por FRANCIS DOV POR

Francis Dov Por, nascido 1927 na Romênia. Casado com Dra. Scintila de Almeida Prado.
Desde 1960 na Universidade Hebraica de Jerusalém. Professor emérito de zoologia, na área de zoologia aquática, biogeografia e evolução. Presidente Fundador da Sociedade Internacional de Zoologia.
Professor convidado da USP, Depto. de Ecologia Geral, 1981-1997.

 

 

A segunda Guerra do Líbano uma segunda Guerra Civil da Espanha?

 

Quando festejamos o ano bom do novo milênio, nem o mais perspicaz dos analistas políticos poderia vislumbrar os recentes acontecimentos, a natureza e o tamanho da crise atual globalizada. Verdade, no Irã já existia a teocracia messiânica dos aiatolás e o Saddam Hussein já assumira o papel do Saladin, a nêmesis dos cruzados, mas ninguém imaginava que em vez da doce utopia do "multiculturalismo" iríamos ter que nos deparar com uma guerra religiosa mundial.

A destruição das torres gêmeas foi um ato monstruoso de uma célula terrorista bem organizada, porém, não foi um ato de guerra religioso-cultural entre dois estados. A segunda guerra do Líbano foi a primeira destas guerras.

Retirando-se do Líbano em 2000, e da Faixa de Gaza em 2005, Israel imaginou-se protegido atrás de fronteiras internacionalmente reconhecidas. O esforço militar concentrou-se então contra células e grupos terroristas armados nos territórios ainda ocupados. O poderoso exército israelense assumiu o mero papel de polícia.

Sharon, e também Olmert, seu muito menos carismático sucessor, planejavam uma retirada adicional da maior parte dos territórios ocupados remanescentes, finalizando assim as fronteiras internacionalmente reconhecidas de Israel.

A retirada de Gaza foi aproveitada pelos extremistas jihadistas do Hamas para transformar este território numa base de ataques cotidianos de foguetes contra Israel, sem se preocupar do bem estar e o desenvolvimento pacifico da própria população palestina. Baseado na doutrina islâmica, o Hamas jamais pretendeu reconhecer a existência de Israel. Ele rejeita a mera idéia da existência de dois estados soberanos, um ao lado do outro.

No Líbano, a organização terrorista xiita do "Partido de Deus”, o Hizbollah, tomou conta do sul do país ignorando a lei internacional, alegando ter o dever de libertar a fazenda de Shaba, um pedaço de terra do tamanho de uma chácara brasileira, contrariando uma decisão da ONU. Durante os seis anos após a retirada israelense, o Hizbollah construiu abertamente um arsenal e uma rede de bunkers até localizados a poucos metros da linha de fronteira. Freqüentemente mandava foguetes contra as cidades e aldeias israelenses e provocava incidentes, passando a fronteira e tentando pegar reféns. Uma vez eles conseguiram, e Israel teve de liberar todos os prisioneiros libaneses, mantendo somente dois lideres cativos. O "deus" deste partido também proibia o reconhecimento de Israel e ameaçava alcançar Tel Aviv com seus foguetes.

É difícil entender, porque o governo Sharon evitou represálias. Possivelmente o fantasma da primeira guerra do Líbano, que perseguia o velho general, fosse a razão. O exército israelense não se preparou para uma tal represália. Uma comissão de inquérito israelense vai apurar este assunto.

Chegou a hora de um novo governo chefiado pelo Olmert, um político sem experiência militar, um ministro de defesa o Peretz, ironicamente nada mais do que um velho sindicalista, e um chefe de estado maior pela primeira vez proveniente das forças aéreas.

Em Julho aconteceu uma nova provocação do Hizbollah, matando vários soldados e seqüestrando dois dentro do território israelense. Como sempre, protegeu esta ação com uma barragem de foguetes Katiusha sobre o norte de Israel. Desta vez o novo governo, numa sessão só, decidiu reagir. Reação justificada, mesmo se foi precipitada demais.

Na guerra que estourou, ficou evidente o poder do Hizbollah que não era mais o de uma organização terrorista "clássica". Era  nada menos do que o braço armado, a vanguarda do Irã, dentro do supostamente soberano Líbano. Armado com foguetes de longo alcance, até foguetes terra-mar, e poderosos foguetes anti-tanque de origem russa, abastecidos pelo Irã, através da Síria e de meios eletrônicos russos, o Hizbollah virou um exército de um tipo até agora desconhecido. Por um lado, era comandado por oficiais iranianos em postos de comando longe da fronteira, abrigados em catacumbas em baixo dos prédios altos do bairro xiita de Beirute. Por outro lado, na frente da luta, os combatentes xiitas eram misturados e indistintos da  população civil. Os lançadores de foguetes funcionaram nas casas dos camponeses. O sul do Líbano virou um grande escudo vivo.

O estado maior israelense imaginava que uma resposta aérea seria suficiente para vencer o Hizbollah diretamente e provocar o impotente governo central libanês a assumir suas responsabilidades internacionais. Não funcionou. Verdade, a maioria das rampas de lançamento de foguetes de longo alcance foram destruídos e o bairro xiita sofreu pesado. Tel Aviv foi poupada. Mas durante semanas em seguida, as cidades e aldeias israelenses do norte do país foram alvo de milhares de foguetes "artesanais" partindo das aldeias do sul do Líbano.

Dezenas de civis israelenses, judeus e árabes foram mortos e Haifa, a terceira cidade de Israel, virou teatro de guerra. Um milhão e meio israelenses passaram semanas em abrigos ou fugiram para o interior do país. No lado libanês o estrago foi maior. Com toda a perfeição das bombas aéreas de pontaria "cirúrgica”, muitos civis foram atingidos. Na sinistra conta dos mortos libaneses figuravam somente civis. Neste mesmo dia, finalmente, foi revelado que mais de 700 lutadores do Hizbollah morreram. Merece a nossa atenção que, também neste caso, os “mártires” não foram pobres marginalizados revoltados. A maioria foi de estudantes das faculdades de ciência e de medicina, jovens intelectuais indoutrinados.

O que seguiu, foi a primeira guerra televisionada ao vivo. No lado libanês foram mostrados sem fim os prédios atingidos em Beirute e os milhares de refugiados civis. Quando um projétil aéreo israelense matou civis que se abrigaram numa casa de onde Katiushas foram lançadas, o numero das vítimas que circulou variou em cada emissão. Nenhuma das vítimas libanesas foi jamais identificada pelas mídias. Israel, que agiu em legítima autodefesa, chegou a ser acusado, faltando uma acusação maior, de ter reagido de maneira "desproporcionada"!

No lado israelense pelo contrário. Cada soldado e cada civil morto foi elogiado na televisão, com repórteres falando com os familiares das vítimas e transmitindo cada velório. As fotografias dessas vítimas ocupavam páginas inteiras nos jornais. O público, que no início da guerra era unânime em apoiá-la, ficou impaciente e deprimido pela incapacidade do exército de por fim aos ataques de foguetes, e pelo numero crescente das vítimas. Era evidente que precisava re-invadir o sul do Líbano com forças terrestres para dar um fim às Katiushas. Mas quando os regimentos foram finalmente convocados, ficou claro  que lhe faltava a doutrina militar, a experiência e muitas vezes o armamento adequado, para enfrentar o exército de sombras do Hizbollah.

Curiosamente, enquanto no palco militar Israel não conseguiu outra das suas famosas vitórias, e o conflito se arrastava, no âmbito diplomático Israel vivia uma conjuntura inesperadamente favorável. Ficou claro para o Ocidente e também para os regimes árabes sunitas da região, que a segunda guerra do Líbano era na verdade uma guerra do Irã e do seu aliado a Síria. As vítimas foram os israelenses e os pacíficos cidadãos libaneses não-xiitas, mas o alvo era uma dominância iraniana do Médio Oriente. Considerando o possível armamento atômico do Irã, era um prólogo a uma guerra muito maior.

Não foi uma vitória esmagadora de Israel, nem um nocaute para o Hizbollah. O Conselho da Segurança finalmente decidiu impor um cessar-fogo e um esquema futuro de controle adequado. Mas isto aconteceu somente quando Israel, depois de muita hesitação, e perdas pesadas, decidiu reocupar temporariamente o sul do Líbano destruindo as bases do Hizbollah.

Para o estado libanês tornou-se possível, pela primeira vez, exercitar seu domínio político e militar sobre o sul do país, com a ajuda de milhares de tropas internacionais mandadas pela ONU.

Para Israel a guerra resultou numa nova trégua. A grande diferença, porém, é que no outro lado da fronteira encontra-se agora o exército libanês e não uma organização militar fanática e subversiva. Além disso, a presença militar internacional tem o mandado de impedir qualquer ação agressiva partindo de ambos lados. A opinião pública israelense ficou portanto deprimida. Pela primeira vez, a paz poderia depender em grande parte de instituições e forças estrangeiras e não exclusivamente do próprio exército israelense, que desta vez encontrou-se despreparado. Daí o clamor para um inquérito público e a necessidade de tirar as conseqüências militares e civis.

Mas não foi uma vitória de Piro (Pyrrhus). Pela primeira vez Israel foi reconhecido como trincheira avançada de um possível conflito mundial. No Afeganistão foi a NATO que interviu militarmente. No Iraque trata-se de uma problemática coalizão chefiada pelos Estados Unidos e a Grã Bretanha. Agora chegaram e chegarão para o Líbano, soldados do mundo inteiro, inclusive a Rússia e países muçulmanos como a Turquia e a Malásia. A sombra do Irã munido com armas atômicas e mísseis intercontinentais, que pretende chefiar um movimento que deseja criar um califado mundial, ficou pela primeira vez concreta. Israel não é mais o único a ser ameaçado na sua mera existência. O mundo moderno com seus valores humanistas de igualdade e tolerância também está na mira. A ameaça da Al Qaeda ficou no segundo lugar.

A democracia promovida pelo Bush é uma mera democracia das urnas, que não funciona quando se trata de milhões de fanáticos e indoutrinados. O presidente democraticamente eleito do Irã aconselhou o Bush se converter ao Islã .

Estamos passando por um necessário repensar das medidas apropriadas para salvaguardar os valores da civilização laica e moderna. Por esta razão, a segunda guerra do Líbano é possivelmente parecida á Guerra Civil da Espanha, o palco onde os futuros adversários da Segunda Guerra Mundial ensaiaram suas armas.

Os últimos soldados israelenses acabaram de deixar o Líbano. Passaram menos de 60 dias apos a caída das últimas Katiushas. Milhares de moradores judeus do norte de Israel trocaram os escuros abrigos antimísseis pelas cabanas coloridas e alegres de Sukkot, a festa religiosa dos Tabernaculos. Dezenas de festivais acontecem no país  inteiro durante esta semana de feriado, alguns deles adiados pela guerra no norte do país. Um festival de cinema internacional abriu na Haifa recentemente bombardeada. Festivais de danças folclóricas em Karmiel, de teatro alternativo em Akko, e de hippies "achanti" em Tiberias foram iniciados, onde pouco antes tocaram somente as sirenas de alarme. A semana de música clássica abriu com um atraso de várias semanas em Kefar Blum perto de Kiryat Shemona, a cidade que sozinha sofreu a caída de centenas de Katiushas.

Parece, portanto, que a vontade e o prazer de usufruir plenamente de todos os aspectos de uma vida cultural livre, possuíam uma vitalidade implícita e invencível. É uma nota de otimismo indiscutível.

Jerusalém, Outubro 2006.

por FRANCIS DOV POR

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