Exclusão
e sucateamento:
o
legado do projeto educacional da ditadura militar brasileira à
atualidade
A
atual situação do sistema educacional brasileiro tem sido objeto
de um esforço de compreensão por uma série de estudiosos,
provocando discussões nas mais variadas entidades da sociedade
civil, além de ser notícia constante em todos os meios de comunicação.
A reforma educacional que passou a ser implementada a partir da década
de 90 nos países latino-americanos tem sido objeto de muitas reflexões,
que vêm enfatizando suas características neoliberais, refletindo a
lógica assumida pelos Estados neste novo dimensionamento do capital
na região. Neste sentido, o estado vai se eximindo das
responsabilidades de investimentos diretos na área social e abre à
iniciativa privada as possibilidades de investimentos subvencionados
direta ou indiretamente.
Se,
há alguns anos, era senso comum que tínhamos uma educação pública
de péssima qualidade, escolas sucateadas, professores despreparados
e mal pagos, enfim, todo um sistema educacional falido, hoje a
avaliação da má qualidade do ensino público se mantém, apesar
dos recursos garantidos a partir da constituição de 88 e das leis
editadas nos anos 90.
Os
órgãos oficiais, acompanhando as avaliações dos organismos
internacionais, responsabilizam os professores pela permanência
dessa situação. Assim, sem considerar a historicidade subjacente
à realidade atual, continuam a implementar, de forma autoritária,
políticas que traduzem os grandes acordos que se manifestam em políticas
públicas na medida em que são assumidas pelas organizações
governamentais locais.[1]
Reproduzem, dessa forma, o autoritarismo que tem caracterizado a
implantação das políticas públicas no Brasil.
As
características que hoje estão presentes na educação também
foram conformadas pelo tipo de desenvolvimento histórico que o país
conheceu. Entender a educação hoje, em sua função social, passa,
necessariamente, pela compreensão da função histórica por ela
cumprida, particularmente no momento em que a rede pública de
ensino abriga um grande contingente de trabalhadores; momento em que
sofre um processo de modernização conservadora: o período da
ditadura militar.
A
análise da educação ao longo dos 21 anos de ditadura militar
deixa transparecer de forma bastante nítida uma das grandes
contradições do regime: produzir mecanismos de desenvolvimento
acelerado de acumulação de capital e garantir, simultaneamente, o
acesso da população aos direitos de bem-estar social. Esse impasse
não encontrou solução, e os direitos de bem-estar foram
sacrificados em nome do desenvolvimento acelerado.
Grandes
modificações foram feitas no setor educacional. Reformaram-se os
três níveis de ensino (fundamental, médio e superior),
expandiu-se a rede física e o número de vagas nos estabelecimentos
escolares. Durante a ditadura o Brasil, começou a formar uma
pequena, mas expressiva, elite universitária, desenvolvendo
pesquisas de ponta; os resultados do surgimento dessa elite podem
ser verificados hoje, através de pesquisas em áreas nas quais o
Brasil ganhou destaque internacional, como é o caso da engenharia
genética, valendo ao país a participação no projeto Genoma.
Enquanto
se formava a pequena elite intelectual, milhões de brasileiros
continuavam analfabetos e, a cada ano, milhares de crianças não
conseguiam ter acesso à escolarização básica. Milhares de jovens
deixavam a escola para ingressar no mercado de trabalho. Alguns
outros, heroicamente, conseguiam freqüentar as aulas no período
noturno e alguns poucos conseguiam chegar à universidade.
A
educação foi uma das grandes preocupações dos grupos que atuaram
no âmbito do Estado após 1964, pois o regime necessitava, tanto de
técnicos altamente qualificados quanto de mão-de-obra
desqualificada. Mão-de-obra desqualificada e “dócil”. A rede física
foi expandida, um
maior número de
pessoas pôde freqüentar a escola e nela aprendiam que o Brasil era
um país democrático, católico e alinhado ao mundo Ocidental.
O
investimento em educação, porém, não permitia que se absorvesse
toda a demanda escolar. Os recursos para a
educação foram minguando ao longo do período ditatorial, pois a
prioridade do regime era o desenvolvimento acelerado.
O
regime tencionava construir um sistema de ensino que fosse capaz de
aplacar a pobreza no Brasil, diminuindo a desigualdade social. Como
diminuir a desigualdade num modelo de desenvolvimento econômico que
priorizava o enriquecimento da camada mais rica da população? Essa
pergunta não encontrou resposta nos planejamentos educacionais
desenvolvidos entre 1964 e 1985; a desigualdade social não
diminuiu, ao contrário, aprofundou-se.
O
setor educacional foi alvo constante dos ataques do governo.
Qualquer forma de discordância era logo taxada de “subversiva”
ou “comunista”, e seu autor era banido dos meios acadêmicos. O
movimento estudantil sofreu muitas baixas, até que perdeu sua força,
mantendo-se quase inerte nos anos mais truculentos da ditadura. Essa
foi a outra forma de educar encontrada pelo regime: disseminando o
terror, para desencorajar atitudes de apoio ao “subversivos” ou
“comunistas”.
A
educação funcionou durante a ditadura militar como uma estratégia
de hegemonia. O regime procurou difundir seus ideais através da
escola, buscando o apoio de setores da sociedade para seu projeto de
desenvolvimento, simultaneamente ao alargamento controlado das
possibilidades de acesso ao ensino pelas camadas mais pobres.
Divulgou
conceitos produzidos pela Escola Superior de Guerra nos manuais de
Estudos dos Problemas Brasileiros, instrumentalizando os
privilegiados que tinham acesso ao ensino superior no combate aos
“inimigos internos”, na “defesa da Pátria” e na “preservação
dos valores nacionais”.
Após
21 anos de ditadura militar, restou ao Brasil um sistema educacional
com graves problemas: uma estrutura física que, apesar de
estendida, não foi suficiente para atender à demanda crescente;
uma queda na qualidade do ensino superior, com a proliferação de
“empresas educacionais” que permitiram o acesso de um pequeno
contingente das camadas de menores níveis de renda ao ensino
superior, contingente este que custeava seus próprios estudos;
queda na qualidade dos níveis elementares de ensino, dada a queda
na qualidade de formação dos profissionais de educação, além da
depreciação das condições de trabalho desses profissionais.
A
atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação surgiu para substituir
o modelo implementado pela ditadura. Persistem, contudo, problemas
que não foram solucionados ou que se aprofundaram no período. A
educação básica, ainda hoje, não está universalizada no Brasil;
vivenciamos um novo “surto” de privatização do ensino, com o
surgimento de um número exorbitante de faculdades particulares,
principalmente nos centros urbanos; as universidades federais estão
assistindo à degeneração de seus espaços físicos e
equipamentos, enquanto seus profissionais conseguem poucas
conquistas após prolongados períodos de greve. Esses são alguns
dos problemas que acometem a educação atual. Sem dúvida, muito do
que se produziu durante a ditadura persiste na estrutura educacional
brasileira.
Atualmente,
os meios de comunicação divulgam pronunciamentos governamentais
acerca da melhoria da qualidade do ensino. Novamente, a ênfase
recai no aumento do número de vagas nos estabelecimentos de ensino
e na qualificação da mão-de-obra através dos programas
profissionalizantes pós-médio. A educação ainda aparece, na fala
governamental, como um mecanismo minimizador das desigualdades
sociais.
O
que mudou na sociedade brasileira, passados 38 anos da instalação
da ditadura militar brasileira? Vivemos hoje muitos dos dilemas
enfrentados durante os anos de chumbo. A análise das políticas
educacionais brasileiras deixa claro que a má qualidade do ensino
nos sistemas públicos não é fruto de algum equívoco ou distorção.
O tipo de ensino que se desenvolveu no Brasil atende às demandas
impostas pelo grande capital, que exigem mão-de-obra barata e,
portanto, desqualificada. Nesse aspecto, sem dúvida, os sistemas de
ensino têm logrado bastante êxito.
O
Brasil de hoje enfrenta uma grave situação social, com o
desaparecimento de postos de trabalho, o empobrecimento da população
e uma inserção subordinada ao sistema capitalista mundial.
Seguindo esse compasso, a educação apresenta as mesmas distorções
verificadas na sociedade e contribui para sua manutenção. O
projeto educacional implementado durante a ditadura, assim como seu
projeto global de desenvolvimento, teve papel decisivo no processo
de exclusão social, cujos resultados colhemos na atualidade.
por
PATRÍCIA SPOSITO MECHI