A
segunda Guerra do Líbano uma segunda Guerra Civil da Espanha?
Quando
festejamos o ano bom do novo milênio, nem o mais perspicaz dos
analistas políticos poderia vislumbrar os recentes acontecimentos,
a natureza e o tamanho da crise atual globalizada. Verdade, no Irã
já existia a teocracia messiânica dos aiatolás e o Saddam Hussein
já assumira o papel do Saladin, a nêmesis dos cruzados, mas ninguém
imaginava que em vez da doce utopia do "multiculturalismo"
iríamos ter que nos deparar com uma guerra religiosa mundial.
A
destruição das torres gêmeas foi um ato monstruoso de uma célula
terrorista bem organizada, porém, não foi um ato de guerra
religioso-cultural entre dois estados. A segunda guerra do Líbano
foi a primeira destas guerras.
Retirando-se
do Líbano em 2000, e da Faixa de Gaza em 2005, Israel imaginou-se
protegido atrás de fronteiras internacionalmente reconhecidas. O
esforço militar concentrou-se então contra células e grupos
terroristas armados nos territórios ainda ocupados. O poderoso exército
israelense assumiu o mero papel de polícia.
Sharon,
e também Olmert, seu muito menos carismático sucessor, planejavam
uma retirada adicional da maior parte dos territórios ocupados
remanescentes, finalizando assim as fronteiras internacionalmente
reconhecidas de Israel.
A
retirada de Gaza foi aproveitada pelos extremistas jihadistas do
Hamas para transformar este território numa base de ataques
cotidianos de foguetes contra Israel, sem se preocupar do bem estar
e o desenvolvimento pacifico da própria população palestina.
Baseado na doutrina islâmica, o Hamas jamais pretendeu reconhecer a
existência de Israel. Ele rejeita a mera idéia da existência de
dois estados soberanos, um ao lado do outro.
No
Líbano, a organização terrorista xiita do "Partido de
Deus”, o Hizbollah, tomou conta do sul do país ignorando a lei
internacional, alegando ter o dever de libertar a fazenda de Shaba,
um pedaço de terra do tamanho de uma chácara brasileira,
contrariando uma decisão da ONU. Durante os seis anos após a
retirada israelense, o Hizbollah construiu abertamente um arsenal e
uma rede de bunkers até localizados a poucos metros da linha de
fronteira. Freqüentemente mandava foguetes contra as cidades e
aldeias israelenses e provocava incidentes, passando a fronteira e
tentando pegar reféns. Uma vez eles conseguiram, e Israel teve de
liberar todos os prisioneiros libaneses, mantendo somente dois
lideres cativos. O "deus" deste partido também proibia o
reconhecimento de Israel e ameaçava alcançar Tel Aviv com seus
foguetes.
É
difícil entender, porque o governo Sharon evitou represálias.
Possivelmente o fantasma da primeira guerra do Líbano, que
perseguia o velho general, fosse a razão. O exército israelense não
se preparou para uma tal represália. Uma comissão de inquérito
israelense vai apurar este assunto.
Chegou
a hora de um novo governo chefiado pelo Olmert, um político sem
experiência militar, um ministro de defesa o Peretz, ironicamente
nada mais do que um velho sindicalista, e um chefe de estado maior
pela primeira vez proveniente das forças aéreas.
Em
Julho aconteceu uma nova provocação do Hizbollah, matando vários
soldados e seqüestrando dois dentro do território israelense. Como
sempre, protegeu esta ação com uma barragem de foguetes Katiusha
sobre o norte de Israel. Desta vez o novo governo, numa sessão só,
decidiu reagir. Reação justificada, mesmo se foi precipitada
demais.
Na
guerra que estourou, ficou evidente o poder do Hizbollah que não
era mais o de uma organização terrorista "clássica".
Era nada menos do que o braço armado, a vanguarda do Irã,
dentro do supostamente soberano Líbano. Armado com foguetes de
longo alcance, até foguetes terra-mar, e poderosos foguetes
anti-tanque de origem russa, abastecidos pelo Irã, através da Síria
e de meios eletrônicos russos, o Hizbollah virou um exército de um
tipo até agora desconhecido. Por um lado, era comandado por
oficiais iranianos em postos de comando longe da fronteira,
abrigados em catacumbas em baixo dos prédios altos do bairro xiita
de Beirute. Por outro lado, na frente da luta, os combatentes xiitas
eram misturados e indistintos da
população civil. Os lançadores de foguetes funcionaram nas
casas dos camponeses. O sul do Líbano virou um grande escudo vivo.
O
estado maior israelense imaginava que uma resposta aérea seria
suficiente para vencer o Hizbollah diretamente e provocar o
impotente governo central libanês a assumir suas responsabilidades
internacionais. Não funcionou. Verdade, a maioria das rampas de lançamento
de foguetes de longo alcance foram destruídos e o bairro xiita
sofreu pesado. Tel Aviv foi poupada. Mas durante semanas em seguida,
as cidades e aldeias israelenses do norte do país foram alvo de
milhares de foguetes "artesanais" partindo das aldeias do
sul do Líbano.
Dezenas de civis israelenses, judeus e árabes foram
mortos e Haifa, a terceira cidade de Israel, virou teatro de guerra.
Um milhão e meio israelenses passaram semanas em abrigos ou fugiram
para o interior do país. No lado libanês o estrago foi maior. Com
toda a perfeição das bombas aéreas de pontaria "cirúrgica”,
muitos civis foram atingidos. Na sinistra conta dos mortos libaneses
figuravam somente civis. Neste mesmo dia, finalmente, foi revelado
que mais de 700 lutadores do Hizbollah
morreram. Merece a nossa atenção que, também neste
caso, os “mártires” não foram pobres marginalizados
revoltados. A maioria foi de estudantes das faculdades de ciência e
de medicina, jovens intelectuais indoutrinados.
O
que seguiu, foi a primeira guerra televisionada ao vivo. No lado
libanês foram mostrados sem fim os prédios atingidos em Beirute e
os milhares de refugiados civis. Quando um projétil aéreo
israelense matou civis que se abrigaram numa casa de onde Katiushas
foram lançadas, o numero das vítimas que circulou variou em cada
emissão. Nenhuma das vítimas libanesas foi jamais identificada
pelas mídias. Israel, que agiu em legítima autodefesa, chegou a
ser acusado, faltando uma acusação maior, de ter reagido de
maneira "desproporcionada"!
No
lado israelense pelo contrário. Cada soldado e cada civil morto foi
elogiado na televisão, com repórteres falando com os familiares
das vítimas e transmitindo cada velório. As fotografias dessas vítimas
ocupavam páginas inteiras nos jornais. O público, que no início
da guerra era unânime em apoiá-la, ficou impaciente e deprimido
pela incapacidade do exército de por fim aos ataques de foguetes, e
pelo numero crescente das vítimas. Era evidente que precisava
re-invadir o sul do Líbano com forças terrestres para dar um fim
às Katiushas. Mas quando os regimentos foram finalmente convocados,
ficou claro que lhe
faltava a doutrina militar, a experiência e muitas vezes o
armamento adequado, para enfrentar o exército de sombras do
Hizbollah.
Curiosamente,
enquanto no palco militar Israel não conseguiu outra das suas
famosas vitórias, e o conflito se arrastava, no âmbito diplomático
Israel vivia uma conjuntura inesperadamente favorável. Ficou claro
para o Ocidente e também para os regimes árabes sunitas da região,
que a segunda guerra do Líbano era na verdade uma guerra do Irã e
do seu aliado a Síria. As vítimas foram os israelenses e os pacíficos
cidadãos libaneses não-xiitas, mas o alvo era uma dominância
iraniana do Médio Oriente. Considerando o possível armamento atômico
do Irã, era um prólogo a uma guerra muito maior.
Não
foi uma vitória esmagadora de Israel, nem um nocaute para o
Hizbollah. O Conselho da Segurança finalmente decidiu impor um
cessar-fogo e um esquema futuro de controle adequado. Mas isto
aconteceu somente quando Israel, depois de muita hesitação, e
perdas pesadas, decidiu reocupar temporariamente o sul do Líbano
destruindo as bases do Hizbollah.
Para
o estado libanês tornou-se possível, pela primeira vez, exercitar
seu domínio político e militar sobre o sul do país, com a ajuda
de milhares de tropas internacionais mandadas pela ONU.
Para
Israel a guerra resultou numa nova trégua. A grande diferença, porém,
é que no outro lado da fronteira encontra-se agora o exército
libanês e não uma organização militar fanática e subversiva. Além
disso, a presença militar internacional tem o mandado de impedir
qualquer ação agressiva partindo de ambos lados. A opinião pública
israelense ficou portanto deprimida. Pela primeira vez, a paz
poderia depender em grande parte de instituições e forças
estrangeiras e não exclusivamente do próprio exército israelense,
que desta vez encontrou-se despreparado. Daí o clamor para um inquérito
público e a necessidade de tirar as conseqüências militares e
civis.
Mas
não foi uma vitória de Piro (Pyrrhus). Pela primeira vez Israel
foi reconhecido como trincheira avançada de um possível conflito
mundial. No Afeganistão foi a NATO que interviu militarmente. No
Iraque trata-se de uma problemática coalizão chefiada pelos
Estados Unidos e a Grã Bretanha. Agora chegaram e chegarão para o
Líbano, soldados do mundo inteiro, inclusive a Rússia e países muçulmanos
como a Turquia e a Malásia. A sombra do Irã munido com armas atômicas
e mísseis intercontinentais, que pretende chefiar um movimento que
deseja criar um califado mundial, ficou pela primeira vez concreta.
Israel não é mais o único a ser ameaçado na sua mera existência.
O mundo moderno com seus valores humanistas de igualdade e tolerância
também está na mira. A ameaça da Al Qaeda ficou no segundo
lugar.
A
democracia promovida pelo Bush é uma mera democracia das urnas, que
não funciona quando se trata de milhões de fanáticos e
indoutrinados. O presidente democraticamente eleito do Irã
aconselhou o Bush se converter ao Islã .
Estamos
passando por um necessário repensar das medidas apropriadas para
salvaguardar os valores da civilização laica e moderna. Por esta
razão, a segunda guerra do Líbano é possivelmente parecida á
Guerra Civil da Espanha, o palco onde os futuros adversários da
Segunda Guerra Mundial ensaiaram suas armas.
Os
últimos soldados israelenses acabaram de deixar o Líbano. Passaram
menos de 60 dias apos a caída das últimas Katiushas. Milhares de
moradores judeus do norte de Israel trocaram os escuros abrigos antimísseis
pelas cabanas coloridas e alegres de Sukkot, a festa religiosa dos
Tabernaculos. Dezenas de festivais acontecem no país
inteiro durante esta semana de feriado, alguns deles adiados
pela guerra no norte do país. Um festival de cinema internacional
abriu na Haifa recentemente bombardeada. Festivais de danças folclóricas
em Karmiel, de teatro alternativo em Akko, e de hippies
"achanti" em Tiberias foram iniciados, onde pouco antes
tocaram somente as sirenas de alarme. A semana de música clássica
abriu com um atraso de várias semanas em Kefar Blum perto de Kiryat
Shemona, a cidade que sozinha sofreu a caída de centenas de
Katiushas.
Parece,
portanto, que a vontade e o prazer de usufruir plenamente de todos
os aspectos de uma vida cultural livre, possuíam uma vitalidade
implícita e invencível. É uma nota de otimismo indiscutível.
Jerusalém,
Outubro 2006.
por
FRANCIS DOV POR