ou sobreposição
perfeita entre sujeito
conhecedor e matéria do
conhecimento; caso contrário, a própria noção de crítica
perderia seu sentido.
As
ferramentas intelectuais para se resistir a qualquer processualismo
nomológico (idealista ou positivista) já haviam sido dadas pela
Relatividade, mas perderam a sua força e especificidade devido aos
efeitos imprevistos de simplificação dos debates em torno da
“virada lingüística”. No entanto, como contraponto geracional,
no mesmo contexto podemos observar a brilhante produção literária
de Italo Calvino (1923-1985), que daria corpo às seguintes palavras
introdutórias de Sotto
il Sole Giaguaro:
“Vocês podem objetar que
preferem os livros que versem sobre uma verdadeira experiência,
possuída em sua plenitude. Bem, eu também. Mas na minha experiência
o impulso de escrever está sempre ligado à falta de alguma coisa
que se gostaria de conhecer e possuir, de alguma coisa que nos
escapa...”. Ora, se não houvesse uma lacuna entre matérias
potenciais para ação do conhecimento e um determinado juízo
do sujeito
do conhecimento, o processo de conhecimento seria finito ou
tendente à estagnação.
No
entanto, o mergulho egônico
e desencantado da década de 1970, expressos em debates científicos,
políticos e artísticos, é compreensível se observarmos que havia
uma sensação geral de perda da qualidade no nível de vida e que,
portanto, o quantum de
desenvolvimento da ciência e dos meios tecnológicos não parecia
garantir em mesma proporção um aumento do bem-estar, libertação
das necessidades básicas do cotidiano e um aumento da sensação de
segurança. Afinal, desde o final da II Guerra Mundial (1939-1945),
os efeitos não previstos pelos teóricos da Relatividade riscaram
os céus com os perigos de um holocausto nuclear. Além disso, as
guerras revolucionárias de independência na África e na Ásia
explicitaram toda a insensibilidade e arrogância da “Razão
Ocidental”; a crise econômica mundial iniciada em meados da década
de 1970 e os problemas ecológicos trouxeram consigo desconfianças
sobre os efeitos necessariamente benéficos do progresso científico. Parecia que as
possibilidades nefastas de uma dada forma de se conceber a relação
entre homem e saber não diferenciava os sistemas econômicos
mundiais socialistas e capitalistas.
Assim,
sob o mesmo Sol de telos,
todos pareciam variavelmente
iguais, tais como as manchas de um leopardo. Por tudo isso, não
é de se espantar que uma geração fin
de siècle – cansada dos parcos resultados do grande mago
tecnológico do sistema dos “especialistas” – sentisse-se
desobrigada com o futuro,
enclausurando-se em vários presentes
de consumo, em ciclos restritos indiferentes a tudo e, ao mesmo
tempo, ciosos de suas tradições recompostas – tão obsolescentes
quanto a moda. Nas décadas de 1980 e 1990, o clima de “against
ideology” e o pragmatismo (mais ou menos articulado) por parte
da intelectualidade dariam o tom à aparente liberdade suscitada
pela “crise do sujeito” iluminista.
No
entanto, penso que a sedução de telos
– tão criticada desde a década de 1960 – não desapareceu
propriamente, apenas mudou de escala e objetos: passando-se do macro
ao micro, fechou-se qualquer chance para a auto-reflexão e fundou-se
um novo paradigma mental
sem istmos,
simplificando ou impedindo qualquer discussão profunda sobre o
abismo efetivamente existente entre a evolução tecnológica, os
modelos de progresso, as reações a eles e o bem-estar sócio-ambiental.
Ao final, podemos constatar que algo ficou em aberto para
aprendizado futuro: a assunção sem culpa de uma forma
de saber genuinamente auto-reflexiva, ou seja, sem um telos
processualista futurístico ou fundamento apriorístico, e a
possibilidade de se pensar o rigor científico sem a rigidez dos
campos institucionais de interesse e poder.
por
ALEXANDER MARTINS VIANNA