por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

O Japão e o dilema da imigração

 

Todos nós já sabemos algo sobre os idosos no Japão. Em geral, imagens são mostradas como uma prova de que a dieta japonesa, especialmente o consumo de soja, de algas e de chá verde, auxiliam na longevidade da população. Embora este aspecto seja excelente para o país, um outro ângulo da questão deve ser levado em conta: a existência de tantos idosos, juntamente com a diminuição do número de nascimentos, logo levará o país a um impasse. Nos últimos anos, apesar da famosa longevidade japonesa, a população está estabilizando, porque muitos jovens japoneses estão adiando – ou mesmo desistindo completamente de – casar-se, e muitos casais decidem não ter filhos, ou ter somente um filho.[1] Em outras palavras, quem vai continuar a trabalhar e tocar a economia do país e ao mesmo tempo cuidar dos idosos?

De acordo com pesquisas publicadas em 2003, o declínio de nascimentos, e a morte natural dos mais idosos, levará a uma redução de 22 milhões de pessoas no ano 2050. Se esta tendência continuar, para preencher este vazio de pessoas, e manter sua viabilidade econômica, o Japão precisaria receber em média 381.000 trabalhadores estrangeiros no país a cada ano. Se tal número de trabalhadores estrangeiros fosse aceito, de 1% da população, os estrangeiros passariam a 17.7 % em 2050.

Esta possibilidade, para um país com a história que o Japão tem, beira ao caos. Convém relembrar aqui que o Japão permaneceu fechado para o mundo por mais de 200 anos, e que só foi aberto ao comércio com o exterior praticamente debaixo de ameaça de bombardeio pelos Estados Unidos em 1853.[2] Mas, apesar deste início traumático de relações com outros países, o Japão logo se acostumou e, além do comércio com outros países, o governo do Japão percebeu também as vantagens de enviar seus cidadãos para outros países. Por exemplo, o Brasil recebeu, de 1908 a 1914, quase quinze mil japoneses, os quais foram colocados nas fazendas de café. A corrente migratória continuou, praticamente sem interrupção, até 1935. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, os japoneses continuaram a chegar, embora em menor número. No total, talvez tenham vindo para o Brazil cerca de um milhão e trezentas mil pessoas. A enciclopédia Wikipedia diz que 800.000 foram para os Estados Unidos, e um grande número – vinte mil pessoas – para o Peru.[3] Por que vieram ao Brasil? Provavelmente por razões maiores do que os simples imigrantes sabiam: interesse do Brasil em conseguir mão de obra para colocar no lugar dos antigos escravos negros, e interesse do Japão de se livrar dos que, provavelmente, na época considerava como bocas extras no país.

Shiodome em ToquioMas o Japão se recuperou. Virou país rico. Enquanto isto, na América Latina em geral, e no Brasil em particular, o longo período de ditadura, aliado com os desmandos políticos que a sucederam, deram lugar a um desespero generalizado, e quem podia sair, saiu do país. Para os descendentes de japoneses, havia o escape proporcionado pelo Japão que abriu as portas para os descendentes de japoneses, que voltaram em grande número. Só que, como sabemos, voltaram para trabalhar em condições a priori inferiores às dos trabalhadores japoneses. Assim como os peruanos descendentes de japoneses, os nikkeijin brasileiros tiveram que entrar no trabalho braçal nas fábricas, e muitos deles tiveram que sacrificar família, saúde, auto-respeito nesta mudança.[4] Embora etnicamente japoneses, eles são culturalmente brasileiros, e, mesmo que continuem no Japão, serão sempre estrangeiros, e seus nomes serão escritos com a escrita destinada aos estrangeiros, a katakana. A não ser que estes brasileiros de origem japonesa se casem com japoneses e tenham filhos com eles, seus filhos continuarão sendo estrangeiros. Esta história não é nova no Japão.

1.

Apesar dos dois séculos e meio de isolamento do mundo, no século XX o Japão começou a receber estrangeiros. Primeiro vieram os chineses, que fizeram seus bairros nas cidades portos. Depois da colonização da Coréia (ou ataque, submissão e invasão, por outro ponto de vista), o Japão começou a trazer pessoas da colônia para trabalharem em regime semi-escravo. Esta não era considerada uma imigração estrangeira, já que os coreanos estavam sob o domínio do Japão. Embora os coreanos que chegaram ao Japão antes de 1945 em sua maioria não tenham ido de própria vontade, eles não escaparam do furor xenofobista de 1923, quando a população de Tóquio atacou e matou mais de 800 coreanos por causa de um rumor que eles estavam planejando desordens e ataques depois do terremoto que havia destruído partes da cidade. Depois do massacre, mais de 100 mil coreanos foram “deportados” de volta à Coréia, em péssimas condições.

Mutatis, mutandis depois da guerra? Não exatamente: em 1952, quando os Estados Unidos oficialmente terminaram a ocupação do território japonês, os coreanos e chineses que estavam no Japão foram declarados estrangeiros.[5] A partir daí, e recuperado dos bombardeios e da perda de vidas causada pela guerra, o país não aceitou receber estrangeiros muito facilmente. Nos anos 60, quando a indústria começou a desenvolver-se e o país necessitava de braços para o trabalho, ao invés de imediatamente apelar para a imigração, o Japão preferiu investir na ciência dos robôs e automação. Chikako Kashiwazaki escreve que os analistas dividem os imigrantes em duas categorias: os “velhos”, que residiam no Japão desde antes de 1952 e seus descendentes, e os “recém-chegados”, aqueles que chegaram a partir dos anos 80. Kashiwazaki diz que muitos destes “imigrantes” eram pessoas que ficavam além do prazo do visto, e que este número foi de 100.000 em 1990 a 300.000 em 1993, e a 220.000 em janeiro de 2002. (“Japan: From Immigration Control to Immigration Policy?”)

2.

O que significa exatamente para um país a aceitação de estrangeiros? Um primeiro passo, obviamente, é aceitar que eles entrem no território da nação. O Japão, como vimos, por mais de 200 anos não aceitava nem este primeiro passo de estrangeiros. Os únicos que chegaram mais próximos foram os holandeses, mas somente até a ilha de Dejima, na baía de Nagasaki, enquanto que os japoneses nasciam e cresciam sem jamais ter visto uma cara não-japonesa, ou um falante da língua que não fosse japonês. Com a abertura forçada do país, e o desejo de equiparar-se com o resto do mundo – especialmente o mundo ocidental – o Japão logo embarcou em uma campanha bélica que trouxe morte e destruição para seus vizinhos, e para seus próprios cidadãos. “Curado” da belicosidade, e “pronto” para receber pelo menos os descendentes dos que no passado haviam deixado o país, o que fez o Japão?

Como sabemos, o Japão abriu um canal para receber os descendentes de japoneses. Mas, mesmo estes continuam como estrangeiros. Os que nascem no Japão, se os pais são estrangeiros, continuarão estrangeiros. Este é o caso dos coreanos no Japão, porque muitos deles estão no país há três ou quatro gerações, mas continuam sendo estrangeiros, cujos nomes são escritos em katakana, e que não têm direito ao voto.

O que significa ser estrangeiro no país onde se mora? A primeira coisa que vem à mente é a impossibilidade de participar no processo político; em outras palavras, a impossibilidade de votar, escolher seu representante (ou pelo menos tentar). No Japão, porque uma vez estrangeiro, dificilmente alguém vai se tornar japonês, os estrangeiros não votam.[6] Em novembro de 2000, Suvendrini Kakuchi publicou o artigo “Japan at odds on voting rights for foreign residents, no qual ele discute a aparente discordância entre o que os velhos políticos pensam, e o que os jovens pensam deste assunto, especialmente em se tratando do direito ao voto para os coreanos nascidos no Japão: enquanto que os políticos se opunham à extensão deste direito aos coreanos, 90% dos estudantes da prestigiosa Tokyo University apoiavam o direito ao voto para os residentes permanentes (http://www.atimes.com/japan-econ/BK22Dh01.html).

No entanto, ainda em 2006, de acordo com o jornal Migration News, dos 6.700 estrangeiros que obtiveram permissão para votar em eleições locais, 97% eram de Taiwan (Migration News Vol. 13 No. 3, July 2006). Isto quer dizer: embora os coreanos, chineses e brasileiros (entre outros) constituam o maior número de imigrantes, e pagam impostos, e vivem sob a lei japonesa, não obtiveram a permissão para votar. A diferença entre os que podem votar e os que não podem indica que o país não tem interesse em ampliar os direitos das pessoas que vêm viver definitivamente no Japão. A esperança, mais uma vez, é que estes mesmos jovens que hoje apóiam a extensão do direito ao voto aos que imigram ao Japão e contribuem para sua economia, um dia, quando sejam políticos com poder, lembrem-se do que pensavam em sua juventude. É possível. [7]

Um outro aspecto importante para que o Japão definitivamente se livre da ideologia isolacionista é admitir que os estrangeiros – mesmo aqueles que não falam japonês nativo – sabem algo além do trabalho mais inferior, pesado e mal remunerado nas fábricas. Ou, para os que falam uma língua que interessa aos japoneses (especialmente inglês), que os estrangeiros sabem algo além de falar essa língua. Durante meus anos morando no Japão, uma das brincadeiras mais comuns entre a comunidade de estrangeiros para os recém-chegados, era perguntar que trabalho Albert Einstein, se fosse jovem hoje, teria no Japão. A resposta correta seria: Einstein teria duas opções, trabalho em fábrica de automóvel, ou professor de alemão em alguma escola de línguas. Embora esta idéia seja absurda, ela retrata o sentimento dos que, chegando ao país do sol nascente com diplomas de engenheiros, matemáticos, advogados, psicólogos, professores, e apesar dos muitos anos no país, jamais tiveram a possibilidade de exercer sua profissão. Este sentimento generalizado no Japão de que os estrangeiros “não sabem” fazer nada, e que não têm os mesmos direitos laborais que os japoneses se reflete numa entrevista dada por Daniel Alberto Harada, que mora no Japão desde 1997, e trabalha em uma fábrica em Toyohashi, disse: "[The Japanese workers] think maybe because we are foreigners we have to only work, and that because they are Japanese, and we are in Japan, they get to sleep ... Maybe they think we are robots" – “[os trabalhadores japoneses] pensam que talvez porque somos estrangeiros nós temos que somente trabalhar, e porque eles são japoneses, e nós estamos no Japão, eles podem dormir… Talvez eles pensem que nós somos robôs”. [8]

Nesta queixa deste trabalhador reside a dor maior dos estrangeiros no Japão: terem sua humanidade negada. Quando uma pessoa vai residir em outro país, e decide ficar de vez, construir sua família, construir seu futuro, a pessoa não está somente investindo sua força laboral. A pessoa está investindo sua imaginação humana, seus sonhos de futuro, sua inteligência, sua arte. A partir do momento em que estas características humanas além do trabalho são negadas, a pessoa deixa de participar. Daí para a mudança em direção ao crime, é somente um passo.

Tomemos como exemplo a situação de muitas famílias dekassegui que foram do Brasil de volta ao Japão.[9] Muitos pais – a maioria – teve que deixar os filhos sozinhos em casa para poderem trabalhar dois turnos nas fábricas para poderem pagar as passagens e as despesas iniciais e manter a casa. Os mais jovens, sem poderem se ambientar na escola japonesa, ao serem discriminados em todos os lugares, tinham realmente poucas opções. Alguns decidiram voltar ao Brasil, deixando os pais no Japão. Tenho recebido inúmeras mensagens de email de jovens nestas condições, pedindo conselhos. Outros, decidem enfrentar a escola japonesa, onde alguns têm a sorte de serem recebidos carinhosamente pelos jovens, e com suspeita pelos professores e adultos. Estes também em geral acabam decidindo voltar ao Brasil. Há um grupo, porém, que decide permanecer e, ao mesmo tempo, voltar as costas completamente ao Japão e se fechar à língua e à cultura, dedicando-se exclusivamente à comunidade brasileira. Já há suficientes brasileiros no Japão para que esta possibilidade seja viável. Muitos vivem exclusivamente dentro, por e para a comunidade brasileira, com o mínimo contacto com os japoneses. Infelizmente, há também os que, em desespero, se dedicam ao crime.

O jornal Japan Reference, de 15 de junho de 2004, traz a notícia que de 2002 a 2003, houve um aumento de 16.9% no número de crimes cometidos por estrangeiros no Japão, chegando a 40,615 casos de crimes e ofensas. Vemos que, de 286.000 brasileiros residentes e visitantes no Japão, 1.224 foram presos. Entre estes, 1005 tinham cometido crimes, e 209 tinham cometido ofensas (geralmente a permanência depois do visto expirado).[10] Este número certamente vai aumentar, não só entre a população de estrangeiros vindos do Brasil, se a sociedade japonesa não começar urgentemente uma auto-avaliação dos seus planos para os imigrantes que o país vai continuar necessitando. A cidadania completa, o direito ao voto, o respeito aos direitos humanos, e a aceitação da diferença como algo positivo, têm que estar incluídos nestes planos. Caso contrário, a viabilidade econômica, e a própria segurança interna do Japão estarão em risco.

__________

[1] As informações estatísticas contidas em “Components of Population Change: 1930 to 2004” mostram esta tendência. Por exemplo, em 1960, nasceram 8.256.000 japoneses, e morreram 3.580.000. Já no ano 2.000, nasceram 6.019.000 e morreram 4.703.000. Para mais informações, ver http://www.stat.go.jp/english/data/figures/zuhyou/1603.xls

[2] Existem vários livros sobre este assunto, e alguns argumentam que estas ameaças foram o resultado da confusão dentro dos próprios corredores do poder imperial do Japão. Sem costume de lidar com estrangeiros, os japoneses não sabiam o que fazer com as mensagens do almirante Perry e seu aviso que iria a Tókio de qualquer maneira, mesmo que fosse obrigado a abrir o caminho a balas de canhão. Para uma análise rápida, e bastante parcial à atuação americana, ver http://138.147.50.20/branches/teach/ends/opening.htm. Para uma apresentação dos passos tomados depois deste primeiro contacto, ver http://www.cgj.org/en/c/vol_11-3/title_01.html.

[3] Ver o excelente artigo sobre a imigração e o fenômeno dekassegui em http://www.comciencia.br/reportagens/migracoes/migr19.htm.

[4] Ver o artigo de Takashi Asakura e Alice K. Murata no Journal of Immigrant and Minority Health (volume 8, número 4, de outubro de 2006), “Demography, Immigration Background, Difficulties with Living in Japan, and Psychological Distress among Japanese Brazilians in Japan.” Neste artigo, Asakura e Murata dizem que japoneses brasileiros “who experienced lower economic conditions, lived alone, stayed relatively longer in Japan, migrated to Japan due to their dissatisfaction with the socio-economic conditions in Brazil, and who experienced severe family life concerns had a significantly higher ratio of … psychological[…] distress[…]. In contrast, JB over the age of 25 years, who acquired moderate Japanese language proficiency and decided to return to Brazil as soon as possible, were observed to have a significantly lower ratio of psychological distress” — “que viveram em condições sócio-econômicas mais baixas, moravam sozinhos, ficaram no Japão relativamente mais tempo, migraram para o Japão devido à sua insatisfação com as condições sócio-econômicas no Brasil, e que tiveram severos problemas com a vida em família tiveram um nível mais alto de problemas com ansiedade psicológica. Em contaste, japoneses brasileiros acima de 25 anos de idade, que alcançaram uma moderada fluência de japonês e resolveram retornar ao Brasil o mais rápido possível, foram observados como tendo um nível significativamente mais baixo de ansiedade.”

[5] KASHIWAZAKI, Chikako. “Japan: From Immigration Control to Immigration Policy?” In: Migration Information Source. http://www.migrationinformation.org/Profiles/display.cfm?ID=39 Convém lembrar que, embora as tropas americanas tenham deixado o território japonês oficialmente em 1952, o território do arquipélago de Okinawa continuou ocupado, e sob as ordens administrativas dos americanos até 1972.

[6] O assunto da aquisição da cidadania, embora fascinante, é demasiado extenso para ser tratado neste artigo.

[7] Ver o documento publicado pela House of Councillors da National Diet of Japan, especialmente o artigo 10, que trata especificamente do direito ao voto para estrangeiros. A opinião se dividiu quanto à questão, e alguns indicaram que pagar os impostos não deve dar direito ao voto, por causa de diferenças em educação. Toda a discussão se restringiu ao direito ao voto em eleições locais. O documento termina da seguinte maneira: “No one argued for providing these foreigners with the right to vote in national elections” – “ninguém colocou em discussão estender a estes estrangeiros o direito de votar em eleições nacionais”. http://www.sangiin.go.jp/eng/report/ehb/ehb03_08.htm

[8] Ver a discussão completa no artigo de Take Toyohashi, “Future Imperfect: Japan’s Immigration Policies and the Winds of Change,” em http://www.findarticles.com/p/articles/mi_m0NTN/is_48/ai_111026246

[9] Este assunto foi tratado anteriormente no artigo “Gaijin, gaijin,” na Revista Espaço Acadêmico, nº 15, de agosto de 2002: http://www.espacoacademico.com.br/015/15eva.htm

[10] Ver estatística completa sobre outros países, e uma excelente interpretação dos dados em http://www.jref.com/society/foreign_crime_in_japan.shtml

   

 

 

 

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