Um breve
exame das causas da imigração aos Estados Unidos antes e depois
das duas guerras mundiais
[Tradução:
Eva Paulino Bueno]
Introdução
Os
Estados Unidos, por boas razões, é freqüentemente chamado de uma
nação de imigrantes. Quase todas as pessoas dos Estados Unidos é
descendente de um imigrante. A imigração é uma fonte de mudança
cultural e de crescimento populacional no país, embora aqueles que
nasceram fora nunca passaram de mais de 15% da população desde
1675. Mas de onde estes imigrantes vieram, e por que eles deixaram
seus países de origem? Os imigrantes de uma nação em particular
tinham qualquer tipo de vantagem sobre os imigrantes de outro país?
Muitos artigos e livros já foram escritos sobre este assunto, então
propomos focalizar ainda mais e examinar o movimento de imigrantes
para os Estados Unidos durante os anos antes da Primeira Guerra
Mundial, especificamente os anos de 1900 a 1914, e os anos entre a
Primeira e a Segunda Guerra Mundial, e também analisaremos as razões
para os seus movimentos, concentrando-nos especificamente na Itália
e no Reino Unido.
História
A
imigração sempre teve um papel muito importante na história dos
Estados Unidos. Entre 1870 e 1914, 34 milhões de europeus deixaram
seus países de origem, e 27 milhões dentre eles vieram para os
Estados Unidos. Mas e os imigrantes da Itália
e do Reino Unido? Por que eles decidiram fazer a longa jornada através
do oceano para virem aos Estados Unidos?
Na
virada do século XIX para o século XX, a Inglaterra era a fábrica
do mundo.
O seu comércio, exportação e atividade industrial estavam
crescendo como nunca. O sol nunca se punha no Império Britânico, e
aquele império se estendia pelo globo e liderava o mundo na produção
de manufaturados. No entanto, muitos cidadãos do Reino Unido viam o
futuro em termos incertos. Para eles, os dias de prosperidade e
otimismo estavam terminados. O movimento de pessoas do campo para os
centros urbanos como Londres e Manchester havia criado pobreza, doença
e sofrimento a tal nível que até a família real não ficou imune
aos horrores da cólera que foi causada pela água contaminada que
afetou o suprimento de água potável para toda a cidade de Londres.
Ao
despontar do século XX, a Itália tinha alcançado o status
de nação apenas trinta e nove anos antes, em 1861, com o Rei
Victor Emmanuel II. Antes de ser um país independente, a Itália
existia como uma coleção de nações-estado. A maioria da terra na
Itália, assim como em muitos outros países rurais não-industrializados,
estava nas mãos do Estado, da igreja, ou dos latifundiários. Nas
áreas rurais, um grande proletariado sem terra começou a emergir.
Estes camponeses sem terra eram arrendatários, ou, na melhor das
hipóteses, eram donos parciais da terra que ocupavam. E, depois que
a Itália conseguiu tornar-se uma só nação, ela ainda enfrentava
problemas dentro e fora de suas fronteiras.
Quais
foram as causas da imigração? Embora não exista um fator único
para explicar toda a imigração, vários fatores comuns podem ser
identificados, e envolvem questões tais como a diferença de salários
entre os Estados Unidos e outros países, a taxa de crescimento da
população em um país nos vinte a trinta anos anteriores, as condições
políticas e econômicas nos Estados Unidos, os vários graus de
industrialização e o número de imigrantes de um determinado país
que já haviam chegado aos Estados Unidos.
Os
anos antes da Primeira Guerra Mundial, 1900-1914
O
começo do século XX marcou muitas mudanças para o mundo inteiro.
O aceleramento do avanço científico, melhor transporte e comunicações
mais rápidas transformaram o mundo de forma que seria impossível
imaginar cinqüenta anos antes, e estas mudanças ocorreram de forma
extremamente rápida. A chegada do novo século viu também uma
considerável mudança na maneira que um grande número de pessoas
viviam suas vidas. Mas aquelas mesmas mudanças, incluindo mudanças
econômicas, políticas e sociais, freqüentemente tiveram efeitos
imprevisíveis e inesperados na população de todos os países.
Entre
1900 e 1914, um total de quase 13 milhões de imigrantes entraram
nos Estados Unidos.
Como se imagina, a maioria dos imigrantes aos Estados Unidos veio da
Europa, com a maioria deles sendo originária da Alemanha e Irlanda.
Números menores de imigrantes também vieram de países como Rússia,
Noruega e Suécia. Mas e os imigrantes que vieram da Itália e da
Inglaterra? Por que eles resolveram atravessar o oceano e tentar a
vida nos Estados Unidos? Eles tinham alguma vantagem sobre os outros
grupos?
De
fato, no fim de 1914, antes do começo da “Guerra que terminaria
todas as guerras”,
a imigração da Inglaterra aos Estados Unidos contava com quase 3,5
milhões de pessoas. Muitos tentavam escapar dos crescentes horrores
da vida urbana que foram o resultado da migração em massa de
pessoas do campo. Aqueles que continuaram a morar nestes enormes
centros urbanos como Londres, Manchester e Liverpool sofriam
constantes ameaças de despejo devido aos aluguéis exorbitantes e
à ganância dos proprietários de imóveis; outros viviam
arriscando ferimentos sérios e até morte devido às péssimas
condições de trabalho causadas pelos inescrupulosos donos das fábricas;
finalmente, eles também viviam constantemente acurralados por
problemas de saúde por causa das condições sanitárias
inadequadas nas cidades grandes e nas cidades pequenas também.
A
morte da amada Rainha Victoria em 1901 deu lugar à ascensão do
popular Príncipe de Gales sob o nome de Edward VII. Embora ele
fosse conhecido como “Edward o Pacificador”, havia um crescente
descontentamento e ressentimento em muitos setores da população. A
Inglaterra passou a habitar numa espécie de “zona de meia luz”
enquanto que o equilíbrio de poder na Europa passou a mudar em
muitas áreas. O nascimento do Labor Party (Partido do
Trabalho) oriundo dos sindicatos de trabalhadores pobres na
Inglaterra, também assinalou uma drástica mudança no clima político
local. A questão do uso de tarifas para proteger a indústria local
e nacional também contribuiu para tempos muito difíceis no Reino
Unido. Para muitas pessoas na Inglaterra, a emigração era vista
como uma maneira de escapar de todos estes problemas.
Com
a passagem do século XIX ao XX, a situação era extremamente
diferente a mil milhas do sul da Inglaterra. A Itália era ainda um
país jovem, e quase completamente rural, e não tinha muita indústria.
Esta nova nação enfrentava difíceis problemas. Uma dívida muito
grande, combinada com a quase completa inexistência de indústria e
sistemas de transportes, poucos recursos naturais, extrema pobreza,
alto índice de analfabetismo, e uma estrutura de impostos desigual
criavam grandes sobrecargas para o povo italiano. O regionalismo
imperava no país, e muito poucas pessoas tinham o direito ao voto.
O Papa, ainda furioso com a perda das terras papais e de Roma, se
recusou a reconhecer a Itália como país. A forte repressão do
governo resultou no aparecimento de bandidos e na anarquia entre os
camponeses. A diferença de renda aumentou quando o norte do país
começou a enriquecer enquanto que o sul foi afundando mais e mais
na pobreza. A Itália estava se tornando rapidamente um país em
crise, insatisfeito. Aqueles que desejavam uma mudança viram na
emigração a única solução para seus problemas.
Entra
1900 e 1914, aproximadamente 8 milhões de italianos deixaram seu país,
e destes, 3 milhões permaneceram na Europa. Por volta de 1914, um
milhão e meio de italianos viviam nos Estados Unidos. Estes
imigrantes se instalaram primariamente nas grandes áreas urbanas
como Nova Iorque e Chicago.
O
começo da Primeira Guerra Mundial assinalou uma drástica mudança
na imigração para os Estados Unidos. De 1905 até o começo da
guerra, a imigração para os Estados Unidos era de quase um milhão
de pessoas anualmente. Depois do começo da guerra, a imigração
passou a ser apenas uma pequena porcentagem do que era antes.
Os
anos entre as guerras: 1918 a 1938
Os
anos entre as duas guerras mundiais, 1918 a 1938, foram anos instáveis
e amedrontadores para muitos dos países e habitantes da Europa.
Trezentos anos de hegemonia européia chegaram ao fim. Uma grande
parte da Europa estava em ruínas, devido ao avanço de forças
armadas nacionais e da tecnologia da guerra. Novas fronteiras foram
demarcadas, países completamente novos emergiram da devastação da
Grande Guerra, enquanto que antigos impérios desapareceram. Quando
a população começou a recuperar-se da devastação e dos horrores
da guerra, muitas pessoas começaram a vislumbrar seu futuro em
outro lugar, talvez na terra de um dos vitoriosos da Primeira Guerra
Mundial, os Estados Unidos.
O
fluxo de imigrantes dos mesmos países continuaram como antes,
durante estes anos, mas agora havia novos países dos quais os
imigrantes estavam chegando. A nação da Tchecoslováquia surgiu
das ruínas do antigo Império Austríaco-Húngaro.
A Polônia foi outra vez reconhecida como um país em 1918, depois
de uma ausência de quase 130 anos. Apesar de todos estes fatores,
as razões para a emigração, com algumas exceções, não tinham
mudado significativamente.
No
entanto, houve uma mudança que teve sérias repercussões no fluxo
de imigrantes aos Estados Unidos depois da Primeira Guerra Mundial.
No dia 19 de maio de 1921, foi aprovado o Ato de Emergência de
Quotas, também conhecido como o “Ato Johnson das Quotas”. Este
ato limitava o número de imigrantes europeus aos Estados unidos a
cerca de 350.000 por ano. O “Ato Johnson das Quotas” limitava o
número anual de imigrantes que podiam ser admitidos de qualquer país
a 3% do número de pessoas daquele país que já viviam nos Estados
Unidos em 1910. Este ato foi o resultado direto da crescente onda de
isolamento e não-intervenção que varreu os Estados Unidos no fim
da Primeira Guerra Mundial. Outras ações tomadas pelos Estados
Unidos naquele tempo incluíram a recusa do Congresso americano de
aprovar o Tratado de Versalhes, ou a Liga das Nações.
Quando
seus soldados retornaram dos horrores sem precedente da Primeira
Guerra Mundial, os soldados do Reino Unido encontraram seu país
acossado por crescente problemas laborais e greves, crescentes distúrbios
nas suas colônias ao redor do mundo, contínuos problemas políticos
e sociais na Irlanda que tentava liberar-se do Reino Unido, e uma
economia enfraquecida. O desemprego em massa assolou o país quando
Winston Churchill retornou o país ao “gold standard”
(“standard de ouro”) de 1925.
Quando
Hitler subiu ao poder na Alemanha depois da Primeira Guerra Mundial,
uma onda de nacionalismo se espalhou no continente. Nuvens de guerra
podiam ser vistas formando-se no horizonte. Muitos cidadãos do
Reino Unido viram uma vida melhor para si próprios do outro lado do
oceano.
A
Itália passou por uma situação semelhante em alguns aspectos, e
diferente em outros: por causa da Primeira Guerra Mundial, o país
foi atirado em uma profunda crise política e social. Os veteranos
retornando da guerra, os camponeses desesperados e famintos,
milhares de trabalhadores desempregados e uma classe média
amedrontada contribuíram para tornar a Itália em uma nação instável.
Os nacionalistas extremos dos partidos Socialista e Popular pediam
expansão territorial, enquanto que as greves de trabalhadores e a
constante ameaça de revolução contribuíam para um sentimento
palpável de instabilidade.
Esta
constante tensão foi um fator chave para a subida ao poder do
ditador Benito Mussolini, um antigo revolucionário socialista que
impôs um regime totalitário, destruiu as liberdades civis e
criminalizou todos os outros partidos políticos. Sua subida ao
poder foi conseguida através do uso do terror e da subversão
constitucional. Sua política exterior, baseada na agressão e na
expansão, terminou por levar à aliança entre a Itália e a
Alemanha de Hitler, e mais tarde à Segunda Guerra Mundial. Todos
estes fatores, tanto individualmente ou uma combinação entre vários,
levaram milhares dos cidadãos a tentarem conseguir uma vida melhor
em outros lugares, tanto na Europa, América do Sul, ou Estados
Unidos.
Conclusão
Como
podemos ver, há numerosas razões pelas quais os cidadãos do Reino
Unido e da Itália buscaram uma nova vida para si mesmo em outros países.
Condições tais como distúrbios laborais, condições políticas
injustas ou repressivas, más condições de trabalho, condições
de vida ruins ou insalubres, ou a ameaça de guerra, todas levaram
as pessoas destes países a buscar uma vida melhor longe de sua
terra natal. Nos Estados Unidos, no começo do século XX, a imigração
era vista menos como uma ameaça do que durante os anos entre as
guerras, de 1918 a 1938. Durante aqueles 20 anos, a intervenção do
governo era vista como a resposta apropriada à imigração, porque
os Estados Unidos estavam buscando uma posição mais isolacionista.
Infelizmente, tudo indica que os Estados Unidos estão indo nesta
mesma direção neste começo do século XXI. Somente o tempo nos
dirá se a história vai repetir-se ou se outras opções mais
abertas serão encontradas.