A
experiência de viver na Alemanha
Antes
de vir à Alemanha, em 2001, um professor brasileiro me dizia que
conhecer a Alemanha, sua cultura, a forma de pensar de seu povo e a
experiência de viver no exterior seriam tão importantes como o próprio
doutorado. Após cinco anos de vivência na Alemanha, só posso
confirmar isso: as experiências no dia-a-dia, os muitos encontros,
a adaptação a uma outra cultura, o desafio de estudar de forma
intensiva e autônoma numa outra língua e escrever a tese de
doutorado constituíram ambos partes integrantes de um amplo
processo de aprendizagem.
Na
vida cotidiana fui, constantemente, confrontado com a possibilidade
de comparar os dois países, o que conduz à formação de
preconceitos com relação à Alemanha e descobertas em relação ao
Brasil. Inicialmente, há a tendência de achar que no país da
gente tudo é melhor; depois, o contato com alemães que estudam o
Brasil há tanto tempo que, por vezes, tive a impressão de que
conhecem o nosso país melhor do que nós (pelo menos o norte
brasileiro, que eu, como gaúcho, conheço muito pouco). É claro
que, como estrangeiro, a gente observa muito mais as coisas, porque
tudo é novo e se está interessado em todos os acontecimentos.
Assim, eu fui, positivamente, surpreendido com vários debates
acerca da situação brasileira que, nessa forma, são difíceis de
serem encontradas no Brasil. É interessante também que, estando no
exterior, a gente passa a sentir mais brasileiro.
Eu
tenho a sensação de que a minha imagem do Brasil foi se
modificando da mesma forma que a imagem da Alemanha que eu tinha.
Seres humanos se adaptam a situações e as idéias vão se
modificando na proporção do quanto estamos dispostos a conhecer o
outro. Nesse sentido, ajuda muito o ponto de vista dos alemães com
relação ao Brasil, pois me parece que os brasileiros são,
relativamente, bem aceitos na Alemanha. As causas disso eu não
consigo compreender plenamente, mas já é uma vantagem para um
processo de integração, se temos a percepção de que somos bem
vindos a um país.
É
claro que também existem dificuldades, especialmente no que se
refere ao idioma, ao estilo de vida e às relações cotidianas
entre as pessoas, ao clima de intenso inverno e pouca luz solar, ao
comportamento de autoridades, prestadores de serviços e à forma
burocratizada e distanciada como os consumidores e cidadãos são
tratados em geral neste país. O relativo isolamento das pessoas, a
indiferença e a ausência de solidariedade, que pode ser observável
na maioria das relações sociais, chega a indignar em muitas situações,
nas quais o individualismo exacerbado do assim chamado Primeiro
Mundo parece impedir relacionamentos mais intensos entre os seres
humanos. Além disso, o desprezo à emoção, o apego ao formalismo,
que dificulta a aproximação entre as pessoas, o crescente
consumismo, o desejo de acumulação de capital e a declarada falta
de tempo por parte da maioria dos alemães, contribuem para a
constituição de um ambiente social em que a acentuada concorrência,
a disciplina com relação ao trabalho e a fixação em objetivos de
caráter individual tendem a sufocar os espaços e as oportunidades
de expressão da intersubjetividade humana. O extremo apego à noção
de ordem e organização, o constante desejo de regramento,
institucionalização e controle geram a impressão de que somos
controlados, o tempo todo, por uma estrutura invisível, como se fôssemos
suspeitos de algo e tivéssemos que comprovar, de antemão, que não
somos “maus”, “preguiçosos” ou “indisciplinados”. E
isso também se revela nos métodos de ensino e pesquisa, onde
provas, notas e outros mecanismos de controle e classificação
continuam sendo bem mais rigorosamente aplicados do que no Brasil.
Por
outro lado, o relativo isolamento social das pessoas permite uma
maior objetividade e um melhor exercício da atividade crítica, uma
vez que a crítica a idéias tende a ser separada da crítica à
pessoa, o que, para um brasileiro, parece algo “quase impossível”.
A noção de respeito à “liberdade do indivíduo”, certamente
uma herança do liberalismo, constitui um ambiente propício ao
desenvolvimento de qualidades individuais como a leitura, a pesquisa
acadêmica, o planejamento do tempo e o estudo em geral.
Possivelmente,
esse ambiente social, aliado a longos períodos de inverno, em que a
permanência das pessoas em casa foi exigindo um regramento do
comportamento desde a infância, educando para o silêncio, para a
intensa ocupação do tempo disponível e para a disciplina
individual, contribuiu significativamente para o histórico avanço
da cultura intelectual e artística do povo alemão (seus famosos
pensadores, filósofos, poetas e músicos clássicos). A
oportunidade de ter acesso a essa herança cultural e ao estilo acadêmico
ainda predominante, faz da Alemanha um dos países mais
interessantes para se estudar, mesmo que, para viver, como
brasileiros, obviamente, continuemos a preferir o Brasil.
Através
do engajamento social para além da vida universitária e o contato
com a sociedade civil alemã eu tive a oportunidade de contribuir
como palestrante e jornalista nesse país. Nessas oportunidades,
percebi a importância que nós estrangeiros podemos ter na
Alemanha, em termos de intercâmbio de experiências. Nas diversas
oportunidades abordando temas como o Orçamento Participativo e o Fórum
Social Mundial de Porto Alegre ou o MST (Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra), foi possível perceber o quanto nossas experiências
sociais e políticas despertam esperanças por aqui, num período em
que tantas pessoas na Europa se sentem impotentes diante da política.
Através disso, eu fui descobrindo, cada vez mais, o quanto, para além
das diferenças culturais, os seres humanos possuem em comum, no
mundo todo. A presença na Alemanha durante este período de cinco
anos, que se encerra agora em 2006, eu avalio como sendo um profundo
intercâmbio de experiências culturais, políticas e sociais, no
qual eu estive constantemente confrontado por dois desafios: o de
contribuir cientificamente em uma determinada área do conhecimento
e o de dialogar interculturalmente para contribuir na construção
de alternativas para uma sociedade mais justa, democrática e pacífica
aqui e para todos.
por
ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI