Língua e
Identidade Norte-americana na Questão de Imigração
Em
episódio recente do programa de comédia “The Colbert Report”,
o anfitrião Stephen Colbert apresentou um segmento que captou bem a
atitude norte-americana a respeito da imigração. Colbert apresenta
uma paródia da programação de debate/entrevista na qual a discussão
séria dos assuntos assume um lugar secundário, ou terciário, ao
ego do apresentador e o desejo de espancar verbalmente os convidados
que não concordam com ele. Sobre a questão da imigração, ele
anunciou que ele debateria com a única pessoa capaz de enfrentá-lo
como igual: ele mesmo. Usando um efeito especial bastante econômico,
Colbert aparecia nos dois lados da tela, com apenas a cor da gravata
para diferenciar as imagens, e interrogava-se qual a solução à
questão da imigração ilegal no país. De um lado, Colbert
defendia os imigrantes, seres humanos honestos e dedicados,
executando os serviços que os cidadãos não querem fazer, e no
outro lado da tela, Colbert advogava a construção de uma cerca de
tamanho babilônico na fronteira com o México, e lamentava o fato
de que, toda vez que usava o sistema de atendimento ao cliente do
seu banco, era obrigado de apertar a tecla um para conectar-se com
um funcionário de língua inglesa e não espanhola.
O
povo norte-americano quase sempre se sentiu ambivalente na questão
da imigração. A diferença hoje é que a população do país tem
a maior porcentagem de pessoas que nasceram fora dele depois de
1930, e que a maioria deles vem de um país vizinho, o México (Schmidley
8). O México ocupa, desde 1980, o primeiro lugar entre os países
de origem de imigrantes legais (Schmidley 13), e tudo indica que o cálculo
de imigrantes ilegais é parecido. Entre os imigrantes não-mexicanos
que atravessam a fronteira com o México (a patrulha da fronteira se
refere a essas pessoas como OTM’s – “Other Than Mexicans”)
quase sempre é de países vizinhos ao México, portanto, de língua
espanhola. O debate hoje, então, se trata menos de uma discussão
do assunto no sentido mais amplo, do que uma discussão de como este
grupo de imigrantes vai, ou não, adaptar-se ao país e assimilar-se
à cultura norte-americana.
Outra
diferença entre hoje e 1930 é que a língua desse grande grupo de
imigrantes tem uma presença dominante nas instituições de ensino
do país. Pode-se dizer, sem muito exagero, que o número de colégios
norte-americanos onde não se ensina espanhol limita-se a uma meia-dúzia.
Nas universidades, o número de alunos inscritos em matérias de língua
estrangeira continua mais ou menos igual de 25 anos atrás para cá,
mas aqueles em aulas de espanhol consta de 53.2% do total. Francês
e alemão, as línguas em segundo e terceiro lugar, estão bem para
trás (18% e 8.5 %, respectivamente) (Siaya e Hayward 23). É claro
que a aprendizagem de uma língua não implica na fluência nela,
mas o fato de ser ensinado a tantos indica um reconhecimento da
importância do espanhol, e uma disposição à convivência.
Talvez
mais importante na aceitação e assimilação de uma nova onda de
imigrantes é o processo de aceitar alguns aspectos, mesmo que
alterados, da culinária dela e os vocábulos acompanhantes. Não
seria exagero dizer que, para os italianos nos Estados Unidos e no
Brasil, as massas e a pizza, transformadas no novo mundo, serviram
para criar muita boa vontade para os imigrantes. Da mesma forma, a
comida mexicana nos EUA, mesmo que seja representante de apenas uma
parte do México e que tenha sofrido alterações, faz parte das opções
diárias para os norte-americanos em todas as áreas metropolitanas
do país, e serve para diminuir as ansiedades do resto da população.
Curioso, e diria, promissor também, é que os Estados Unidos tenha
servido de vetor de transmissão dessa culinária mexicana-americana
(ou talvez melhor, “Tex-Mex”) para outros países do mundo,
cujas populações estão adquirindo o gosto pelos tacos
e tortillas.
No
nível de cultura popular, a aceitação de imigrantes do México e
outros países de língua espanhola vai de vento em popa, pelo menos
entre a geração atual. A popularidade de artistas bilíngües em
espanhol, sejam cantores como Shakira, ou atores como Jennifer López
ou Salma Hayek, indica uma aceitação de bilingüismo e uma rejeição
da idéia de que falar outra língua seja uma afronta ou uma traição
à cultura norte-americana. Até formas de cultura de massa do mundo
de língua espanhola começam a permear a mídia norte-americana; a
comédia/drama bem sucedida da emissora ABC, “Desperate Housewives”,
tem como personagens um casal de americanos de ascendência “hispanic”,
onde a sogra da mulher assiste telenovelas mexicanas, tão fáceis
de ver nos canais em espanhol no país inteiro. Este ano estreou
“Ugly Betty”, versão americana da telenovela mexicana “Betty
la Fea”.
Contudo,
hay límites. Os
produtores e artistas de uma versão do hino nacional
norte-americano em espanhol, “Nuestro Himno”, em abril de 2006,
provocaram uma reprovação do Presidente Bush e outros que
preferiam “The Star-Spangled Banner”. Um artista pouco conhecido
do Texas reagiu de forma musical, gravando a música “So Long,
Texas – Hello, México!”, no qual ele canta seu plano de imigrar
ao México, e uma vez lá, exigir tratamento igual aos cidadãos
mexicanos e cantar o hino mexicano em inglês. Não importa que
havia outros exemplos do hino em outras línguas: “Das
Star-Spangled Banner”, uma tradução para a comunidade alemã
feita no começo do século XX, uma tradução iídiche feito em
1943, e até uma tradução para o espanhol do hino paga pelo próprio
Departamento de Educação do país em 1919. O que importa, parece,
é que alguém, por assim dizer, saiu da linha. Agregar coisas novas
à cultura, tudo bem; reescrever a cultura existente, não.
Na
verdade, poucos descendentes de latino-americanos nos Estados Unidos
parecem sentir a necessidade de mudar a letra do hino nacional
norte-americano. Onde mais se ouve o hino nacional é nos estádios
de baseball, o esporte norte-americano por excelência, hoje com nível
de participação de 29% de descendentes de latino-americanos na
liga mais alta do país (Lapchick). Os jogadores “latinos” podem
ser recém-chegados de Cuba, da Venezuela, da República Dominicana,
ou podem ser norte-americanos da sétima geração que não falam
nada de espanhol além do necessário para pedir uma refeição
Tex-Mex num restaurante. Como aconteceu com os italianos nos EUA,
que tiveram em Joe Dimaggio e outros jogadores seus embaixadores à
cultura popular norte-americano, os latino-norte-americanos já os têm
no esporte nacional há anos.
Alguns
extremistas de esquerda remanescentes dos anos 60 falam em uma
“reconquista” da América por parte dos imigrantes mexicanos,
fantasiando uma revanche das perdas de território do governo
mexicano. Outros extremistas da direita, mais numerosos, querem nova
legislação designando o inglês como a língua oficial do país
(San Antonio, Texas seria chamado de “Saint Anthony”?). Enquanto
isso, as ligações econômicas formais, por exemplo, aquelas
criadas com NAFTA, e as informais, como os bilhões de dólares em
remessas de dinheiro dos EUA à América Latina, se estreitam mais
todos os dias. E a grande massa da população aprende a lidar
calmamente com mais uma onda de imigração, evento cíclico tão
norte-americano quanto a temporada de baseball.
Bibliografia
Schmidley,
A. Dianne. Profile of the Foreign Born Population of the United
States: 2000. U.S. Census Bureau, Current Population Reports,
Series P23-206, U.S. Government Printing Office, Washington D.C.,
2001. (http://www.census.gov/prod/2002pubs/p23-206.pdf)
Lapchick,
Richard.
“Growth in Latin Participation Good Business.”
ESPN.com, 28 set 2006. (http://sports.espn.go.com/espn/columns/story?columnist=lapchick_richard&id=2599046)
Siaya,
Laura and Fred M. Hayward. Mapping
Internationalization on U.S. Campuses: Final Report 2003.
American Council on Education.
por
MARK
LOKENSGARD