Vidraças
do Ouvidor: a Rua do Ouvidor na formação do capitalismo carioca
“A
rua do Ouvidor, a mais passeada e concorrida, e mais leviana,
indiscreta, bisbilhoteira, esbanjadora, fútil, noveleira, poliglota
e enciclopédica de todas as ruas da cidade do Rio de Janeiro” (Memórias
da Rua do Ouvidor, Joaquim Manuel de Macedo).
As
galerias são marcas fundamentais na organização do espaço e na
formulação do pensar sobre a cidade do Rio de Janeiro no final do
século XIX.
Por
galerias estamos definindo o espaço urbano por onde circulam
mercadorias e pessoas; as primeiras expostas nas vitrines, enquanto
as pessoas que por ali circulavam, para serem olhadas e para
olharem, buscavam construir e serem construídas por um modelo de Nação
condizente com os novos ventos da modernização do espaço urbano
do início do século XX.
Duas
condições, conforme Benjamim (1991), facilitaram a emergência das
galerias: primeiro a alta do comércio têxtil e o estabelecimento
de estoques de mercadorias, que proporcionaram, ao mercado, aumentar
a oferta e a agilizar a entrega dos produtos, iniciando uma fase de
pronto-entrega, tendo facilitado a formação de uma rede de lojas
concorrentes e, portanto, próximas uma das outras; segundo uma
condição artística-arquitetônica ligada à utilização,
concomitante, do ferro e do vidro na construção das fachadas,
imprimindo uma nova subjetividade espacial que misturava,
paradoxalmente, dureza e leveza, tradição e modernidade.
Nesse
movimento de construção de novos paradigmas, mais condizentes com
o pensar modernizante, encontramos, na França, uma série de exposições,
chamadas Exposições Universais, ligadas a grandes movimentos artísticos:
1855 – Romantismo; 1867 – Realismo; 1878 – Impressionismo;
1889 – Simbolismo; 1900 – Art Nouveau; em todas houve a
participação do Brasil, o que determinou a formação de um
conjunto de valores e estratégicas artísticas-políticas que se
tornariam o escopo dos novos projetos para se pensar e construir uma
Nação moderna.
Essas
Exposições Universais, verdadeiras galerias monstruosas onde o
mais moderno era exposto, serviram para regular a relação entre
mercadorias, suas exposições e o mercado consumidor, passando a
serem geridas por uma nova forma de espaço urbano, não mais
estabelecido através de relações sociais duradouras e
hierarquizadas, mas pelo individualismo concretizado nas
despersonalizações comerciais das vitrines.
E
aqui está o segredo do novo caixilho moderno: as fachadas das
vitrines!
As
fachadas prestam-se para a construção de uma nova subjetividade
“depositadas no inconsciente da coletividade, tais experiências
[...] geram a utopia” (BENJAMIN, 1991:32), concretizando os novos
paradigmas que são estabelecidos pelo industrialismo, o que
favorece o surgimento de uma nova relação entre espaço e tempo,
substituindo as produções pautadas pelas “relações sociais de
contexto locais de interação” (GIDDENS, 1991:29) por relações
abstratas, dissociando produção, consumo e mercado, cada passando
a obedecer as suas próprias lógicas, seus próprios
relacionamentos, como forma de deslocar os vínculos sociais, antes
holísticos, para uma relação impessoal mediada pelas mercadorias.
Figura
importante em tal empreendimento, o comércio moderno, interdita, de
forma magistral, qualquer tentativa de pessoalização das novas
relações sociais urbanas.
Nesse
novo paradigma, as posições sociais ficam relacionadas à
capacidade ou não de aquisição de mercadorias, como forma de se
averiguação das posições sociais ocupadas por cada um numa
sociedade que vai se estratificando a partir da acumulação monetária.
Nesse
sentido, presta-se para tal empreendimento a freqüência ao comércio,
seja ele local, seja nacional. Em Paris as galerias; no Rio de
Janeiro a Rua do Ouvidor.
A
Rua do Ouvidor, que surgiu em 1568 com o nome de Desvio do Mar, em
1590 passa a chamar Rua Aleixo Manoel, em 1659 Rua do Padre Homem da
Costa até que em 1780 muda, definitivamente, para Rua do Ouvidor.
Torna-se uma galeria a céu aberto, lugar privilegiado onde a população
do Rio de Janeiro, cidade-império, pode deslocar-se de uma situação
de penúria urbanística, pois no Rio de Janeiro “cada rua é uma
artéria úmida e podre, secando ao sol” (EDMUNDO, 2000:16), para
poder adquirir mercadorias importadas, e, portanto, cosmopolizar-se
em acordo como o modelo que será “exportando” para o resto do
país.
Neste
sentido, a Rua do Ouvidor, não menos luxuosa ou ricamente freqüentada
que as galerias parisienses, torna-se o espaço de circulação por
excelência na cidade, afluindo para ela pessoas em busca de
mercadorias novas, mas também de posição social, num jogo social
que inclui o ver-e-ser-visto como forma de criar vínculos sociais
tanto com a sociedade como um todo, mas também com a construção
de um imaginário urbano.
Na
Rua do Ouvidor encontramos “modistas, costureiras, floristas,
joalheiros, dentistas [...] armazéns repletos de coisa de arte,
luxo elegante e bom gosto” (RIBEYROLLES, 1965:140), sítio
fundamental para formação de uma imagem urbana que articula, de
forma moderna, posição social, não mais atrelado às relações
familiares e de parentesco, o poder aquisitivo, passando a figurar
no meio citadino carioca a máxima: coitado de quem não pode
comprar na Ouvidor!
Importante
espaço de confluência para se municiar de produtos e relações,
depois que a Rua Ouvidor passou a ser um lugar de grande concentração
de modistas, estilistas, costureiras e joalherias, ninguém “se
prestou mais a ir a saraus, a casamentos, a batizados, a festas e
reuniões sem levar vestido cortado e feito por modista francesa da
Rua do Ouvidor” (MACEDO, 1963:96).
Na
Rua do Ouvidor as vitrines oferecem-se a si próprias como consumo.
Nela as lojas eram construídas de tal forma que possuíam uma única
porta de acesso forjada em vidro, esse material que dará a sutileza
das formas e a grandiosidade do engano (através do jogo com
espelhos), tão de acordo com a Modernidade. A partir de uma nova
concepção estética que não se constrói a partir nem da exuberância
da natureza – “o cenário é teatral. Encanta. Enleva. Ofusca”
(EDMUNDO, 2000:13) -, nem dos aparelhos urbanos públicos (praças,
saneamento, entre outros) , mas das construções destinadas ao comércio.
Essa
nova forma arquitetônica transforma as lojas, não somente num
local para se comprar, mas para ver e ser visto, encontro e consumo
“da moda, da elegância e do luxo” (MACEDO, 1963:2), numa
moldura da nova ordem social e econômica que se institui, na
Modernidade, na dicotomização entre o interior e o exterior,
privado e público, casa e rua.
Movimento
esse que nada tem haver com projetos de reforma arquitetônicos ou
urbanísticos, mas relaciona-se com a formação de uma urbanidade
que irá determinar o valor, não só monetário dos imóveis, mas o
valor da forma de se estar e circular pelo centro da cidade.
A
Rua do Ouvidor se ofereceu ao papel de suporte dos paradoxos e
perplexidades da Modernidade, não abrigando, por exemplo, em suas
construções nenhuma igreja, cremos, livremente, para que Deus não
participe dos rituais de secularização modernizantes. Por ela
circulavam, construindo a cultura carioca e formando o conceito de
Nação, gente de influência como Castro Alves, Joaquim Nabuco,
Machado de Assis, Rui Barbosa, José Mariano. Nela esteve
funcionando a redação da Cidade do Rio de José do Patrocínio.
Na
Rua do Ouvidor o novo espaço público vai sendo delineado, feito de
relações pautadas no novo modo globalizante de mercado. No
industrialismo da modernidade nada melhor do que um lugar para se
consumir e ser consumido pelo desejo de consumo!
Nesse
novo espaço, calcado no espaço público, formou-se uma estrutura
social que esvaziou tempo e espaço, construindo uma imediatez nas
relações sociais baseadas, não mais em mercados pessoalísticos e
holísticos, mas numa igualdade inventada, numa possibilidade de
acesso irrestrito às mercadorias.
Falsa
ilusão que as vitrines causam ainda hoje, pois muita gente circula
por shoppings moderníssimos para “ver vitrines”.
Essa
nova configuração que o Capitalismo vai “oferecendo” às
pessoas, a de apesar de não possuírem mercadorias, poder fetichizá-las,
tem na Rua do Ouvidor uma forte aliada.
Ela,
portanto, presta-se não só para fazer circular mercadorias
nacionais e importadas, mas para circular o imaginário capitalista
da igualdade de acesso a bens e produtos.
Vai
se formando uma racionalidade na cidade em busca de maiores mercados
consumidores, não importando o que se compra (se está na medida
certa, se foi feito só para mim, se tem “minha cara”), mas,
fundamentalmente, o ato de comprar.
Parodiando
um velho ditado, diria que: não importa comprar, tem que parecer
que se está comprando!
Por
tudo isso “tais eram, como continuam a ser, as então chamadas
vidraças da Rua do Ouvidor” (MACEDO, 1963:96).
por
NILTON RODRIGUES JUNIOR