por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

Doutoranda em Literatura na Sorbonne e em Filosofia na
Université de Marne-la-Vallée

 

Saúde auditiva

Celuy Roberta Hundinski Damasio

 

A associação francesa Agi-son (“Agir pour une bonne gestion sonore” - Agir para um bom gerenciamento sonoro) que reagrupa profissionais da música, está lançando uma campanha, por todo o país, de prevenção dos riscos ligados às músicas amplificadas. Durante o mês de outubro estarão sendo distribuídos 12.000 cartazes, 670.000 livretos e 380 pares de tampões para os ouvidos nas salas de concertos, bilheterias e agências de planos de saúde para estudantes.

A campanha tem por slogan “Hein?” e visa lembrar, informar e prevenir a população das lesões que podem ocorrer ao indivíduo que se expõe a fortes volumes sonoros, tais como a hipersensibilidade ao som, a surdez, os assobios, zumbidos, chiados...

Os riscos de lesões começam a partir de 90 decibéis, equivalente a um motor de caminhão ou uma boa discussão. Um saxofone que toca, fortemente, equivale a 95 dB(A), um cantor com voz forte a 98 dB(A). 100 dB(A) são correspondentes a várias marteladas de uma só vez. A 120 dB(A) os ouvidos humanos doem.

Na França, um a cada quatro jovens apresenta um “déficit auditivo patológico” devido, entre outros, aos walkmans e às casas dançantes. 70% dos músicos que tocam instrumentos amplificados sofre de traumatismo que afeta, até mesmo, 48% dos músicos clássicos[1].

Alguns otologistas, que estão a favor da conscientização, discordam, entretanto, de que as pessoas devam usar tampões durante os concertos, pois isso deforma o som. O ideal seria que a máxima de decibéis fosse respeitada, devendo-se, para isso, haver uma maior fiscalização, como há nas discotecas.

Não é somente a música que causa danos à audição. Muitos barulhos em ambientes de trabalho e, também, nas horas de lazer, influenciam gravemente. Entre estes, podemos citar os cinemas e partidas de futebol - ambos atingem uma média de 117 dB(A), as salas de jogos eletrônicos – 110 dB(A), os esportes motorizados – 95 dB(A), a caça e, até mesmo, alguns brinquedos infantis, com sirenes, buzinas, etc. que podem atingir até 90 dB(A).

A perda da audição devida ao barulho é cumulativa, progressiva e resulta da exposição à diversas fontes, sendo, insidiosa, da mesma forma que a exposição, a longo termo, a outros poluentes tóxicos. Porém, uma vez que isso ocorre é irreversível.

A única solução, na maioria dos casos é, realmente, a conscientização para que a saúde auditiva melhore de qualidade e é, exatamente, este o objetivo desta campanha.

Em geral, o Brasil é um país deverasmente mais barulhento que a França: as pessoas falam mais alto e mais (sobretudo, em público); ainda existem inúmeros carros com silenciadores menos potentes; muitas lojas colocam músicas com volume, suficientemente, alto; os populares “carros-do-som” são permitidos, etc. Além disso, não consta nas normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas e Técnicas) nenhuma diretriz sobre o controle do ruído em atividades de lazer.

Em 1997, por iniciativa da Fundação Otorrinolaringologia, da Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia e da Sociedade Brasileira de Otologia, aconteceu a I Semana Nacional de Prevenção da Surdez, por conseqüência dos dados que declaravam 15.000.000 de pessoas no país com perda auditiva. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a surdez é a segunda maior deficiência citada pelos entrevistados.

Existem coisas que deixamos passar porque não são tão evidentes. Tudo o que vai acontecendo gradativamente corre o risco de ser ignorado, pois a capacidade de adaptação humana pode camuflar até quando não tiver mais jeito. Precisamos estar mais vigilantes e conscientes dessas ciladas para que possamos gozar de uma perfeita saúde e aspirarmos à longevidade. E quem tem ouvidos para ouvir, ouça!

 

por CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO

   

 

 

 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico

Fonte: www.liberation.fr www.agi-son.org

www.hcnet.usp.br

[1] Dados relatados conjuntamente pela CNRS e pelo Ministério do Meio-Ambiente em 1998, ano em que a lei passou a permitir, no máximo, 105 dB(A) em lugares onde é difundida a música amplificada.

clique e acesse todos os artigos publicados...  

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2006 - Todos os direitos reservados