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por
JOSÉ DE SOUZA MARTINS
José de Souza Martins é
professor titular de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP
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Procura-se
o povo brasileiro, um decantado desconhecido*
Um
mistério preside a República, o mistério do desencontro entre o
povo e o poder. É estranho um país em que quanto mais se informa
mais desinformado o povo fica. Na região do ABC, berço do Partido
dos Trabalhadores e berço político de Lula, a região mais rica do
país, em pesquisa eleitoral desta semana, às vésperas da eleição,
apenas 22% dos eleitores da “classe E” ouviram falar do “caso
do dossiê”. Esse setor de uma população amplamente exposta à
influência da mídia, especialmente o rádio e a televisão, vota,
mas não sabe por que vota e em quem está votando. Portanto, o não
ter ouvido falar não vem da falta de informação, mas da falta de
compreensão da informação, como se fosse dita numa língua
estrangeira. O que esperar de regiões em que a “classe E” é a
quase totalidade da população? Regiões cujos votos podem decidir
o destino político do país?
Ao
longo da nossa história republicana, muitos foram os fatos,
envolvendo partidos políticos e pessoas, suficientes para cassar
mandatos, tolher ambições políticas e até mesmo banir da vida pública.
No entanto, poucos foram alcançados pelo chamado “braço da
lei” e poucos tiveram a dignidade da renúncia. O pior de tudo é
que o eleitorado, com freqüência, como nesta eleição de outubro
de 2006, manda de volta ao poder figuras que num país sério
ficariam fora dele para sempre.
“O
povo não sabe votar”, já ouvi muitas vezes e tenho ouvido nestes
dias. “Povo ignorante, político corrupto”, li num muro, em trêmula
pichação, numa das últimas eleições. Essas concepções
depreciativas do povo são injustas. Esquecemos das heranças
pesadas que levamos nos ombros. Os analistas da situação social e
política querem pensar o Brasil como um país moderno, voltado para
o futuro, negando-se historicamente todo o tempo. O que existe do
passado no nosso modo de ser, no nosso modo de pensar, nas nossas
insuficiências e no nosso atraso seria mero resquício de uma
realidade em extinção, que não comprometem nossa ânsia coletiva
de deixar o passado para trás e mergulhar de vez no futuro.
No
entanto, o passado que nos trava está mais presente entre nós do
que qualquer um de nós possa imaginar. Desde o modo de falar,
passando pelo modo de viver, até o modo de pensar a vida e a política.
Ainda falamos em todo o Brasil um resquício da língua nheengatu,
que se poderia chamar de língua nacional brasileira ou língua do
povo. Foi uma língua criada pelos missionários jesuítas,
provavelmente com grande influência do gênio que era o padre José
de Anchieta. Baseada na língua tupi e organizada com base na gramática
portuguesa, difundiu-se por toda a costa do Brasil. É ainda falada
em vários lugares do país e não faz muito houve até mesmo
tentativa da Anatel de proibir o seu uso em programas de rádio
destinados às comunidades nheengatu-falantes no Mato Grosso do Sul
e no Alto Rio Negro. Alegava o órgão oficial, em português, uma língua
estrangeira, a proibição de transmissão de programas em língua
estrangeira, como o nheengatu, na verdade a língua brasileira.
Nessa última região, no município de São Gabriel da Cachoeira, o
nheengatu é língua oficial e os documentos municipais devem ser
publicados nela e em português.
Nem
nos damos conta de que nossa geografia é predominantemente
nheengatu. Só na região paulistana: Jaraguá, Ipiranga, Moóca,
Carapicuíba, Butantã, Itapecerica, Embu. Ou que está na fala
cotidiana: falá, contá, mexê, caí, rezá, votá, elegê, cassá,
reelegê! Quando os brasileiros foram proibidos de falar essa língua,
no século 18, e obrigados a falar a língua estrangeira que era o
português, língua de administração colonial, de cartório e de
Justiça, tiveram dificuldade para fazê-lo. Com a proibição, o
português começou a ser falado com sotaque nheengatu: orelha virou
orêia, rezar virou rezá, mulher virou muié. Nasceu o dialeto
caipira e sertanejo que, em vez de acabar, sobreviveu e divorciou o
português escrito do português falado, o da consciência social e
popular.
Essa
era uma língua da servidão. Está aí o “mecê” caipira e o próprio
“você” urbano, filhos, ambos, do “vossa mercê” com que os
ínfimos tratavam os seus senhores. Mais do que um vocabulário,
nessa linguagem sobrevivente há parâmetros de consciência
relativos à subalternidade. Raramente dizemos uma sentença
inteira. Nossa fala cotidiana tem sujeito e verbo, raramente objeto
e complemento. Diferente do que ocorre com a língua portuguesa em
Portugal, sempre dizemos as coisas pela metade: “Eu vou”, mas não
dizemos para onde vamos nem quando.
Essa
é a linguagem do medo, de quem não pode dizer uma sentença
completa porque não tem certeza. Ou, sobretudo, porque a linguagem
incompleta é a linguagem dos subentendidos, da certeza de que o
outro saberá o que estou dizendo. Linguagem da dissimulação, da
vergonha e da subserviência, do faz de conta. Dizendo metade, digo
o que o outro quer ouvir e, de certo modo, me permite dizer. Não me
exponho à crítica, à censura nessa linguagem de duplo sentido.
Sempre deixo um resto de sentença para completar conforme o
andamento da conversa. Como pode um povo, cuja consciência política
é expressão de uma fala mutilada, se tornar um povo político?
Essa
língua tem sentido nas relações políticas que são ao menos
tempo relações de dominação pessoal. O que hoje chamamos de
corrupção não o era até não muito tempo atrás. O mundo
colonial, que atravessou o Império e se estendeu pela República,
subsistindo ainda nos nossos relacionamentos sociais e políticos,
era o mundo dos potentados rurais, dos senhores de gado e gente,
como diz a canção, de senhores de escravos e de agregados. Ao
menos até o século 18 eram eles chamados de pais da pátria. Era o
mundo do mando e da obediência servil. Mas era também o mundo em
que o patrimônio privado alimentava favores e dependências,
circunscrevia até mesmo a liberdade dos livres.
Quando
se começou a votar, o número de eleitores era ínfimo em cada
município. Onde viviam centenas e até milhares de pessoas, os
eleitores eram meia-dúzia, reduzidos numericamente pela peneira de
malha fina que assegurava a coincidência de patrimônio e poder.
Quem tinha bens, tinha poder. Quem tinha poder, tinha mais bens. Em
troca de favores políticos, receber benefícios que se traduziam em
patrimônio, na conversão do que era público em privado, fazia
parte do jogo político e da cultura servil de que a política se
alimentava. Não era corrupção. Eram relações de interesse. Isso
se agravou na República, com a política de favorecimento dos
amigos e aliados na distribuição e aforamento de terras. De certo
modo, a dominação patrimonial ainda subsiste, alterada e disfarçada.
Todos levamos a marca do ferro em brasa dessa cultura da obediência
sem crítica, a ponto de que haja quem justifique com as conveniências
da política as inconveniências da corrupção. E já não estamos
no Império para que subsista essa mentalidade de escravo.
Esse
é o cenário da lenta e contraditória emergência do povo como
sujeito político. Foi com a República que surgiram os mais
evidentes esforços para descobrir e afirmar a realidade de um povo
brasileiro. Se não existia, o povo tinha que ser inventado. E o
foi. São dessa época obras de arte, na música, na poesia, na
pintura, na escultura, voltadas para a expressão de um imaginado
povo brasileiro. Mais do que ninguém, as elites se empenharam numa
busca das raízes e da cara do povo, aquela em cujo espelho todos
nos reconheceríamos. O pintor paulista Almeida Júnior, no fim do século
19, elegeu o caipira, o mestiço de branco e índia, como a figura
humana que nos retratava, na face e nos modos. O espanhol Broco y Gómez,
que estudou pintura no Brasil e aqui se radicou, expressou essa
busca, em 1895, no mulato, com a tela simbólica “A redenção de
Cam”, que se encontra no Museu Nacional de Belas Artes. O antigo
escravo indígena e o antigo escravo negro redimiam-se na mescla com
o branco para a constituição imaginária de uma nação mestiça
que se branqueava. A república nascia mestiça, querendo ser
branca. Negava aquelas origens no apagamento da memória. A república
e o povo nasceram no faz de conta de uma história sem passado, um
povo debruçado sobre uma página em branco. Mas o passado
continuava regendo a vida, na língua e na consciência social.
É
verdade que a nossa república nasceu torta, em conseqüência de um
golpe de Estado dos militares, mais contra os republicanos civis e
do que contra a monarquia. Nasceu enquadrada e o povo nasceu
politicamente confinado. Não obstante, os constituintes de 1891
reuniram-se em congresso, pela primeira vez, como representantes do
povo brasileiro. Um grande avanço em relação à Constituição
imperial de 1824, redigida em nome da Santíssima Trindade. Só na
Constituição de 1934 os constituintes afinal reconheceram o povo
no singular: “todos os poderes emanam do povo, e em nome dele são
exercidos.” Mas, que povo, afinal?
Já
na Constituição do Império, falava-se em nome dos cidadãos. Mas
havia nela uma lista de exceções: menores de 25 anos, criados de
servir, religiosos de comunidades claustrais. Eram os que não
podiam votar nem ser votados. Havia os que podiam votar, mas não
podiam ser votados, porque sua renda era inferior a determinada
quantia. Havia silêncio sobre os escravos e sobre as mulheres, que
sequer eram reconhecidos como sujeitos de direitos políticos, por
sua condição de coisa ou de agregada. Só em 1932 as mulheres
tiveram seu direito de voto incorporado ao Código Eleitoral e, em
1934, à Constituição Federal. Nesse ano, uma primeira brasileira
foi eleita deputada federal: Carlota Pereira de Queiroz.
A
história do povo nas constituições brasileiras é a história do
seu progressivo, mas lento, reconhecimento como sujeito político. A
primeira constituição republicana, de 1891, alargou
conceitualmente a idéia de povo ativo, de cidadão, mas revigorou e
ampliou o elenco das pessoas sujeitas a restrição de direitos políticos.
Como já não havia escravidão, surgem no texto os substitutos
conceituais dos cativos: o texto vetava o alistamento eleitoral de
analfabetos e mendigos. Continuarão vetados na Constituição de
1934 e na de 1937. Os mendigos deixam de ser mencionados na
Constituição de 1946. Só em 1985 foi revogado o veto ao voto do
analfabeto. Ao longo do tempo mudaram-se os rótulos para manter
basicamente as mesmas interdições, o povo encolhido nos limites de
uma cidadania mutilada.
O
povo brasileiro é um povo residual da história e das artimanhas do
poder. Ainda é um povo descartável, que se incorpora como sujeito
do processo político basicamente nos dias de eleição. Ou então,
como mero sujeito da nacionalidade, nos tempos de Carnaval ou de
Copa do Mundo, a identidade bonita, mas inócua e passiva, de quem não
tem alternativa senão viver para ser visto ou para ver. Somos um
povo que se propõe nas exceções e não no dia a dia do sempre.
Nossas revoluções para transformar nunca foram revoluções do
povo. Afirmamo-nos como povo no negativo, no noticiário policial,
na esquizofrenia das revoltas populares inconclusas e sem rumo.
Ganhamos cara de povo na repressão e no sofrimento. Canudos e
Contestado foram revoltas provocadas para justificar a repressão
republicana do Estado, revoltas religiosas e autodefensivas, em nome
da tradição!
Dizem
que este é um povo de maus cidadãos porque algum tempo depois das
eleições já nem sabem em quem votaram. Eu diria que este é um país
de maus políticos, que algumas horas depois das eleições já não
se lembram de quem votou neles, não se lembram dos compromissos éticos
e políticos que invocaram para colher os votos. Não se lembram de
que o mandato não lhes pertence. O povo não pode se lembrar de
quem não se lembra dele, de quem faz da eleição uma loteria e não
uma relação política. O político brasileiro, com as óbvias e
reconhecíveis exceções, não tem com o povo uma relação cidadã.
Ao adulterar o sentido da representação política, como temos
visto nestes tempos de desilusão, solapa o protagonismo do povo e
saqueia o próprio mandato.
por
JOSÉ
DE SOUZA MARTINS
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