O Japão
e o dilema da imigração
Todos
nós já sabemos algo sobre os idosos no Japão. Em geral, imagens são
mostradas como uma prova de que a dieta japonesa, especialmente o
consumo de soja, de algas e de chá verde, auxiliam na longevidade
da população. Embora este aspecto seja excelente para o país, um
outro ângulo da questão deve ser levado em conta: a existência de
tantos idosos, juntamente com a diminuição do número de
nascimentos, logo levará o país a um impasse. Nos últimos anos,
apesar da famosa longevidade japonesa, a população está
estabilizando, porque muitos jovens japoneses estão adiando – ou
mesmo desistindo completamente de – casar-se, e muitos casais
decidem não ter filhos, ou ter somente um filho.
Em outras palavras, quem vai continuar a trabalhar e tocar a
economia do país e ao mesmo tempo cuidar dos idosos?
De
acordo com pesquisas publicadas em 2003, o declínio de nascimentos,
e a morte natural dos mais idosos, levará a uma redução de 22
milhões de pessoas no ano 2050. Se esta tendência continuar, para
preencher este vazio de pessoas, e manter sua viabilidade econômica,
o Japão precisaria receber em média 381.000 trabalhadores
estrangeiros no país a cada ano. Se tal número de trabalhadores
estrangeiros fosse aceito, de 1% da população, os estrangeiros
passariam a 17.7 % em 2050.
Esta
possibilidade, para um país com a história que o Japão tem, beira
ao caos. Convém relembrar aqui que o Japão permaneceu fechado para
o mundo por mais de 200 anos, e que só foi aberto ao comércio com
o exterior praticamente debaixo de ameaça de bombardeio pelos
Estados Unidos em 1853.
Mas, apesar deste início traumático de relações com outros países,
o Japão logo se acostumou e, além do comércio com outros países,
o governo do Japão percebeu também as vantagens de enviar seus
cidadãos para outros países. Por exemplo, o Brasil recebeu, de
1908 a 1914, quase quinze mil japoneses, os quais foram colocados
nas fazendas de café. A corrente migratória continuou,
praticamente sem interrupção, até 1935. Depois do fim da Segunda
Guerra Mundial, os japoneses continuaram a chegar, embora em menor número.
No total, talvez tenham vindo para o Brazil cerca de um milhão e
trezentas mil pessoas. A enciclopédia
Wikipedia diz que 800.000 foram para os Estados Unidos, e um
grande número – vinte mil pessoas – para o Peru.
Por que vieram ao Brasil? Provavelmente por razões maiores do que
os simples imigrantes sabiam: interesse do Brasil em conseguir mão
de obra para colocar no lugar dos antigos escravos negros, e
interesse do Japão de se livrar dos que, provavelmente, na época
considerava como bocas extras no país.
Mas
o Japão se recuperou. Virou país rico. Enquanto isto, na América
Latina em geral, e no Brasil em particular, o longo período de
ditadura, aliado com os desmandos políticos que a sucederam, deram
lugar a um desespero generalizado, e quem podia sair, saiu do país.
Para os descendentes de japoneses, havia o escape proporcionado pelo
Japão que abriu as portas para os descendentes de japoneses, que
voltaram em grande número. Só que, como sabemos, voltaram para
trabalhar em condições a priori inferiores às dos
trabalhadores japoneses. Assim como os peruanos descendentes de
japoneses, os nikkeijin brasileiros tiveram que entrar no
trabalho braçal nas fábricas, e muitos deles tiveram que
sacrificar família, saúde, auto-respeito nesta mudança.
Embora etnicamente japoneses, eles são culturalmente brasileiros,
e, mesmo que continuem no Japão, serão sempre estrangeiros, e seus
nomes serão escritos com a escrita destinada aos estrangeiros, a katakana.
A não ser que estes brasileiros de origem japonesa se casem com
japoneses e tenham filhos com eles, seus filhos continuarão sendo
estrangeiros. Esta história não é nova no Japão.
1.
Apesar
dos dois séculos e meio de isolamento do mundo, no século XX o Japão
começou a receber estrangeiros. Primeiro vieram os chineses, que
fizeram seus bairros nas cidades portos. Depois da colonização da
Coréia (ou ataque, submissão e invasão, por outro ponto de
vista), o Japão começou a trazer pessoas da colônia para
trabalharem em regime semi-escravo. Esta não era considerada uma
imigração estrangeira, já que os coreanos estavam sob o domínio
do Japão. Embora os coreanos que chegaram ao Japão antes de 1945
em sua maioria não tenham ido de própria vontade, eles não
escaparam do furor xenofobista de 1923, quando a população de Tóquio
atacou e matou mais de 800 coreanos por causa de um rumor que eles
estavam planejando desordens e ataques depois do terremoto que havia
destruído partes da cidade. Depois do massacre, mais de 100 mil
coreanos foram “deportados” de volta à Coréia, em péssimas
condições.
Mutatis,
mutandis
depois da guerra? Não exatamente: em 1952, quando os Estados Unidos
oficialmente terminaram a ocupação do território japonês, os
coreanos e chineses que estavam no Japão foram declarados
estrangeiros.
A partir daí, e recuperado dos bombardeios e da perda de vidas
causada pela guerra, o país não aceitou receber estrangeiros muito
facilmente. Nos anos 60, quando a indústria começou a
desenvolver-se e o país necessitava de braços para o trabalho, ao
invés de imediatamente apelar para a imigração, o Japão preferiu
investir na ciência dos robôs e automação. Chikako Kashiwazaki
escreve que os analistas dividem os imigrantes em duas categorias:
os “velhos”, que residiam no Japão desde antes de 1952 e seus
descendentes, e os “recém-chegados”, aqueles que chegaram a
partir dos anos 80. Kashiwazaki diz que muitos destes
“imigrantes” eram pessoas que ficavam além do prazo do visto, e
que este número foi de 100.000 em 1990 a 300.000 em 1993, e a
220.000 em janeiro de 2002. (“Japan: From Immigration Control to
Immigration Policy?”)
2.
O
que significa exatamente para um país a aceitação de
estrangeiros? Um primeiro passo, obviamente, é aceitar que eles
entrem no território da nação. O Japão, como vimos, por mais de
200 anos não aceitava nem este primeiro passo de estrangeiros. Os
únicos que chegaram mais próximos foram os holandeses, mas somente
até a ilha de Dejima, na baía de Nagasaki, enquanto que os
japoneses nasciam e cresciam sem jamais ter visto uma cara não-japonesa,
ou um falante da língua que não fosse japonês. Com a abertura forçada
do país, e o desejo de equiparar-se com o resto do mundo –
especialmente o mundo ocidental – o Japão logo embarcou em uma
campanha bélica que trouxe morte e destruição para seus vizinhos,
e para seus próprios cidadãos. “Curado” da belicosidade, e
“pronto” para receber pelo menos os descendentes dos que no
passado haviam deixado o país, o que fez o Japão?
Como
sabemos, o Japão abriu um canal para receber os descendentes de
japoneses. Mas, mesmo estes continuam como estrangeiros. Os que
nascem no Japão, se os pais são estrangeiros, continuarão
estrangeiros. Este é o caso dos coreanos no Japão, porque muitos
deles estão no país há três ou quatro gerações, mas continuam
sendo estrangeiros, cujos nomes são escritos em katakana, e que não
têm direito ao voto.
O
que significa ser estrangeiro no país onde se mora? A primeira
coisa que vem à mente é a impossibilidade de participar no
processo político; em outras palavras, a impossibilidade de votar,
escolher seu representante (ou pelo menos tentar). No Japão, porque
uma vez estrangeiro, dificilmente alguém vai se tornar japonês, os
estrangeiros não votam.
Em novembro de 2000, Suvendrini Kakuchi publicou o artigo “Japan
at odds on voting rights for foreign residents”, no qual ele discute a aparente discordância entre o
que os velhos políticos pensam, e o que os jovens pensam deste
assunto, especialmente em se tratando do direito ao voto para os
coreanos nascidos no Japão: enquanto que os políticos se opunham
à extensão deste direito aos coreanos, 90% dos estudantes da
prestigiosa Tokyo University apoiavam o direito ao voto para os
residentes permanentes (http://www.atimes.com/japan-econ/BK22Dh01.html).
No
entanto, ainda em 2006, de acordo com o jornal Migration
News, dos 6.700 estrangeiros que obtiveram permissão para votar
em eleições locais, 97% eram de Taiwan (Migration
News Vol. 13 No. 3, July 2006). Isto quer dizer: embora os
coreanos, chineses e brasileiros (entre outros) constituam o maior número
de imigrantes, e pagam impostos, e vivem sob a lei japonesa, não
obtiveram a permissão para votar. A diferença entre os que podem
votar e os que não podem indica que o país não tem interesse em
ampliar os direitos das pessoas que vêm viver definitivamente no
Japão. A esperança, mais uma vez, é que estes mesmos jovens que
hoje apóiam a extensão do direito ao voto aos que imigram ao Japão
e contribuem para sua economia, um dia, quando sejam políticos com
poder, lembrem-se do que pensavam em sua juventude. É possível.
Um
outro aspecto importante para que o Japão definitivamente se livre
da ideologia isolacionista é admitir que os estrangeiros – mesmo
aqueles que não falam japonês nativo – sabem algo além do
trabalho mais inferior, pesado e mal remunerado nas fábricas. Ou,
para os que falam uma língua que interessa aos japoneses
(especialmente inglês), que os estrangeiros sabem algo além de
falar essa língua. Durante meus anos morando no Japão, uma das
brincadeiras mais comuns entre a comunidade de estrangeiros para os
recém-chegados, era perguntar que trabalho Albert Einstein, se
fosse jovem hoje, teria no Japão. A resposta correta seria:
Einstein teria duas opções, trabalho em fábrica de automóvel, ou
professor de alemão em alguma escola de línguas. Embora esta idéia
seja absurda, ela retrata o sentimento dos que, chegando ao país do
sol nascente com diplomas de engenheiros, matemáticos, advogados,
psicólogos, professores, e apesar dos muitos anos no país, jamais
tiveram a possibilidade de exercer sua profissão. Este sentimento
generalizado no Japão de que os estrangeiros “não sabem” fazer
nada, e que não têm os mesmos direitos laborais que os japoneses
se reflete numa entrevista dada por Daniel Alberto Harada, que mora
no Japão desde 1997, e trabalha em uma fábrica em Toyohashi,
disse: "[The Japanese workers] think maybe because we are
foreigners we have to only work, and that because they are Japanese,
and we are in Japan, they get to sleep ... Maybe they think we are
robots" – “[os trabalhadores japoneses] pensam que talvez
porque somos estrangeiros nós temos que somente trabalhar, e porque
eles são japoneses, e nós estamos no Japão, eles podem dormir…
Talvez eles pensem que nós somos robôs”.
Nesta
queixa deste trabalhador reside a dor maior dos estrangeiros no Japão:
terem sua humanidade negada. Quando uma pessoa vai residir em outro
país, e decide ficar de vez, construir sua família, construir seu
futuro, a pessoa não está somente investindo sua força laboral. A
pessoa está investindo sua imaginação humana, seus sonhos de
futuro, sua inteligência, sua arte. A partir do momento em que
estas características humanas além do trabalho são negadas, a
pessoa deixa de participar. Daí para a mudança em direção ao
crime, é somente um passo.
Tomemos
como exemplo a situação de muitas famílias dekassegui que foram
do Brasil de volta ao Japão.
Muitos pais – a maioria – teve que deixar os filhos sozinhos em
casa para poderem trabalhar dois turnos nas fábricas para poderem
pagar as passagens e as despesas iniciais e manter a casa. Os mais
jovens, sem poderem se ambientar na escola japonesa, ao serem
discriminados em todos os lugares, tinham realmente poucas opções.
Alguns decidiram voltar ao Brasil, deixando os pais no Japão. Tenho
recebido inúmeras mensagens de email de jovens nestas condições,
pedindo conselhos. Outros, decidem enfrentar a escola japonesa, onde
alguns têm a sorte de serem recebidos carinhosamente pelos jovens,
e com suspeita pelos professores e adultos. Estes também em geral
acabam decidindo voltar ao Brasil. Há um grupo, porém, que decide
permanecer e, ao mesmo tempo, voltar as costas completamente ao Japão
e se fechar à língua e à cultura, dedicando-se exclusivamente à
comunidade brasileira. Já há suficientes brasileiros no Japão
para que esta possibilidade seja viável. Muitos vivem
exclusivamente dentro, por e para a comunidade brasileira, com o mínimo
contacto com os japoneses. Infelizmente, há também os que, em
desespero, se dedicam ao crime.
O
jornal Japan Reference, de
15 de junho de 2004, traz a notícia que de 2002 a 2003, houve um
aumento de 16.9% no número de crimes cometidos por estrangeiros no
Japão, chegando a 40,615 casos de crimes e ofensas. Vemos que, de
286.000 brasileiros residentes e visitantes no Japão, 1.224 foram
presos. Entre estes, 1005 tinham cometido crimes, e 209 tinham
cometido ofensas (geralmente a permanência depois do visto
expirado).
Este número certamente vai aumentar, não só entre a população
de estrangeiros vindos do Brasil, se a sociedade japonesa não começar
urgentemente uma auto-avaliação dos seus planos para os imigrantes
que o país vai continuar necessitando. A cidadania completa, o
direito ao voto, o respeito aos direitos humanos, e a aceitação da
diferença como algo positivo, têm que estar incluídos nestes
planos. Caso contrário, a viabilidade econômica, e a própria
segurança interna do Japão estarão em risco.