Sobre a
intolerância
Religiões
são construções humanas, profundamente humanas (no sentido social
ou “societal”, da palavra). Elas podem ter sido elaboradas por
algum “profeta” individual, mas são mais exatamente uma construção
envolvendo mais de um ator. Como resultado de seu processo de
“fabricação”, elas guardam íntima relação com os valores e
as crenças normalmente partilhados por uma dada sociedade num
determinado momento histórico. Este é o caso das grandes religiões
modernas – cristianismo, islamismo, budismo –, criadas entre os
últimos séculos da antiguidade (inclusive o judaísmo moderno) e
os primeiros séculos da “era Cristã” (não há como evitar,
aqui, o padrão universal de contagem do tempo, criado pelo
cristianismo, uma das mais poderosas forças sociais de todo o
mundo). Excluo das presentes considerações o hinduismo, que não
se tornou tão “universal” como as duas grandes religiões
concorrentes, o cristianismo e o islamismo.
Todas
as grandes religiões apresentam “benfeitorias”, do ponto de
vista da “ideologia” e da “vida social” de uma certa época,
sem o que elas não teriam tido sucesso e se disseminado de modo tão
amplo. Nem todas essas benfeitorias representam, contudo, progresso
absoluto do ponto de vista dos direitos humanos e dos direitos da
mulher, mais especificamente, se é possível aceitar o conceito de
“progresso” num sentido lato (não parece haver progresso moral
da humanidade, stricto senso,
como uma interpretação estritamente darwinista da vida social
poderia deixar entender).
O
judaísmo, por exemplo, ao ressaltar os valores da vida humana, da
igualdade entre os seres, da submissão a um conjunto de regras para
a conduta em sociedade – como evidenciado na lei mosaica –,
representou um progresso em relação às religiões de cunho
vingativo então existentes. O cristianismo, por sua vez, enfatizou
a fraternidade dos homens, ao amor ao próximo, o perdão e a
caridade como “benfeitorias” que muito fizeram para elevar o
padrão moral da humanidade. Da mesma forma, o budismo trouxe o
respeito à vida humana, ou melhor, a qualquer forma de vida a um
patamar certamente elevado, enfatizando, como o cristianismo, o
respeito a todo ser humano, como princípio universalmente válido.
Essas três religiões me parecem assumir plenamente a tolerância
como regra de conduta válida na vida social, mesmo se variantes
“fundamentalistas” do cristianismo militante
(“evangelizador”, ou de “conversão”) tenham conspurcado a
mensagem cristã da aceitação das opiniões de terceiros.
Em
momentos diversos de suas trajetórias históricas, as sociedades
que abrigaram essas três grandes religiões com vocação
“universalista” passaram por processos reais de secularização
e de laicização que diminuíram em muito o papel da religião (e
da liturgia, isto é a forma organizada e talvez “burocratizada”
da religião) na organização da vida social, na socialização das
pessoas, na condução da vida diária. A religião passou à esfera
do privado e a vida política e social passou a ser organizada em
bases legais e racionais. Este “caminho weberiano” não parece
ter sido experimentado, ainda, pelo islamismo, que permanece como um
“bloco” indivisível e praticamente impermeável a variações
interpretativas. Não houve, como na história do cristianismo, por
exemplo, nenhuma divisão entre escolas dotadas de liturgias
diferentes (como ocorreu, primeiro, com a cisão entre ortodoxia e
catolicismo, depois com a divisão deste na reforma protestante).
O
islamismo “penetra” e domina a vida individual como nenhuma
outra religião de vocação universalista o faz. Ele comanda uma
submissão total, ocupando não apenas os espaços da vida familiar
e social, mas também, em grande medida, os campos político e econômico.
Mesmo sociedades islâmicas contemporâneas que passaram por
processos de relativa secularização ressentem uma enorme pressão
para a aplicação da sharia,
isto é, a lei costumeira dos tempos do profeta, cujos princípios
parecem ser mais vingativos do que propriamente retributivos.
Essa
submissão não se submete, ela mesma, ao crivo da razão, isto é,
ao trabalho exegético, eventualmente contestador, que caracteriza o
cristianismo como um todo. A “profissão” de teólogo, ou intérprete
dos preceitos “divinos” – típica dos povos da Bíblia –
praticamente inexiste no islamismo, que abriga apenas
“conhecedores” da palavra do profeta. Não há propriamente um
“diálogo” com deus, ou com seus “intérpretes oficiais”,
uma vez que o que está escrito no livro sagrado é considerado como
a própria palavra de deus, insuscetível, portanto, de interpretações
ou de “aperfeiçoamentos”.
A
característica mais importante a separar essas religiões, porém,
não é apenas a capacidade de interpretar a palavra divina, e sim a
faculdade de contestá-la. É possível, dentro da religião cristã,
contestar a palavra de Deus, o que pode levar, no máximo, à
excomunhão do “incréu”, o que em outros tempos poderia
resultar na fogueira. O fato histórico é que essas sociedades
evoluíram ao ponto de abolir a condenação da pregação
anti-religiosa. É possível ser ateu, iconoclasta, blasfemo
militante e até mesmo apóstata, sem incorrer nas iras da lei ou no
castigo da instituição religiosa. É possível abandonar ou trocar
de religião, sem ter de temer acusação de apostasia ou de crime
contra a religião.
Nada
disso é possível na religião islâmica: viver à margem ou contra
a religião é extremamente perigoso, proclamar publicamente
apostasia ou blasfêmia constitui um grave crime contra a religião
do profeta, passível da pena de morte. Mas é possível,
publicamente, em terras do Islã, repudiar a religião cristã, ou
qualquer outra, que não a do profeta. É possível, à esposa não
muçulmana de um verdadeiro “crente”, conservar a sua fé, mas
ela não poderá educar os seus filhos senão na religião do
profeta.
Trata-se
de um verdadeiro “imperialismo” da religião, que assume
aspectos por vezes trágico na vida individual ou no relacionamento
com pessoas de outros credos. O assunto das charges dinamarquesas,
no início de fevereiro de 2006, revelou, por outro lado, todo o
potencial de conflito embutido numa religião que pode ser utilizada
para fins de mobilização popular. O que esta questão revela é,
sobretudo, a intolerância total em relação a “contestações”
do sentimento religioso dos seguidores do profeta: mesmo os incréus
são passíveis da “pena de morte”, na interpretação dos
verdadeiros crentes.
Não
se trata, aqui, de um “conflito entre civilizações”, como
muitos proclamam, mas simplesmente de um conflito entre “religião”
e “sociedade”, ou seja, de uma dada configuração da estrutura
mental das sociedades islâmicas, que as impede de conciliar, ou
mais propriamente de separar, manifestações de pensamento e
expressões da crença. Não há fissura entre ambas, daí o
totalitarismo da palavra se convertendo em totalitarismo da ação.
Isso
se chama intolerância. Ela constitui, no meu modo de ver, uma das
mais poderosas barreiras ao necessário processo de
“aggiornamento” do islamismo, sem o qual ele será incapaz de
juntar às correntes modernas de produção científica e
intelectual, ou de oferecer um terreno seguro para o desenvolvimento
de formas de organização políticas mais democráticas e abertas
à inovação e à criatividade individuais. Essa é uma batalha que
vai separar profundamente o islamismo, mas que terá de ser travada
algum dia.
por
PAULO
ROBERTO DE ALMEIDA