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Globalização e racismo: São Paulo e Lisboa.
O
presente artigo tem como objetivo introduzir estudo comparativo
entre Brasil e Portugal, a partir das cidades de Lisboa e São
Paulo, cidades globais (VÉRAS, 1997, p. 35), acerca das implicações
raciais e sociais produzidas pelas transformações econômicas
estruturais da globalização, avaliando como a relação entre
afrodescendentes, negros e brancos, no Brasil e em Portugal, se
alterou em função da globalização. O conceito de globalização,
utilizado neste artigo, recupera a conceituação de
Boaventura de Souza Santos que aprofunda o processo de
globalização para além das relações político-financeiras,
recuperando as especificidades e particularidades do processo,
caracterizando a globalização em sua pluralidade, ou seja,
globalizações em especial; neste estudo – Portugal e Brasil –,
países semiperiféricos (SANTOS, 2002). O processo de globalização
não é uniforme, como nos aponta Boaventura de Sousa Santos, ao
considerar que existem globalizações, dentre as quais destacamos:
Portugal e Brasil que estão entrelaçados nesse processo como países
capitalistas semiperiféricos, situados entre os países centrais e
os periféricos (SANTOS, 2002, p. 11-26). Dessa forma, é necessário
destacar o significado de globalização e algumas de suas variantes
como o conceito de cidade global, até porque a globalização
altera e modifica as relações sociais e étnico-raciais em todo o
mundo, principalmente em cidades consideradas globais, como é o
caso de São Paulo e Lisboa (VÉRAS, 1997, p. 35).
Esse
processo acentuou a discriminação racial e os preconceitos,
particularmente neste estudo, na avaliação de quem é “o
outro”, ou seja, o imigrante, o estrangeiro, o negro, enfim, o não
reconhecido nele próprio: o diferente, o não branco. Esta
consideração nos faz recorrer ao conceito de alteridade –
significação que um faz do outro, ou seja, é o outro do outro.
Segundo Maura Pardini Bicudo Véras, ao definir o outro, como
argumento sociológico, devemos recorrer à Antropologia e à
Psicologia. Assim o outro se apresenta como: o “estrangeiro”, o
“estranho”, o “não eu”, mas ao mesmo tempo é um jogo de
representações que são agudizadas diante das desigualdades. Dessa
forma, o conceito de alteridade busca dar conta desse processo e
compreender estes atores sociais (VÉRAS, 2004, p. 153-160). Ao
mesmo tempo destaco que o racismo é um processo histórico como
afirma Maria Luiza Tucci Carneiro (TUCCI CARNEIRO, 1988).
Nesse
sentido, a compreensão do racismo na atualidade envolve o tipo de
identificação que é realizada, e desta forma, a identificação
étnico-racial trilhada considerou, para o caso brasileiro, os
negros e/ou afrodescendentes. No caso dos afrodescendentes, a
interpretação sugerida visualizou que todos os mestiços,
“pardos”, segundo a nomenclatura do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), têm ancestralidade negra, por isso
estão incluídos nesse grupo, constituindo a maioria relativa da
população (IBGE, 2002). Já no caso português, como não houve um
processo considerável de miscigenação, consideraram-se
principalmente os negros e com destaque para a avaliação de que,
na sua totalidade, são estrangeiros, ou seja, são reconhecidos
como africanos, estrangeiros; portanto não são portugueses, mesmo
que sejam portadores de documento comprobatório. O próprio racismo
que surge dessas situações, diferencia a discriminação racial
que ocorre nos respectivos países, até porque os imigrantes e as
respectivas etnias negras são minoritários quantitativamente em
Portugal, representando em torno de 5% da população total do País,
na atualidade (RIBEIRO, 2005, p. 14).
Nesse
aspecto, é importante avaliar que, hoje, o racismo apresenta-se de
forma intensa em Portugal, com relação não apenas ao negro, mas
também à população cigana e precisamente, nos últimos anos, com
relação aos imigrantes do leste europeu. Já no caso brasileiro, o
racismo deve ser avaliado, considerando-se a “mestiçagem étnica
e cultural”, produzida no Brasil. Dessa forma, poderíamos supor
aqui uma diferenciação desse tipo de discriminação. Importa também
esclarecer que a designação de quem é quem envolve formulações
históricas a partir da perspectiva das elites, mas que o este
artigo buscou desconstruir, estabelecendo a diferença entre o negro
e o afrodescendente no Brasil; o negro e o estrangeiro em Portugal.
Analisar o atual racismo, brasileiro e português, significa
recuperar suas matrizes históricas que se encontram na abordagem
racial desenvolvida pelos portugueses, a partir do século XV: para
a ocupação de cargos públicos, o ingresso nas universidades, colégios
e ordens religiosas (TUCCI CARNEIRO, 1988, p. 10-16).
Para
compreender nosso racismo contemporâneo, Omar Ribeiro Thomaz, lança
mão de definir a ideologia da igualdade de raças, esclarecendo que
o desenvolvimento da idéia de democracia racial, em Portugal,
desenvolveu-se no período pós 30, a partir das formulações de
Gilberto Freyre (THOMAZ, 1996). Essa formulação ganha impulso
principalmente no período posterior a 1951, quando o regime
salazarista adota o discurso “luso-tropical” e a idéia da
democracia racial de Gilberto Freyre (LÉONARD, 1999).
Assim,
o racismo em Portugal, de ontem e hoje, encontra-se nos grupos
sociais diversos que racial ou culturalmente se apresentam
diferentes. Nesse sentido, compreender o racismo português
significa ancorá-lo no “[...] último império colonial da Europa
[...]” (SANTOS, 2003, p. 64) que reproduzia a idéia de civilizar
o outro, ou seja, o africano (LÉONARD, 1999) que transcorreu desde
o século XV, aprofundou-se no XIX e XX, até encerrar-se com o fim
da guerra colonial em 1974, na revolução do 25 de Abril. Na
atualidade, a discriminação racial ocorre principalmente nos
estrangeiros que desembarcam em Portugal, por força da necessidade
de um exército internacional de reserva e de uma superpopulação,
componentes necessários para a reprodução do Capitalismo (IANNI,
1999) e que poderíamos denominar de “[...] racismo europeu
[...]” (MORICE, 2002, p. 105).
O
crescimento econômico que ocorreu em Portugal, um dos países que
mais cresceu na Europa na década de 90 do século XX, produziu
grandes transformações econômicas e sociais e ampliou o número
de imigrantes em Portugal. Um dos elementos do processo de globalização
é o deslocamento migratório das antigas colônias para a velha
metrópole. Em Portugal, a migração de brasileiros e africanos dos
Países de Língua Oficial Portuguesa (Palops) e também das populações
do leste europeu deu-se de forma considerável. Os negros e/ou
afrodescendentes das antigas colônias já são, na atualidade,
maioria entre os estrangeiros legais ou não (RIBEIRO, 2005). Nesse
sentido, o encontro de culturas distintas, possibilitado por uma
“[...] generalizada urbanização [...]” (IANNI, 1999, p. 154),
permite também a “[...] emergência e a ressurgência de
problemas raciais [...]” (IANNI, 1999, p. 155). Portanto, o
racismo em Portugal atinge os estrangeiros de forma geral
(RODRIGUES, 1999) mas, principalmente os negros provenientes das
antigas colônias portuguesas na África, além dos brancos oriundos
do leste europeu (BA; BRITO, 2002). Para ancorar esta assertiva, a
agência Reuters publicou pesquisa em que Portugal aparece como o
quarto país mais racista da Europa (REUTERS, 2005).
Ao
avaliarmos o racismo brasileiro, devemos considerar que a escravidão
forjou uma diferenciação que se reproduziu no século XX, por não
integrar o negro liberto na sociedade de classes, em virtude do
ingresso massivo de imigrantes e da teoria de embranquecimento. A não
“integração do negro na sociedade de classes no Brasil” está
vinculada à ideologia das elites brasileiras que visualizavam o
“embranquecimento da população”, por meio da mestiçagem étnica,
nas primeiras décadas do século XX, e dessa forma compreendiam que
a cor branca se ampliaria para toda a sociedade, efetivando-se como
padrão étnico (GUIMARÃES, 1999, p. 45-47). No período pós 30,
é a ideologia da democracia racial que vai balizar a compreensão
ideológica do Brasil sem “diferenças” de raça, ou seja, o
“[...] mito fundador de uma nova nacionalidade [...]”, mas que
mantém a ideologia do embranquecimento (GUIMARÃES, 1999, p.
52-55). Posteriormente, nas décadas de 60 e 70 do século XX, com o
apogeu da ditadura militar, amplia-se a “[...] mitologia da
democracia racial [...]” (GUIMARÃES, 2003, p. 196). Esta
discriminação racial, o racismo brasileiro, envolve o componente
racial, o fenótipo, o cultural e o classista, (GUIMARÃES, 1999),
que implica não apenas a diferenciação social ou cultural, mas
sobretudo a desigualdade econômica, ou seja, a “pobreza”
(GUIMARÃES, 2003, p. 58).
Na
atualidade, o racismo no Brasil continua existindo e tem-se
agravado, pela desigualdade acentuada que ocorre no processo de
globalização. Em estudo coordenado pelo Instituto de Pesquisas
Econômicas Aplicadas (Ipea) do Ministério do Planejamento, em
2002, constata-se que, dos 53 milhões de pobres do país, 63% são
negros (neste estudo, consideraram-se como negros todos aqueles que
seriam afrodescendentes, ou seja, pardos e pretos) e 37% são
brancos; e dos 22 milhões de pessoas que estão abaixo da linha da
pobreza, 70% são negros; na mesma pesquisa, essa diferenciação
também se aplica à educação.
2
Enfrentando o racismo
A
globalização atua sobre os sujeitos da cidade e da comunidade de
formas diferentes, e os mecanismos de resistência alteram-se à
medida que o fenômeno da globalização vai agindo sobre os espaços
e lugares de maneira distinta. Ou ainda, como prefere Boaventura de
Sousa Santos, “lutas paradigmáticas”, que envolvem dois campos
distintos: os que defendem (globalização hegemônica) e aqueles
que resistem, (globalização contra-hegemônica) (SANTOS, 2000, p.
20). Isso implica afirmar que a “mitologia da democracia racial”
no Brasil, e com contornos diferenciados em Portugal, baseado na idéia
do “país de brandos costumes” (BA; BRITO, 2002), perde terreno,
sendo descaracterizada enquanto elemento pacificador das relações
sociais. Ver-se-á, então, que a idéia da democracia racial está
sendo, minimamente, desmistificada e, assim, o racismo começa a ser
compreendido como parte das relações sociais. O problema, na
perspectiva dos governos e mesmo da sociedade, é como enfrentar
essa discriminação racial.
O
racismo não se apresenta de forma clara; muitas vezes é sutil e
invariavelmente ocorre no processo de resistência das populações
afrodescendentes. Compreender essa ação é identificar um processo
de disputa social, traduzida neste artigo, no conceito gramsciano de
hegemonia. Esta combinação direcionou meu olhar para a conceituação
de Boaventura de Sousa Santos acerca da globalização contra- hegemônica,
que pressupõe uma disputa social dos marginalizados do processo
neoliberal em curso (SANTOS, 2002. p. 75-85). Analisar essa disputa
hegemônica significa recuperar que um novo mundo é possível, e a
globalização hegemônica neoliberal não é o estágio final da
história, portanto descortina-se em sua forma plural a perspectiva
da contra-hegemonia para os sujeitos históricos.
Nesse
sentido, a compreensão desenvolvida visualizou o debate retórico
(anti-racismo, cidadania, emancipação e outros), alicerçado pelos
movimentos sociais, que se reinaugura com mais força na esteira da
crise do paradigma dominante, organizado na contra-hegemonia
(SANTOS, 2002). A contra-hegemonia se identifica na compreensão da
cultura como mecanismo de resistência à globalização neoliberal
e enquanto parte processual da sociedade civil. Fica caracterizado,
portanto, que a globalização da economia internacionaliza e traz não
só o desemprego e o fim de políticas sociais públicas, por meio
da concentração de capital, mas também, e conjuntamente, a ampliação
do debate sobre o racismo e as diversas manifestações de
preconceito, bem como políticas de reparação e o
multiculturalismo.
A
probabilidade de uma globalização includente (SANTOS, 2002),
trilha um caminho que envolve a ação da globalização e,
principalmente, a resistência histórica dos sujeitos sociais e as
modificações decorrentes desse embate que contribuem para a
construção de uma cidadania real. Em tempos neoliberais, o
conceito está em disputa na mesma esfera que se encontra em
contenda com o Estado.
Assim,
é possível identificar, nessa correlação de forças, a luta pela
hegemonia, ou seja, forma-se um bloco contra-hegômonico, que se
apresenta, em função da globalização, de forma
internacionalizada, como nas recentes manifestações contra o
capitalismo: em 1999, em Seattle, EUA; em 2001, em Genova, Itália;
em 2002, em Ontário, Canadá; na Conferência Mundial sobre o
Racismo, Xenofobia e Preconceitos, em 2001, em Durbhan, África do
Sul. Destaque-se ainda os trabalhos no Fórum Social Mundial, em sua
quinta edição, realizado em Porto Alegre, Brasil, em 2005.
Nesse
contexto, as comunidades negras e suas organizações no Brasil
e em Portugal têm desempenhado papel
importante no processo de definição das políticas públicas e no
processo de formação identitário das populações negras e
afrodescendentes, cumprindo ressaltar que as principais organizações
se encontram nas duas cidades; em São Paulo, destaco o EDUCAFRO
(EDUCAÇÃO E CIDADANIA DE AFROBRASILEIROS E CARENTES) e, em Lisboa,
o SOS Racismo que contam com diversas ações sociais e políticas,
tanto no combate ao racismo quanto na organização e orientação
das populações marginalizadas, bem como em ações pelos direitos
humanos.
O
processo de luta anti-racista desenvolvido em Portugal amplia-se a
partir do da década de 80 e início dos anos 90 do século XX, como
conseqüência da ampliação do debate, em face do assassinato de
um militante do Partido Socialista Revolucionário (PSR), em outubro
de 1989, e da tentativa de homicídio de um cidadão angolano por
grupos neonazistas no mesmo ano (RODRIGUES, 1999, p. 165). Esta
circunstância amplia a organização das entidades em defesa dos
direitos humanos e do combate à discriminação racial, bem como
exterioriza a situação das minorias étnicas e de imigrantes para
a sociedade portuguesa (RODRIGUES, 1999, p. 165-173).
No
transcorrer desses embates, surge a ACIME, em 1996, para lidar com a
problemática recente da imigração, mas não tão recente das
minorias, como ciganos, – seculares em Portugal e na Europa –,
negros e “mestiços” provenientes das ex-colônias nas décadas
de 60 e 70 do século XX (RODRIGUES, 1999, p. 166-173). Nesse
sentido, o governo português vem desenvolvendo políticas de inclusão
por meio de projetos de educação intercultural, que buscam
compreender a especificidade e diversidade cultural dos negros
oriundos das ex-colônias. No conjunto do Estado português, mesmo
que este órgão tenha sido criado em 1996, somente a partir de 2001
é que ele contou com maior investimento, apoio técnico, e ampliação
das instalações e começou a ter uma intervenção mais ativa na
sociedade, com diversas publicações e ações (MARQUES, 2005).
No
Brasil, o mito da democracia racial ganhou força no período pós
30 e, principalmente, no regime militar, porém, no processo de
redemocratização do país, há o questionamento desse mito, além
das proposições por parte do movimento negro unificado de que, no
Brasil, não era preconceito racial o que existia, e sim discriminação
racial (GUIMARÃES, 2003, p. 195-196).
Nessa,
perspectiva, as políticas de ação afirmativa esboçadas no Brasil
estão historicamente vinculadas às ações dos grupos subalternos
que reivindicam a participação, ampliação e até mesmo o
ingresso na sociedade de classes (GUIMARÃES, 1999). Analisar a
exclusão de consideráveis setores da sociedade, e até mesmo de
maiorias, significa compreender que, enquanto grupos sociais –
precisamente os étnico-raciais – encontram-se como minorias, até
porque existem diferenças na apropriação do poder e do estado, ou
seja, da política.
No
Brasil, políticas de inclusão podem ser exemplificadas nas
propostas de cotas para estudantes negros nas universidades e
empregos públicos (UERJ, UENF, Uneb, Ministérios da Justiça e do
Desenvolvimento Agrário e ainda em debate o projeto de reformulação
do ensino superior do Ministério da Educação), ou nas políticas
de impacto gerencial, do Bank Boston, Xerox, Monsanto, entre outras
corporações. Destaco ainda que o governo brasileiro na gestão
Fernando Henrique Cardoso (FHC), 1994-2002, não desenvolveu políticas
sistematizadas de combate ao racismo, apenas foram geridas políticas
ministeriais, muito mais de ações pessoais dos gestores de plantão,
do que uma política “gestada” na presidência. Entretanto, o
governo de Luís Inácio Lula da Silva, por meio da Secretaria
Especial de Promoção da Igualdade Racial, em conjunto com outros
ministérios e secretarias, vem desenvolvendo diversas ações,
aliadas a uma política sistematizada de governo, para enfrentar e
diminuir a discriminação racial, ou seja, há uma ação
republicana para desenvolver ações de afirmação e cotas no
conjunto do governo.
Nessa
esteira de disputa social, disputa pela hegemonia, que constrói
alternativas ao modelo global e para os respectivos Estados, poderíamos
pensar em uma globalização includente, ou, como prefere Santos,
“globalização alternativa” (SANTOS, 2005, p. 17). A
alternativa aludida perpassa a própria concepção da igualdade e
da diferença e evidencia-se na afirmação de Santos: “… temos
o direito de ser iguais quando a diferença nos inferioriza e a ser
diferentes quando a igualdade nos descaracteriza” (SANTOS, 2001,
p. 118).
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