Cidadania,
nacionalidade e identidade num mundo de migração internacional
Num
mundo contemporâneo marcado por crescentes migrações
internacionais e por uma transnacionalidade que permite às pessoas
mudarem de um país para o outro sem necessariamente aderir a uma
nova cultura e realidade, os
Estados e as sociedades se questionam sobre os efeitos desses
movimentos para a coesão social e para o próprio conceito de
cidadania e de pertencimento a uma dada sociedade. Vários exemplos
atuais permitem percebem como o tópico está na agenda dos mais
diferentes países dentro do mundo ocidental.
Nos
Estados Unidos, por exemplo, setores mais conservadores questionam
se a contínua imigração, especialmente de latinos, não significa
uma perda da identidade nacional e a criação de uma América
dividida em guetos. O mesmo questionamento se dá na Europa, onde os
mesmos setores apresentam a imigração muçulmana como inassimilável
e, portanto, como criadora de problemas para as sociedades européias.
Na
Holanda, por exemplo, começa-se a questionar a idéia do
multiculturalismo e advoga-se que os candidatos a imigrantes
respondam a testes que indiquem se eles têm condições de absorver
os valores da sociedade holandesa. Já na Itália, há um movimento
não para eliminar os direitos dos descendentes de italianos de
readquirirem a cidadania italiana, mas para que, destes, seja
exigido ao menos o domínio da língua e da cultura dos ancestrais.
Em resumo, os principais países de imigração estão cada dia mais
preocupados com o seu impacto na coesão social e no equilíbrio étnico
dentro de suas sociedades.
Todas
estas objeções à imigração têm que ser vistas com cuidado. Ao
contrário do apregoado pela direita européia e norte-americana, os
imigrantes não são os culpados de todos os males daquelas
sociedades hoje e, pelo contrário, colaboram, com o seu trabalho,
para que estas mantenham o seu crescimento econômico e serviços
essenciais. Depois, parece evidente que “testes” para imigrantes
ou outras medidas desse tipo são, no mínimo, questionáveis em sua
eficácia. Além disso, é questionável se os latinos e árabes que
imigram para o Primeiro Mundo são tão inassimiláveis assim.
Afirmar isto é mais uma arma para o jogo político e para a defesa
de barreiras ainda mais fortes contra os imigrantes do que outra
coisa. Ainda assim, é possível reconhecer que a imigração tem
colocado em cheque certos valores caros aos Estados-nação
modernos.
Isso
tem ocorrido, em boa medida, porque a imigração no mundo atual é
um pouco diferente da que ocorria nos séculos anteriores. Muitos
dos italianos e alemães que foram para os Estados Unidos no século
XIX ou de poloneses que se deslocaram para a França no século XX
tinham a perspectiva de permanecerem pouco tempo no país (o necessário
para fazer fortuna) e tinham pouco, ou nenhum interesse, em se
assimilarem ou se tornarem cidadãos norte-americanos ou franceses. Muitos
acabavam por faze-lo, especialmente no tocante aos seus filhos
nascidos no novo país, mas não era a regra geral. Ou seja, já
naquela época, a idéia de movimentos transnacionais e de
identidades múltiplas não era desconhecida.
Nos
últimos anos, contudo, com o processo de globalização e a melhora
do sistema de comunicações e transportes globais, essa situação
se radicalizou. Para os atuais imigrantes que se dirigem aos Estados
Unidos ou à Europa (como filipinos, mexicanos e árabes), a
possibilidade de evitar a assimilação, indo e voltando entre seus
países de origem e os de chegada, usufruindo as facilidades de
manutenção de contato com a cultura de origem via mídia moderna e
criando identidades e interesses móveis e transnacionais é muito
maior. Além disso, esses novos imigrantes são, racial e
culturalmente falando, muito mais diversos do que os antigos, o que
aumenta o potencial para conflitos e tensões dentro dessas
sociedades.
Assim,
o problema da incorporação desses imigrantes na Europa e na América
do Norte é uma via de mão dupla. Que há racismo e pouca vontade
de aceitação do “outro” dentro das sociedades ocidentais, é
impossível negar. Mas ao menos uma parte dos recém chegados quer
manter alguns aspectos da sua cultura que, para os ocidentais, são
inaceitáveis, o que gera inevitavelmente conflitos.
É
óbvio que a solução, aqui, é aceitar o pluralismo cultural. Tudo
seria mais fácil se os povos dos países de imigração aceitassem
o fato de que os imigrantes não são como eles e que a chegada do
“diferente” apenas enriquece a cultura e a economia locais.
Tolerância e esforço de inclusão são as palavras chave nesse
mundo de deslocamento populacional maciço.
Por
outro lado, é ilógico imaginar que os países que acolhem
imigrantes não possam ter regras mínimas sobre quantos e quais
imigrantes serão aceitos e sobre quais serão as regras mínimas de
convivência entre todos. Nenhum país do mundo pode ter uma política
de abertura total aos fluxos imigratórios globais (a não ser,
claro, aqueles miseráveis para onde ninguém quer ir) ou uma política
de multiculturalismo absoluto, como se cada comunidade pudesse viver
segundo suas próprias regras.
Realmente,
se alguém decide ir viver num outro país e numa outra
sociedade, deve ter todo o direito de manter a sua cultura, mas também
deve estar pronto a aceitar minimamente as regras da maioria,
especialmente no aspecto jurídico e na convivência cotidiana. Do
contrário, serão formadas sociedades onde todos, formalmente, serão
cidadãos sujeitos as mesmas regras, mas onde, na prática, cada
grupo vive como quer, com os inevitáveis conflitos surgindo.
Assim,
os italianos provavelmente estarão corretos se começarem a pedir,
aos descendentes de italianos, que aprendam a língua nacional antes
de pedirem a cidadania. E os britânicos talvez tenham o direito de
se sentirem indignados quando radicais islâmicos,
recebidos como refugiados na Inglaterra, façam discursos
proclamando o ódio aos próprios ingleses ou ao seu modo de vida.
O vai e vem das pessoas entre os vários
Estados também leva a questionamentos sobre a questão da
cidadania. Em julho de 2006, por exemplo, o jornalista canadense
Kenneth Kidd publicou
um interessante artigo
(“From 'citizen'
to 'passport'. Belonging to a country used to mean something.
Is that still possible in the 21st century?”. Toronto
Star, 30/7/2006), no
qual ele faz interessantes reflexões sobre o significado da
cidadania no mundo contemporâneo. Seu ponto de partida foi o
movimento de tropas canadenses durante o último conflito do Líbano
para o resgate dos cidadãos canadenses lá residentes. O problema,
para ele, é que alguns desses
cidadãos eram filhos de libaneses nascidos no Canadá e que tinham
ido para o Líbano quando crianças. O questionamento era: o Estado
canadense tinha a obrigação de resgata-los? Ou a canadenses que
moravam há décadas em New Orleans durante a passagem do Katrina?
O
questionamento dos canadenses, na verdade, se aplica a outros países,
como o Brasil. Pessoas questionaram se era dever do governo
brasileiro, justamente durante os acontecimentos do Líbano e na
Lousiana, resgatar pessoas que, mesmo com passaporte brasileiro,
estavam longe do Brasil há muito e, muitas vezes, nem tinham vivido
aqui.
É
uma questão complexa. Em termos jurídicos, é claro que o dever
existia. Mas a transformação da cidadania (que implica, ao menos
em teoria, em participação política, pagamento de impostos, vivência
no país do qual se desfruta a cidadania e um certo senso de
pertencimento) em um direito que pode ser usufruído a distância,
através da dupla cidadania ou da posse de um passaporte estrangeiro
(cada vez mais comuns, a propósito), complica bastante as coisas.
Essas
questões jurídicas não são exatamente novas, mas refletem os
problemas de um mundo em movimento, no qual pessoas com múltiplas
identidades (culturais, étnicas, jurídicas e mesmo nacionais)
circulam e convivem entre si, gerando demandas e questionamentos por
parte dos Estados. Questionamentos, como já ressaltado, nem de
longe novos, mas que estão se tornando mais complexos.
Não
sei, claro, como os Estados e sociedades resolverão essas questões
e se caminharemos para um esforço maior de homogeneização em cada
Estado ou para uma identidade e cidadania globais. Mas que são
questões centrais para esse mundo do século XXI, não resta a
menor dúvida.
por
JOÃO FÁBIO BERTONHA