por NILTON RODRIGUES JUNIOR

Psicólogo, Mestrando em Antropologia Cultural no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS-UFRJ) Autor do Álbum da Família Portelense: Histórias e Imagens.

 

Vidraças do Ouvidor: a Rua do Ouvidor na formação do capitalismo carioca

 

Fonte: www.vidaslusofonas.pt/machado_de_assis.htm “A rua do Ouvidor, a mais passeada e concorrida, e mais leviana, indiscreta, bisbilhoteira, esbanjadora, fútil, noveleira, poliglota e enciclopédica de todas as ruas da cidade do Rio de Janeiro” (Memórias da Rua do Ouvidor, Joaquim Manuel de Macedo).

As galerias são marcas fundamentais na organização do espaço e na formulação do pensar sobre a cidade do Rio de Janeiro no final do século XIX.

Por galerias estamos definindo o espaço urbano por onde circulam mercadorias e pessoas; as primeiras expostas nas vitrines, enquanto as pessoas que por ali circulavam, para serem olhadas e para olharem, buscavam construir e serem construídas por um modelo de Nação condizente com os novos ventos da modernização do espaço urbano do início do século XX.

Duas condições, conforme Benjamim (1991), facilitaram a emergência das galerias: primeiro a alta do comércio têxtil e o estabelecimento de estoques de mercadorias, que proporcionaram, ao mercado, aumentar a oferta e a agilizar a entrega dos produtos, iniciando uma fase de pronto-entrega, tendo facilitado a formação de uma rede de lojas concorrentes e, portanto, próximas uma das outras; segundo uma condição artística-arquitetônica ligada à utilização, concomitante, do ferro e do vidro na construção das fachadas, imprimindo uma nova subjetividade espacial que misturava, paradoxalmente, dureza e leveza, tradição e modernidade.

Nesse movimento de construção de novos paradigmas, mais condizentes com o pensar modernizante, encontramos, na França, uma série de exposições, chamadas Exposições Universais, ligadas a grandes movimentos artísticos: 1855 – Romantismo; 1867 – Realismo; 1878 – Impressionismo; 1889 – Simbolismo; 1900 – Art Nouveau; em todas houve a participação do Brasil, o que determinou a formação de um conjunto de valores e estratégicas artísticas-políticas que se tornariam o escopo dos novos projetos para se pensar e construir uma Nação moderna.

Essas Exposições Universais, verdadeiras galerias monstruosas onde o mais moderno era exposto, serviram para regular a relação entre mercadorias, suas exposições e o mercado consumidor, passando a serem geridas por uma nova forma de espaço urbano, não mais estabelecido através de relações sociais duradouras e hierarquizadas, mas pelo individualismo concretizado nas despersonalizações comerciais das vitrines.

E aqui está o segredo do novo caixilho moderno: as fachadas das vitrines!

As fachadas prestam-se para a construção de uma nova subjetividade “depositadas no inconsciente da coletividade, tais experiências [...] geram a utopia” (BENJAMIN, 1991:32), concretizando os novos paradigmas que são estabelecidos pelo industrialismo, o que favorece o surgimento de uma nova relação entre espaço e tempo, substituindo as produções pautadas pelas “relações sociais de contexto locais de interação” (GIDDENS, 1991:29) por relações abstratas, dissociando produção, consumo e mercado, cada passando a obedecer as suas próprias lógicas, seus próprios relacionamentos, como forma de deslocar os vínculos sociais, antes holísticos, para uma relação impessoal mediada pelas mercadorias.

Figura importante em tal empreendimento, o comércio moderno, interdita, de forma magistral, qualquer tentativa de pessoalização das novas relações sociais urbanas.

Nesse novo paradigma, as posições sociais ficam relacionadas à capacidade ou não de aquisição de mercadorias, como forma de se averiguação das posições sociais ocupadas por cada um numa sociedade que vai se estratificando a partir da acumulação monetária.

Nesse sentido, presta-se para tal empreendimento a freqüência ao comércio, seja ele local, seja nacional. Em Paris as galerias; no Rio de Janeiro a Rua do Ouvidor.

A Rua do Ouvidor, que surgiu em 1568 com o nome de Desvio do Mar, em 1590 passa a chamar Rua Aleixo Manoel, em 1659 Rua do Padre Homem da Costa até que em 1780 muda, definitivamente, para Rua do Ouvidor. Torna-se uma galeria a céu aberto, lugar privilegiado onde a população do Rio de Janeiro, cidade-império, pode deslocar-se de uma situação de penúria urbanística, pois no Rio de Janeiro “cada rua é uma artéria úmida e podre, secando ao sol” (EDMUNDO, 2000:16), para poder adquirir mercadorias importadas, e, portanto, cosmopolizar-se em acordo como o modelo que será “exportando” para o resto do país.

Neste sentido, a Rua do Ouvidor, não menos luxuosa ou ricamente freqüentada que as galerias parisienses, torna-se o espaço de circulação por excelência na cidade, afluindo para ela pessoas em busca de mercadorias novas, mas também de posição social, num jogo social que inclui o ver-e-ser-visto como forma de criar vínculos sociais tanto com a sociedade como um todo, mas também com a construção de um imaginário urbano.

Na Rua do Ouvidor encontramos “modistas, costureiras, floristas, joalheiros, dentistas [...] armazéns repletos de coisa de arte, luxo elegante e bom gosto” (RIBEYROLLES, 1965:140), sítio fundamental para formação de uma imagem urbana que articula, de forma moderna, posição social, não mais atrelado às relações familiares e de parentesco, o poder aquisitivo, passando a figurar no meio citadino carioca a máxima: coitado de quem não pode comprar na Ouvidor!

Importante espaço de confluência para se municiar de produtos e relações, depois que a Rua Ouvidor passou a ser um lugar de grande concentração de modistas, estilistas, costureiras e joalherias, ninguém “se prestou mais a ir a saraus, a casamentos, a batizados, a festas e reuniões sem levar vestido cortado e feito por modista francesa da Rua do Ouvidor” (MACEDO, 1963:96).

Na Rua do Ouvidor as vitrines oferecem-se a si próprias como consumo. Nela as lojas eram construídas de tal forma que possuíam uma única porta de acesso forjada em vidro, esse material que dará a sutileza das formas e a grandiosidade do engano (através do jogo com espelhos), tão de acordo com a Modernidade. A partir de uma nova concepção estética que não se constrói a partir nem da exuberância da natureza – “o cenário é teatral. Encanta. Enleva. Ofusca” (EDMUNDO, 2000:13) -, nem dos aparelhos urbanos públicos (praças, saneamento, entre outros) , mas das construções destinadas ao comércio.

Essa nova forma arquitetônica transforma as lojas, não somente num local para se comprar, mas para ver e ser visto, encontro e consumo “da moda, da elegância e do luxo” (MACEDO, 1963:2), numa moldura da nova ordem social e econômica que se institui, na Modernidade, na dicotomização entre o interior e o exterior, privado e público, casa e rua.

Movimento esse que nada tem haver com projetos de reforma arquitetônicos ou urbanísticos, mas relaciona-se com a formação de uma urbanidade que irá determinar o valor, não só monetário dos imóveis, mas o valor da forma de se estar e circular pelo centro da cidade.

A Rua do Ouvidor se ofereceu ao papel de suporte dos paradoxos e perplexidades da Modernidade, não abrigando, por exemplo, em suas construções nenhuma igreja, cremos, livremente, para que Deus não participe dos rituais de secularização modernizantes. Por ela circulavam, construindo a cultura carioca e formando o conceito de Nação, gente de influência como Castro Alves, Joaquim Nabuco, Machado de Assis, Rui Barbosa, José Mariano. Nela esteve funcionando a redação da Cidade do Rio de José do Patrocínio.

Na Rua do Ouvidor o novo espaço público vai sendo delineado, feito de relações pautadas no novo modo globalizante de mercado. No industrialismo da modernidade nada melhor do que um lugar para se consumir e ser consumido pelo desejo de consumo!

Nesse novo espaço, calcado no espaço público, formou-se uma estrutura social que esvaziou tempo e espaço, construindo uma imediatez nas relações sociais baseadas, não mais em mercados pessoalísticos e holísticos, mas numa igualdade inventada, numa possibilidade de acesso irrestrito às mercadorias.

Falsa ilusão que as vitrines causam ainda hoje, pois muita gente circula por shoppings moderníssimos para “ver vitrines”.

Essa nova configuração que o Capitalismo vai “oferecendo” às pessoas, a de apesar de não possuírem mercadorias, poder fetichizá-las, tem na Rua do Ouvidor uma forte aliada.

Ela, portanto, presta-se não só para fazer circular mercadorias nacionais e importadas, mas para circular o imaginário capitalista da igualdade de acesso a bens e produtos.

Vai se formando uma racionalidade na cidade em busca de maiores mercados consumidores, não importando o que se compra (se está na medida certa, se foi feito só para mim, se tem “minha cara”), mas, fundamentalmente, o ato de comprar.

Parodiando um velho ditado, diria que: não importa comprar, tem que parecer que se está comprando!

Por tudo isso “tais eram, como continuam a ser, as então chamadas vidraças da Rua do Ouvidor” (MACEDO, 1963:96).

 

por NILTON RODRIGUES JUNIOR

   

 

 

 

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Bibliografia

BENJAMIN, W. Paris: capital do século XIX. In: _____. Sociologia. São Paulo: Editora Ática, 1991

EDMUNDO, Luís. O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis. Brasília: Senado Federal, 2000

GIDDENS, A. As conseqüências da modernidade. São Paulo: UNESP, 1991

MACEDO, Joaquim Manuel. Memórias da Rua do Ouvidor. São Paulo: Saraiva Editora, 1963

RIBEYROLLES, C. Ruas falam, como arquivo. In. BANDEIRA, M; ANDRADE, C. D. Rio de Janeiro em Prosa & Verso. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965

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