Eleições
2006: a queda
dos velhos caciques ou a emergência de uma nova regionalização no
país (I)
-
Regionalismo,
acordo e voto
Desde
o clássico ensaio de Victor Nunes Leal, o poder das lideranças
regionais na política brasileira tinham tido tanta validade para
explicar os descaminhos das incertezas eleitorais como a que ocorre
após as eleições de 2006.
A
tese conhecida de Leal é que a emergência do pode central no país,
a urbanização acelerada e a lenta decadência dos patriarcas dos
grotões do Brasil fomentaram a formação de um tipo de processo de
negociação tácita muito peculiar no país que o autor denominou
de coronelismo. Ao contrário do que muito depois se disseminou, o
coronelismo não foi o nome de batismo da força dos patriarcas
rurais, mas expressão de seu ocaso. O coronelismo teria sido um
estratagema para que patriarcas rurais do Brasil Profundo pudessem
estabelecer algum fio de poder para com os novos senhores da política
nacional, instalados no poder central do governo federal e, até
mesmo, governos estaduais. Para tanto, criaram a estrutura de curral
eleitoral para eleger parlamentares seguros em cabresto curto. O que
parecia força era uma tentativa desesperada de ficar pé em algum
pedaço de poder que lhes restava.
Há
alguns anos, alguns pesquisadores sociais vaticinaram o fim do
coronelismo brasileiro. As velhas raposas da política regional,
algumas alçadas ao cenário político nacional através da sua eleição
para o Senado ou Câmara Federal, estariam vivendo seu estertor, em
virtude de um novo segmento de classe e estilo de governar que se
instalava no Estado nacional. Este vaticínio poderia ser
sinteticamente definido jocosamente como um tiro no escuro que
atingiu um alvo não visto. Não ocorreu efetivamente o desmonte de
estruturas de poder local por substituição de um modo de governar
mais racional ou de um Estado povoado de técnicos e especialistas
de grande envergadura. Mas, com efeito, as velhas raposas políticas,
o velho estilo intimidador e a tradicional sustentação a partir de
currais eleitorais intimidados e chantageados parecem ter sofrido
duro golpe nas eleições deste ano.
Após
um forte movimento de volta à centralização orçamentária e política,
iniciada com o governo Collor, mas reforçada nos governos FHC e
Lula, o país parece viver um novo surto de fortalecimento de
lideranças regionais. São vários os fatores que possibilitam esta
tendência. Uma delas é o sistema inusitado de presidencialismo
desenhado pela Constituição Federal. Nossa Constituição de 88,
com já vários autores destacaram, preparou o terreno para a adoção
do parlamentarismo, que nunca ocorreu. Daí, a forte centralização
ficou caudatária dos parlamentos e das negociações intermináveis
entre o executivo e o legislativo. A fissura aberta, que é a busca
incessante da governabilidade do governante eleito, ao debelar
relativamente o poder central do Presidente da República, aumenta o
poder dos governadores sobre suas bancadas estaduais. Para
incrementar esta complicada engenharia política, as eleições
bienais geram uma gincana que exige que um campeão de votos tenha
que se submeter a nova provação logo após conseguir emplacar seu
primeiro orçamento. Assim, O Presidente e Governador eleitos têm
seu primeiro ano para organizar seu staff e negociar seu orçamento com o parlamento para, no ano
seguinte, preparar sua nova provação em eleições municipais.
Todo
este circuito é sempre acompanhado pela intermediação de
parlamentares estaduais e federais, múltiplos acordos negociados
pelo séqüito de assessores parlamentares que fazem as operações
políticas que ligam eleitores aos gabinetes parlamentares e,
destes, para as agências de governo. Uma malha de poderes e
contra-poderes que cruzam os partidos políticos, personalizam os
acordos e negociações e fazem do poder vigente uma estrutura
sustentada por uma rede frágil e instável.
O
fato é que antigos patriarcas da política parecem sofrer duros
golpes eleitorais neste ano. O mais impressionante foi o caso
baiano, que desbancou a estrutura montada ao redor de Antônio
Carlos Magalhães a partir da aliança local entre PT e PMDB e forçou
uma debandada significativa de mais de trinta prefeitos baianos do
PFL para o PMDB. Outro caso significativo foi a derrota da família
Sarney no Maranhão. Contudo, o velho patriarcalismo regional parece
ter sido substituído por um novo regionalismo. Ao contrário do que
poderia parecer, o regionalismo tradicional não foi superado pela
nacionalização da política, pelo aumento do poder central ou por
um discurso estratégico nacional.
Ao
contrário, o país parece mais mosaico político que nunca, mais
dividido em interesses regionais e locais, mais identificado com
pautas negociadas em cada região e Estado.
-
As
eleições de 2006 e o fortalecimento de um novo regionalismo
O
novo regionalismo é marcado principalmente pelo aumento da força
dos governadores. Ao menos treze governadores eleitos possuem
bancadas expressivas na Câmara Federal, como é possível perceber
na tabela apresentada a seguir: o governador eleito possui uma
bancada federal onde ao menos 50% é vinculada diretamente à coligação
que o elegeu. Em parte significativa desses Estados, a coligação
que elegeu o governador elegeu os deputados mais votados. Os Estados
que apresentaram a pior performance foram Goiás, Pará, Rio Grande
do Sul e Amapá, onde os governadores eleitos terão entre 17,6% e
12,5% da bancada eleita para a Câmara Federal diretamente vinculada
à sua coligação.
Tabela
01
Percentual
de deputados federais pela coligação do governador eleito, no
total da bancada estadual
|
Estado
|
%
Deputados Eleitos
|
|
Acre
|
75,0
|
|
Ceará
|
63,6
|
|
Rio
Grande do Norte
|
62,5
|
|
Santa
Catarina
|
62,5
|
|
Tocantins
|
62,5
|
|
Roraima
|
62,5
|
|
Rio
de Janeiro
|
60,8
|
|
Minas
Gerais
|
58,4
|
|
Mato
Grosso
|
50,0
|
|
Mato
Grosso do Sul
|
50,0
|
|
Paraíba
|
50,0
|
|
Amazonas
|
50,0
|
|
Espírito
Santo
|
50,0
|
|
Pernambuco
|
46,0
|
|
Piauí
|
40,0
|
|
Maranhão
|
38,5
|
|
São
Paulo
|
38,5
|
|
Bahia
|
38,4
|
|
Sergipe
|
37,5
|
|
Alagoas
|
33,3
|
|
Paraná
|
26,6
|
|
Rondônia
|
25,0
|
|
Distrito
Federal
|
25,0
|
|
Goiás
|
17,6
|
|
Pará
|
17,6
|
|
Rio
Grande do Sul
|
16,1
|
|
Amapá
|
12,5
|
Na
maioria dos Estados, além do governador obter uma bancada mais que
expressiva diretamente vinculada à sua coligação, houve demonstração
nítida de transferência de votos, onde os deputados mais eleitos
eram diretamente vinculados ao núcleo central de coordenação da
campanha ou, no caso de reeleição, do núcleo central de governo.
Em
relação às bancadas estaduais eleitas, ao menos nove coligações
que elegeram os governadores também conseguiram fazer bancadas
muito expressivas: Ceará, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul,
Minas Gerais. Pará, Paraíba, Santa Catarina e São Paulo.
Como
se percebe, os governadores de Ceará, Mato Grosso do Sul, Minas
Gerais, Mato Grosso, Paraíba e Santa Catarina iniciam sua gestão
com a situação mais confortável, apoiados em bancadas estaduais e
federais expressivas.
|
ESTADO
|
Governador
|
Coligação
|
N°
deputados federais eleitos
|
N°
de cadeiras disponíveis - deputado federal
|
N°
deputados estaduais
eleitos
|
N°
de cadeiras disponíveis - deputado estadual
|
|
ACRE
|
Binho Marques
|
PT - PP / PL / PRTB / PMN
PSB /PCdoB
|
6 deputados, sendo os 4
primeiros mais votados pertencentes da coligação
|
8 VAGAS
|
|
24 VAGAS
|
|
ALAGOAS
|
Teotônio Vilela Filho
|
PSDB - PMDB / PPS / PSDB
PT do B
|
3 deputados, sendo o 2°
colocado.
|
9 vagas
|
4 deputados.
|
27 vagas
|
|
AMAPÁ
|
Waldez
|
PDT - PDT / PP / PMDB / PV /
PSC / PRONA
|
1 Deputado
|
8 VAGAS
|
6 deputados, sendo o 1° mais
votado.
|
24 VAGAS
|
|
AMAZONAS
|
Eduardo Braga
|
PMDB - PP / PTB / PMDB / PRTB / PMN
|
4 deputados, sendo o 1° mais
votado
|
8 VAGAS
|
10 deputados, sendo o 2ª e 3°
mais votados.
|
24 VAGAS
|
|
BAHIA
|
Jaques Wagner
|
PT - PT / PMDB / PC do B / PSB
/ PPS / PV / PTB / PMN / PRTB
|
15 deputados eleitos, sendo o 3°
mais eleito
|
39 VAGAS
|
21 deputados
|
63 vagas
|
|
CEARÁ
|
Cid Gomes
|
PSB - PSB / PT / PC do B / PMDB
/ PRB / PP / PHS / PMN / PV
|
14 Deputados, sendo os 4
primeiros mais votados
|
22 VAGAS
|
20 deputados, sendo 2°,3° e 4°
mais votados
|
46 vagas
|
|
DISTRITO FEDERAL
|
Arruda
|
PFL - PP / PTN / PSC / PL / PPS
/ PFL / PMN / PRONA
|
2 Deputados, sendo o 2° mais
eleito
|
8 VAGAS
|
9 deputados
|
24 VAGAS
|
|
ESPÍRITO SANTO
|
Paulo Hartung
|
PMDB - PTB / PMDB/ PFL / PSDB
|
5 Deputados, sendo o 3° mais
votado
|
10 VAGAS
|
12 deputados
|
30 vagas
|
|
Estado
|
Governador
|
Coligação |
N°
deputados federais eleitos
|
N°
de cadeiras disponíveis - deputado federal
|
N°
deputados estaduais
eleitos
|
N°
de cadeiras disponíveis - deputado estadual
|
|
GOIAS
|
Alcides
Rodrigues
|
PP/
PTB/ PTN/ PL/ PPS/ PAN / PRTB / PHS / PMN / PV / PRP / PSDB/
PTdoB
|
7 deputados
|
17 vagas
|
20 deputados
|
41 vagas
|
|
MARANHAO
|
Jackson
Lago
|
PDT / PPS / PAN
|
03 deputados
|
18 VAGAS
|
06 deputados
|
42 VAGAS
|
|
MATO
GROSSO
|
Blairo
Maggi
|
PPS
- PP / PTB / PMDB / PTN
PL / PPS / PAN / PRTB / PMN / PTC / PSB/ PV
|
4 Deputados.
|
8 VAGAS
|
17 deputados
|
24 vagas
|
|
MATO
GROSSO DO SUL
|
André
Puccinelli
|
PMDB
- PMDB / PSC / PL / PPS / PFL / PAN / PRTB / PMN / PTC /
PSDB/ PTdoB
|
4 deputados
|
8 vagas
|
14 deputados
|
24 VAGAS
|
|
MINAS
GERAIS
|
Aécio
Neves
|
PSDB
- PP / PTB / PSC / PL / PPS / PFL / PAN / PHS / PSB /
PSDB
|
31 Deputados
|
53 vagas
|
39 deputados
|
77 vagas
|
|
PARA
|
Ana
Júlia
|
PT / PRB / PTN / PSB /PCdoB
|
03 Deputados
|
|