Lutas
Sociais 15/16
NEILS
(Núcleo de Estudos de Estudos de Ideologias e Lutas Sociais)
contato:
Joana Coutinho e Lúcio
Flávio Rodrigues de Almeida
Apresentação
Ao
comemorar seus dez anos de existência, Lutas Sociais,
mantendo sua pesquisa crítica de excelente
qualidade, aposta em jovens autores. Assim, no conteúdo
e no jeito de produzir a revista, mantemos os objetivos definidos em
1996. Este é nosso maior motivo para uma
satisfação que compartilhamos com os
leitores.
O
panorama brasileiro e internacional continua a apresentar motivos
para otimismo e preocupação.
Na
América Latina, a eleição de Evo Morales elevou para um novo
patamar as lutas nas quais se articulam
semiproletários e indígenas do subcontinente e a polarização
eleitoral no México, onde Felipe Calderón foi declarado vencedor
com uma ínfima e suspeita vantagem numérica, expõe
as fragilidades de um sistema político que,
por sete décadas pareceu irremovível e, de quebra, aumenta
a autoridade do EZLN que, à revelia da maior parte da intelectualidade
de esquerda, manteve, no essencial, suas críticas às limitações
da candidatura que se apresentou como porta-voz dos
dominados, mas foi, no mínimo, tacanha no
atendimento às aspirações dos que efetivamente lutam para
mudar o mundo. Outra grande novidade para este início de milênio,
surgiu no Oriente Médio: a resistência
política de massa à política genocida do Estado de
Israel (diretamente financiado pelos Estados Unidos) se revelou
extremamente eficaz no plano político-militar,
colocando em xeque a estratégia da
"única potência verdadeiramente global" para o Oriente
Médio. Dissipou-se a ilusão da "guerra
video game" e se evidenciou, neste começou de século XXI,
a importância decisiva da participação das massas
no enfrentamento de adversários armados até
os dentes. Por outro lado, o fracasso estratégico dos EUA
pode levar o candidato a império a jogar suas fichas numa guerra
contra o Irã, com imprevisíveis
conseqüências para toda a humanidade.
Contribuir
para uma solução civilizatória do conflito no Oriente Médio
passa pela rejeição dos fundamentalismos em choque,
o que supõe o desvelamento das pretensões do
imperialismo estadunidense na região; pela crítica
teórica à tese do choque de civilizações; e pela aposta na
capacidade da ação organizada de massas no
sentido da autodeterminação de todos os povos que
vivem por lá. Isso implicará profundas transformações
sociopolíticas. Artigos a este respeito são
bem-vindos.
Da
mesma forma, as manifestações de massa na França contra a discriminação
que, no início, foi apresentada como simplesmente racista (o que
não é pouco), mas logo se revelou intimamente
conectada com o processo de acumulação
capitalista no plano transnacional, apresenta novas potencialidades
de luta internacionalista, o que, aliás, também se
revela nas resistências aos chamados
processos de "reestruturação produtiva" (capitalista)
que se desenrolam na indústria
automobilística e cujas seqüelas apenas começam a se tornar
visíveis.
No
plano político brasileiro, apesar dos progressos realizados,
deve-se, mais do que nunca, fugir da
auto-ilusão. Iniciou-se a organização de uma nova frente de
esquerda, o que é de importância inestimável. Mas suas
limitações não somente numéricas, mas,
sobretudo, no que se refere à elaboração do programa e
às formas de lutar por ele, são imensas. Um balanço da
participação das esquerdas neste processo
eleitoral será indispensável para o avanço das lutas sociais
no país e na América Latina.
O
dossiê deste número de Lutas Sociais, O governo Lula em
questão, já é parte desse balanço, com
uma série de textos que necessariamente suscitarão o reexame
de tudo o que se escreveu sobre o Partido dos Trabalhadores até o
início da gestão presidencial de Luís Inácio Lula
da Silva. Jair Pinheiro aborda as
redefinições da cena política e o papel que nela desempenha o PT.
Maria Izabel Lagoa, ao examinar o mesmo
partido, privilegia o ângulo de sua profunda
crise. Rudá Ricci centra o foco em um processo político até
então pouquíssimo estudado: o lulismo.
Enfim, Carla Silva aborda as relações do governo
Lula com os dominantes, a começar por um importante meio de comunicação,
e, no sentido inverso, Renata Gonçalves examina a política do
mesmo governo frente aos dominados, centrando o foco
no mais importante movimento social
brasileiro, o MST.
Forte
atenção continua sendo dispensada às atuais configurações que
adquire o contraditório processo de espraiamento do
capitalismo pelo mundo. Publicamos a segunda
parte do texto de David Harvey, "Acumulação por desapossamento"
e o instigante contraponto de autoria de um jovem autor, Cristiano
Monteiro da Silva, "Acumulação por centralização: novos
traços da fase imperialista na América
Latina". Antonio Carlos Moraes discorre sobre a crise
do capitalismo e Carlos Eduardo Martins analisa os impactos desta
crise sobre as relações internacionais.
Rodrigo Castelo Branco aborda as relações entre
o NAFTA (Tratado de Livre-Comércio da América do Norte) e a
barreira erguida contra trabalhadores dos
países periféricos. Revisitando os anos JK, Lúcio
Flávio de Almeida examina as potencialidades das lutas
antiimperalistas na América Latina
contemporânea.
Apesar
dos esforços dos ideólogos a serviço da ordem, o capitalismo não
se define fundamentalmente por relações de
mercado, mas de exploração e dominação de
classe. Publicamos "Taylorismos, fordismos e toyotismos: as
relações técnicas e sociais de produção
configurando reestruturações produtivas",
de Célia Congílio Borges, e "Tempo de trabalho e
desemprego", de Giuseppina De Grazia.
Não somente a produção mais estritamente econômica
é socialmente determinada e, mantendo nossa preocupação com os
vínculos entre cultura e relações sociais, Daniela
Palma estuda a fotografia operária na
República de Weimar e Celso Uemori nos apresenta mais um resultado
de sua pesquisa em curso sobre a obra de Manoel Bomfim.
Nas
quatro resenhas que encerram este número estão presentes algumas
das preocupações centrais que impulsionam
esta revista ao longo destes dez anos: lutas
dos trabalhadores em todo o mundo; questões nacionais e (anti)imperialismo;
reprodução e questionamentos ideológicos das relações de
dominação.
A
revista já estava concluída quando soubemos da morte de Charles
Bettelheim. A ele dedicamos este número de Lutas
Sociais e agendamos para o próximo o
exame de suas contribuições teóricas para a análise do
capitalismo e das tentativas de transição
para o socialismo. Trata-se de um patrimônio do pensamento
crítico à espera de urgente atualização neste início de século
tão rico de novos desafios a serem
urgentemente enfrentados.
L.F.R.A