por MARK LOKENSGARD

Professor Assistente de Portugês, St. Mary 's University of San Antonio, Texas

 

Língua e Identidade Norte-americana na Questão de Imigração

 

“The Colbert Report”Em episódio recente do programa de comédia “The Colbert Report”, o anfitrião Stephen Colbert apresentou um segmento que captou bem a atitude norte-americana a respeito da imigração. Colbert apresenta uma paródia da programação de debate/entrevista na qual a discussão séria dos assuntos assume um lugar secundário, ou terciário, ao ego do apresentador e o desejo de espancar verbalmente os convidados que não concordam com ele. Sobre a questão da imigração, ele anunciou que ele debateria com a única pessoa capaz de enfrentá-lo como igual: ele mesmo. Usando um efeito especial bastante econômico, Colbert aparecia nos dois lados da tela, com apenas a cor da gravata para diferenciar as imagens, e interrogava-se qual a solução à questão da imigração ilegal no país. De um lado, Colbert defendia os imigrantes, seres humanos honestos e dedicados, executando os serviços que os cidadãos não querem fazer, e no outro lado da tela, Colbert advogava a construção de uma cerca de tamanho babilônico na fronteira com o México, e lamentava o fato de que, toda vez que usava o sistema de atendimento ao cliente do seu banco, era obrigado de apertar a tecla um para conectar-se com um funcionário de língua inglesa e não espanhola.

O povo norte-americano quase sempre se sentiu ambivalente na questão da imigração. A diferença hoje é que a população do país tem a maior porcentagem de pessoas que nasceram fora dele depois de 1930, e que a maioria deles vem de um país vizinho, o México (Schmidley 8). O México ocupa, desde 1980, o primeiro lugar entre os países de origem de imigrantes legais (Schmidley 13), e tudo indica que o cálculo de imigrantes ilegais é parecido. Entre os imigrantes não-mexicanos que atravessam a fronteira com o México (a patrulha da fronteira se refere a essas pessoas como OTM’s – “Other Than Mexicans”) quase sempre é de países vizinhos ao México, portanto, de língua espanhola. O debate hoje, então, se trata menos de uma discussão do assunto no sentido mais amplo, do que uma discussão de como este grupo de imigrantes vai, ou não, adaptar-se ao país e assimilar-se à cultura norte-americana.

Outra diferença entre hoje e 1930 é que a língua desse grande grupo de imigrantes tem uma presença dominante nas instituições de ensino do país. Pode-se dizer, sem muito exagero, que o número de colégios norte-americanos onde não se ensina espanhol limita-se a uma meia-dúzia. Nas universidades, o número de alunos inscritos em matérias de língua estrangeira continua mais ou menos igual de 25 anos atrás para cá, mas aqueles em aulas de espanhol consta de 53.2% do total. Francês e alemão, as línguas em segundo e terceiro lugar, estão bem para trás (18% e 8.5 %, respectivamente) (Siaya e Hayward 23). É claro que a aprendizagem de uma língua não implica na fluência nela, mas o fato de ser ensinado a tantos indica um reconhecimento da importância do espanhol, e uma disposição à convivência.

Talvez mais importante na aceitação e assimilação de uma nova onda de imigrantes é o processo de aceitar alguns aspectos, mesmo que alterados, da culinária dela e os vocábulos acompanhantes. Não seria exagero dizer que, para os italianos nos Estados Unidos e no Brasil, as massas e a pizza, transformadas no novo mundo, serviram para criar muita boa vontade para os imigrantes. Da mesma forma, a comida mexicana nos EUA, mesmo que seja representante de apenas uma parte do México e que tenha sofrido alterações, faz parte das opções diárias para os norte-americanos em todas as áreas metropolitanas do país, e serve para diminuir as ansiedades do resto da população. Curioso, e diria, promissor também, é que os Estados Unidos tenha servido de vetor de transmissão dessa culinária mexicana-americana (ou talvez melhor, “Tex-Mex”) para outros países do mundo, cujas populações estão adquirindo o gosto pelos tacos e tortillas.[1]

No nível de cultura popular, a aceitação de imigrantes do México e outros países de língua espanhola vai de vento em popa, pelo menos entre a geração atual. A popularidade de artistas bilíngües em espanhol, sejam cantores como Shakira, ou atores como Jennifer López ou Salma Hayek, indica uma aceitação de bilingüismo e uma rejeição da idéia de que falar outra língua seja uma afronta ou uma traição à cultura norte-americana. Até formas de cultura de massa do mundo de língua espanhola começam a permear a mídia norte-americana; a comédia/drama bem sucedida da emissora ABC, “Desperate Housewives”, tem como personagens um casal de americanos de ascendência “hispanic”, onde a sogra da mulher assiste telenovelas mexicanas, tão fáceis de ver nos canais em espanhol no país inteiro. Este ano estreou “Ugly Betty”, versão americana da telenovela mexicana “Betty la Fea”.

Contudo, hay límites. Os produtores e artistas de uma versão do hino nacional norte-americano em espanhol, “Nuestro Himno”, em abril de 2006, provocaram uma reprovação do Presidente Bush e outros que preferiam “The Star-Spangled Banner”. Um artista pouco conhecido do Texas reagiu de forma musical, gravando a música “So Long, Texas – Hello, México!”, no qual ele canta seu plano de imigrar ao México, e uma vez lá, exigir tratamento igual aos cidadãos mexicanos e cantar o hino mexicano em inglês. Não importa que havia outros exemplos do hino em outras línguas: “Das Star-Spangled Banner”, uma tradução para a comunidade alemã feita no começo do século XX, uma tradução iídiche feito em 1943, e até uma tradução para o espanhol do hino paga pelo próprio Departamento de Educação do país em 1919. O que importa, parece, é que alguém, por assim dizer, saiu da linha. Agregar coisas novas à cultura, tudo bem; reescrever a cultura existente, não.

Na verdade, poucos descendentes de latino-americanos nos Estados Unidos parecem sentir a necessidade de mudar a letra do hino nacional norte-americano. Onde mais se ouve o hino nacional é nos estádios de baseball, o esporte norte-americano por excelência, hoje com nível de participação de 29% de descendentes de latino-americanos na liga mais alta do país (Lapchick). Os jogadores “latinos” podem ser recém-chegados de Cuba, da Venezuela, da República Dominicana, ou podem ser norte-americanos da sétima geração que não falam nada de espanhol além do necessário para pedir uma refeição Tex-Mex num restaurante. Como aconteceu com os italianos nos EUA, que tiveram em Joe Dimaggio e outros jogadores seus embaixadores à cultura popular norte-americano, os latino-norte-americanos já os têm no esporte nacional há anos.

Alguns extremistas de esquerda remanescentes dos anos 60 falam em uma “reconquista” da América por parte dos imigrantes mexicanos, fantasiando uma revanche das perdas de território do governo mexicano. Outros extremistas da direita, mais numerosos, querem nova legislação designando o inglês como a língua oficial do país (San Antonio, Texas seria chamado de “Saint Anthony”?). Enquanto isso, as ligações econômicas formais, por exemplo, aquelas criadas com NAFTA, e as informais, como os bilhões de dólares em remessas de dinheiro dos EUA à América Latina, se estreitam mais todos os dias. E a grande massa da população aprende a lidar calmamente com mais uma onda de imigração, evento cíclico tão norte-americano quanto a temporada de baseball.

 

Bibliografia

Schmidley, A. Dianne. Profile of the Foreign Born Population of the United States: 2000. U.S. Census Bureau, Current Population Reports, Series P23-206, U.S. Government Printing Office, Washington D.C., 2001. (http://www.census.gov/prod/2002pubs/p23-206.pdf)

Lapchick, Richard.  “Growth in Latin Participation Good Business.”  ESPN.com, 28 set 2006.  (http://sports.espn.go.com/espn/columns/story?columnist=lapchick_richard&id=2599046)

Siaya, Laura and Fred M. Hayward.  Mapping Internationalization on U.S. Campuses: Final Report 2003.  American Council on Education.

 

por MARK LOKENSGARD

   

 

 

 

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[1] Pena, então, que os planos da rede brasileira Habib’s de abrir um filial em Miami tenham sido suspensos em 2001, privando o Brasil da chance de servir de mediador cultural, mesmo no nível comercial e na cultura popular, entre os Estados Unidos e o mundo árabe.

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