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por
GILSON DANTAS
Doutor
em Sociologia pela Universidade de Brasília
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O
Estado militarista estadunidense ou a imposição armada do
“mercado”
Em
determinado momento da campanha eleitoral de 2004, George W. Bush
anunciou, oficialmente, o orçamento para 2005, com a ampliação
dos gastos militares em escala colossal. Em seguida, na imprensa,
apareceram argumentos críticos, no sentido de que aquele anúncio,
tinha propósitos eleitorais e, indicava contratos bilionários com
grandes financiadores da sua reeleição.
As
críticas eram, certamente, procedentes. Mas o armamentismo do
governo, tinha e tem, significados bem mais profundos do que os
meramente eleitorais. Não se pode esquecer que os orçamentos já
vinham crescendo, desde o último governo Clinton. Cresciam na condição
de orçamentos de guerra aberta, de Guerra Fria numa circunstância
em que, não existia nenhum dos dois.
Os
gastos militares dos Estados Unidos, voltaram aos patamares da
Guerra Fria, aproximando-se do meio trilhão de dólares anuais, e
podem estar refletindo um processo muito mais grave, ameaçador e,
de longo curso, que deve ser levado em conta nas análises políticas,
na condição de determinação que jamais deve ser minimizada ou
ignorada.
Para
Serfati (2004),
esse empenho de recursos colossais na esfera da destruição, por
parte do país mais rico, é um dos indícios de que, a humanidade
está diante de uma situação gravíssima na qual, populações
inteiras, estão sendo ameaçadas em sua sobrevivência, por
calamidades militares, sociais, ecológicas. O que inclui não
apenas povos tradicionalmente marginalizados, mas populações de países
como Argentina, até então tratados como “emergentes”, dentro
da expectativa de prosperidade (capitalista).
Montanhas
de dólares estão sendo canalizadas para uma corrida militar, de
grandes proporções, ao mesmo tempo em que, as camadas mais ricas
dos Estados Unidos, são poupadas de impostos. Este processo já
mereceu comentários inquietos, de setores do poder econômico,
temerosos de que, elitização e exclusão social, conduzam a catástrofes
sociais que possam fugir ao controle do sistema.
O
orçamento de “destruição maciça” e de guerra permanente e,
sua contra-face, o triplo déficit (orçamentário, familiar e
comercial) compromete o conjunto da economia norte-americana, mais
profundamente que nunca, e a torna refém, como nunca esteve, do
comando e, da mão de ferro, das frações mais altas do capital
financeiro.
Em
outras palavras, a política da “guerra sem limite” ou da
“guerra preventiva”, da administração George W. Bush
transcende, politicamente, a ação de um grupo que fraudou as eleições
e, se encastelou no governo, sob a forma política de um partido
da guerra (George W. Bush
declarou-se um presidente da
guerra). Não se trata apenas de um grupo de loucos, mas do
produto de um processo, sem precedentes, na história dos últimos séculos
e que, necessariamente, passa pela hegemonia político-militar dos
Estados Unidos.
Esse
processo corresponde, especificamente, a um regime de acumulação
de novo tipo que, seja qual for sua caracterização
(“neoliberal”, “acumulação financeirizada”, “acumulação
integral” etc.), traduz, para além da financeirização
em grande escala, um patamar superior no estreitamento da relação
capital financeiro-militarismo.
A
fase do imperialismo das últimas duas décadas, tem tomado a forma
da dominação da finança sem disfarce e, simultaneamente, tem
assumido o mais nítido perfil militarista ou seja, uma mundialização
dominada pelo capital rentista com destaque para a força direta,
o uso da máquina militar, das guerras para implodir e/ou
submeter Estados mais fracos. Daí a hipótese de não tratar-se
apenas do imperialismo, ou do militarismo em geral, ou,
simplesmente, de uma política de guerras contra pequenos países, e
sim, de uma nova fase do imperialismo, caracterizada pelo profundo
enraizamento daquela relação capital financeiro-militarismo.
Não
há como dissociar capital financeiro especulativo, de ações
militares norte-americanas, de envergadura. A cada ocupação
militar, as ações das corporações bélicas, na Bolsa, oscilam
para cima. “Os ´mercados´financeiros, termo enganador para
designar as organizações que centralizam enormes massas de
capitais, podem, por seu comportamento, pesar com todas as suas forças
nas decisões do Pentágono” (SERFATI, 2002: 61).
Essa
fase “superior” do militarismo inclui um processo que vem
tomando recentemente formas bem mais definidas e articuladas, como
aquela que Serfati qualifica de “transatlantização” da
economia armamentista, na qual produz-se uma concentração em torno
do poderio militar incontrastável da OTAN (os países mais ricos),
ao mesmo tempo em que, acentua-se o entrelaçamento
industrial-militar entre as cúpulas desses países.
Portanto,
trata-se de um processo que muito mais que opor Estados Unidos a
Europa, inclui um envolvimento essencial entre essas economias, no
que diz respeito ao núcleo industrial e institucional da guerra.
Certamente, faz parte desse mesmo contexto, uma certa convergência
de interesses, no desfrute da zona da ex-URSS e dos países do Sul
(Existe disputa no seio do G-7 – sete países
mais ricos –, só que ela ocorre em meio a uma convergência
estratégica, a do controle mais direto e, mais efetivo, de países
como os da América Latina e do Leste europeu).
As
atuais guerras têm sido levadas a cabo contra países ou Estados
mais fracos, dentro da linha de exploração predatória desses países.
O controle de recursos naturais do Sul está na mira dessas guerras,
assim como faz parte da mundialização do capital financeiro em si
mesma: Estados são enfraquecidos e controlados pela política
neoliberal, seus recursos naturais são franqueados ao imperialismo.
O
resultado final desse processo, seja como fruto daquelas guerras com
fins predatórios, seja como conseqüência das políticas de
“abertura de mercados”, é a reformatação de Estados. E o
objetivo concreto vem sendo - como se vê agora no Iraque – o de
assegurar o domínio de recursos naturais como petróleo e, da maior
presença do capital imperialista, sob sua forma dominante, ou seja,
a da agressiva financeirização da economia
internacional.
Como
argumenta Ruy Braga (2001), graças à chantagem da dívida (a
“ditadura dos credores” a que se refere Chesnais) ou ao poderio
militar norte-americano, o imperialismo exerce sobre países como os
da América Latina “uma ditadura muito mais poderosa e implacável
que no passado”.
Ao
cabo dessas guerras ou pressões econômicas externas, o resultado
tem sido o da imposição de mandatos, de formas de domínio político,
de fora para dentro, sobre Estados periféricos, convertidos em algo
parecido com protetorados, em que pese o mal disfarçado biombo da
ONU. O Haiti é apenas um dos exemplos recentes e que, inclui
interesses geopolíticos diretos, dos Estados Unidos, no sentido de
conter a radicalização dos movimentos sociais e, instalar naquele
país, uma plataforma de operações privilegiada que, leva em
conta, eventuais operações contra Cuba e Venezuela.
De
todo esse processo, onde se inter-relacionam dinamicamente a
mundialização do capital e o militarismo agressivo dos Estados
Unidos, desprendem-se duas tendências internacionais. Na medida em
que possam se impor, elas são perigosas, pelo que significam, seja
para países como o Brasil, seja para a humanidade como um todo.
A
primeira delas, é a construção, em franco desenvolvimento na última
década, de um aparato militar e de segurança (MAMPEY: 2004) cujo
papel pode ser ainda maior e mais perigoso que o do complexo
militar-industrial da época da Guerra Fria. Temos aqui o chamado
“complexe militaro-sécuritaire” dos Estados Unidos, segundo
Serfati (2004).
A
segunda tendência, é a doutrina da “guerra preventiva”, onde o
Estado norte-americano aparece como defensor – manu
militari – dos “mercados livres”. No discurso de George W.
Bush, de setembro de 2002, isto aparece claro. É neste ponto que,
as duas dimensões unem-se, como se fossem os dois lados de uma
mesma moeda: Plano Colômbia e política norte-americana de imposição
da Alca. Ou seja, a dimensão militar e a econômica convergem e,
configuram-se como a mão
armada do mercado.
Nesse
sentido, e retomando a hipótese inicial, não é acidental e nem
conjuntural a coincidência entre o domínio quase sem disfarce, do
capital financeiro sobre o conjunto da economia capitalista e, a
construção de um neo-armamentismo, de um complexo
militar-industrial de novo tipo, com o qual, os Estados Unidos,
esperam fazer frente a toda resistência contra seu domínio
imperial. São faces da mesma moeda.
Os
dois processos são fundados numa crise global da economia
capitalista que, há pelo menos duas décadas e meia, não vem
encontrando a forma de superar sua recessão estrutural.
Nem mesmo pela via de pesados investimentos na economia armamentista.
Os
Estados Unidos estão lançando mão, agora sem rodeios, de sua
incontestável superioridade militar na tentativa de formatar uma
nova ordem mundial, de mais privilégios econômicos para o capital
financeiro norte-americano hegemônico. Privilégios que permitam
fazer crescer sua economia, com base em vantagens em termos de
recursos naturais, comerciais e de mercado que, eles pretendem
arrancar do resto do mundo e, também, do campo dos seus rivais, de
dentro e de fora do G-7.
Do
ponto de vista da América Latina e, de países como o Brasil, há
um dado que não se pode perder de vista, nessa dinâmica: a
re-colonização da região, tende a aprofundar-se. Elites de países
periféricos tendem a submeter-se, o que pode levar seus Estados a
se tornarem meras “províncias do império” (CHESNAIS, 2003:
54).
A
dinâmica atual, da hegemonia militar norte-americana e, da
financeirização da economia regional, pelas frações mais altas
do capital financeiro dos Estados Unidos, não permite outro cenário
na medida em que prevaleça, como ocorre sob os atuais governos
neoliberais locais, o estatuto da subserviência.
Nessa
medida, as lideranças políticas mais comprometidas com os
movimentos sociais, não podem deixar de levar em conta o perigo que
ameaça aos povos do mundo: a estratégia de dominação mundial dos
Estados Unidos
“corresponde,
por sua vez, a uma política econômica de recolonização dos países
dependentes impulsionada desde o início dos anos 90, em simultâneo
processo de restauração capitalista na ex-URSS. As duas dimensões
desta contra-ofensiva são inseparáveis: hegemonia política
militar e intensificação da exploração econômica dos países
dependentes. E respondem, em última análise, às necessidades de
superação da crise econômica mundial e de derrota das mobilizações
sociais e nacionais que ameaçam os interesses das quinhentas
corporações que controlam o governo da maior potência
mundial” (ARCARY, [2003]).
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por
GILSON DANTAS
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