Ciência,
tecnologia e governabilidade no binômio emprego/desemprego (I)
Introdução
A
governabilidade tem despontado como um dos problemas mais sérios no
processo de democratização das sociedades latino-americanas. As
causas das dificuldades residem tanto em fatores conjunturais
externos, a crise econômica e financeira da ordem mundial, quanto
em características estruturais internas, padrões políticos
autoritários e sistema partidário fragmentado e instável, entre
outras.
O
trabalho procura contextualizar a problemática mediante a análise
da dinâmica e das tendências macro-econômicas e políticas da
expansão e centralização do capital financeiro, e seus impactos
nas respectivas economias nacionais. Tendo em vista a ascensão política
de acadêmicos e intelectuais e a sua incorporação ao aparelho do
Estado, com vistas a conferir legitimidade aos atos e prioridades do
poder público, em nome da "verdade" científica, segue-se
uma digressão ainda que sumária sobre os controvertidos impactos
de ciência e tecnologia, nas sociedades contemporâneas.
Finalmente,
a título de estudo de caso ou de comprovação empírica das hipóteses
levantadas, discute-se o fenômeno de desemprego, chaga das
sociedades industrializadas e das "emergentes" e as possíveis
políticas públicas de geração de empregos.
Sobre
o Conceito de Governabilidade
Após
décadas de regimes autoritários, as sociedades latino-americanas
deparam-se com o problema da governabilidade, um dos obstáculos
mais sérios no caminho da consolidação democrática e, portanto,
do desenvolvimento sustentável. Devem enfrentar o desafio de
construção de uma prática democrática em condições econômicas
adversas que tendem a acirrar os conflitos sociais, como o Movimento
dos Sem-Terra, e políticos como os debates sobre a legitimidade da
reeleição no Peru, na Argentina e no Brasil.
A
própria política econômica ditada pelo FMI – Fundo Monetário
Internacional, de desregulação, liberalização do comércio e
privatização de empresas estatais, tende a esvaziar os cofres do
Tesouro nacional, reduzindo concomitantemente a capacidade de
intervenção dirigida do Estado. O ônus das dívidas interna e
externa agrava o peso da dívida social, produto histórico de
desigualdades estruturais.
Numa
retrospectiva histórica, é possível caracterizar as sociedades
latino-americanas como passando por um processo de transição, sem
mudanças reais e significativas. A conquista da independência do
poder colonizador ocorreu sem a participação do povo, foi
profundamente marcada pelo sistema escravocrata e as relações
patrimonialistas decorrentes da propriedade das terras. Conseqüentemente,
a tarefa histórica de construção de um Estado moderno não foi
completada, devido a ausência de uma sociedade civil mobilizada e
politicamente motivada. A conquista da independência não deu
origem à construção de Estados nacionais baseados em organizações
sociais coesas e instituições cívicas sólidas. Mesmo a
industrialização do começo do século vinte, impelida por forças
externas, não afetou significativamente a estrutura social
existente, no sentido de transformá-la em uma sociedade democrática
moderna. A ausência de unidade nacional, devido as grandes
disparidades regionais, constitui um dos obstáculos mais sérios no
caminho de reformas sociais e da democratização. Obviamente, não
devemos esperar uma mera repetição de processos históricos em
condições temporais, espaciais e estruturais diferentes. A
industrialização, tardia em termos históricos na América Latina,
ocorreu quando a economia mundial iniciou uma fase de intensa
concentração e oligopolização, criando condições propícias
para a presença do Estado nas fases subseqüentes de substituição
das importações e de industrialização orientada para as exportações.
Essa constelação poderosa de atores econômicos e políticos
deixou pouco espaço e oportunidades para iniciativas criativas e
autônomas de empreendedores nacionais. Ademais, uma estreita
associação entre o setor agrário exportador e o setor industrial
orientado para o mercado interno, foi habilmente intermediada pelo
sistema financeiro. O amalgamento desses interesses econômicos e
políticos foi freqüentemente acompanhado por alianças, via
casamentos, de famílias, resultando na absorção de uma parcela
significativa da elite industrializante, pelos grupos de poder
tradicionais, identificados com o espírito arcaico e conservador da
antiga aristocracia rural.
Via
de regra, essas alianças perduram ao longo do século vinte,
mantendo-se nos centros do poder, tanto durante os governos autoritários
quanto os democráticos, com um discurso que transfere a
responsabilidade por suas mazelas e desmandos a forças incontroláveis
do capital financeiro internacional, que seria onipotente nesta era
de globalização.
Entretanto,
as pressões e reivindicações decorrentes da ingovernabilidade
manifestam-se em intensidade e ritmo crescentes, aproximando-nos
perigosamente aos limites da governabilidade. Os principais atores
políticos encontram cada vez menos espaço para alcançar um
consenso, ou fazer prevalecer seus interesses, contraditórios e
conflitantes, principalmente na hora de se proceder ao rateio de
recursos cada vez mais escassos do orçamento nacional. Embora o
Estado continue a abocanhar uma parcela substancial do PIB (Produto
Interno Bruto), uma parte crescente acaba sendo destinada ao serviço
das dívidas externa e interna; ao pagamento do funcionalismo público
e, ainda, ao socorro às finanças combalidas dos estados-membros da
Federação, restando muito pouco para investimentos produtivos
capazes de impulsionar o crescimento econômico. Os conflitos
manifestam-se ao nível da estrutura institucional, ou seja, nas
relações permanentemente tensas entre os diferentes setores econômicos,
empresários, sindicatos, banqueiros, e o poder executivo responsável
pelas políticas macro-econômicas como taxa de juros, câmbio e
tributação.
O
terceiro membro desse tripé, o poder legislativo, representa um
sistema partidário altamente viciado, procura defender
prioritariamente seus próprios interesses ligados a feudos, currais
e à reeleição, deixando pouco espaço à negociação e
entendimento visando a construção de um consenso nacional.
Quando
os diversos atores sociais se lançam na disputa por vantagens a
curto prazo e a qualquer custo, inviabiliza se o processo democrático
e a política de desenvolvimento em seu conjunto, por debilitar as
condições funcionais da governabilidade.
Utilizamos
o conceito de governabilidade com referência à funcionalidade do
regime democrático para assegurar os equilíbrios macro-econômicos
e a segurança jurídica que promove o desenvolvimento humano e a
proteção do meio ambiente, com base na confiança naqueles que
conduzem as políticas econômicas, sociais e culturais, com competência,
honestidade e transparência de seus atos.
O
contexto internacional, com seus reflexos no cenário nacional,
desperta mais temor e incertezas, quanto ao acerto das decisões dos
governantes, à luz da contradição aberta entre o objetivo de
ganhar a confiança dos credores e bancos internacionais, e a
necessidade de conquistar a confiança e os votos dos cidadãos que
esperam por políticas de desenvolvimento eficazes nas áreas econômica
e social. O tão alardeado plano de austeridade, procurando
restabelecer a confiança de credores e investidores internacionais,
conflita frontalmente com as aspirações da maioria da população,
em busca do pão de cada dia, ou seja, um emprego estável e um salário
decente.
A
governabilidade funciona quando as relações entre os diferentes
setores e grupos de interesse estão razoavelmente equilibradas,
permitindo ao Estado alocar, dentro de um consenso amplo e
negociado, os escassos recursos orçamentários.
Em
períodos de conjuntura econômica favorável caracterizados por
altas taxas de crescimento do produto social, a tarefa de distribuição,
mesmo quando não inteiramente eqüitativa, é facilitada já que
quase todas as camadas da população acabam sendo beneficiadas pelo
incremento das atividades e a conseqüente maior circulação do
dinheiro. Em tempo de "vacas magras", contudo, as
dificuldades se acumulam, particularmente quando o governo se vê
forçado a implementar um plano de austeridade, cortando fundo nos
gastos dos setores sociais, saúde, educação, habitação,
saneamento, transporte, a fim de recuperar ou restabelecer a confiança
dos investidores estrangeiros.
A
ruptura do modelo estatizante de desenvolvimento, a partir da ESAP
("Economic Structural Adjustment Policy" – política de
ajuste econômico estrutural) estreitou fortemente os limites de
competência do Estado e sua capacidade de intervenção planejada
na produção e distribuição de bens e serviços, materiais e simbólicos.
Como conseqüência praticamente inevitável, verifica-se a
deterioração da legitimidade do poder público, incapaz de prover
às necessidades básicas da maioria da população, resultando,
também, em paulatina perda de governabilidade.
Seria
possível restaurar a capacidade de intervenção do Estado,
orientando e coordenando as linhas-mestres do desenvolvimento,
enquanto as políticas macro-econômicas refletem a rendição
incondicional aos interesses do capital financeiro, nacional e
internacional? A guerra fiscal travada entre estados e até entre
municípios para atrair investimentos fortemente subsidiados e
beneficiados com generosas isenções de impostos e tributos,
constitui uma demonstração cabal da insustentabilidade do modelo
atual. Em vão procurar-se-á a racionalidade da política que tenta
atrair as montadoras para instalar novas fábricas, quando o mercado
está saturado, os pátios estão abarrotados de veículos e as fábricas
procedem com demissões em massa.
A
bem da verdade, a crise é de todas as sociedades industriais.
Contudo, os países mais ricos conseguiram elaborar alguns
mecanismos compensatórios que, apesar de altas taxas de desemprego,
não afetam diretamente a governabilidade do sistema. A situação
é totalmente diferente nos países de economias
"emergentes". Os longos períodos de governos autoritários
e as frustrações com as promessas de democracia e desenvolvimento
desanimam as populações sofridas, desviando-as de uma atividade
política incipiente, para os braços de seitas fundamentalistas ou
de grupos extremistas. Neste ambiente de incerteza e apreensão
quanto aos impactos dos movimentos especulativos do capital
financeiro internacional, é cada vez mais difícil surgirem
propostas de estratégias de desenvolvimento alternativo. Ao longo
das três últimas décadas, a economia tem apresentado baixos índices
de crescimento, combinados com uma baixa taxa de investimentos, por
volta de 16% ao ano. Em que pesem os exercícios escolásticos da
maioria dos economistas, não surgem propostas concretas de como
enfrentar a precarização das relações de trabalho, o subemprego
e o desemprego aberto. A desestruturação do mercado de trabalho,
com a queda do nível de emprego assalariado formal e a acelerada
expansão do mercado informal, parece enterrar definitivamente as
esperanças de se sair com algum saldo positivo das "décadas
perdidas".
A
política macro-econômica de se apostar na vinda da poupança
externa, apesar dos abalos sucessivos dos mercados financeiros, na
América Latina (México, 1994), no sudeste Asiático (Tailândia
1997), Rússia (1998) e, novamente, o Brasil em 1999, constitui um
poderoso e aparentemente incontrolável mecanismo de transferência
de recursos para fora do país, em prejuízo de propostas
alternativas baseadas no fortalecimento da poupança interna, via
reformas estruturais e a mobilização da sociedade civil. Cria-se
assim um impasse, do tipo caracterizado por Gunar Myrdal, já na década
de cinqüenta, como o "círculo vicioso da pobreza" –
uma dinâmica que reproduz e amplifica as condições de
subdesenvolvimento. Contingentes crescentes da população passam a
ingressar o exército dos desabrigados, desempregados e excluídos
da vida política e cultural de suas respectivas sociedades,
representando o maior obstáculo à conquista da sustentabilidade
democrática. Estima-se a proporção dos que não conseguem atender
às suas necessidades básicas, em metade da população
latino-americana para a qual a mobilidade social é um sonho cada
vez mais distante, enquanto a miséria se perpetua de geração em
geração. Os segmentos mais fracos e discriminados da população são
constituídos pelas crianças e mulheres. Uma grande parte das crianças
não chega a ingressar à escola ou abandona classes regulares antes
de concluir o primeiro grau. Entre 10 a 15 milhões de crianças com
menos de quatorze anos de idade trabalham em condições
extremamente duras, sem chances de freqüentar escolas. Por isso, o
número de crianças de rua expostas aos riscos de drogas, prostituição
e violência aumenta constantemente. Segundo estimativas da UNICEF
(Fundo das Nações Unidas para a Infância) a cada ano mais de um
meio milhão de crianças tornam-se vítimas fatais da pobreza na América
Latina. Outro grupo discriminado é composto pelas mulheres, das
quais 30% são chefes de família com a responsabilidade de
alimentar e sustentar seus filhos, sem apoio condizente do poder público.
Os índices de mortalidade materna e infantil continuam
escandalosamente elevados, apesar dos avanços incontestáveis da
medicina moderna. Entretanto, é o desemprego que continua a pesar
como maior problema nos países latino-americanos, particularmente
nas antigamente mais dinâmicas e prósperas áreas metropolitanas
de São Paulo e Buenos Aires, onde a taxa oficial alcançou 18% da
força de trabalho em 2000. Ademais, o desemprego aberto é
acompanhado por uma degradação contínua da qualidade dos empregos
ainda oferecidos. Mais pessoas são obrigadas a ingressar o mercado
de trabalho informal, o que significa uma sobrevivência precária,
à base de bicos e quebra-galhos, com baixa remuneração ou ganho,
e nenhuma estabilidade ou seguro social. Entre 1980 e 1997, a
percentagem da força de trabalho ocupada no setor informal da
economia urbana, cresceu de 40% para 56%. O salário real e,
portanto, a renda desses trabalhadores decresceu constantemente, fenômeno
também verificado pela queda dos salários daqueles que ainda
permanecem em empregos regulares. Como resultado dessa política
perversa, a participação do trabalho na renda nacional, em todos
os países da América Latina, diminuiu em média 30% durante os últimos
vinte e cinco anos.
Uma
das conseqüências inevitáveis dessa dinâmica perversa, é a erosão
da vida familiar, minada por desemprego e pobreza, com sérios
impactos na saúde física e mental das crianças, que se reflete em
baixo rendimento escolar. A cultura da pobreza constitui um caldo fértil
para o aumento da delinqüência e da criminalidade, particularmente
entre os adolescentes, sem escolas, empregos e pior, sem um
relacionamento afetivo com seus próximos, tornando-se assim em
verdadeiros parias das nossas sociedades.
Esta
situação calamitosa não é totalmente nova nem imprevista. Desde
o início dos anos noventa, organizações nacionais e
internacionais têm chamado a atenção para a deterioração
insuportável das condições de vida de uma parcela muito ampla da
população nos países latino-americanos. O Banco Mundial, o Banco
Interamericano de Desenvolvimento e o PNUD – Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento – manifestaram-se com críticas
insistentes ao "escândalo da pobreza", no meio de consumo
conspícuo e de desperdício vergonhoso pela elites, neste
subcontinente dotado de tanta riqueza em recursos naturais e
humanos.
O
Estado e a política de Ciência e Tecnologia
A
construção da sociedade democrática sustentável enfrenta obstáculos
decorrentes de conflitos econômicos e políticos na arena
internacional e, também, de fatores resultantes de relações
conflitivas internas entre os diversos atores sociais. Instituições,
valores e tradições jurídico-legais herdados do período colonial
e escravocrata, mesmo quando adaptados e remendados por várias
constituições, não se prestam a soluções negociadas e
consensuais próprias ao regime democrático. A persistência do
latifúndio e a concentração das terras nas mãos de poucos; a mísera
remuneração do trabalho manual, sobretudo nas áreas rurais; a
alta taxa de analfabetos e os serviços inadequados de educação e
saúde não foram alterados nas décadas do acelerado crescimento
econômico que acompanhou a industrialização e urbanização. A
estrutura do poder centralizador e autoritário que funcionou
durante o regime militar ou ditatorial não foi efetivamente
democratizada por um processo de renovação dos quadros políticos.
A maioria dos “representantes do
povo” no Congresso parece ter cadeira cativa, tendo
atravessado incólume as mudanças constitucionais e da lei
eleitoral. Conservadores, apesar do discurso freqüentemente
populista e demagógico, e árduos defensores do status
quo esses atores são visceralmente incapazes de consentir em
reformas estruturais, a fim de acomodar ou conciliar os interesses e
aspirações contraditórios que agitam a sociedade e dificultam sua
governabilidade em um regime democrático.
Entretanto,
durante os últimos três séculos, o Estado constituiu-se em marco
jurídico, legal e político responsável pela organização
territorial das atividades econômicas e culturais, ajustando os
padrões de produção e consumo do produto social e legitimando seu
poder de coerção para a distribuição desigual de benefícios e
sacrifícios, inclusive as prioridades de investimentos e a alocação
de recursos escassos. Sujeitando-se a um projeto ultraliberal – a
retirada do Estado das funções produtivas e de planejamento –
ficou enfraquecida a base material e simbólica que sustentava a
eficácia e a legitimidade do gestor público. Incapaz de prover as
necessidades básicas da maioria da população, em termos de serviços
de educação e saúde, habitação, segurança e emprego, o Estado
perdeu paulatinamente a credibilidade e a capacidade de governar por
processos democráticos. O enfraquecimento do Estado procede também,
via guerra fiscal entre os governos estaduais e até municipais.
Para
atrair investidores estrangeiros, comprometem-se recursos presentes
e receitas futuras, tudo com o consentimento tácito ou explícito,
do governo federal que se vê freqüentemente envolvido em gastos
irresponsáveis que aumentam o déficit público.
Como
reverter essa tendência perversa ?
As
atividades espontâneas de indivíduos ou grupos locais dificilmente
terão impactos se não forem alimentados e empoderados pela ação
de planejadores e políticos. Necessitamos de um planejamento
compreensivo para maior autonomia local. Em outras palavras, para
transformar a dependência externa em autonomia é preciso
transformar as relações entre o Estado e a sociedade civil,
levando a população a assumir seu papel de protagonista social
através de uma participação política intensa e crescente.
Para
que isto aconteça, é preciso contrabalançar a lógica de poder
piramidal do Estado, com as demandas por autonomia política
emanadas da sociedade civil. É através de experiências efetivas
de autonomia que se poderá superar o preconceito de vínculo
estreito entre eficiência e processos decisórios centralizados.
Negar o papel do Estado e de políticas públicas na execução do
planejamento e de alocação de recursos é irrealista e ideológico.
Mas, submeter as organizações sociais e produtivas geradas pela
sociedade civil a um Estado "macrocefálico" significaria
corromper o processo de desenvolvimento em direção à autonomia e
democracia.
Caberia
aos cientistas apontar as opções de desenvolvimento, não como um
projeto monolítico controlado pelo Estado ou um grupo hegemônico,
mas como o resultado de uma multiplicidade de projetos individuais e
coletivos que se empoderam e reforçam mutuamente.
Neste
contexto, as doutrinas e modelos científicos, em vez de prestar uma
contribuição ao conhecimento da dinâmica econômica e social, se
transformam em pura apologia a serviço do capital financeiro e das
elites dominantes.
Teorias
científicas tratam de um conjunto de fenômenos interligados e com
dinâmica própria, procurando explicar e prever possíveis tendências
e desdobramentos.
A
economia, como esforço de sistematização do conhecimento, esteve
desde sua origem estreitamente ligada às relações de poder na
sociedade. Enquanto o Mercantilismo enaltecia os ganhos em ouro e
metais preciosos de interesse dos monarcas, os fisiocratas
postularam a propriedade da terra como valor supremo. O liberalismo
clássico favoreceu o avanço da revolução industrial, destacando
o papel do empresário capitalista, enquanto o Marxismo desenvolveu
sua doutrina do materialismo dialético em apoio à luta de classes
dos operários. Finalmente, na primeira metade do século vinte, J.
M. Keynes tentou reabilitar o sistema capitalista em crise,
invocando o papel mentor do Estado no processo de desenvolvimento
econômico. Todas essas teorias e mais de duzentos anos de história
econômica não conseguem ocultar a perplexidade que se manifesta
entre os economistas, quando instados a explicar a expansão e a
crise atual dos mercados financeiros e seus impactos nos sistemas
produtivos. A incapacidade de políticos e de seus conselheiros
economistas "os filósofos do rei", pode ser atribuída à
sua visão individualista, de racionalidade empírico-indutiva e de
causalidade linear. Segundo essa visão, o mundo seria movido por opções
individuais, sempre ditadas por escolhas racionais de interesse
pessoal, e não por processos objetivos que condicionam e delimitam
o campo de ação dos atores sociais.
A
dinâmica da acumulação e reprodução do capital na era da informática,
realiza-se mais fácil e rapidamente através de investimentos
financeiros especulativos do que na produção industrial ou agrícola.
Visto
sob esta ótica, por que não encarar o momento histórico atual
como transitório, uma das muitas etapas percorridas pela humanidade
em seu desenvolvimento e, portanto, sujeito à suplantação por
formas de organização mais racionais e humanas da vida em
sociedade?
A
crise generalizada que afeta hoje todo o sistema capitalista,
ressalta o fato de que a teoria sobre os benefícios da globalização
e do livre mercado não tem, definitivamente, respaldo científico,
ou seja, não se
sustenta empiricamente. Como freqüentemente ocorre com ideologias,
estamos na presença de mais um ato de fé, procurando vestir-se com
o manto da ciência.
Como
fica então a política de ciência e tecnologia, alardeadas como
principais fatores de mudança e de progresso?
continua >>>
por
HENRIQUE
RATTNER