Monitoria:
instrumento para trabalhar com a diversidade de conhecimento em
sala de aula
Os
profissionais da área educacional envolvidos no processo de
ensino-aprendizagem vêm constantemente se deparando com uma gama
de desafios em sala de aula e dentre eles está um dos mais
complexos: a adequada gestão da diversidade de conhecimentos.
Desde
a constituição da República ao texto da Lei de Diretrizes e
Bases da Educação Nacional, afirma-se a importância de garantir
aos cidadãos uma igualdade de oportunidades em educação. Porém,
essa igualdade de acesso que a escola tenta oferecer, ainda hoje,
não é acompanhada de igualdade de sucesso dos alunos que a freqüentam.
O que se verifica, através de diferentes medidas tomadas pelo
Sistema Educativo, é
que o sucesso acontece de modo desigual, nos diferentes grupos sócio-culturais
que constituem a população escolar (não somente no
Ensino Básico, mas também nos outros graus de ensino).
Inicialmente,
o fracasso escolar foi atribuído às baixas condições sociais
em que viviam os alunos e por decorrência ao contexto social: família,
bairros, pares com quem mantinham contato diariamente. Mais
recentemente, essas questões passaram a ser vistas de maneira
diferenciada – ao invés de se pensar que a causa dos problemas
residia, sobretudo, no fato de os alunos com insucesso
serem os que tinham nascido e se desenvolvido em meios sócio-culturais
desfavorecidos, começou-se a considerar que, talvez a própria
escola pudesse ter alguma responsabilidade nesse processo.
Com
o foco, usualmente, na transmissão de conhecimento já construído,
voltado para um “tipo ideal” de aluno, mesmo que a população
escolar seja heterogênea quanto às origens sociais, geográficas,
étnicas, entre outras, a distância entre as propostas
apresentadas pelas instituições educacionais e o tipo, nível de
saberes e interesses dos alunos divergem demasiadamente. Como
apontado por Cortesão & Pacheco (1992) esse problema reside
no fato de a heterogeneidade ser um desafio ao qual é difícil
e/ou trabalhoso dar uma resposta, pois grande parte das escolas
tem dificuldades de “ver” as cores do arco-íris sócio-cultural
presentes nas salas de aula, tendo em vista que todos nós
professores fomos socializados (desde longos anos) a olhar os
alunos como “se fossem” todos idênticos.
Para
Cortesão & Stoer (1996), esse “daltonismo cultural” leva
a escola a enxergar os alunos em tons cinzentos de normalidade,
aprisionando-os em grupos/turmas homogêneas, dificultando a relação
que nasce do conhecimento mútuo, da valorização do outro
diferente, do diálogo autêntico entre professor-aluno,
aluno-aluno. Para esses autores, o olhar daltônico e a normalização
constituem um impedimento para o crescimento sócio-moral e para o estímulo intelectual que poderá ocorrer nos contextos de
colaboração, inter-ajuda, solidariedade que podem ser
estabelecidas nas diferenças.
Segundo
Delors (2003), o respeito pela diversidade e pela especificidade
dos indivíduos constitui o princípio fundamental que deve levar
à extinção de qualquer forma de ensino estandardizado
que contribua com a exclusão social.
Na perspectiva de atender às novas exigências da
sociedade que reclama por novas técnicas de ensino, têm surgido
novos paradigmas para a prática pedagógica os quais tentam fugir
de uma visão conservadora e tradicional ao mudar o foco da
reprodução do conhecimento para a construção do conhecimento
(Moraes, 1997). É nesse contexto que discuto a seguir a atividade
com monitoria como proposta de trabalho com a diversidade de
conhecimento em sala de aula, buscando contribuir para que novas
formas de saber e ensino instiguem para uma maior aproximação do
que se designa por uma escola democrática e que venha atender as
novas exigências da sociedade.
O que é
Monitoria?
O
trabalho com monitoria, cuja atividade formativa pretende
contribuir com o desenvolvimento da competência pedagógica e
auxiliar os acadêmicos na apreensão e produção do
conhecimento, normalmente ocorre em Instituições de Ensino
Superior (IES) com normas fixadas pelos seus respectivos conselhos
de Ensino, Pesquisa e Extensão. Apesar de algumas peculiaridades
encontradas aqui e ali, o trabalho de monitoria é compreendido
como uma atividade formativa de ensino que entre outros objetivos,
pretende: a) contribuir para o desenvolvimento da competência
pedagógica; b) auxiliar os acadêmicos na apreensão e produção
do conhecimento; c) possibilitar ao acadêmico-monitor certa
experiência com a orientação do processo de
ensino-aprendizagem.
Após
a leitura e análise de várias resoluções relativas à matéria,
pude verificar que as atividades de monitoria dizem respeito a uma
ação extra-classe que busca resgatar as dificuldades ocorridas
em sala de aula e propor medidas capazes de amenizá-las. Percebi,
todavia, que em muitos casos, tais atividades mostram-se
inoperantes por uma série de fatores: a) na maioria das vezes, as
instituições não dispõem de subsídios para remunerar os
monitores; b) o regime de trabalho requer uma carga horária que
varia entre oito e quinze horas semanais, de acordo com cada
instituição sem prejuízo das atividades didáticas; c) muitos
alunos não podem freqüentar
as sessões de monitoria em função do horário em que são
normalmente ofertadas (contra-turno ou horário anterior ao
início das aulas); o trabalho realizado durante as sessões
de monitoria não atende
diretamente às necessidades dos alunos.
Segundo
Faria & Schneider (mimeo), o trabalho de monitoria sob esse
enfoque pode ser compreendido como uma atividade de apoio discente
ao processo de ensino-aprendizagem; como acompanhamento das
atividades formativas, ou ainda, como uma possibilidade de iniciação
à docência através de um trabalho conjunto entre professor e
monitor. Porém, esse
trabalho da maneira como vem sendo conduzido, tem se mostrado um
instrumento ineficaz para dar conta das demandas do processo de
ensino-aprendizagem que ocorrem em sala de aula ao se pautar em métodos
cartesianos, incorporando práticas educativas por meio de tendências
pedagógicas tradicionais e tecnicistas, uma vez que o
conhecimento é historicamente acumulado e repassado como verdade
absoluta (Moraes, 1997).
Atividade
de Monitoria: novo enfoque
De
acordo com Antunes (2002), a escola como centro epistemológico
que está a serviço dos interesses da população, deveria
contribuir para promover o progresso humano na medida em que
desperta a atividade mental construtiva e fornece ao aluno
elementos que lhe permitam uma participação ativa na sociedade.
Nesse modelo de educação, alunos e professor realizam um
processo conjunto, compartilhado, no qual o aluno ajudado pelo
professor e/ou por colegas possa tornar-se progressivamente autônomo
na resolução de tarefas, na utilização de conceitos (Antunes,
2002) e, aprenda a relacionar-se, comunicar-se e, principalmente,
a trabalhar em equipe (Delors, 1998).
Partindo
de uma perspectiva de trabalho em equipe, Faria (2003) apresenta
um trabalho de monitoria não mais nos moldes como o apresentado
anteriormente, mas através de uma atividade
realizada concomitantemente
com o trabalho do professor em sala de aula
requerendo assim, uma participação
mais ativa e colaborativa dos participantes
no processo de ensino-aprendizagem. Assim, a autora afirma
que o primeiro passo nessa nova proposta é identificar potenciais
alunos que poderão assumir o papel de monitor, sugerindo que essa
identificação seja realizada através da análise curricular,
testes classificatórios ou com a participação de conselhos de
classe. Após a escolha dos alunos-monitores, realiza-se a
distribuição dos mesmos entre os grupos constituídos entre os
demais alunos em sala de aula. Faria (2003) propõe que esses
grupos sejam formados de maneira mais homogênea[1]
para que o monitor possa atender aos alunos igualitariamente, sem
causar espera ou ansiedade para que o objetivo maior
- grupos caminhando juntos e monitor como mediador do
processo, estabelecendo relações entre professor, alunos, conteúdos
e formação – seja alcançado.
Segundo
a autora, o trabalho realizado da forma apresentada propicia um
assessoramento maior em sala de aula na realização das
atividades propostas, além de permitir
ações mais efetivas junto àqueles
que partem de uma posição desfavorável
possibilitando-lhes que cheguem a um resultado mais igualitário
em relação aos outros, “já
que a participação de todos não é apenas um meio mas é
respeitada como um fim em si mesma, pois tem a emancipação como
um fim último (Celani, 2005).
Penso
que a proposta apresentada por Faria, aplicada aos diferentes níveis
educacionais – infantil, fundamental
e superior – pode ser um
instrumento para se trabalhar com a gestão da diversidade
de conhecimento em sala de aula, uma vez que, segundo Delors
(1998), a exigência de uma solidariedade em escala mundial supõe
que todos ultrapassem a tendência de se fecharem sobre si mesmos,
abrindo-se à compreensão dos outros, baseado no respeito pela
diversidade. O respeito por essa diversidade passa também, pela
organização em torno das aprendizagens fundamentais que
acompanham o indivíduo ao longo de toda sua vida no processo de
construção de conhecimento.
Delors
(1998), embasado no relatório da Comissão Internacional sobre a
Educação para o Século XXI, sob o
título de Educação
– um tesouro a descobrir, cujas teses voltam-se
essencialmente para o desenvolvimento humano entendido como a
evolução da ‘capacidade de
raciocinar e imaginar, da capacidade de discernir, do sentido das
responsabilidades’, apresenta quatro pilares necessários para a
construção do conhecimento. O primeiro, processo
de aprender a conhecer, possibilita ao indivíduo adquirir
instrumentos para a compreensão. De acordo com o autor, esse
processo não visa tanto a aquisição de saberes codificados, mas
sim o domínio dos próprios instrumentos do conhecimento como um
meio e como uma finalidade. Como meio, na pretensão de que cada
indivíduo aprenda a compreender o mundo pelo menos na medida em
que lhe é necessário para viver dignamente;
como finalidade, o prazer de compreender, conhecer,
descobrir, favorecendo assim, o despertar para a curiosidade
intelectual, sentido crítico, ou seja, compreender o real
mediante a aquisição de autonomia.
O
processo de aprender a fazer
liga-se mais à questão da formação profissional. Contudo esse
tipo de aprendizagem não se
pode resumir em preparar
o indivíduo para uma tarefa material determinada, mas sim evoluir
e não ser considerada como uma simples transmissão de prática.
Nesse processo, entendo que o aprender a fazer está mais ligado
à questão sobre ‘o
que o indivíduo faz com esse conhecimento; ou ‘como o indivíduo
utiliza seu conhecimento’ na busca de
autonomia e construção de senso crítico e construção
do conhecimento.
O
terceiro processo, processo
de aprender a viver juntos, pauta-se na busca do novo
paradigma educacional. Se
por um lado a educação tem por missão transmitir o conhecimento
acumulado da humanidade, por outro tem como missão levar os indivíduos
a tomar consciência das semelhanças e das interdependências
entre todos, pois ao se colocar no lugar do ‘outro’, o indivíduo
descobre esse ‘outro’, passando a compreender suas reações e
ações e assim, descobre a si mesmo. Essa forma de identificação
nasce do confronto
realizado através do diálogo e da troca de argumentos –
instrumentos indispensáveis à educação do séc. XXI - que faz com que as rotinas individuais sejam ultrapassadas,
valorizando o que é comum entre
os indivíduos e não as diferenças.
Na prática em sala de aula, a participação de professor
e alunos, pautada nesses moldes pode dar origem à aprendizagem de
métodos de resolução de conflitos, além de constituir uma
referência para a vida futura dos alunos, enriquecendo assim, a
relação professor/aluno.
O
último refere-se ao processo
de aprender a ser. De acordo com a UNESCO (apud Faure et al.,
1972), a educação deveria contribuir para o desenvolvimento
total do indivíduo, preparando-o para elaborar pensamentos autônomos
e críticos, formular seus próprios juízos e valores, de modo a
decidir como agir nas diferentes circunstâncias de vida. Nesse
mundo em constante mudança, tanto no social quanto econômico e
cultural, o papel da escola seria o de fornecer ao indivíduo subsídios
que lhe permitam compreender o mundo que o rodeia e comportar-se
nele como atores
responsáveis e justos, sem se esquecer que o respeito pela
diversidade que é o suporte essencial para o desenvolvimento do
indivíduo através de um processo dialético que começa pelo
conhecimento de si mesmo para se abrir em seguida à relação com
o outro.
O
desenvolvimento de um trabalho sob essa perspectiva permite,
segundo Sacristán & Gómez (2000), ao indivíduo compreender
a si mesmo e ao outro através de um processo
de âmbitos de significados compartilhados por meio de processos
abertos de negociação e desconstrução de perspectivas
subjetivas. Essa compreensão passa evidentemente, pela
compreensão das relações que ligam o indivíduo ao seu meio
ambiente, pois este só chegará a ser sujeito
por meio da reflexão sobre seu ambiente concreto, ou seja,
quanto mais refletir sobre sua realidade, sobre sua própria
ação concreta, mais se conscientizará e se comprometerá a
intervir na realidade para mudá-la
(Freire, 1987).
O
contexto sócio-histórico atual pede ações educacionais mais
efetivas e que sejam capazes de orientar o aluno para um
posicionamento ativo, cidadão e ético. Perceber isso é
constatar que é possível revisar os modos de intervenção sobre
a realidade em geral, sobre a realidade escolar e dos indivíduos.
Nesse sentido, vejo o trabalho de
monitoria como uma oportunidade de reestruturação dos
modos do agir pedagógico e como instrumento para o trabalho com a
diversidade de conhecimentos em sala de aula.
___________
Bibliografia
ANTUNES,
C. Vygotsky, quem diria?!:
em minha sala de aula.Petrópolis, RJ: Vozes, 2002.
CELANI,
M.A.A. Questões de ética na pesquisa em Lingüística Aplicada. Linguagem
& Ensino, 2005,
vol.8 n.1, jan/jun., p.101-122.
CORTESÃO,
L.; PACHECO, N. Interculturalismo
e Realidade Portuguesa. Inovação,
1992 n.4, pp 2-3; 33-34..
CORTESÃO,
L. ; STOER, S.. A
interculturalidade e a educação escolar. Inovação, 1996,
n.9, pp. 1-2, 35-51.
DELORS,
J,. Educação: um tesouro a
descobrir. São Paulo: Cortez, 1998
FARIA,
J.P. A monitoria como prática
colaborativa na universidade. Dissertação de Mestrado.
Programa de Pós-Graduação em Lingüística Aplicada e Estudos
da Linguagem. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
2003.
FREIRE,
P.. Pedagogia do oprimido.
Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987
MINISTÉRIO
DA EDUCAÇÃO E DO DESPORTO. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL.
Parâmetros curriculares
nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua
estrangeira. Brasília: MEC/SEF, 1998
MORAES,
M.C. Novas tendências para
o uso das tecnologias da informação na educação. Campinas:
Summus, 1997.
SACRISTÁN,
J.G; PÉREZ GÓMEZ,
A.I.. Compreender e
transformar o ensino. 4ª ed. Porto Alegre : Artmed, 2000.