Resenha
José
Carlos REIS. As identidades
do Brasil 2: de Calmon a Bomfim. A favor do Brasil: direita ou
esquerda? Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, 240p.
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Do Brasil, S.O.S. ao Brasil
Ensaio de história intelectual, o livro As
identidades do Brasil 2: de Calmon a Bomfim.
A favor do Brasil: direita ou esquerda?
é a mais recente incursão de José Carlos Reis nos debates
sobre o problema da identidade e do caráter nacional. A obra se
inscreve nas longevas querelas da brasilidade e renova tal tradição
que modelou, temperou e constituiu o tônus da inteligência
brasileira desde as primeiras horas do nativismo romântico. O lançamento
também dá continuidade ao primeiro As
identidades do Brasil, de Varnhagen a FHC publicado há sete
anos atrás e, atualmente, já na oitava edição. No entanto,
diferente dessa obra anterior, As
identidades do Brasil 2 cifra-se
numa provocação.
Em 1999, José Carlos Reis preferiu a neutralidade do
observador. Ele então sugeriu a trajetória histórica da idéia de
nação brasileira e sem instilar qualquer traço evolucionista
descreveu o longo percurso de mutações intelectuais por que
atravessamos durante os séculos XIX e XX.
Desse modo, brindou-nos com uma admirável orgia de
interpretações do ser nacional, percorrendo uma linhagem
inaugurada na História geral
do Brasil de Adolfo Varnhagen e concluída na teoria da dependência
de Fernando Henrique Cardoso. Agora,
com a publicação de As identidades
do Brasil 2, Reis
altera sua abordagem e assume outra atitude autoral.
Ele não apenas concentra o foco da interpretação em um único
período histórico como também interpela criticamente a quatro dos
mais importantes pensadores e historiadores brasileiros dos anos
1930. Com efeito, seu exame dos clássicos História da civilização brasileira (1933) de Pedro Calmon; Conceito
de civilização brasileira (1936) de Affonso Arinos;
Evolução do povo brasileiro (1933)
de Oliveira Viana; e, finalmente, de O
Brasil nação: realidade e soberania brasileira publicado por
Manoel Bomfim em 1931 está vazado por uma disposição julgadora
que indaga: que idéias atuaram a favor do Brasil?
Provocadora, essa indagação é um recurso da retórica
historiográfica. Ela instala uma voz autoral saliente e ativa que
incide sobre tais obras, mas simultaneamente dirige-se à atualidade
do tempo presente reclamando pelo engajamento e participação do
leitor. Há aqui um aspecto que merece particularmente ser festejado:
As identidades do Brasil 2 foi
escrito para os homens comuns e com simplicidade. Sem prejuízo à
evidente erudição do autor — que atravessa por um repertório
bibliográfico consistente, mobilizando as idéias de Foucault,
Bahbha, Ricoeur, Koselleck ou outros que teorizaram sobre o caráter
constituinte da narrativa (leia-se: linguagem & tempo) na formação
da identidade —, trata-se de um texto coloquial voltado para o público
não especializado. Mas,
além disso, tal provocação possui efeitos substantivos que
ultrapassam os aspectos formais da escrita e não afetam somente à
dinâmica da interlocução entre autor e leitores.
Quando indaga sobre os ideais de civilização que
atuaram a favor ou contra o Brasil, José Carlos Reis se enreda em
problemas bastante espinhosos.
Por um lado, ele confirma o caráter clássico dos livros de
Pedro Calmon, Affonso Arinos, Oliveira Vianna e Manoel Bomfim (“Um
clássico é um livro que
nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.” —
escreveu Ítalo Calvino), rendendo-lhes justas homenagens.
De outro lado, porém, invade o acidentado território do
julgamento histórico. E isso o conduz, por fim, às seguintes e
ainda bem mais embaraçosas questões:
A permanência e a vitalidade dos clássicos do pensamento
brasileiro nos autorizam a julgar suas visões de sociedade no mérito
dessas lições? Se
sim, então, a partir de qual Brasil se enunciam tais juízos? Quer
dizer, existe o Brasil profundo e verdadeiro que serve como métrica
para avaliar quem está a favor ou contra ele? Aliás, exatamente,
quem é ele? Ou melhor:
qual das vozes, dentre todas as que apareceram nos dois volumes de As
identidades do Brasil,
foi capaz de capturar o seu ser?
Todas essas indagações querem nos levar a reconhecer
e aceitar os limites cognitivos da História (em particular, os
limites da história intelectual) — sem que isso, obviamente,
envolva renunciar à possibilidade de haver conhecimento
compartilhado (i.é: não idiótico) sobre o passado.
Afinal, considerando que o acesso epistemológico aos tempos
passados dá-se sempre através de narrativas (ou vestígios) que
necessariamente expressam perspectivas situacionais e determinadas,
então, como encontrar — malgrado simpatias ou antipatias —
o discurso genuíno e verdadeiro acerca da realidade histórica?
Em outras palavras: existe uma fala autentica sobre o Brasil
capaz de validar e corrigir todos os demais discursos?
Ou não, e aquilo que efetivamente existe é uma realidade
primeira contra a qual podemos aferir o grau de veracidade e
verossimilhança dos discursos (tratados como representações ideológicas)?
Caso seja assim, então, qual dos pensadores foi capaz de
compreender e capturar a tessitura dessa realidade? E por que os
seus recursos epistemológicos seriam superiores aos dos demais intérpretes
do Brasil?
Muito bem. A principal virtude de ambos os volumes de As
identidades do Brasil reside na exibição de uma pluralidade
discursiva acerca do ser nacional.
E sua importância teórica está justamente no fato de
impedir soluções fáceis para qualquer uma das indagações acima.
No entanto, contraditoriamente, no segundo volume, José
Carlos Reis ora é “mestre de cerimônias” dessa polifonia, ora
explicita predileções intelectuais e políticas democráticas que,
embora sejam compreensíveis, também são teoricamente insustentáveis.
O problema é que, desgraçadamente — e a despeito do
que a intelligentsia
brasileira pensou em meados dos anos 1980 —, a
democracia não
é um valor universal (sendo possível até cometer atrocidade
em nome dela). Portanto,
salvo melhor juízo, não há razão suficiente para torná-la critério
de aprovação ou validação das idéias.
Ademais, no cânone ocidental, raríssimos foram os
pensadores favoráveis aos seus princípios participativos e igualitários. Platão, por exemplo, (para mencionar apenas um dos
primeiros) foi sabidamente um reacionário. E nem de longe tem sido
essa a justificativa para há séculos visitarmos (ou não) os seus
Diálogos. Platão não precisa ser avaliado pelos credos políticos que
sustentava, mas porque nos ensinou a pensar. Sua filosofia nos deu régua
e compasso, i.é, instrumentos intelectuais, que nos ensinaram a
compreender, aferir, imaginar e construir as medidas do mundo (e
inclusive aquelas que usamos para julgá-lo).
Ora, nas devidas proporções, esse mesmo raciocínio
se aplica a Pedro Calmon, Affonso Arinos, Oliveira Vianna e a Manoel
Bomfim. Afinal, seus
esforços de fixação e entendimento da idéia de civilização
brasileira constituem, apesar das suas inclinações autoritárias
ou democráticas, um repertório seminal de fórmulas teóricas, insights
criativos, cálculos da ação, esquemas explicativos, visões de
mundo, recursos persuasivos, possibilidades compreensivas etc.
Enfim, penso que a atualidade de suas obras não se esgota em
qualquer medida de proximidade com o espectro político da esquerda
ou da direita, mas consiste no fato de serem mestres da inteligência
brasileira. Quer dizer, junto a muito outros, eles são fontes
constituintes das nossas habilidades intelectuais e competências
cognitivas para definir a consistência daquilo a que chamamos de
realidade brasileira. E, nesse sentido, pavimentaram nossa experiência
do mundo, pois tem sido com eles e através dos tempos que há gerações
estamos construindo um duradouro e inconcluso diálogo sobre o que
somos nós.
Polifônica, essa querela brasileira nos tem feito
refletir sobre o problema da identidade sem que pudéssemos
cabalmente definir o que é o Brasil e o que somos nós, os gentílicos
da terra. E por fim resta lembrar da desconcertante, mas luminosa,
lição de Carlos Drummond de Andrade que em 1934, nos versos finais
do poema Hino Nacional,
escreveu: “Nenhum Brasil
existe. E acaso existirão os brasileiros?”.
por
NORMA CÔRTES