O
percurso da imigração na França
A
França é um país de imigrantes desde a segunda metade do século
XIX porque, de 1850 a 1900, a população do país não aumentou,
enquanto que a dos outros países europeus foi triplicada, fazendo
com que os vizinhos suprissem a falta de mão-de-obra, porém, até
1945, quando o Estado começou a intervir existiram, somente,
medidas tomadas em relação à imigração, mas nenhuma política
em si.
O
Tratado de Amsterdã veio estabelecer a competência comunitária
nestes domínios e no que se refere ao asilo. Até 1917, era necessário
apenas uma simples declaração de Residência, fornecida pela
prefeitura local, para que o estrangeiro pudesse se fixar na França
e exercer uma profissão. Foi criado, então, um visto para os que já
moravam no país há mais de 15 anos e, dez anos depois, foi votada
a lei que permitia a extradição. Durante alguns anos, por causa
dos efeitos da crise econômica internacional sobre a França,
algumas disposições foram tomadas para a diminuição do fluxo
imigratório.
Os
operários franceses passaram a ser priorizados e uma quota foi
estipulada para os que viessem de fora. A medicina só poderia ser
exercida pelos franceses que possuíssem o doutorado na área. As
restrições foram aumentando até que, em 1940, o estrangeiro era
submetido a uma forte vigilância, não tendo mais o direito de
livre circulação no país, além de não ser beneficiado pela
legislação trabalhista.
A
ONI (Office National d’Immigration) foi criada em 02/11/1945 e dá
ao Estado o monopólio de introdução da mão-de-obra importada no
país. Foram instaurados vistos com duração de 1, 3 e 10 anos. A
imigração das famílias foi favorecida, sob uma ótica demográfica
e, em 18 de outubro do mesmo ano, o acesso à nacionalidade foi
liberalizado.
Nos
anos 60, as fontes de recrutamento foram, profundamente,
diversificadas. Houve um declínio da imigração italiana em
contra-partida ao aumento da espanhola, da portuguesa e uma considerável
retomada da imigração marroquina, além da algeriana, tunisiana e
africana sub-sahariana.
Ao
final da década de 60 e início da de 70, começaram a exigir
qualificação para os estrangeiros que fossem regularizados e a
perda do emprego implicava na perda do visto. No entanto, em 14 de
junho de 1973, uma circular foi assinada por Gorse, então ministro
do trabalho, que dava a possibilidade, durante três meses que se
seguiam, de serem regularizados os “clandestinos” que tivessem
entrado no país antes do dia 01 de junho daquele ano. Esta circular
foi anulada pelo Conselho do Estado um ano mais tarde.
Um
mês depois, o governo decide suspender a imigração dos
trabalhadores, (que ficou suspensa até 1977) e das famílias
(autorizada novamente em 1975), salvo para os que fizessem parte da
comunidade européia.
Nesta
época, tivemos a crise petrolífera, que fez com que a decisão
tomada pelos países europeus fosse de fechar as fronteiras e tornar
o visto comum a todos. A política familiar ficou, assim, ameaçada.
Na
década de 80, inúmeras medidas foram tomadas, desde a suspensão
de qualquer expulsão diante de uma comprovação provisória
fornecida a qualquer estrangeiro que requeresse ou fosse nascido em
solo francês ou, ainda, que aí vivesse antes da idade de 10 anos;
passando por algumas restrições que vieram a seguir (ex.: para os
que fossem condenados a, no mínimo, um ano de prisão fechada; os
que estivessem irregulares, etc); por criações de outras leis e
circulares; até a Instalação da Comissão, instaurada por Jacques
Chirac, composta de 16 “sábios” para analisar o código da
nacionalidade; e a discussão no Parlamento sobre uma nova legislação
e o “amaciamento” das condições para conseguir regularização.
Nos
anos 90, houve inúmeras modificações no código civil e foram
apresentadas várias disposições relativas a este assunto em
projetos de lei, além de podermos perceber maior preocupação com
o racismo e a discriminação, que perdurou até o início do novo século,
onde um grupo de estudos sobre as discriminações perante os
alojamentos sociais teve grande importância.
Segundo
as estatísticas do censo geral da população, estabelecidas pelo
Insee em 1999, a proporção de imigrantes estabilizou-se há 25
anos e mais de um imigrante a cada três possui nacionalidade
francesa, os que não possuem não tem direito ao voto nas eleições
locais. A partir de 2002, o Ministro do Interior, Nicolas Sarkozy,
travou uma luta contra a imigração clandestina.
Durante
todo esse tempo, mudou-se a lei umas vinte vezes até o texto
promulgado em 2003, onde prima a integração e reafirmação dos
estrangeiros regularmente instalados. Ao mesmo tempo, ao longo dos
anos, medidas foram tomadas para convencer um certo número de
pessoas a voltarem para seu país de origem (ajuda ao retorno por
Lionel Stoléru em 1997, ajuda à reinserção instaurada nos anos
80, e a política do co-desenvolvimento dos anos 90).
Existe,
hoje, uma conscientização de que a população francesa é
composta de adultos e pode chegar ao problema da necessidade da mão-de-obra
jovem, contudo, a entrada no território francês ainda é
estritamente seletiva e toda tentativa de permanência ilegal está
sendo, minuciosamente, perseguida. Há uma forte alegação de que a
França não pode acolher “toda miséria do mundo”. Versão
complexa e discutível, mas real.
por
CELUY ROBERTA
HUNDZINSKI DAMÁSIO