por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Shinzo Abe: uma nova estrela no céu do Japão? Ou somente a continuação de Koizumi?

 

Shinzo AbeQuando Shinzo Abe assumiu a posição de primeiro ministro do Japão dia 26 de setembro de 2006, ele estava assumindo o lugar de um dos líderes mais controvertidos do Japão depois da guerra mundial, Junichiro Koizumi. Como seu predecessor, Abe também é do Partido Liberal Democrático; no entanto, não se sabe ao certo se ele vai seguir o mesmo rumo de Koizumi em todas as áreas.

O que se sabe, pelo menos de acordo com a maioria dos jornais tanto do Japão como dos Estados Unidos, é que Abe é nacionalista. E, nesta palavra complicada e controvertida, se encontra a raiz do que poderá ser o governo de Shinzo Abe, que vem logo após a administração de Junichiro Koizumi, durante a qual, pela primeira vez, se colocou em dúvida um dos artigos mais sagrados da constituição japonesa, o artigo 9, que diz:

Aspirando sinceramente à paz internacional baseada na justiça e na ordem, o povo japonês renuncia para sempre à guerra como um direito soberano da nação, e à ameaça ou ao uso de força como um meio de resolução de disputas internacionais.

2) A fim de alcançar o objetivo do parágrafo anterior, [aparatos] de terra, mar e força aérea, assim como outros potenciais de guerra, nunca serão mantidos. O direito de beligerância do estado não será reconhecido.[1] 

Junichiro KoizumiDurante sua administração, Junichiro Koizumi fez amigos, e fez inimigos. Em si só, isto não é digno de nota porque todos os políticos, quando assumem os cargos a que se candidataram, acabam de uma maneira ou de outra entrando em conflitos. Mas Koizumi já assumiu o poder em 2001 prometendo sacudir as correntes de poder do seu próprio partido, e destruir os chefões que haviam estado no poder desde o fim da guerra em 1945.

As campanhas políticas no Japão são muito interessantes, e durante a campanha de 2001, quando eu ainda morava na região do Kansai, perto de Osaka e Kobe, Junichiro Koizumi veio até a região para fazer um comício. Ele se colocou no alto de um caminhão que parecia mais o caminhão do trio elétrico, e de lá, rodeado por outros candidatos – todos usando luvas brancas — ele falou e trovejou e prometeu que iria tirar o Japão do marasmo econômico em que se encontrava e fazer uma limpeza geral. O povo delirava de alegria.

Para muitos japoneses que conhecia na ocasião, a figura de Koizumi era uma bem-vinda mudança depois do primeiro ministro Yoshiro Mori, que havia praticamente herdado a posição devido à morte repentina do primeiro ministro Keizo Obuchi em maio de 2000. Koizumi era mais jovem, mais dinâmico, e, de acordo com os japoneses com quem eu conversava na ocasião, ele prometia acabar com a corrupção e com o método de manipulação do poder por trás das cortinas. Embora Koizumi fosse do mesmo partido que tem se mantido no poder por tanto tempo, alguns japoneses se mostravam francamente otimistas e acreditavam que as coisas iam mudar. Mas terão mudado realmente?

Japan’s Zombie Politics – A Tragedy in Four Parts, de Hajime Fujiwara.Em Japan’s Zombie Politics – A Tragedy in Four Parts (A política de mortos-vivos do Japão—Uma tragédia em quatro partes)[2], lançado em 2005 em japonês, e em 2006 em inglês, Hajime Fujiwara faz uma análise cortante da política de Koizumi, e da história do Partido Liberal Democrático, com suas intrigas palacianas, seus jogo sujos, suas atitudes arrogantes com o povo e o bem estar dos japoneses. Como o título indica, o livro tem quatro partes, (1) “Da adega à cozinha da bruxa”, (2) “Noite na floresta e na caverna”, (3) “Noite de Walpurgis”, e (4) “Dia desapontador na masmorra”.

Hajime Fujiwara nasceu em Tokyo, mas fez seus estudos de doutorado em geologia estrutural na Universidade de Grenoble na França. Agora ele é comentarista político, mora fora do Japão há anos, mas sempre se mantém em contacto com intelectuais e professores do país, o qual ele visita anualmente. Como ele diz no livro, o fato de morar longe de seu país o ajuda a ver a situação política com mais clareza. Este livro é a culminação de suas pesquisas e seus debates com pessoas, e, ele diz na introdução, seu propósito é “diagnosticar o efeito patológico da administração Koizumi sobre o Japão e seus cidadãos”.

Para fazer este diagnóstico, Fujiwara examina a história da família de Koizumi, e apresenta provas que, durante a guerra do Japão com a China (1894-1895), e do Japão com a Rússia (1904-1905), ela era uma organização criminosa envolvida com o jogo na região de Yokosuka, liderada por Yoshibei Koizumi. Após a morte de Yoshibei, o trabalho ficou para Matajiro Koizumi, avô de Junichiro Koizumi. Hajime escreve que Matajiro foi o primeiro da família a se entranhar na política, primeiro como vereador na prefeitura de Kanagawa, e depois como deputado federal. Nesta posição, Matajiro se envolveu na rebelião de Hibiya, em 1905. Esta rebelião foi o primeiro incidente na história japonesa em que o populismo foi usado para apoiar o militarismo. Este é um ponto importante no livro, porque Fujiwara tece sua tese a partir deste evento para indicar a vertente populista de Junichiro Koizumi e sua tendência militarista.

De fato, como alguns japoneses temiam já durante sua campanha política, Koizumi tomou várias medidas durante seu governo que comprovaram esta tendência. Primeiro, ele visitou o templo Yasukuni, no centro de Tokyo. Este templo contém os restos mortais de muitos mortos na guerra mas, especialmente, contêm os restos de homens considerados criminosos de guerra. Ao visitar o templo, Koizumi causou grande mal-estar nas relações com a China e a Coréia, dois países que sofreram nas mãos das forças japonesas durante muito tempo. Em contraste, o primeiro ministro Obuchi, em ocasiões solenes, participava de cerimônias como a que ele compareceu em 15 de agosto de 1999, para marcar os 45 anos do fim da segunda guerra mundial, no Nippon Budokan Hall.

Outra atitude de Koizumi que enraiveceu, desta vez uma grande parte dos próprios japoneses, foi o envio de tropas das Forças de Auto Defesa ao Iraque. Segundo ele, estas forças estavam sendo enviadas por “razões humanitárias”, para auxiliar na reconstrução do Iraque. Mas esta explicação dificilmente conseguiria ludibriar a opinião pública, que sabia que as forças japonesas estavam no Iraque para garantir a aliança com os Estados Unidos e, através desta aliança, os interesses japoneses em relação ao petróleo existente no Iraque. Numa atitude, que confirma a interpretação de Fujiwara a respeito da atitude arrogante de Koizumi em relação ao povo japonês, ele não retirou as tropas do Iraque enquanto não quis. A opinião pública não o moveu, e ele só decidiu que era hora das tropas voltarem para casa quando, de acordo com ele, elas já tinham “cumprido sua missão”. Na realidade, todos estão de acordo que Koizumi só retirou as tropas para facilitar a transição ao governo de Abe, e a crítica ao Japão pelo envio de forças só foi menor que o temor que o país retornasse ao estado belicoso que o levou às invasões da Coréia e da China, à guerra contra a Rússia, e do desastre que foi a segunda guerra mundial.

Uma outra medida controvertida tomada durante o governo Koizumi foi a luta pela privatização dos correios, que, até a mudança, funcionava como uma espécie de caixa econômica. Koizumi desmantelou o sistema, alegando que não ajudava o povo com seus juros baixíssimos, e servia como uma “muleta” para políticos, mesmo os de seu próprio partido. Apesar da grande celeuma causada pela tentativa, e pela dissolvição do senado e convocação de novas eleições, Koizumi obteve suficientes votos para conseguir a privatização.

Mas Koizumi resolveu, aparentemente de uma hora para a outra, logo que a medida afetando os correios foi efetivada, deixar o governo do Japão. De acordo com Norimitsu Onishi, da New York Times, “Mr. Koizumi may have nurtured such an ironclad relationship with Mr. Bush that he was rewarded with a farewell road trip to Graceland. But he brought Japan’s relations with China to their lowest point in decades, and presided over the rise of a narrow nationalism at home and Japan’s diplomatic isolation in the region” — “o Sr. Koizumi manteve uma relação tão firme com o Sr. Bush que ele foi premiado com uma viagem de despedida a Graceland. Mas ele levou as relações do Japão com a China ao seu ponto mais baixo em décadas, e presidiu o aumento do nacionalismo fechado japonês e ao isolamento diplomático do Japão na região” (19 de Setembro de 2006).

Apesar de todos estes altos e baixos, Koizumi terminou seu governo com 50% de aprovação por parte do público. Norimitsu Onishi, no mesmo artigo mencionado acima, diz que os experts afirmam que a renovação da economia do Japão se deve não a Koizumi, mas à reestruturação interna das companhias privadas e ao florescente comércio com a economia chinesa.

No fim de seu livro, Zombie Politics, Fujiwara lança algumas previsões de possíveis cenários para os três estados patrimoniais da Ásia, e termina com uma crítica à mídia internacional que, segundo ele, apóia Koizumi porque ele defende os interesses de empresas multinacionais. Com o início do governo de Shinzo Abe, estas previsões certamente serão postas à prova. Para os japoneses que se opõem à militarização do Japão, estes são tempos extremamente tensos, e muitos temem que a autoridade moral do Japão, conseguida quando o país renunciou à guerra, está em jogo.


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[2] FUJIWARA, Hajime. Japan’s Zombie Politics — A Tragedy in Four Parts. Tradução por Scott Wilbur. Taipei, Taiwan: Creation Culture Co, 2006.

   

 

 

 

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