por BETANIA LIBANIO DANTAS DE ARAÚJO

Doutora em Educação (USP)

 

 

O humor na educação

 

Este artigo se propõe a relacionar contribuições de teóricos que estudaram o desenho infantil, os quadrinhos e a pesquisa que realizamos sobre o uso do desenho de humor na educação de crianças, adolescentes e adultos.

Rafael fez caricaturas durante o 1o e 2o turno da eleição presidenciável de 2002. Nessa caricatura, a essência de Enéas é sua posição ideológica e sua postura de muito siso. Na tradição do sistema escolar o ensino esteve atrelado ao sintoma da punição e do castigo. Seriedade e rigidez sempre foram sinônimos da “boa” educação. O prazer muitas vezes não era admitido pela escola. Contra esse diagnóstico, o desenho de humor vem propor um caminho inverso na aprendizagem: a busca da irreverência.

O humor em princípio é anarquista, desestabiliza toda a ordem natural das coisas e quando aparenta ter seguido uma linha, novamente desorganiza a ordem. O humor, a princípio é subversivo, se opõe ao poder e escancara as verdades escondidas. É a clássica história do menino que grita: “O rei está nu”, na história “A roupa nova do imperador”. Tratamos do humor comprometido com a transformação da realidade, abandonando os casos em que é utilizado para veicular qualquer tipo de preconceito ou discriminação.

É interessante pensarmos que, embora o desenho de humor e os quadrinhos sejam “filhos da arte”, pelo fato de serem públicos e não possuírem um valor de comercialização como a pintura, a escultura,... recebem uma posição inferior na hierarquia capitalista da arte.

O desenho de humor e a história em quadrinhos são materiais de informação completa, mas são pouco usados nas escolas. Trabalham com o humor, elemento fundamental na formação do pensamento. Em muitas situações aprendemos mais pelo humor do que pela seriedade.

Nesse desenho (charge) Leandro Stein figura um homem que possui o perfil e a pata de gavião correndo para a morte. Esse homem representa o Corinthians e Stein não poderia deixar de ser palmeirense. Analisaremos desenhos de crianças, adolescentes e adultos da escola municipal de São Paulo “Presidente Kennedy”, cuja perspectiva era a representação de temas não convencionais: sobre o impossível era o tema de trabalho com as crianças. Essa perspectiva apontou para a liberdade da deformação e distorção que, de certa forma, está presente nas caricaturas dos alunos adultos.

Buscamos traçar paralelos entre os diversos autores e salientar as contribuições que fizeram acerca do desenho anedótico, desenho seqüencial, o princípio da deformação e seu significado no desenho e a caricatura.

O desenho de humor e a narração gráfica na infância

No estágio pseudonaturalista, Lowenfeld (1977, p.56) fala do jovem de onze e doze anos começando a ter consciência do seu ambiente natural: “Existe grande dose de autocrítica, e os desenhos estão agora escondidos nos cadernos de notas ou são tentativas de estórias em quadrinhos, quase sempre de natureza anedótica e satírica.”

Florence de Meredieu observa também esse desenho de natureza anedótica em crianças mais novas. É o que trataremos mais adiante sobre o humor, nos atendo no momento ao desenho seqüencial.

Desenhar em seqüência é um procedimento também infantil e Luquet (1969, p.207) caracteriza o desenho que é representado por vários quadros: a história em quadrinhos. Considera-o mais rico que o desenho de único quadro, reunindo vários momentos que não podem ser simultâneos e por isso a criança ao fazer o desenho em seqüência usa o que Luquet chama de artifícios materiais como quadrados, linhas de separação, números. Acreditamos que desenhar em seqüência não se trate de uma expressão mais rica, mas sim mais uma maneira de representação que a criança poderá fazer. Há desenhistas que passam sua vida inteira a desenhar narrações gráficas de um quadro só e percebemos a dificuldade que é a síntese no desenho. Para adultos e adolescentes, pode ser em alguns momentos , mais fácil desenhar momentos da história do que sintetizar a essência em apenas um quadro. Essa é a dificuldade , por exemplo, que muitos chargistas encontram em fazer rir o leitor em apenas um quadro, representando apenas o essencial.

No estudo sobre narração gráfica, Luquet (p.195) observa o desenho da criança que ao contrário do quadro estático mostra dinamismo representado por momentos sucessivos, onde o desenho posterior se assemelha ao precedente e ao mesmo tempo difere do mesmo, com elementos que mudam e outros mantendo-se fixos, criando uma relação de continuidade entre os momentos fixos.

Esses desenhos vão diferenciar-se dos demais porque trazem movimento na cena. O tipo simbólico (p.196) é a maneira de escolher um episódio de uma história entre os diversos momentos que seja o mais significativo, o mais completo. Luquet diz que é um “tipo muito empregado por profissionais da ilustração, que se encontra igualmente na criança. Aqui no Brasil dizemos cartunistas e chargistas para os profissionais, charge e cartum para esses desenhos feitos de um único quadro onde representa-se o episódio mais importante de um fato político ou cena costumeira.

O segundo modo de narração gráfica seria a história em quadrinhos (p.197), representando várias imagens “... cada uma das quais representa um desses momentos se forma um todo completo que se basta a si próprio como representação do episódio correspondente.” Esse modo é chamado de tipo epinal.

Por não apropriar-se da linguagem dos quadrinhos, o professor soluciona a questão pedindo à criança que divida a folha ao meio criando quatro, seis , oito quadros de igual tamanho. Crescem acreditando que apenas o estereótipo de quadrinização que aprendeu a fazer já é bastante. É até possível observar que crianças e adolescentes que lêem quadrinhos, na maioria não arriscam outros enquadramentos e quadrinizações enquanto criam suas histórias em quadrinhos. É como se sua atenção estivesse voltada apenas para o texto e as onomatopéias. Os planos de imagem também não são alvo de observação, é como se não existissem. Na maioria, ao desenhar não mudam os planos de imagem, fazem repetições de cena em mesmo plano tendo como elemento modificador o balão. Quando dizemos da falta de variedade de planos de imagem no desenho nos referimos ao desenho do adolescente e adulto.

Já Florence de Meredieu (1974, p.16) observa que apesar da criança sofrer forte condicionamento:

“... pelo o que o adulto espera dela no plano figurativo, apesar de aproveitar a herança de uma língua gráfica já constituída, a expressão infantil não cessa de encontrar formas novas, e existe uma grande distância entre, de um lado, profusão e o humor dos desenhos, e de outro, os esquemas a que os reduzimos.”

Interessante analisar a língua gráfica como uma representação diariamente forjada pela criança em busca de novas formas. Florence de Meredieu contrapõe esquemas fechados de representação próprios dessa cultura gráfica adulta com o humor no desenho infantil.

Lowenfeld (1977, p.71) sugere dinâmicas de aulas para professores. Propõe que o professor planeje uma aula onde as crianças desenhem objetos do seu dia-a-dia como casas, árvores. E  recomenda que o professor proponha numa aula posterior o desenho que realce o imaginativo como criaturas fantásticas, animais fabulosos e sonhos. Termina com uma questão: “As mesmas crianças parecem ter prazer nos dois tipos de aulas?”  Não apenas as crianças, mas adolescentes e adultos pesquisam novas formas quando são convidados para essa busca. Quando precisam desenhar imagens não-convencionais esforçam-se por criar desenhos diferenciados. Preocupados com o produto final que deve ser o seu trabalho, o adulto priva-se da pesquisa, do experimento, do prazer que fazer um desenho pode lhe proporcionar. A investigação já não é um procedimento natural para poder desenhar. Segundo Luquet (1969, p.15): “a criança desenha para se divertir. O desenho é para ela um jogo como quaisquer outros e se intercala entre eles.” Já para o adulto é necessário ensiná-lo a brincar, divertir-se, sentir prazer naquilo que faz e produz, sentir prazer também no processo da produção. Aprender que as relações podem se opor às leis do mercado. Compreender que suas idéias e desejos materializados não representam o sentido de mercadoria para o sistema capitalista. Certamente, o adulto busca em seu trabalho o valor mercadológico daquilo que faz pois nunca viveu outras experiências que priorizasse o processo do desenho contrapondo-se ao produto desenho.

Entre as formas de representar os seres e as relações sociais, a caricatura e o desenho de humor assumem sua própria singularidade: a deformação.  O exagero é ao mesmo tempo aproximação da realidade.

Luquet ilustra os motivos ou assuntos que as crianças tratam em seus desenhos espontâneos. O boneco, apesar de ser o tema mais freqüente, não é o único:

“Há galinhas, cavalos e casas, todas as categorias possíveis de seres e objetos e todos os gêneros tratados pelos artistas profissionais: retrato, paisagem, natureza morta, desenhos anedóticos ou históricos (porque para a criança tudo é o mesmo), cenas de família, ilustrações de histórias reais ou imaginadas.”

O desenho anedótico deve ser retomado pelo ensino da arte. Lowenfeld exemplifica a importância da fase pseudonaturalista com uma caricatura que é um meio predileto de expressão de algumas crianças: “Não só proporciona a oportunidade de comentário satírico, mas também enseja uma fuga à mera expressão naturalista.” Assim, observou e trouxe uma grande contribuição percebendo que a caricatura rompe com a exigência que os adultos fazem da representação naturalista do rosto humano. Essa abertura para poder romper com uma obrigatoriedade tácita é uma contribuição fabulosa de Lowenfeld.

No entanto observa que aqueles que não são visualmente tão conscientes e para os jovens de uma maneira geral é agradável fazer caricaturas e representar a figura humana através de desenhos satíricos. Encontramos aqui um certo antagonismo, porque inicialmente Lowenfeld ressalva que a caricatura é um ato visualmente não tão consciente, posteriormente alega que é uma fuga à mera expressão naturalista. Podemos dizer que a caricatura é uma solução plástica e diferenciada de representação humana que se opõe à tentativa de cópia simples do natural e torna-se linguagem do adolescente questionando as pessoas com quem convivem. “Os rapazes parecem estar particularmente interessados, nesta idade, em desenvolver essa habilidade e, às vezes, divertem-se, fazendo caricaturas dos professores, dos pais ou dos colegas que desfrutam posições invejáveis” (p.307).

Nessa caricatura, Collor recebe dois dentes de vampiro que figuram com os dois L do nome. Apesar da pouca idade (17), Rafael tem conhecimento da história do Brasil.É na idade de dez anos que para a criança, o cartum torna-se a forma favorita de arte e segue esse gosto na adolescência. Miriam Lindstrom em Children´s Art afirma que nessa idade o gosto das crianças atinge sua fase menos expressiva.Tendemos a discordar desta premissa depreciativa pelo fato da criança expressar-se por meio do humor, com o desenho anedótico através de caricaturas (EDWARDS, 87).

Entre quatro ou cinco anos a criança produz desenhos que narram histórias. A deformação no desenho é proposital porque possui um significado. A criança não deforma apenas porque não conseguiu fazer da maneira que queria, mas para chamar atenção ao detalhe. É o caso do menino que segura o guarda-chuva, onde um braço é maior que o outro, pois é o mais significativo da cena. Para expressar sentimentos também deforma para chamar a atenção da personalidade da irmã por quem é dominada. E ao passo que desenha o Para Bruno(3a série), aluno da Profa. Neizi, é impossível um prédio virar ponte. sentimento talvez seja capaz de enfrentar a situação (EDWARDS, p.80-81).

Observamos que muitos adultos que pararam de desenhar assemelham-se às fases do desenvolvimento do desenho na criança. Mas são capazes de expressar-se quando lhe dão condições para desenvolver seu repertório desenhístico.

Considerações finais

Tentamos realizar uma discussão sobre a importância do desenho de humor e desenho em quadrinhos no desenvolvimento da capacidade criativa na criança, do adolescente e do adulto.

Resgatamos nos autores Florence de Meredieu, Luquet e Lowenfeld a fase do desenho na qual a criança representa o desenho anedótico e inicia seu desenho sequencial contrariando as regras que o adulto lhe impõe. Merece um posterior estudo aprofundado onde a entrevista de Henfil aponte para o estudo de quadrinhos brasileiros que sugerem essa ruptura com as normas norte-americanas padronizando os gibis do mundo. E assim como a criança, parte dos quadrinistas buscam criar uma narração gráfica com expressão própria.

leia entrevista com a autora: http://blogdosquadrinhos.blog.uol.com.br/entrevista/ 

por BETANIA LIBANIO DANTAS DE ARAÚJO

   

 

 

 

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Bibliografia

Cirne, Moacy. História e crítica dos quadrinhos brasileiros. Rio de Janeiro, Funarte. 1943

Edwards, Betty. Desenhando com o lado direito do cérebro. Rio de Janeiro: Ediouro.

Henfil em entrevista publicada in Status Humor, número 49/A, São Paulo, s/d.

Iannone ,  Leila Rentroia e Iannone ,  Roberto Antonio. O mundo das histórias em quadrinhos. São Paulo: Editora Moderna, 1994.

Lowenfeld, Viktor. Desenvolvimento da capacidade criadora. São Paulo: Mestre Jou, 1977.

LUQUET, G.H. O desenho infantil. Porto: Livraria Civilização, 1969.

Meredieu, Florence de. O desenho infantil. São Paulo, Cultrix.1974.

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