por ANDRÉ TORTATO RAUEN

Professor do Departamento de Economia da Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC. Economista e Mestre em Política Científica e Tecnológica.

 

Ciência, tecnologia e economia: características frente à primeira e segunda revoluções industriais

   

O artigo que se apresenta, tem por objetivos discorrer sobre as principais características da relação entre ciência, tecnologia e economia tanto num período histórico marcado pela primeira revolução industrial, quanto naquele que se segue após a segunda revolução industrial. Portanto, defende-se a hipótese de que a distinção fundamental entre estes dois períodos históricos é justamente o fato de que ora a técnica precedeu a ciência e ora a ciência precedeu a técnica. Tal como se verá a seguir.

O padrão do progresso tecnológico ou o relacionamento entre ciência e tecnologia presente na segunda revolução industrial foi qualitativamente diferente do verificado quando da primeira revolução industrial. Comecemos, pois, com a caracterização deste padrão durante a primeira revolução.

As principais inovações introduzidas pela primeira revolução industrial, diziam respeito principalmente à criação da máquina a vapor, a qual difundiu-se da indústria aos transportes, revolucionando o funcionamento de todo o conjunto da economia.

No contexto da primeira revolução industrial, o progresso técnico era desenvolvido através da precedência da técnica sobre a ciência. Ou seja, a observação empírica determinava a criação das inovações. Um exemplo clássico, que é citado tanto por Landes (1969) quanto por Freeman (1974) é o da influência que a máquina a vapor teve sobre a criação da teoria termodinâmica. Assim sendo, a produção tinha de “confiar num empirismo talentoso” (Landes, 1969). 

Contudo, esta relação de precedência da técnica sobre a ciência inerente à lógica da primeira revolução industrial após seu pleno desenvolvimento encontrava o esgotamento de suas possibilidades. Dessa forma, a introdução de novas máquinas, baseadas nessa relação entre tecnologia e ciência, não mais garantiam rendimentos suficientes para permitir a cobertura dos custos de sua compra. O padrão de desenvolvimento tecnológico existente não possibilitava mais a introdução no mercado das inovações, pois, estas já não eram mais economicamente viáveis. Esse processo de diminuição do produto marginal das inovações esta no cerne da explicação do esgotamento do padrão de desenvolvimento tecnológico baseado na observação empírica dos fatos.

Como resultado do avanço tecnológico permitido pela primeira revolução industrial, principalmente referente à queda no preço dos alimentos, ocorre uma mudança nos padrões de consumo. A elevação da renda per capita permitiu que camadas mais pobres da população passassem a demandar além de bens de primeira necessidade, produtos manufaturados.

Não obstante, a esta elevação da renda per capita, os aumentos de produtividade gerados pela introdução de inovações ao longo de todo o século XIX e referentes à primeira revolução, permitiram a queda dos custos reais de produção e a conseqüente deflação. Mas, com o já referido esgotamento do padrão de desenvolvimento tecnológico adveio a significativa diminuição do investimento autônomo e com ele a estagnação econômica, notadamente da economia inglesa, então motor da economia mundial.

A dinâmica que marca a transição de um padrão para outro diz respeito também à passagem de comando da economia, marcando assim, a ascensão dos Estados Unidos e da Alemanha em detrimento do Reino Unido.

A desaceleração econômica marcada pelo esgotamento do padrão de progresso tecnológico inerente a primeira revolução só foi revertido quando grandes avanços na área da ciência permitiram a criação e o desenvolvimento de novas técnicas que por sua vez possibilitaram a introdução de inovações, as quais permitiram a elevação do produto marginal das novas técnicas empregadas.

O progresso técnico neste contexto, quando da segunda revolução industrial, era alcançado através da precedência da ciência sobre a técnica. Em outras palavras, a observação empírica já não bastava para o desenvolvimento das inovações – obviamente o empirismo mostra-se ainda muito relevante. Isto não quer dizer que os problemas práticos não demandavam pesquisas, mas que agora o grau de complexidade requerido pelas inovações inviabilizavam a manutenção do paradigma anterior de resolução de problemas técnicos.

Sobre a transição do padrão de desenvolvimento tecnológico verificado entre a primeira e a segunda revolução industrial, Freeman (1974), afirma que as técnicas empíricas só deram lugar a uma nova concepção de criação de inovações quando estas alcançaram uma complexidade que as técnicas vigentes não podiam conceber.

Para Noble (1979), o período que precedeu a introdução da ciência no sistema produtivo, foi marcado pela distancia entre a ciência e as possíveis aplicações práticas e nada tinha haver com o que ele chama de atividade de money – making.

A transição do modelo baseado na técnica para o modelo de desenvolvimento tecnológico fundado na ciência segundo Landes (1969), ocorreu de forma inevitável. Uma vez que, a gama de problemas encontrados, não podia ser solucionada através da observação empírica dos fatos, muitas vezes isto era virtualmente impossível. Assim, com o passar do tempo o paradigma baseado na observação empírica não mais respondia a questões cada vez mais complexas. Surgindo daí, a necessidade de se modificar a forma como eram tratados o progresso tecnológico e o próprio desenvolvimento de inovações.

O desenvolvimento tecnológico presente na segunda revolução industrial, nada mais é para Noble (1979) que a transformação da ciência visando à acumulação de capital através das aplicações das descobertas no campo da física e da química, ambas inseridas no processo produtivo de linhas montagem.

A segunda revolução industrial caracterizou-se pela introdução do aço barato, da capacidade de não só gerar, mas de distribuir de forma estável energia elétrica, do motor a explosão e notadamente do que se convencionou chamar de administração científica, a qual dizia respeito à racionalização da produção no chão de fábrica, facilmente visualizada na difusão das linhas de montagem.

A consolidação do padrão de progresso tecnológico baseado no conhecimento científico, cria na economia um incentivo às corporações a aventurar-se nos caminhos tanto da pesquisa básica quanto da pesquisa aplicada. Pois, o surgimento de inventos, previstos ou não, com base nos conhecimentos científicos, não possuía precedentes na história econômica. A indústria encomendava então, seus desejos aos laboratórios de P&D assim como encomendava insumos de seus fornecedores (Landes, 1969).

A segunda revolução industrial também possibilitou que os processos produtivos fossem revistos. Os problemas logísticos advindos do aumento da escala de produção e uma conseqüente tendência à racionalização das atividades produtivas demandavam soluções fundadas na ciência. Assim, emergem a padronização e a metrologia, as quais permitiram a criação de respostas aos problemas enfrentados nessa nova dinâmica industrial.

O processo de transição do modelo empirista ao modelo científico caracteriza-se também por uma institucionalização do desenvolvimento tecnológico. Nesse sentido, o papel das grandes corporações é fundamental. Uma vez que, por motivos de escala os grandes conglomerados podiam mais facilmente que pequenas e medias empresas, incorrer no processo de pesquisa, pois, os elevados custos e riscos inerentes a essa atividade constituam-se em significativas barreiras à entrada.

Freeman (1974) e Noble (1979) concordam que a indústria neste momento histórico, internaliza o processo de P&D e profissionaliza a busca por inovações. Esta se dá, através da construção de uma, sólida, sistêmica e de grande escala, base de conhecimentos. O grande exemplo dessa dinâmica é a realidade encontrada na indústria química estadunidense, na qual, devido a grande complexidade do processo produtivo exigia – se que toda a análise feita sobre o mesmo dever-se-ia basear em conhecimentos científicos.

Noble (1979) afirma que o desenvolvimento tecnológico baseado em conhecimentos científicos ocorre lado a lado com a ascensão e o desenvolvimento das grandes corporações estadunidenses. Assim, entender o processo de desenvolvimento da grande corporação estadunidense é compreender como se deu a evolução do conhecimento técnico baseado na ciência.

O desenvolvimento das peças intercambiáveis, isto é, fabricação de peças uniformes foi sem dúvida alguma uma significativa mudança nos padrões de produção, que inclusive tornaram factíveis as linhas de montagem iniciadas a partir da segunda revolução.

Assim, o esgotamento do modelo presente na primeira revolução industrial marca um momento de ruptura na história do capitalismo de fins do século XIX e inícios do século XX, no qual passam a emergir as indústrias baseadas em conhecimentos e consolida-se a posição dominante das grandes corporações. É no interior desse processo, de consolidação da big science que emerge o hoje tão combatido modelo linear de inovação, ou science push model.

Não obstante ao esgotamento das possibilidades da observação empírica para a expansão de um novo ciclo econômico, e a transformação qualitativa da relação ciência/tecnologia já na segunda revolução industrial, a precedência da ciência sobre a técnica atinge toda sua potencialidade apenas no que alguns, ousam chamar de terceira revolução industrial, ou seja, na transição de um paradigma eminentemente fordista para algo parecido com uma especialização flexível da produção (Benko:1996), esta última, fortemente baseada nas rápidas transformações microinformáticas iniciadas ainda nas décadas de sessenta e setenta do século XX.  Portanto, deve – se encarar a segunda revolução industrial mais como um momento de transição entre ciência e técnica, do que realmente o completo fim da preponderância da técnica sobre a ciência, a qual só se esgota completamente no findar do século XX.

 

por ANDRÉ TORTATO RAUEN

   

 

 

 

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Bibliografia:

Benko, G. Economia, espaço e globalização na aurora do século XXI. Hucitec. São Paulo. 1996.

Freeman, C. A teoria econômica da inovação industrial. Alinza Editorial. Madrid. 1974.

Landes, D. The unbound prometeus. Cambridge University Press. Cambridge. 1969.

Mowery, D. e Rosenberg, N. Technology and the pursuit of economic growth. Cambridge University Press. Cambridge. 1989.

Noble, D. America by design. Alfred A. Knopf. New York, 1979.

Piore, M. Sabel, C.  The second industrial divide – possibilities for prosperity. Basic Books. E. U. A. 1984.

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