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Educação,
opção política e preconceito acadêmico
A
vitória do candidato Lula no primeiro turno produziu análises
interessantes. Houve quem viu no mapa da distribuição dos votos um
país cindido entre pobres e ricos, o “atraso” e a
“modernidade”, os “grotões” e as “metrópoles”. Governo
e oposição passaram a discutir a quem interessava o discurso da
divisão social. Líderes governistas chegaram a insinuar o risco da
política brasileira se “venezualizar”. Assim, colocavam o PT e
o governo como fator de manutenção da ordem social. O candidato da
oposição, por sua vez, tratou de fazer o discurso a favor do
“bolsa família” e dos pobres.
Os
resultados do segundo turno jogaram por terra as análises
apressadas. O candidato eleito ampliou sua votação mesmo nas regiões
onde seu opositor foi vitorioso no primeiro turno. Mesmo na região
Sul, onde a oposição venceu, a diferença foi menor.
Primeiro
e Segundo turnos - Região Sul – Eleições 2006
O
mapa eleitoral também mostrou o crescimento do presidente-candidato
nos seguimentos de melhor renda e maior grau de escolaridade. Mesmo
assim, a depender do analista, a “culpa” da eleição do Lula é
dos pobres. Lançam-lhes à face a acusação de terem se vendido
pelo preço de uma “bolsa família”. Os críticos “mais
sensatos” contemporizam. Afinal, é inaceitável que os pobres
tenham agido dessa forma por uma espécie de “lulismo genético”
ou algo inerente à sua natureza humana. Para tais críticos o
problema principal está na educação. Os pobres optaram pela
reeleição de Lula porque são ignorantes, mal educados. De
qualquer forma, a culpa é dos pobres!
Qual
a influência do grau de escolaridade dos eleitores sobre os
resultados? O fato do eleitor não ter acesso à cultura dita
erudita e aos títulos acadêmicos determina a opção política? Se
considerarmos todas as pesquisas divulgadas entre os 1º e 2º
turnos, que a votação do candidato Lula sempre foi menor entre os
eleitores com maior grau de escolaridade e de renda. Porém, com o
passar do tempo, ampliou-se a intenção de voto para o candidato
eleito. Na primeira pesquisa do Datafolha para o segundo
turno, realizada nos dias 5 e 6 de outubro, Alckmin tinha 56% dos
votos entre os eleitores com ensino superior, contra 36% de Lula. Ou
seja, o candidato derrotado estava com 21 pontos à frente.
Na última pesquisa, às vésperas da eleição, essa diferença
caiu para 6% (50% a 44%).
Grau
de escolaridade e renda estão intimamente vinculados. Portanto, os
números relativos à intenção de voto segundo a renda familiar
seguem a mesma tendência. Quanto maior esta menor a percentagem dos
votos no candidato Lula. Desde o primeiro turno ele perdia de
goleada para o outro candidato. Não obstante, a evolução dos números
mostra o crescimento do candidato vitorioso no estrato com renda
familiar acima de 10 salários mínimos. No início de outubro
Alckmin tinha 69% contra 24% de Lula (diferença de 45%); na última
pesquisa divulgada pelo Datafolha, Lula havia subido para 43% e
Alckmin caído para 53% (diferença de 10%).
Considerei
apenas o estrato social mais elevado, pela escolaridade e renda
familiar, porque é neste que se notabiliza o argumento contra os
pobres. É neste setor da classe média que a ideologia do mérito
mais se vincula à titulação, isto é, à conquista do diploma
universitário.
O
típico membro deste setor social concede ao título acadêmico um
caráter quase sagrado. Imaginemos o graduando esforçado, cuja família
o preparou a vida inteira para assumir o “seu” posto na
universidade pública. Por passar no funil do vestibular, ou serem
titulados, certos acadêmicos têm dificuldade em compreender como
um indivíduo sem diploma universitário torna-se presidente do
Brasil, e, o pior, por duas vezes. Esta aversão é estendida aos
pobres em geral. Não são eles os principais sustentáculos do
presidente reeleito?
Estamos
diante de várias deturpações sobre as relações entre educação
e política. Confunde-se conhecimento com informação, memorização
com saber, diploma com cultura, especialização acadêmica com grau
de inteligência. A principal deformação é aquela que identifica
titulação com consciência política, como se bastasse ingressar
na universidade para ser capaz de tomar as melhores decisões políticas.
Estamos
diante de duplo
preconceito: 1) contra o conhecimento vinculado ao senso comum, o
“saber popular”; e, 2) a negação da capacidade de agir
politicamente aos não incluídos no sistema de ensino. A depender
destes “democratas”, a cidadania deve ser qualificada, isto é,
restrita à elite pensante.
Ora,
cultura não é sinônimo de sapiência, nem muito menos de consciência
política. A adesão dos intelectuais a este ou àquele partido e líder
político depende de fatores amplos e complexos e não simplesmente
do título universitário. Isto deveria ser óbvio, mas aos
preconceituosos não é. Claro, eles partem do princípio de que,
por serem bem-informados, instruídos, acadêmicos, doutores e pós-qualquer-coisa,
suas opções políticas são as corretas.
Ao
criticarem os pobres, desconsideram que outros intelectuais, tão
bem-informados e instruídos, têm a mesma posição daqueles. O
argumento da ignorância cai por terra. Há aí uma dupla ofensa:
aos pobres e aos acadêmicos que têm a mesma postura política
destes. Da mesma forma que há uma intelectualidade de esquerda,
sempre há os que apóiam os governos de direita. A opção política
do acadêmico, discente ou docente com título de mestre e/ou
doutor, é tao legítima quanto aquela do pobre analfabeto ou que não
teve condições de ingressar na universidade. O que se questiona é
a pretensa superioridade de uns sobre os outros.
Cultura
não é igual a títulos acadêmicos; há uma cultura e sabedoria
popular que não se fundamenta em livros ou títulos acadêmicos.
Titulação e diplomas universitários não garantem por si uma opção
consciente pela democracia; a opção pode ser oposta, ainda que em
nome da democracia. Muitos destes críticos acadêmicos e pós-qualquer-coisa
dissimulam tentações autoritárias. São indisfarçáveis
elitistas.
Aliás,
do ponto de vista da construção da democracia e da cidadania,
muitas vezes é precisamente os que têm menor grau de escolaridade
os que mais participam e demonstram consciência política da
necessidade de transformar a realidade e o mundo em que estão
inseridos. Há séculos são os titulados que governam. Se títulos
acadêmicos fossem solução, o Brasil estaria numa situação bem
melhor.
As
posições políticas mudam. Ainda que o grau de escolaridade
influencie, é equivocado vincular esta à opção política. Título
acadêmico não é sinônimo de consciência política e não é a
titulação que define se o indivíduo é de direita, esquerda ou se
está nos extremos políticos. Há mestres, doutores e pós-doutores
praticamente analfabetos em termos políticos. Há muitos que
precisariam fazer uma espécie de curso fundamental com as pessoas
simples que atuam politicamente.
Possuir
títulos acadêmicos não significa automaticamente ter capacidade
de discernimento. Muitos têm cultura acadêmica, mas não
conseguem ver para além do próprio umbigo e nariz. Títulos acadêmicos
não dão a ninguém qualquer superioridade natural. Tem muita gente
por aí que nunca freqüentou a universidade mais que, podemos
dizer, tem pós-doutorado em política.
Isto,
é claro, numa análise geral que tem apenas o objetivo de refletir
e ponderar, relativizando o peso dado à cultura, identificada com títulos
acadêmicos, e ao preconceito que disto resulta em relação à
cultura e saber popular e às opções políticas dos pobres.
Felizmente,
também temos ótimos exemplos no meio acadêmico, tanto do ponto de
vista da consciência de que também somos responsáveis diante dos
dilemas políticos e sociais atuais quanto em relação ao
reconhecimento da importância do que é comumente e
preconceituosamente denominado como senso comum.
Sejamos
humildes. Admitamos que o conhecimento acadêmico não é absoluto e
que temos muito a aprender com o saber informal externo às nossas
universidades; reconheçamos que nossos títulos não nos garantem
infalibilidade política. Deixemos de lado a arrogância
intelectual. Mesmo porque, a médio e longo prazo todos estaremos
mortos. Eis a finitude que nos iguala e que põe a nu o engodo dos
acadêmicos que se acreditam politicamente superiores, apenas porque
os pobres não seguem os seus conselhos. Nossas escolhas políticas
podem ser equivocadas ou corretas, independente da renda salarial e
grau de escolaridade.
por
ANTONIO OZAÍ DA SILVA
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