por LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

Luiz Alberto Cientista político, professor titular (aposentado) da Universidade de Brasília e autor de várias obras, entre as quais "Formação do Império Americano, da Guerra contra a Espanha à Guerra no Iraque").

 

O Golpe Militar de 1964*

 

O Governo João Goulart: As Lutas Sociais no Brasil – 1961-1964Esta obra, O Governo João Goulart: As Lutas Sociais no Brasil – 1961-1964, reflete o espírito de uma época, uma época muito conturbada e difícil, em que ainda lutávamos pela restauração das liberdades democráticas, contra o regime discricionário vigente no Brasil. Escrita entre fins de 1976 e primeiro semestre de 1977, ela constituiu  a primeira tentativa de desmistificar, em termos acadêmicos, o golpe de estado que o implantara em 1964. Vali-me para tanto não só da pesquisa em fontes primárias, ou impressas, como de depoimentos dos mais diversos personagens que participaram da ascensão e queda do Governo João Goulart. De todos quanto pude, tanto dos que estavam com João Goulart como dos que contra ele conspiraram, tratei de ouvir depoimentos, a fim de fazer a reconstrução oral da história, pois, conforme o historiador inglês Timothy Garton Ash muito bem ressaltou, a testemunha, se tem sorte, pode ver coisas que o historiador não encontrará em qualquer documento[1]. Neste particular, posso dizer que fui também testemunha do que ocorreu no Brasil, desde a renúncia de Jânio Quadros à presidência da República, em 1961,  ao golpe de estado de 1964, na condição tanto de assessor do deputado Sérgio Magalhães, do PTB, presidente da Frente Parlamentar Nacionalista e vice-presidente da Câmara Federal, quanto de chefe da seção política do Diário de Notícias, um dos mais importantes órgãos da imprensa brasileira, o que me permitiu acompanhar de perto os acontecimentos, recebendo informações tanto do lado do governo quanto da oposição, dado que desde a minha adolescência aprendi a não confundir diferenças de idéias e opiniões políticas quer com meu trabalho profissional quer com minhas relações de amizade ou de mera cordialidade. Destarte, sempre fui bem informado e até mesmo soube, àquela época, que o então coronel Vernon Walters, Adido Militar na Embaixada dos EUA, estava a conspirar com a oposição ao Governo João Goulart, fato este que revelei através das “Notas Políticas” do Diário de Notícias, bem como a estranheza do Itamaraty diante da contínua solicitação pelo embaixador Lincoln Gordon de vistos oficiais para cidadãos norte-americanos, que se dirigiam, sobretudo, ao Nordeste. Este conhecimento direto  do que ocorria nos bastidores serviu para argamassar as informações colhidas para esta obra, através da pesquisa de documentos e das entrevistas que as dramatis personæ gentilmente me concederam, independentemente do papel que desempenharam contra ou a favor do golpe de estado. Assim, procurei ser tanto quanto possível objetivo, ao escrever O Governo João Goulart – As Lutas Sociais no Brasil – 1961-1964, que também representa um depoimento de quem viveu intensamente aqueles anos de crise e sofreu as suas conseqüências.

O golpe de estado não constituiu surpresa para mim. A ameaça estava latente na política brasileira, desde que Jânio Quadros renunciara à presidência da República, tentando compelir o Congresso a outorgar-lhe o poder legislativo e entrar em recesso permanente, como condição para que ele retornasse ao governo, diante do impasse político e constitucional, que se criaria com o veto previsível dos ministros militares à investidura no cargo do seu sucessor, o vice-presidente João Goulart. Este seu desígnio logo percebi, porque, conquanto nunca fosse partidário de Jânio Quadros, eu o acompanhara, durante a campanha eleitoral, pelo Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, e possuía uma série de dados que me permitiram deslindar o enigma e publicar dois meses depois da renúncia um pequeno livro – O 24 de Agosto de Jânio Quadros – provocando certo espanto, porque  sustentei que Quadro pretendera “constituir-se como alternativa para a junta militar que ele próprio sugerira”[2], quando muitos ainda criam na hipótese de que fora deposto. O próprio Quadros, no entanto, confirmou, na obra História do Povo Brasileiro, escrita por ele em co-autoria com Afonso Arinos de Melo Franco, que seu propósito, ao renunciar à presidência do Brasil, fora de fato constranger o Congresso, coagido pelos acontecimentos, a delegar-lhe as faculdades legislativas, sem prejudicar, aparentemente, “os aspectos fundamentais da mecânica democrática”[3]. O próprio almirante Sílvio Heck, ministro da Marinha no seu governo, confirmou, entrevistado por mim em 1976, que “Jânio Quadros renunciou para voltar na crista da onda, com o povo, e tornar-se ditador”, mas “seu erro foi ter renunciado sem antes ter conversado conosco”, ou seja, com os ministros militares, que se opuseram à investidura de Goulart na presidência da República. “Ele queria João Goulart como vice-presidente porque sabia que as Forças Armadas não lhe dariam posse” – o almirante Sílvio Heck ressaltou[4].

Goulart, não obstante a oposição dos chefes militares, assumiu o cargo de presidente da República, embora com os poderes reduzidos pelo sistema parlamentarista, quando necessário se tornava um governo forte para empreender as reformas que o desenvolvimento econômico do Brasil estava a exigir. Naquelas circunstâncias, a aliar o conhecimento empírico da situação ao embasamento teórico que possuía, devido à minha formação acadêmica em ciências jurídicas e sociais, percebi que o gabinete parlamentarista, tendo Tancredo Neves como primeiro-ministro, não preenchera o vácuo do governo, pois nascera da conciliação e do compromisso entre as forças políticas, era “fruto do conchavo (...) e não estava em condições de enfrentar os problemas nacionais, as reformas que o próprio capitalismo reclamava”, conforme salientei em O Caminho da Revolução Brasileira, escrito no primeiro semestre de 1962[5]. Nesse livro, com base em levantamentos  econômicos, em dados estatísticos, demonstrei que o Brasil deixara de ser um país semi-colonial e agrário, conforme a teoria defendida pelo PCB, mas já apresentava o perfil de uma economia capitalista madura, dado que o valor da produção industrial, inclusive com um setor bastante adiantado de máquinas e equipamentos, já superava o da agricultura, acelerando a concentração tanto do capital quanto do proletariado, ao mesmo tempo em que o rápido processo de urbanização, intensificado por inaudito êxodo rural, acentuava o predomínio da cidade sobre o campo. Também assinalei que o crescimento industrial do Brasil começara “a apagar a complementaridade entre a sua economia e a dos EUA, segundo o esquema da velha divisão internacional do trabalho”, e “essa transformação determinou o surgimento de outra área de atritos com a burguesia norte‑americana”[6], como nos casos dos serviços públicos, que a Bond & Share, desapropriada pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, e a Light monopolizavam, entravando o desenvolvimento da economia nacional. Esta era, na época, a minha percepção e afigurava-se-me que a profunda crise econômica, social e política, por que o Brasil passava, evoluía para o ponto em que as classes dominantes não mais poderiam manter o antigo status quo, o velho arcabouço social[7], e precisavam “não apenas de um governo forte, mas, também, mãos livres, desembaraçadas, para remodelar, readaptar a máquina do estado às suas novas necessidades”[8]. A citar a observação de Friedrich Engels, no prefácio à obra de Karl Marx – Klassenkämpfe in Frankreich 1848 bis 1850 – segundo o qual os “partidos da ordem” (Ordnungsparteien), exclamando, desesperados, com Odilon Barrot, que la légalité nous tue (a legalidade nos mata), “não terão outro caminho senão romper eles mesmos esta legalidade tão fatal para eles”[9], advoguei, então, que cabia às forças de vanguarda “preparar a insurreição, a tomada do poder”, como forma de enfrentar o golpe de estado, que ocorreria, conforme estava a prever[10].

No entanto, Jacob Gorender interpretou abusiva e capciosamente o que escrevi, ao comentar em seu livro Combate nas Trevas que a palavra de ordem de “preparar as massas para o levante armado, para a insurreição e a tomada do poder”, no seu contexto teórico e em termos práticos, naquela conjuntura, “só podia ganhar a forma concreta de derrubada do Governo Goulart”, sentido no qual “já se orientavam os golpistas de direita”[11]. Homem com formação escolástica, recorrendo aos métodos stalinistas de falseamento dos fatos e das idéias, ele adulterou propositadamente meu pensamento, aliás, bastante claro, pois, nas frases subseqüentes, aludi ao golpe de estado que derrubara o presidente Arturo Frondizi (março de 1962), antevendo que, no Brasil,

“as classes dominantes, como na Argentina, darão o primeiro tiro. Para elas já se torna, cada vez mais, insustentável essa legalidade, o atual regime, uma vez que não conseguem resolver os seus problemas. Mas, às massas operárias e camponesas caberá o segundo. E não podem errar”[12].

Não se tratava, portanto, de preparar as massas para um levante sob o governo de João Goulart,  para disparar o primeiro tiro, mas para dar o segundo, ou seja, para responder ao golpe de estado que me parecia inevitável, em conseqüência das lutas sociais e das contradições políticas intestinas, bem como do recrudescimento da guerra fria no continente, ao assumir a revolução em Cuba um caráter socialista. A minha posição foi claramente contra qualquer intento de ação armada, enquanto a democracia subsistisse no Brasil. Tanto isto é certo que, ao saber que eu iria a Havana, em julho de 1962, Mário Alves[13], do Comitê Central do PCB, procurou-me e pediu-me que advertisse os dirigentes cubanos sobre o comportamento de membros das Ligas Camponesas e integrantes do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), que treinavam guerrilha em algumas fazendas compradas com recursos fornecidos pelo governo de Fidel Castro. Eles estavam a ameaçar de fuzilamento os militantes do PCB, a acusá-los de reformistas e contra-revolucionários por serem contra a luta armada, e os conflitos atingiram tal nível que alguns comunistas até mesmo já se dispunham a denunciar ao Exército aqueles campos de treinamento, apesar de que tal atitude pudesse afetar e enfraquecer a política do governo brasileiro, em defesa da soberania e da autodeterminação de Cuba. Este problema abordei na conversa particular que tive com o comandante Ernesto Che Guevara, durante quatro horas, no seu gabinete do Ministério da Indústria, quando cheguei a Havana. E quando referi a possibilidade de que esses militantes das Ligas das Ligas Camponesas pudessem cair presos, Guevara adiantou: “Já estão presos”. Tirou então do bolso e mostrou-me um telegrama, creio que da Associated Press ou da United Press, recebido pela Prensa Latina, noticiando que um irmão de Francisco Julião e outros militantes das Ligas Camponesas haviam sido presos, porque aparentemente faziam treinamento de guerrilha, em uma fazenda no interior de Pernambuco. Em seguida, Guevara chamou John William Cooke, representante da esquerda peronista e que trabalhava na Prensa Latina, e colocou-me em contacto com ele, a fim de que eu pudesse  acompanhar o noticiário proveniente do Brasil.

A preparação de guerrilhas pelas Ligas Camponesas, àquele tempo, constituía de fato uma política aventureira e irresponsável, à qual os dirigentes do PCB se opuseram, por considerar que ela, objetivamente, adquiria o caráter de provocação. Em realidade, os dirigentes do PCB conduziram-se com moderação,  prudência e sensatez, embora fossem de certo modo imprevidentes e até mesmo ingênuos, na expectativa de que a URSS iria superar estrategicamente os EUA. Com algumas exceções, talvez Carlos Marighela, eles  aparentemente não criam na possibilidade de que um golpe de estado viesse a ocorrer no Brasil, encorajado pelos EUA, conforme o próprio Mário Alves, homem inteligente e culto, manifestou, em conversa comigo, argumentando que a situação internacional não o permitia, em face do fortalecimento da URSS, pois uma advertência de Nikita Kruschev, secretário-geral do PCUS, ao presidente John Kennedy bastaria para o inibir de qualquer propósito de intervenção na América Latina. Naquela conjuntura, entretanto, a radicalização no Brasil, apesar de que a China e Cuba incentivassem a luta armada, estava a sobre-exceder os próprios impulsos ideológicos, induzida em grande parte artificialmente pelos agentes dos serviços secretos, sob orientação da CIA, que empreendia uma spoiling action, com o objetivo a estreitar as bases sociais e políticas de sustentação do governo e o compelir a apoiar-se cada vez mais na extrema esquerda, de modo a facilitar sua derrubada. Depois do levante dos sargentos em Brasília, que setembro de 1963 surpreendeu as correntes de esquerda, eu mesmo tive algumas vezes de participar de reuniões com sargentos da Vila Militar, no Rio de Janeiro, tratando de impedir que outras sublevações ocorressem, instigadas por elementos mais radicais, que na verdade eram agentes dos serviços secretos, conforme se descobriu depois do golpe de estado em 1964. E essa radicalização atingiu o auge em 25/26 de março com o motim dos marinheiros, que criou para Goulart uma situação política extremamente difícil, ao compelir a maioria legalista da oficialidade,  irritada com a quebra da hierarquia e a disciplina nas Forças Armada, a aceitar o golpe de estado, cuja deflagração, sob a chefia do então general Humberto Castello Branco, estava prevista para 2 de abril, após a realização no Rio de Janeiro da Marcha da Família com Deus pela Propriedade.

Os acontecimentos, porém, afoitaram-se. Logo após a Páscoa,  no dia 30 de março, segunda-feira, Carlos Meirelles Vieira, presidente do Conselho Nacional de Petróleo e meu amigo pessoal, telefonou-me cedo pela manhã e pediu-me que fosse encontrá-lo com urgência. Mandou então seu automóvel buscar-me em casa.. E, quando cheguei ao seu gabinete, no centro do Rio de Janeiro, ele me informou que recebera telefonema do presidente do Sindicato dos Revendedores de Combustível (postos de serviços) de Belo Horizonte, informando que a distribuição de gasolina àqueles postos deixara de ser feita, durante a noite e pela manhã, e que, no curso do dia, certamente a cidade estaria sem condições de abastecimento. Tudo indicava que o governador José Magalhães Pinto estava a controlar todos os estoques existentes no estado. Não tivemos dúvida de que era o golpe de estado, a preparação para a guerra civil. Passamos o dia em vigília, aguardando novas notícias de Belo Horizonte. Entrementes, averiguamos que o estoque de combustível em Minas Gerais somente daria para uma semana e eu lhe ponderei que determinasse a imediata suspensão de qualquer remessa para aquele estado, mesmo sem consultar o ministro das Minas e o próprio presidente Goulart. De pronto, isto foi feito. No fim da tarde daquele dia, caracterizada a não distribuição de derivados aos postos de serviços, Carlos Meirelles foi para o Ministério da Guerra colocar as autoridades militares a par dos acontecimentos.

À noite, fui ao Automóvel Clube, onde a diretoria da Associação dos Sargentos tomava posse, e José Carlos Brandão Monteiro, dirigente do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (CACO), da Faculdade de Direito, que lá estava juntamente comigo, comentou, enquanto assistíamos ao discurso de Goulart: “Vê, Moniz, a cara de Jango é de quem sabe que já está deposto”. Com efeito, Goulart estava virtualmente deposto. E sua queda consumou-se 48 horas depois, em 1° de abril,  sem que as massas trabalhadoras  reagissem, porque os lideres da esquerda, sobretudo do PCB, entre os quais Jacob Gorender se destacava, ainda confiavam no espírito legalista e democrático das Forças Armadas, quando a mutação da estratégia de segurança continental já se processava, orientada pelo Pentágono através da Junta Interamericana de Defesa, colocando como primeira hipótese de guerra não mais um inimigo externo, mas o inimigo interno, a subversão ou “um governo central vermelho contra governos estaduais azuis”. E foi a projetar esta percepção que uma corrente militar, a antiga Cruzada Democrática, que conspirava contra o regime desde o início dos anos 50, levou as Forças Armadas a subverterem a ordem constitucional, a pretexto de combater a subversão, e em nome da democracia ocidental e representativa destruiu a democracia, instalando uma ditadura, talvez ocidental, mas nada representativa do povo brasileiro. O golpe de estado de 1° de abril, por ser este o dia da mentira[14], foi rebatizado como Revolução de 31 de março e a farsa encenada continuou, em meio do “Festival de Besteiras que Assolou o País”, segundo a expressão criada pelo jornalista Stanislaw Ponte Preta, depois que o general Olympio Mourão Filho, chefe do levante militar em Minas Gerais, autoproclamou-se uma “vaca fardada”. Esta ópera-bufa seria engraçada se não resultasse em drama para o país e milhares de cidadãos brasileiros, adversos ao golpe de estado, que violentou a legalidade e derrubou o presidente constitucional do Brasil, João Goulart, com a bênção e sob os aplausos do presidente dos EUA, Lyndon B. Johnson.

Este acontecimento marcou profundamente minha vida. Aos 28 anos de idade, em 1964, vi o horizonte fechar–se para mim, sem trabalho, minha carreira interrompida, quer como jornalista quer como professor. Ameaçado de prisão, alternativa não me restou senão asilar-me na Embaixada do Uruguai, a fim de ir para Montevidéu e lá fazer a conexão com Leonel Brizola, uma vez que a Política Operária (POLOP), resultante da fusão da Juventude Socialista do PSB com a Liga Socialista Independente, de São Paulo, e a Mocidade Trabalhista, de Minas Gerais[15], pretendia implantar um foco de luta, com a participação de vários sargentos e marinheiros, expulsos das Forças Armadas, no Nordeste de Minas Gerais, na serra de Caparaó, nas cercanias do vale do Rio Doce, zona de importância econômica e conflitos sociais. Esta região fora estudada desde 1962/1963, inclusive por técnicos de Cuba, mas a POLOP, que controlava as Ligas Camponesas em Minas Gerais, não permitiu a deflagração de guerrilhas, estando ainda vigente o regime democrático, com João Goulart na presidência do Brasil. A direção da POLOP também tinha consciência e eu, que a ela pertencia, demonstrara em O Caminho da Revolução Brasileira que em um país como o Brasil, onde o processo de industrialização estava bastante adiantado, várias dificuldades surgiriam para o estabelecimento de guerrilhas, que não conseguiriam afetar a espinha dorsal do estado e abalar as classes dirigentes, porquanto uma economia diversificada “não sofreria de pronto maiores conseqüências, os efeitos da luta nos campos”[16]. “No Brasil, país que alcançou níveis de pré-desenvolvimento, o terreno da luta armada não poderia ser fundamentalmente o campo, pois ao Nordeste atrasado e cuja economia se assenta na agricultura, se contrapõe o alto estágio industrial de São Paulo, Rio de Janeiro e algumas faixas de Minas Gerais”- conforme ressaltei[17]. Este era, na época, o pensamento de toda a direção da POLOP.

A situação naturalmente se modificou com a ruptura da legalidade constitucional pelo golpe de estado e a insurgência portanto se justificava. A deflagração da luta armada a partir da serra de Caparaó, no nordeste de Minas Gerais, não tinha entretanto o objetivo estratégico de conquistar o poder político, através de uma campanha de guerrilha, tal como acontecera em Cuba. Seu objetivo era tático, isto é, alimentar a resistência nas cidades e encorajar a reação das correntes democráticas e legalistas existentes dentro das Forças Armadas, ainda profundamente divididas, de modo a provocar defecções, e os levantes desestabilizassem o regime autoritário implantado no Brasil, após a queda de Goulart.  Este plano não passou dos preparativos. Poucos dias depois de chegar a Montevidéu, soube que o CENIMAR, serviço secreto da Marinha, que infiltrara um agente no grupo, invadira três apartamentos em Copacabana e prendera vários sargentos e marinheiros, assim como dois dirigentes da POLOP, o engenheiro Arnaldo Mourthé e o professor Ruy Mauro Marini. Arnaldo Mourthé, submetido a torturas, atribuiu a mim (porque me encontrava fora do país, a salvo, fora do alcance do CENIMAR) a entrega de mapas da região nordeste de Minas Gerais  ao sargento da Marinha (fuzileiro naval), José Medeiros de Oliveira[18], de quem eu fora advogado, após o levante de Brasília, em setembro de 1963. E o professor Ruy Mauro Marini, também dirigente da POLOP, não só jogou sobre mim a responsabilidade como declarou que o grupo acreditava que “a deflagração de uma luta de guerrilhas iria desencadear uma reação popular” e que as operações seriam “em áreas de importância econômica vitais e não periféricas”[19], em outras palavras, na região nordeste de Minas Gerais, no vale do Rio Doce.

Assim, antes de implantado o foco de resistência, o plano não só se frustrou, deixando o nordeste de Minas Gerais sob a observação dos serviços de inteligência, como alguns meses depois se desvaneceu a possibilidade de que viesse a ter qualquer êxito. Em 11 de abril de 1964, 122 oficiais já haviam sido expurgados das Forças Armadas[20]. Este número se elevou no correr dos meses a cerca de 450[21]. E, somados os oficiais aos sargentos, marinheiros e fuzileiros navais, o número dos expulsos das três Armas, segundo constava, teria alcançado um total superior a 4.000 militares. Destarte, ao constatar que o governo do marechal Humberto Castello Branco conseguira, mediante o expurgo, o completo controle das Forças Armadas, extinguindo qualquer possibilidade de rebelião,  comecei a perceber, em fins de 1964, que a deflagração da luta, a partir de qualquer foco de resistência no interior do Brasil, já não tinha condições de êxito. Por isto, no curso de 1965, decidi regressar clandestinamente ao Brasil, onde passei a viver em São Paulo, embora Brizola, antes refratário à idéia da guerrilha como forma de luta contra o regime autoritário, já estivesse a admiti-la e até viesse, mais tarde, a apoiar a implantação do foco em Caparaó, projeto resgatado por alguns sargentos que o conheciam. A POLOP, com a qual rompi, cindiu-se, então, em  facções ainda mais radicais, formando a COLINA (Comando de Libertação Nacional), a Vanguarda Armada Revolucionária (VAR-Palmares) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que empreenderiam operações de guerrilha urbana e rural e que, no meu entender, não conseguiriam derrubar o regime autoritário, antes o fortaleceriam, como de fato aconteceu.   

Em 1966, porém, a 1a. Auditoria da Marinha, com base na Lei de Segurança Nacional e no Código Penal Militar, decretara minha prisão preventiva, juntamente com a de Leonel Brizola, Paulo Schilling, o coronel Dagoberto Rodrigues e muitos outros civis e militares, exilados no Uruguai, envolvendo-nos sem qualquer fundamento na denúncia resultante do IPM, instaurado com a prisão de dois dirigentes da POLOP,  Ruy Mauro Marini, Arnaldo Mourthé, bem como de sargentos e marinheiros, em junho de 1964[22]. Segundo essa denúncia sobremodo imaginosa, formulada  pelo procurador da Justiça Militar, Felipe Benedito Rauem,

“o plano era de âmbito ligado aos exilados subversivos de Montevidéu, onde se destacam Leonel Brizola e Moniz Bandeira, entre outros, este antigo militante trotskista, que enviou ao seu íntimo amigo Ruy o plano de viagem ao Uruguai, onde teria ido um emissário do grupo do Rio, dirigido por Leonel Brizola, Moniz Bandeira etc., que lhe enviaram um esquema, com ampla frente de oposição ao atual regime”[23].

Assim, acusado de tentar contra a segurança do estado e incitar motim, entre outros delitos previstos na Lei de Segurança Nacional e no Código Penal Militar, fui condenado a 5 anos de prisão. Não me dispus, entretanto, a partir outra vez para o exílio, porque não tinha qualquer missão política a cumprir – nem a ilusão de derrubar o regime pela força – como em 1964, quando fui para Montevidéu. Sem compromisso com qualquer organização, poderia ter ido para a Europa, onde faria meu doutoramento, mas não admiti cuidar de minha vida pessoal, abandonar a luta, quando tantos companheiros empunhavam armas contra o regime autoritário e tombavam a tiros ou torturados. Era necessário para mim, que não optara pela guerrilha, enfrentar, como intelectual, todos os riscos, inclusive de morte, para os quais sempre me preparara. E pretendia voltar para São Paulo, onde já vivera clandestinamente dois anos, mas um pelotão da Marinha, com a participação de um elemento estrangeiro, sem dúvida agente da CIA, capturou-me, no interior do Estado do Rio de Janeiro, levando-me para um calabouço na Ilha das Cobras, por volta de 2 de dezembro de 1969, quando principiava o período de maior terror, sob o governo do general Emílio Garrastazu Médici.

Contudo, ao ser libertado, cerca de 10 meses, depois devido à anulação da sentença, voltei às atividades de pesquisa, apesar da situação precária em que me encontrava. Com o apoio de Ênio Silveira, que confiava na minha objetividade acadêmica e em 1967 publicara pela Civilização Brasileira um livro meu - O Ano Vermelho – A Revolução Russa e seus Reflexos no Brasil[24] – para o qual fiz a pesquisa ainda na clandestinidade, com a colaboração de Clóvis Melo e Aristélio T. Andrade, comecei a escrever Presença dos EUA no Brasil – Dois Séculos de História. Concluí essa obra por volta de setembro de 1972, em São Paulo, onde estava outra vez a viver na clandestinidade, novamente condenado, no mesmo processo da Auditoria da Marinha, a 4 anos de prisão por incitamento de motim. Seu lançamento pela Editora Civilização Brasileira ocorreu  no segundo semestre de 1973, quando eu já estava  outra vez preso, desde o início do ano, no Regimento Marechal Caetano de Farias (Rio de Janeiro), e soube que ela teve repercussão entre os militares, em meio dos quais o nacionalismo voltava a manifestar-se, e era discutida na Escola Superior de Guerra.

Escrever e publicar constituiu para mim, como intelectual, uma forma de resistência e de luta contra o autoritarismo. Sempre entendi que liberdade não se ganha como dádiva; conquista-se, através do seu exercício, a enfrentar todos os riscos decorrentes de tal comportamento. I may stand alone, but would not change my free thoughts for a throne[25] – Lord Byron escreveu. E esta foi a norma pela qual desde a adolescência pautei minhas atitudes. Quando saí da prisão, no segundo semestre de 1970, e a minha situação era extremamente precária e incerta, ainda sob a ameaça de outra condenação pela Auditoria de Marinha, não hesitara em escrever Presença dos EUA no Brasil, obra que, não obstante o caráter acadêmico, poderia ser considerada subversiva, naquela conjuntura,  devido às críticas à política norte-americana vis-à-vis do Brasil. Da mesma forma, ao ser outra vez libertado à véspera do Natal de 1973,  voltei à luta. Regressei a São Paulo no dia 2 de janeiro de 1974, retomei o trabalho na Editora Banas, cujo proprietário, Geraldo Banas, me dera todo o respaldo enquanto estava preso, além de retornar às atividades de ensino, assumindo o encargo de uma disciplina na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em substituição ao meu velho amigo Maurício Tragtenberg. Com o apoio de vários amigos, entre os quais, sobretudo, os professores Francisco Weffort e Lúcio Kowarick, pude então fazer meu  doutoramento em ciência política, na Universidade de São Paulo, o que antes não conseguira, devido à repressão, e escrever outro livro – Cartéis e Desnacionalização – A Experiência Brasileira: 1964-1974[26],  também publicado pela Civilização Brasileira e cuja primeira edição se esgotou em 30 dias. Este foi “ao mesmo tempo um estudo da economia da grande empresa no Brasil e uma tentativa de análise política”, segundo o professor Fernando Henrique Cardoso qualificou o livro, no prefácio que não saiu publicado devido a um atraso na entrega, a ressaltar que nele “Moniz Bandeira encara o problema da dominação imperialista a partir do ângulo correto, considerando-a como o que se poderia chamar de um processo social global”, e que, “além do valor documental que possui, é uma análise útil para ajudar a reavaliação das opções que se abrem diante da internacionalização crescente da economia brasileira”[27].

Fernando Henrique Cardoso, então diretor do CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Pesquisa), indicou meu nome à Fundação Ford, que me concedeu uma bolsa, possibilitando-me  passar algum tempo na Argentina, entre os anos de 1975/1976, a fim de  realizar a pesquisa para a minha tese de doutoramento sobre “O Papel do Brasil na Bacia do Prata”. Na época, tive de ir diversas vezes a Montevidéu para pesquisar em seus arquivos e entendi que devia também aproveitar a oportunidade para fazer entrevistas com João Goulart e publicar um livro sobre seu governo, por considerar que esta seria uma forma de desmistificar o golpe de estado de 1964 e o regime autoritário, como forma de ampliar a abertura política, que o general  Ernesto Geisel, como presidente do Brasil, prometia promover. Além do mais, as teorias sobre o populismo, disseminadas, sobretudo em São Paulo,   impediam uma interpretação correta do golpe de estado de 1964 e pura e simplesmente o justificavam. Aplicadas  ao Governo João Goulart, elas nada explicavam. Pelo contrário, confundiam.  Afinal porque as classes possuidoras o derrubaram se ele tanto lhes favorecia, através da manipulação das massas, um dos elementos essenciais de qualquer conceito sobre o populismo ? O golpe de estado de 1964 representara, ao meu ver, um episódio da luta de classes, com o qual o empresariado, sobretudo seu setor estrangeiro, tratou de conter e reprimir a ascensão dos trabalhadores, cujos interesses, pela primeira vez na história do Brasil, condicionavam diretamente as decisões da presidência da República, devido às vinculações de Goulart com os sindicatos. E as multinacionais, que investiam nos países em desenvolvimento em busca de fatores mais baratos de produção, para compensar a queda da taxa de lucro nos EUA e na Europa, não podiam tolerar, naquela conjuntura, que o Brasil tivesse um governo sensível às reivindicações sindicais, o estabelecimento de um regime do tipo social-democrata, de garantia do trabalho, semelhante ao existente nos estados de bem-estar social, de onde os capitais então emigravam 

A idéia de escrever este livro entusiasmou Ênio Silveira, meu editor, assim como José Gomes Talarico, militante do antigo PTB, homem corajoso e solidário, que sempre me fora ver no quartel do Regimento de Cavalaria Marechal Caetano de Farias e abordou o assunto com Goulart, de quem era amigo fiel e a quem freqüentemente visitava no Uruguai, levando informações do Brasil[28]. E em uma das minhas viagens a Montevidéu eu mesmo comuniquei o propósito a Goulart, que se prontificou a dar-me todo o respaldo possível, com o qual  não apenas montei uma equipe, para pesquisar todos os jornais da época, como comecei a buscar documentação em fontes primárias e a fazer entrevistas com os mais diversos personagens, que participaram do governo e também do golpe de estado, em 1964. Em 25 de julho de 1976, uma das muitas vezes em que fui a Montevidéu, visitei Brizola no seu apartamento da Rambla Armenia, como sempre fazia, e lhe revelei que tencionava escrever este livro. E ele, que havia doze anos rompera com Goulart, exclamou, a espalmar as mãos: “Mas, Moniz, tu vais precisar de toda a habilidade do PSD mineiro[29] para defender o governo de Jango”. Repliquei que não se tratava de o defender, mas de resgatar memória de uma época, restabelecendo a verdade histórica, posto que a pura e simples condenação do governo de Goulart, como inclusive se fazia na esquerda, implicava uma justificativa do golpe de estado. Brizola não redargüiu. Apenas murmurou: “Pode ser”. E concedeu-me as entrevistas, naquele dia e nos meses subseqüentes, quando o procurei em Montevidéu. Entrementes os dois se reconciliaram, por iniciativa do próprio Goulart, que foi ao seu apartamento visitar a irmã[30], Neuza, antes de viajar para a Europa.

Goulart era um homem extremamente tolerante, não guardava rancores e sempre me pareceu condescendente com Brizola. “Você sabe como é o Leonel...” – assim o referia, rindo, sem avançar na apreciação, quando explicava qualquer fato que ocorrera durante seu governo. Só uma vez o ouvi criticá-lo, diretamente, ao dizer: “Leonel tem o dedo podre. Não sabe escolher”. Goulart, porém, não falou sobre o episódio da reconciliação, quando o visitei em Punta del Este, em começo de novembro de 1976. Comentamos a situação do Brasil e eu, referindo-me à oportunidade de publicar o livro sobre seu governo, disse-lhe que continuava a receber inúmeros convites para dar em São Paulo e outros estados conferências, nas quais criticava o regime militar. Homem muito bem informado sobre o que ocorria no Brasil, Goulart observou: “Deixam que tu fales, que critiques o regime, e nada te acontece, porque já há muita gente dentro das Forças Armadas simpática à oposição, querendo ouvir o que nós pensamos”. A conversa dai passou para a  pesquisa que eu devia realizar. Na ocasião, transmiti-lhe a informação, que me fora dada por Celina Vargas do Amaral Peixoto, diretora do CPDOC – FGV, e pelo professor Juarez Brandão Lopes, do CEBRAP, recém-chegados do Texas, de que uma estudante norte-americana, Phyllis Parker, com base no Freedom of Information Act (FOIA), aprovado havia pouco tempo pelo Congresso norte-americano, conseguira a liberação de vários documentos importantes sobre a colaboração dos EUA com o golpe de estado de 1964, depositados na Lyndon B. Johnson Library, em Houston. Goulart demonstrou o maior interesse na informação, dispondo-se a  financiar uma minha viagem aos EUA para buscar a documentação. Mostrou-me depois um baú, que estava em um galpão, ao fundo da casa, com muitos documentos, e disse: “Moniz, por volta de 15 de dezembro, vou mandar te chamar. Tu passas aqui comigo o final do ano. De manhã, vamos à praia e depois do almoço trabalhamos na documentação”. Sua intenção, porém, não se efetivou. Na madrugada de 6 de dezembro, Goulart faleceu, no interior da Argentina. Soube-o em São Paulo e não consegui viajar para São Borja  a fim de acompanhar seu enterro e dar-lhe adeus.

O falecimento de Goulart dificultou naturalmente meu trabalho. O baú com os documentos João Vicente, seu filho, não encontrou[31]. E em 19 de dezembro, cerca de duas semanas após o falecimento de Goulart, o jornalista Marcos Sá Corrêa publicou em suplemento especial do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, vários documentos da Lyndon B. Johnson Library sobre o golpe de estado de 1964. João José Fontella, irmão de Maria Tereza Goulart, conseguiu, contudo, reunir a documentação espalhada em propriedades de Goulart, no Rio de Janeiro, especialmente no Sítio do Capim Melado (Jacarepaguá) e no apartamento do edifício Chopim (Copacabana), e o professor Francisco Weffort  cedeu-me documentos por ele trazidos da Lyndon B. Johnson Library. Assim, com essa documentação, o material colhido nos jornais da época e as informações que obtive através de entrevistas com as dramatis personæ, a reconstituir oralmente a história, pude escrever e terminar este livro - O Governo João Goulart: As Lutas Sociais no Brasil – 1961-1964  nos últimos dias de maio de 1977.

No começo de junho, indo ao Rio Grande do Sul participar de um simpósio  na Assembléia Legislativa sobre “A questão da democracia e as tarefas da Oposição”, a convite do Instituto de Estudos Políticos, Econômicos e Sociais (IEPES) do MDB, o partido da oposição consentida, resolvi estender a viagem até o Uruguai para conversar com Brizola e levar-lhe o original do livro. Sabia que ele durante a semana ficava na estância, em Carmen (Durazno), no centro do Uruguai, mas costumava passar sábado e domingo na capital. E pedi a João Carlos Guaragna, do velho PTB e seu elemento de contacto em Porto Alegre, que lhe comunicasse a minha ida, após o encerramento do simpósio,  ao final da tarde de domingo, 5 de junho. O ex-deputado de Minas Gerais, Carlos Olavo Simão da Cunha, exilado no Uruguai, foi porém esperar-me no Aeroporto de Carrasco, para avisar-me que Brizola já não mais estava a passar os fins de semana em Montevidéu e lhe pedira para levar-me, no dia seguinte, à sua estância, cerca de quatro horas distante de Montevidéu. Com efeito, às 4hs da madrugada de segunda-feira, Carlos Olavo Simão da Cunha buscou-me com sua Kombi no Hotel Alhambra e fomos encontrar Brizola. A ele transmiti dois idênticos avisos, que recebera em São Paulo e Porto Alegre, no sentido de que o pretendiam matar, se regressasse ao Brasil, e passamos todo o dia, das 8hs da manhã às 8hs da noite, a conversar sobre a situação do Brasil, onde o regime autoritário estava a exaurir-se, econômica, social e politicamente, conforme eu percebia e analisava. Diante de tal perspectiva, sugeri-lhe que assumisse a tarefa de reorganizar o PTB, ainda que de forma clandestina ou semi-clandestina, (proposta que Carlos Olavo Simão da Cunha também endossava), com um programa nitidamente social-democrata, assumindo assim o caráter que objetiva e empiricamente ele tivera desde a fundação, a fim de contar com o respaldo dos partidos social-democratas, trabalhistas e socialistas da Europa Ocidental, filiados à Internacional Socialista, já interessada na América Latina. Se o PTB a ela se vinculasse, assumiria clara identidade ideológica, como forma de evitar que o confundisse com o populismo ou o acusassem de comunista, e receberia o suporte dos partidos social-democratas, socialistas e trabalhistas, que estavam no poder ou eram opção de poder, na imensa maioria dos países da Europa Ocidental, entre os quais a República Federal da Alemanha, inibindo maior hostilidade dos EUA ou tentativas de golpe de estado. No meu entender, um dos erros fundamentais do governo democrático e socialista de Salvador Allende, instituído constitucionalmente no Chile e derrubado também por um golpe de estado (1973) com apoio dos EUA, fora exatamente não ter buscado maior entendimento  com os partidos integrantes da Internacional Socialista. E o PTB, cuja reorganização contribuiria para forçar a abertura política no Brasil, não podia incorrer no mesmo erro. Na oportunidade, entreguei a Brizola os originais de O Governo João Goulart, livro no qual eu sustentara a tese de que o papel do PTB equivalera aos dos partidos social-democratas europeus após a I Guerra Mundial, e ele me solicitou que, ao voltar ao Brasil, instasse para que José Gomes Talarico, Armindo Doutel de Andrade, Almino Afonso e Amaury Silva fossem ao Uruguai conversar com ele sobre o assunto. Prometi-lhe que o faria, mas ressalvei que não tinha condições de realizar qualquer outra articulação política, uma vez que recebera do Social Science Research Council e do American Council of Learned Societies um post-doctoral fellowship (também por indicação de Fernando Henrique Cardoso) e iria morar mais de um ano nos EUA e na Europa, a fim de continuar a pesquisa sobre o papel do Brasil na Bacia do Prata. À noite, ao despedir-nos na porteira da estância, Brizola, com os olhos marejados, comentou, a propósito de seu rompimento com Goulart: “Doze anos sem nos falarmos. Uma briga inútil, desnecessária, que desgostou Neuza, profundamente, e prejudicou seu relacionamento com o irmão. Felizmente eu me reconciliei com ele, antes de que morresse, pois do contrário seria muito difícil para mim, senão impossível, unir o trabalhismo e reorganizar agora o partido”.

Cerca de dois meses e meio depois, estando eu em Washington a pesquisar a documentação do Department of State, depositada no National Archive, compareci, no dia 19 de setembro, domingo, a uma cerimônia em homenagem à memória de Orlando Letelier, ex-embaixador do Chile durante o governo de Salvador Allende e que fora um ano antes assinado nos EUA por agentes da polícia secreta do ditador Augusto Pinochet. Lá encontrei Roberto Garcia, correspondente da revista Veja, que logo me disse, sorrindo: “Depois que o vi nos EUA, nada mais me surpreende. Mas tenho uma notícia que lhe vai estarrecer: Brizola foi expulso do Uruguai e pediu asilo aos EUA”. Com efeito, a notícia deixou-me aturdido. Consciente de que tinha de lhe dar apoio, naquela situação, procurei informar-me quando e em que vôo ele chegaria aos EUA. E, na madrugada do dia 22, quarta-feira, uma jornalista, Flora Viotti, levou-me de carro para New York e esperamos seu desembarque no Aeroporto John Kennedy. Brizola  desceu de um avião da Aerolíneas Argentinas, acompanhado por Neuza, e ao ver-me ali, exclamou, abraçando-me: “Moniz, foi a Providência que te mandou aqui”. De fato, eu era o único amigo dele que estava no aeroporto daquela imensa metrópole, onde até o idioma lhe era completamente estranho e para a qual ele fora subitamente catapultado, arrancado da tranqüilidade de sua estância, no interior do Uruguai. Os demais eram repórteres, que o queriam entrevistar. E para eles, após elogiar a política de defesa dos direitos humanos, inaugurada pelo presidente James Earl Carter (1977-1981), do Partido Democrata, ao assumir em janeiro de 1977 o governo dos EUA, Brizola definiu-se, politicamente, como “social-democrata, ocidentalista e dissidente dos regimes militares”, sobretudo daquele instalado no Brasil. Com esta declaração, ele endossou a tese defendida em O Governo João Goulart, segundo a qual o PTB desempenhara empiricamente um papel equivalente ao dos partidos social-democratas na Europa, após a I Guerra Mundial.

Depois desta entrevista, buscamos um hotel para que Brizola e Neuza se hospedassem, e eles terminaram por ficar no Roosevelt, situado na Madison Avenue, centro de Manhattan. Em seguida, tomei um avião e voltei para Washington, com o intuito de desfazer meu apartamento, porquanto tinha de viajar para Europa e lá continuar  as pesquisas sobre a Bacia do Prata nos arquivos da França e da Grã-Bretanha. Dois dias depois regressei a New York e lá ainda fiquei uma semana, colaborando com Brizola, enquanto ele se adaptava à vida naquela cidade, e o apresentei ao professor Brady Tysson, ligado ao presidente Jimmy Carter e que fora o imediato do embaixador Andrew Young na ONU. Porém, antes de viajar para Paris, Brizola pediu-me que passasse em Lisboa, a fim de agradecer a Mário Soares, primeiro-ministro de Portugal, o asilo que lhe oferecera, por intermédio do jornalista Hermano Alves, e tentar conseguir-lhe um passaporte, de modo que ele pudesse livremente viajar, pois só possuía um laissez-passer (no qual os EUA lhe deram o visto de entrada) para sair do Uruguai. Tive êxito na missão, apesar da cautela de Mário Soares, que me falou da crise no Brasil e me mostrou uma nota publicada pelo ministro da Guerra, general Sílvio Frota, em oposição à política do presidente Ernesto Geisel e na qual se referia, entre outras críticas, a “reuniões de políticos brasileiros, em Paris, para fundar um Partido Socialista, orientados por organização paulista e auxílio financeiro alienígena”, a acrescentar que “suas ligações com os socialistas europeus e a Internacional Socialista têm sido confirmadas”[32]. Era uma clara referência ao Partido Socialista Português, então a intermediar os contactos entre a Internacional Socialista e algumas correntes democráticas em São Paulo, e Mário Soares, como primeiro-ministro de Portugal, receou evidentemente criar um incidente diplomático com o Brasil. Não obstante, graças à solidariedade dos portugueses, Brizola obteve o passaporte.

As verdadeiras razões pelas quais o governo do Uruguai cancelou o asilo, sob a justificativa de que ele lhe violara as normas, e expulsou-o do seu território, depois de 13 anos, nunca, porém, foram esclarecidas. O senador uruguaio, Wilson Ferreira Aldunate, do Partido Blanco, disse-me em Londres, onde estava asilado[33], que o governo uruguaio expulsou Brizola para que ele não fosse lá assassinado. Esta ameaça havia, tanto que ele, Brizola, deixara de passar os fins de semana em Montevidéu, como era seu hábito, e permanecia em sua estância. Talvez o governo uruguaio não quisesse que o matassem no seu território e o expulsou para que ele, sem outra opção, voltasse ao Brasil e lá fosse assassinado. Também provável foi que militares brasileiros, ligados ao general Sílvio Frota e contrários à política do presidente Ernesto Geisel, houvessem exigido a expulsão de Brizola, na expectativa de que, na falta de alternativas, ele decidisse por voltar ao Brasil, onde seria morto. Tais hipóteses são compatíveis e consistentes com os avisos de que Brizola seria assassinado, se entrasse no Brasil, avisos estes que em junho recebi e lhe transmiti em sua estância, bem como com o prazo de apenas cinco dias (bastante exíguo para gestões e obtenção de asilo em outro país) para que deixasse o Uruguai, sob pena de se preso, se lá permanecesse, e entregue na fronteira à polícia do Brasil[34]. A expulsão de Brizola do Uruguai, naquele contexto, estaria portanto relacionada com a luta pelo poder dentro do Brasil, porquanto seu regresso, além de permitir que o matassem dentro do território nacional, quiçá sob a justificativa de que resistira à prisão, fortaleceria o general Sílvio Frota, ao alimentar nas Forças Armadas a oposição à abertura do regime pretendida pelo presidente Ernesto Geisel. Apenas os militares  não contaram com a possibilidade de que Brizola recorresse aos EUA e obtivesse asilo político, lance de profundas conseqüências e para o qual condições havia, uma vez que as relações entre Washington e Brasília estavam bastante deterioradas, não devido à política de defesa dos direitos humanos, do presidente Carter, e sim, sobretudo, à assinatura do Acordo Nuclear com a República Federal da Alemanha e à ruptura dos quatro acordos militares de 1952, determinada pelo presidente Geisel.

Essa colaboração dos militares uruguaios, senhores do poder em Montevidéu, com os militares brasileiros, era naturalmente possível. Àquele tempo, os órgãos de inteligência do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile e Bolívia estavam intimamente a cooperar e a coordenar suas atividades, mediante a Operação Condor[35], codinome dado ao acordo para o empreendimento de ações conjuntas, visando a reprimir e eliminar os adversários dos regimes ditatoriais existentes naqueles países do Cone Sul. Em Buenos Aires – onde havia exilados chilenos, uruguaios, bolivianos, brasileiros e paraguaios – vários crimes ocorreram no marco da Operação Condor, ainda antes de que ela fosse formalmente concertada e oficializada[36]. Lá, além de outros numerosos dissidentes dos regimes militares, dois parlamentares uruguaios, o senador Zelmar Michelini e o deputado Héctor Gutiérrez Ruiz, foram assassinados em maio de 1976; e o general Juan José Torres, ex-presidente da Bolívia, em junho. No Brasil, em 22 de agosto daquele ano, Juscelino Kubitschek morreu em um acidente de automóvel, na rodovia Presidente Dutra, entre São Paulo e o Rio de Janeiro, a gerar suspeita de que o acidente fora planejado. No mês seguinte, 21 de setembro, Orlando Letelier, ex-embaixador do Chile, e sua secretária, Ronni Moffit, foram assinados em plena capital dos EUA, na terceira fase da Operação Condor[37], no âmbito da qual os EUA facilitaram comunicações entre os chefes dos serviços de inteligência dos países do Cone Sul, conforme revelou o embaixador dos EUA no Paraguai, Robert E. White[38]. E em 6 de dezembro daquele mesmo ano João Goulart faleceu, subitamente, de um ataque cardíaco, em sua estância na Argentina, gerando desconfiança de que fora também vítima de um ato criminoso, como a troca de medicamentos, o que levou José Gomes Talarico a pedir que se fizesse a autopsia no corpo[39].

À morte de Kubitschek e de Goulart somou-se a de Carlos Lacerda, em conseqüência igualmente de um ataque cardíaco, em 21 de maio de 1977. Os três maiores líderes políticos brasileiros, que haviam formado dez anos antes a Frente Ampla em oposição ao regime militar, desapareceram, em curto espaço de tempo. E as suspeitas de que foram vítimas de uma trama recresceram quando o jornalista norte-americano Jack Anderson divulgou, no The Washington Post, uma carta atribuída ao coronel Manuel Contreras Sepúlveda, chefe da Dirección de Investigaciones Nacionales (DINA), a polícia secreta do Chile, e dirigida ao general João Batista Figueiredo, então chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), do Brasil,  com a data  de 28 de agosto de 1975, na qual mostrava preocupação com a possibilidade de que o Partido Democrata (cujo candidato era Jimmy Carter) vencesse a eleição para presidente dos EUA, devido ao apoio que dava a  Juscelino Kubitschek e Orlando Letelier, “lo que en el  futuro podría influenciar seriamente en la estabilidade do Cono Sur de nuestro hemisfério[40]. Fotocópia desta carta o professor José Herrera  Oropeza entregou a um jornal de Caracas, El Nacional, que a publicou na sua edição de 23 de outubro de 1977, e uma eu recebi na Europa, à mesma época. No entanto, jamais cri na sua autenticidade, apesar de que seu conteúdo fosse plausível e de que, coincidentemente, Kubitschek houvesse morrido em um desastre de automóvel cerca de um ano depois, em 22 de agosto de 1976; Letelier, logo em seguida, vítima de um atentado a bomba em Washington, no dia 21 de setembro; e Goulart¸ de enfarte, em 6 de dezembro do mesmo ano. O deputado Paulo Octavio Alves Pereira (PFL-Distrito Federal), que presidia a comissão parlamentar para investigar a  morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, soube no National Security Archive, da George Washington University, que também eu possuía fotocópia de tal carta e, através da Embaixada dos Brasil nos EUA, entrou em contacto comigo e telefonou-me, a fim de perguntar-me como a obtivera. Conquanto já houvesse concluído que a morte de Kubitschek fora realmente acidental, uma fatalidade[41], ele aparentava ainda ter dúvidas quanto à veracidade do documento, dúvidas estas que os resultados da investigação não dissiparam. Com efeito, de acordo com o relatório sobre os resultados da investigação no Chile, apresentado pelo deputado Osmani Pereira (PMDB-MG) na reunião da comissão externa  de 21 de novembro de 2000, a assinatura do coronel (depois general) Manuel Contreras, na carta a ele atribuída, era idêntica à de outros documentos que as organizações de direitos humanos no Chile possuíam, porém faltava o carimbo existente todos os documentos da DINA, conforme a observação do advogado chileno Hector Salazar, que a eles tivera acesso. Também o papel não apresentava o brasão da DINA. “Mas o conteúdo da carta é pertinente àquele momento e as pessoas que tiveram acesso à assinatura do general Contreras, em outros documentos – e o volume é muito grande – identificam a assinatura como verdadeira” – o deputado Osmani Pereira observou[42]. Não obstante, não se pode atestar a autenticidade da carta, e eu disse ao  deputado Paulo Octavio Alves Pereira que realmente recebera uma fotocópia em 1977, quando estava na Europa, e nunca citara ou utilizara esse documento, porque sempre me parecera apócrifo e me faltavam dados para avaliar se a morte de Kubitschek fora acidental ou não. Com respeito a Goulart, entretanto, sei que ele sofrera ameaças de morte e que um comando possivelmente tentara seqüestrá-lo, ao invadir e arrebentar seu  escritório na Avenida Corrientes, em Buenos Aires, à mesma época em que os parlamentares uruguaios Zelmar Michelini y Héctor Gutiérrez Ruiz, que eram seus amigos, foram assassinados. Dúvida não resta de que a Operação Condor estava a funcionar e que interesse havia na eliminação de Goulart. Por essa razão não posso descartar a hipótese de que a morte de Goulart resultou de um ato criminoso, embora pessoalmente creia que de fato ele sofreu um enfarte, dado sobretudo ao fato de que era portador de cardiopatia grave, já tivera outros, ainda estava gordo, quando o vi um mês antes, início de novembro, e continuava a fumar muito.

Estas questões não abordei na edição-princeps deste livro, cujo lançamento ocorreu em dezembro de 1977, um ano após o falecimento de Goulart, quando eu já estava a morar na Europa, e em menos de dois meses três edições esgotaram-se, num total de 15 000 exemplares[43], total este que se elevaria a mais de 40 000, com as tiragens subseqüentes. No entanto, uma vez que a Editora da Universidade de Brasília e a Editora Revan se propuseram a publicar sua sétima edição, em 2001, no 25° aniversário do falecimento de Goulart, entendi que se tornava necessário não apenas revisar e ampliar este livro com outras informações como também acrescentar mais um capítulo sobre Goulart no exílio e seu falecimento. Quando estive nos EUA, em 1977, depois de haver entregue a Ênio Silveira, na época proprietário da Editora Civilização Brasileira, os originais de O Governo João Goulart, tive a oportunidade de obter enorme quantidade de documentos liberados na John F. Kennedy Library e na Lyndon B. Johnson Library, bem como de entrevistar o embaixador Lincoln Gordon, que servira no Brasil e sem dúvida alguma encorajara o golpe de estado de 1964. Recentemente, em 6 de dezembro de 2000, voltei a vê-lo, quando estive em Washington, e conversamos durante quatro horas, no seu escritório, na Brookings Institution. Em contradição com a evidência dos fatos, ele insistiu em que os EUA não deram assistência e conselhos para a derrubada de Goulart, que não houve participação americana na sua remoção pela força militar, razão pela qual podia dizer que  o golpe de estado foi “100 percent, not 99.44, Brazilian”, declaração esta que ele fizera perante o Senado norte-americano e reproduziu no seu livro Brazil’s Second Chance: En Route toward the First World[44]. Realmente, ao que se sabe, nenhum norte-americano participou diretamente do levante militar, deflagrado em Minas Gerais. Mas quem manejou os cordéis ? Quem estava por trás dos puppets ? Não promoveu a CIA covert actions e spoiling actions para desestabilizar o  governo ? Não admitiu o embaixador Lincoln Gordon que o governo dos EUA gastaram US$ 5 milhões no Brasil, na campanha para as eleições parlamentares de 1962? Aliás, o próprio Lincoln Gordon igualmente reconheceu que acionara a Operação Brother Sam, em 31 de março de 1964,  porque cria que “showing of the American flag” poderia servir a dois propósitos: exercer “psychological pressure” em favor do lado anti-Goulart e atender à evacuação de milhares de civis norte-americanos, que viviam ou visitavam o Brasil[45]. Não constituía, porém, intervenção nos assuntos internos do Brasil, uma forma de participação no golpe de estado, acionar uma força-tarefa dos EUA para o litoral do país, a fim de fazer pressão psicológica em favor da sublevação contra o Governo Goulart ?

Os propósitos, na verdade, não foram apenas os que Lincoln Gordon declarou. Segundo ele próprio confirmou, o governo dos EUA, atendendo à requisição do industrial Alberto Byington Jr., decidira enviar três navios tanques, para abastecer de gasolina as forças anti-Goulart, em caso de sabotagem dos oleodutos na região de São Paulo, bem como fizera planos de contingência para as suprir com armas leves e munição, transportadas por via aérea. Tudo isto foi preparado sem articulação com os militares que conspiravam contra Goulart? Seriam eles surpreendidos com tamanha generosidade? Obviamente não. Não só era necessário que houvesse prévia coordenação, a fim de que as forças anti-Goulart pudessem receber tais suprimentos de gasolina, armas e munições, como também o desembarque dos marines tornar-se-ia inevitável para sua segurança e garantia. A oposição a Goulart decerto tinha uma dinâmica interna própria, determinada pelas contradições econômicas e sociais, que se aguçaram no Brasil. Mas teriam os militares brasileiros, que conspiravam contra Goulart, desfechado o golpe de estado, para derrubar um governo legalmente constituído, se não soubessem que contariam com o respaldo dos EUA? Teriam ousado empreender essa aventura, que poderia deflagrar uma guerra civil, se não estivessem seguros de que receberiam assistência militar do governo norte-americano, sob a forma de gasolina, armas, munições e até mesmo assessores, se necessário fosse? Seguramente, não. A afirmativa do embaixador Lincoln Gordon de que a derrubada de Goulart foi realizada pelos militares brasileiros  sem “assistance or advice” dos EUA não corresponde à realidade. No dia 30 de março, enquanto Goulart discursava para os sargentos no Automóvel Club, o secretário de Estado, Dean Rusk, leu para o embaixador Lincoln Gordon, pelo telefone, o texto do telegrama n° 1296, informando-o de que, como os navios, carregados de armas e munições, não podiam alcançar o Sul do Brasil antes de dez dias, os EUA poderiam enviá-las por via aérea, se fosse assegurado um campo intermediário em Recife ou em qualquer outra parte do Nordeste, capaz de operar com grandes transportes a jato, e manifestou o receio de que Goulart, o deputado Ranieri Mazzilli, os líderes do Congresso e os chefes militares alcançassem naquelas poucas horas uma acomodação, fato que seria “deeply embarrassing” para governo norte-americano e “would leave us branded with an akward attempt at intervention[46]. No mesmo telegrama, Dean Rusk forneceu o script da encenação, de forma a disfarçar o golpe de estado e a intervenção dos EUA, ao recomendar que:

It is highly desirable, therefore, that if action is taken by the armed forces such action be preceded or accompanied by a clear demonstration of unconstitutional actions on the part of Goulart or his colleagues or that legitimacy be confirmed by acts of the Congress (if it is free to act) or by expressions of the key governors or by some other means which gives substantial claim to legitimacy[47].

Dean Rusk enfatizou essa necessidade de que qualquer movimento anti-Goulart, i. e., o golpe de estado, tivesse uma aparência de legitimidade, de modo que os EUA pudessem fornecer a ajuda militar aos sediciosos, conforme o embaixador Lincoln Gordon reconheceu em seu livro Brazil’s – Second Chance – En Route toward the First World[48]. E o senador Auro Moura Andrade cumpriu fielmente o roteiro prescrito. Declarou a vacância da presidência da República, mesmo sabendo que Goulart não renunciara e continuava no Brasil, e empossou no cargo o deputado Ranieri Mazzilli, que como presidente do Congresso estava imediatamente na linha de sucessão. Ai, se resistência houvesse e a guerra civil irrompesse, ele poderia requerer a assistência dos EUA, com base no Acordo Militar, renovado através das notas reversas de 28 de janeiro de 1964. Mas não foi necessário. Resistência não houve. E o embaixador Lincoln Gordon pôde declarar que estava “muito feliz” com a vitória da sublevação de Minas Gerais, “porque evitou uma coisa muito desagradável, que seria a necessidade da intervenção militar americana no Brasil”[49]. E continuou a insistir na “plausible denial”, i.e., em negar convincentemente a responsabilidade e a cumplicidade dos EUA com o golpe de estado, norma esta pela qual os governos norte-americanos pautaram muitas vezes suas políticas de intervenção em outros países. De qualquer forma, as entrevistas que ele me concedeu propiciaram subsídios interessantes para esta obra. A ele agradeço inclusive o exemplar do seu livro, que me enviou e foi para mim de grande utilidade, devido, principalmente, aos documentos nele transcritos.

Quanto ao general Vernon Walters, que fora Adido Militar dos EUA, ainda com a patente de  coronel, no Brasil e articulara a conspiração contra o Governo João Goulart, também o entrevistei, quando ele exercia a função de embaixador em Bonn, devido ao fato de que ele previra, em maio de 1989, a derrubada do Muro de Berlim e a reunificação da Alemanha, tema que eu estava a pesquisar[50], mas percebi, desde o início, que não adiantava perguntar-lhe sobre seu papel no golpe de estado de 1964, uma vez que  jovialmente me disse, sorrindo, ao receber-me:

“Depois que vim para a Alemanha, o Muro de Berlim foi derrubado. Agora vão dizer que sou o responsável. Pois é, eu fui acusado de ser artesão da derrubada do rei Farouk, no Egito, do presidente Arturo Frondizi, na Argentina, do presidente João Goulart, no Brasil, e do presidente Charles de Gaulle, na França. Mas ninguém até agora provou nada contra mim”.

Respondi-lhe com o mesmo bom humor: “Sim, embaixador, o senhor é um homem de inteligência (falei-o no duplo sentido, dado que ele fora agente da Defense Intelligence Agency (DIA) e diretor da Central Intelligence Agency) e sabe que conspiração dificilmente se faz com documentos”. Vernon Walters riu e passamos a conversar, durante duas horas, sobre a queda do Muro de Berlim e a reunificação da Alemanha.

Em Silent  Missions[51], o livro de memórias que publicou, Vernon Walters tratou de negar seu envolvimento no golpe de estado de 1964. Porém, pode-se perceber, pela sua narrativa, que ele acompanhou por dentro todo o desenvolvimento da conspiração, ao ponto de freqüentar intimamente a casa de militares que preparavam o golpe de estado e ver (provavelmente lhe foi mostrado) “veritable arsenal”, com metralhadoras, rifles, granadas e munição[52], sem nada comunicar ao governo brasileiro[53]. Igualmente dava opiniões e conselhos, tanto que, conforme contou, um oficial do Exército brasileiro certa vez lhe disse que tinha uma pessoa que poderia abater Goulart por US$ 5.000 e ele retrucou que não acreditava em assassinatos, porque era contra a lei de Deus, contra a lei dos homens e geralmente a vítima era substituída por alguém ainda mais fanático[54]. Não estivesse Vernon Walters tão envolvido no complô, nenhum oficial do Exército brasileiro permitiria que ele tivesse acesso e visse em sua residência “veritable arsenal” ou comunicar-lhe-ia que contava com alguém disposto a matar Goulart por US$ 5.000,00. Diante de tais fatos, relatados por ele próprio, o que no mínimo se pode concluir é que ele foi conivente com a articulação do golpe de estado de 1964, previsto, desejado e encorajado pelo embaixador Lincoln Gordon, que pediu diretamente ao presidente John Kennedy, em meados de 1962, a remoção de Vernon Walters para o Brasil, onde “a dangerous situation was developing in which the military would obviously play a key role of some sort[55].

Apesar da persistente negativa do embaixador Lincoln Gordon e do general Vernon Walters, contra, aliás, o que todos documentos revelam, foram os próprios scholars norte-americanos que mais escreveram, mostrando, consistentemente, a participação dos EUA no complô para desfechar o golpe de estado de 1964. Além da monografia de  Phyllis R. Parker[56], que por volta de 1976 conseguiu, apoiada no Freedom of Information Act (FOIA), a liberação de documentos depositados na John F. Kennedy Library e na Lyndon B. Johnson Library, outros livros sobre o golpe de estado de 1964 apareceram nos EUA. Em 1977, à mesma época em que O Governo João Goulart foi lançado no Brasil, a politóloga Jan Knippers Black publicou United States Penetration of Brazil[57], para o qual entrevistou vários personagens norte-americanos, como Vernon Walters, que lhe confirmou ter sido bem informado sobre os planos para o golpe, embora alegasse que não tinha obrigação de informar qualquer coisa ao governo de João Goulart[58]. Sem dúvida alguma, só poderia estar muito bem informado sobre os planos para um golpe de estado quem merecesse a confiança dos conspiradores e estivesse integrado no complô. E não sem fundamento Jan K. Black concluiu em Sentinels of Empire – The United States and Latin American Militarism  que “...U.S. military attachés and advisers encouraged and coordinated the plotting by factions of the Brazilian military of a coup d’etat[59] e que os EUA mantiveram uma força naval stand-by para auxiliar os militares golpistas na eventualidade de que viessem a sofrer reveses[60]. Outrossim Ruth Leacock, historiadora, publicou em 1990 outra excelente obra – Requiem for Revolution – The United States and Brazil, 1961-1969,  na qual,  reproduzindo vivamente o clima político do Brasil, no início dos anos 60, ressaltou que Vernon Walter assistiu, pela televisão, no apartamento de Ipanema do general Humberto Castello Branco, ao comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964. Aliás,  W. Michael Weis, em sua importante obra Cold Warriors & Coups d’Etat – Brazilian-American Relations, 1945-1964, lançada em 1993, observou que Lincoln Gordon retornou de Washington (logo após 20 de março) para ajudar os conspiradores, cujos esforços se somavam em torno da liderança do general Humberto Castello Branco, “a close friend of Walter’s[61]. Tais obras agora me serviram na revisão de O Governo João Goulart, permitindo-me confirmar e/ou enriquecer o que já havia escrito em 1976/1977.

Ao contrário do que ocorreu nos EUA, os livros acadêmicos publicados no Brasil, depois do lançamento de O Governo João Goulart, em 1977, não aportaram  maior contribuição documental ao estudo do golpe de estado de 1964, com exceção de 1964 – A Conquista do Estado – Ação Política, Poder e Golpe de Classe[62], em que René Armand Dreifuss, com farta documentação, aprofundou o estudo sobre o papel do empresariado na campanha para a derrubada do Governo João Goulart, e de Dossiê Brasil – As histórias por trás da História recente do País[63], de Geneton Moraes Neto, de caráter mais jornalístico, mas com base em pesquisa feita, sobretudo, nos arquivos da Grã-Bretanha. As memórias publicadas por diversos personagens, contemporâneos daqueles acontecimentos, valeram, no entanto, como preciosa fonte de informações, no trabalho de revisão e ampliação desta obra, que espero venha a servir como testemunho para que as novas e futuras gerações possam julgar historicamente João Goulart e seu governo, assim como o papel daqueles que, articulados com uma potência estrangeira, conspiraram e deram o golpe de estado de 1964, possibilitando a instalação do regime autoritário no Brasil.


__________

* Texto originalmente escrito como prefácio à sétima edição de “, O Governo João Goulart: As Lutas Sociais no Brasil – 1961-1964”, publicado pelas editoras da UnB e Revan, em 2001.

[1] Ash, Timothy Garton – The Magic Lantern – The Revolution of ’89 witnessed in Warsaw, Budapest, Berlin and Prague, New York, Vintage Books, 1999, p. 22.

[2] Moniz Bandeira, L. A. – O 24 de agosto de Jânio Quadros, Rio de Janeiro, Editora Melso, 1961, p. 11.

[3] Quadros, Jânio e Melo Franco, Afonso Arinos – História do Povo Brasileiro, São Paulo. J. Quadros Editores Culturais S.A., 1967, vol. VI. pp. 236 a 246. Ver também Moniz Bandeira, L. A. – O 24 de Agosto de Jânio Quadros, Rio de Janeiro, Editora Melso, 1961.

[4] Entrevista do almirante Sílvio Heck ao Autor, Rio de Janeiro, 11-11-1976.

[5] Moniz Bandeira, L. A. - 0 Caminho da Revolução Brasileira, Rio de Janeiro, Editora Melso, 1962, p. 13.

[6] Id., ibid., pp. 33 e 34

[7] Id., ibid., p.170.

[8] Id., ibid., p. 170.

[9] Engels, Friedrich - “Einleitung zu Karl Marx’ Klassenkämpfe in Frankreich 1848 bis 1850” – 1895, in Marx & Engels, Werke, Band 22, p. 525. 

[10] Moniz Bandeira, 1962, p. 164 e 165.

[11] Gorender, Jacob – Combate nas Trevas – A esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada, São Paulo, Editora Ática, 1987, p. 50.

[12] Moniz Bandeira, 1962, p. 165.

[13] Apesar de termos uma orientação política diferente, Mário Alves, que morreu sob torturas durante o regime militar, manteve sempre um bom entendimento pessoal comigo, uma vez que ele era baiano, como eu, e tínhamos um relacionamento de família. Seu tio, Raúl Alves, fora secretário do meu tio, Antônio Ferrão Moniz de Aragão, governador da Bahia, no período de 1915 e 1920.

[14] Quando eu era menino, nos anos 40, as pessoas costumavam comemorar o 1° de abril como o dia da mentira. Alguém inventava uma história, ou brincadeira, e se o outro cria, gritava-se: “Primeiro de abril”. Esta tradição é ainda muito forte, em alguns países da Europa, como a Grã-Bretanha. Quando morava em Londres, em 1978, o Financial Times publicou, no dia 1° de abril, uma página inteira sobre determinado país na África e não faltou quem se apresentasse como seu agente comercial, ou quem quisesse fazer negócios com ele. Porém, o país não existia. Tratava-se de uma brincadeira de 1° de abril, promovida, aliás, por um jornal da maior seriedade. Esta tradição, ao que parece, está a desaparecer no Brasil, mas em 1964, o costume de fazer brincadeiras e enganar o próximo continuava viva. Por esta razão os militares resolveram comemorar o golpe de estado de 1° de abril como “Revolução de 31 de março”, com o que acentuaram ainda mais a mentira.

[15] Eu fui diretor da revista Política Operária, órgão teórico, que no início de 1964 se converteu em jornal.

[16]  Moniz Bandeira, L. A. – O Caminho da Revolução Brasileira, pp. 178-179.

[17] Id., ibid., p. 182.

[18] IPM n° 8.216-65 – 1a. Auditoria de Marinha - GB – Fls. 97/100 – Arnaldo de Assis Mourthé – Depoimento prestado em 2.9.1964. AA.

[19] IPM n° 8,216-65 – 1a. Auditoria de Marinha – GB – Fls. 120/123 – Rui Mauro de Araújo Marini – Depoimento prestado em 3.9.1964. AA.

[20] Stepan, Alfred – Military in Politics – Changing Petterns in Brazil, New Jersey, Princeton University Press, 1971, p. 223.

[21] Relações Brasil-EUA no Contexto da Globalização – Rivalidade Emergente,  vol. II,  2a. edição revista e ampliada, São Paulo, Editora SENAC/São Paulo, p. 87.

[22] Em junho de 1965, eu fora também indiciado em outro IPM instaurado para apurar atividades subversivas de brasileiros asilados no Uruguai. No relatório fui apontado como “um dos principais colaboradores de Leonel Brizola” e enquadrado, juntamente com outros, nas penas da Lei de Segurança Nacional e do Código Penal Militar. Os autos do inquérito foram remetidos ao comandante do III Exército (Rio Grande do Sul), mas não teve desdobramento.

[23] Justiça Militar – Primeira Auditoria da Marinha – Edital de Citação, in Diário Oficial, Parte III, 16.6.1966, pp. 7850-7853.

[24] Moniz Bandeira, L. A. et alt. – O Ano Vermelho – A Revolução Russa e seus Reflexos no Brasil, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1967.

[25] Byron, George Gordon, sixth Lord – Don Juan, Canto the Eleventh, XC, in Poems, vol. III, London, J. M. Dent & Sons Ltd, p. 346.

[26] Moniz Bandeira, L. A. – Cartéis e Desnacionalização – A Experiência Brasileira: 1964-1974, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1975.

[27] Prefácio – AA.

[28]  “Conversa a quatro. Darcy Ribeiro, Raul Riff, Moniz Bandeira e José Gomes Talarico conversaram na noite de 27 de janeiro de 1976 no restaurante Madison, em Copacabana. No dia seguinte, toda a conversa estava no SNI, pelo informe 487, que girava em torno do livro sobre Jango. Havia um besouro infiltrado, ou talvez escondido debaixo da mesa do restaurante. Quem?”. Baffa, Ayrton - Nos Porões do  SNI - O Retrato do Monstro de Cabeça Oca -  Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 1989, p. 103.

[29] Os líderes  do Partido Social-Democrático (PSD) em Minas Gerais sempre se caracterizaram por sua enorme capacidade de superar situações difíceis, mediante fórmula de compromisso e conciliação.

[30] Vide Capítulo XV.

[31] Muito tempo depois, nos anos 80, fui a Porto Alegre e, almoçando na casa de João Vicente Goulart, ele me mostrou a documentação que estaria no baú e que depois ele encontrou. Entretanto, em 1995, eu pretendi escrever a biografia de Goulart, por sugestão inclusive de sua viúva, Maria Tereza Goulart e de sua filha, Denise, mas só poucos documentos,  sem maior importância, foram encontrados. Denise e João Vicente Goulart informaram que haviam emprestado os papéis a Beatriz Bandeira, viúva de Raul Ryff, esta, porém, alegou que havia tudo devolvido. Depois, como vim residir na Alemanha, desliguei-me do assunto, pois diante das dificuldades tive de postergar aquele propósito para dedicar-me a outros projetos, entre os quais concluir a obra De Marti a Fidel – A Revolução Cubana e a América Latina (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1998) e a pesquisa para O Feudo – A Casa da Torre de Garcia d’Ávila: da conquista dos sertões à independência do Brasil (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2000).

[32] Parte da nota do general Sílvio Frota transcrita in Abreu, Hugo – O outro lado do poder, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1979, pp. 141-142.

[33] O senador Wilson Ferreira Aldunate estava em Buenos Aires, quando o senador Zelmar Michelini e o deputado Héctor Gutiérrez Ruiz, também uruguaios, foram assassinados em maio de 1976, e ele também seria executado. O jornalista brasileiro Flávio Tavares, que também estava lá exilado, soube-o, porém, e procurou Ferreira Aldunate, esperando na porta de onde morava, para o levar diretamente à Embaixada da Grã-Bretanha.

[34] No fim da tarde do dia 15 de setembro, quinta-feira, Brizola tomou conhecimento do decreto de expulsão, que lhe dava o prazo para deixar o Uruguai até o pôr do sol do dia 21. 

[35] O Defense Intelligence Agency (DIA), serviço de inteligência do Exército norte-americano, recentemente desclassificou  a mais completa versão sobre a Operação Condor. O fato de que o  Pentágono estava interessado na Operação Condor, em 1976,  era relevante para a rede de comunicações que foi estabelecida e facilitada pelos EUA. As Special Operations Forces do Pentágono forneceram freqüentemente oficiais à CIA, durante a Guerra do Vietnã, particularmente  para missões especiais. Este tipo de acordo só mais tarde ocorreu na América Latina.

O texto do telegrama do attaché legal do FBI em Buenos Aires, Robert Scherrer, datado de  28 de setembro  de 1976 e desclassificado pelo DIA, por solicitação do National Security Archive, da George Washington University, é o seguinte:

“This IR (Information Report) on joint counter insurgency operations by several countries in South America. Information was provided by US Embassy Legal Attaché who has excellent contacts within the State Secretariat for Information and Federal Policie Forces.

This IR partially fulfills requirement of ICE A-TAC-44-396.

On September 28, 1976, a confidential source abroad  provided the following information:

Operation Condor  is the code name for the collection, exchange and storage of intelligence data concerning so called "leftists," communists and Marxists, which was recently established between cooperating intelligence services in South America in order to eliminate Marxist terrorist activities in the area. In addition, Operation Condor provides for joint operations against terrorist  targets in member countries of Operation Condor. Chile is the center for Operation Condor and in addition to Chile its members include Argentina, Bolivia, Paraguay, and Uruguay. Brazil also has tentatively agreed to supply intelligence input for Operation Condor. Members of  Operation Condor  showing the most enthusiasm to date have been Argentina, Uruguay and Chile. The latter three countries have engaged in joint operations, primarily in Argentina, against the terrorist target. During the week of September 20, 1976, the Director of the Argentine Army Intelligence Services traveled to Santiago to consult his Chilean counterparts on Operation Condor. (This travel is similar to trip reported in IR b 804 039 76) with respect to Operation Condor.

During the period of 24-27 September 1976, members of the Argentine State Secretariat for Information (SIDE), operating with officers of Uruguayan Military Intelligence Service carried out operation against the Uruguayan Terrorist organization , the OPR-33 in Buenos Aires. As result of this joint operation, SIDE officials claimed that the entire OPR-33 infrastructure in Argentina has been eliminated. A large volume of US currency was seized during the combined operation.

A third and most secret phase of  Operation Condor  involves the formation of special teams from member countries who are to travel anywhere in the world to non-member countries to carry out sanctions up to assassination against terrorists or supporters of terrorist organizations from Operation Condor member countries. For example, should a terrorist or a supporter of a terrorist organization from a member country of  Operation Condor be located in a European country, a special team from Operation Condor  would be dispatched to locate and surveillance the target. When the location and surveillance operation has terminated, a second team from Operation Condor  would be dispatched to carry out the actual sanction against the target. Special teams would be issued false documentation from member countries of Operation Condor  and may be composed exclusively of individuals from one member nation of Operation Condor or may be composed [of a] mixed group from various "Operation Condor" member nations. European countries, specifically mentioned for possible operations under the third phase of Operation Condor  were France and Portugal.

A special team has been organized  in Argentina participating in Operation Condor. They are members of the Argentine Army Intelligence Service and State Secretariat for Information. They are reportedly structured mike like a US Special Force Team with a medic (doctor), demolition expert etc. They are apparently being prepared for action under the third phase of Operation Condor. [três linhas suprimidas] coordinated locally. It should be noted that no information has been developed indicating that sanctions under the third phase of  Operation Condor have been planned to be carried out in the United States; however, it is not beyond the realm of possibility that the recent assassination of Orlando Letelier in Washington, D.C. may have been carried out as a third phase action of Operation Condor.  As noted above, information available [from] the source indicates that particular emphasis was placed on the third phase actions of  Operation Condor in Europe, specifically France and Portugal. This office will remain alert for any information indicating that the assassination of Letelier may be [part] of Operation Condor action.” http://www.pir.org/foia/con01p01gif, p02, p03, p04, http://www.pir.org/foia/con1ap1.gif, ap2 .

[36] O general Carlos Prats, que servira ao governo de Salvador Allende, foi assassinado em setembro de 1974, em Buenos Aires. Segundo os  depoimentos prestados nos EUA, a bomba foi colocada pelo  norte-americano Michael Townley, ex-agente tanto da DINA como da CIA.

[37] O raio de ação da Operação Condor não se restringiria à América Latina. A terceira fase e a mais secreta da Operação Condor, segundo o documento desclassificado pelo Defense Intelligence Agency (DIA), do Exército norte-americano, consistiu em formar equipes especiais dos países membros a fim de que viajassem por todo o mundo e executassem sanções, que incluíam até assassinatos, contra supostos terroristas   ou que apoiassem suas organizações, ou seja, contra adversários políticos dos  regimes militares instalados no Cone Sul. Se um adversário político ou um que apoiasse a organização política adversa estivesse na Europa, uma equipe especial da Operação Condor seria enviada para o localizar  e vigiá-lo. Quando culminasse a localização e a vigilância, uma segunda equipe de Operação Condor seria enviada para aplicar a sanção efetiva contra aquele adversário. Em teoria, um país proveria de documentação falsa a equipo de assassinos, formada por agentes de um outro país. O assassinato de Letelier pode haver sido obra de uma terceira fase de Operação Condor.

[38]  State Department Cable, U.S. Ambassador Robert White (Paraguay) to Secretary of State Cyrus Vance, Subject: Second Meeting with Chief of Staff re Letelier Case, October 20, 1978, Confidential. Esse telegrama foi descoberto pelo professor J. Patrice McSherry, da Universidade de Long Island, e publicado pelo New York Times, de 6 de março de 2001. O embaixador Robert White relata a conversação com o general Alejandro Fretes Davalos, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Paraguai, que lhe informou que todos os chefes dos serviços de inteligência dos países da América do Sul na Operação Condor mantinham-se em contacto um com o outro através das instalações de comunicação dos EUA na Zona do Canal do Panama Zone que cobriam toda a América Latina. Essas instalações eram empregadas para coordenar as informações de inteligência nos países do Cone Sul. http://www.gwu.edu/-nsarchiv/mews/20010306/

[39] Entrevista de José Gomes Talarico ao Autor, março 2001. Em 1977, o uruguaio Enrique Foch Diaz, que vendera a Goulart estância El Milagro, em Maldonaldo, denunciou que sua morte resultara de um ato criminoso. Segundo José Gomes Talarico, um “fato sumamente grave que não se apurou: quem remetia os remédios de Buenos Aires para Corrientes”. Nas investigações efetuadas por uma comissão da Câmara Federal, em 2000, o capataz da fazenda de Mercedes, que na noite de 5 de dezembro foi o último a ver João Goulart, declarou que um homem  lá estivera, declarando-se seu amigo, e pediu-lhe para apanhar os remédios que ele tomava . Sem atinar para o que fazia, ele entregou os remédios a essa pessoa, cujo nome não sabia.

[40] A íntegra da carta que supostamente o coronel Manuel Contreras Sepúlveda, chefe da DINA, dirigira ao general João Batista Figueiredo, chefe do SNI, é a seguinte:

“Distinguído señor General: He recibido su envío del 21 de agosto de 1975 y al agradecerle su oportuna y preciosa información me es grato expresarle mi satisfacción por su colaboracíon que debemos estrechar aún más. En respuesta cumplo em comunicarle lo seguinte:

Comparto su preocupación por el posible triunfo del Partido Demócrata en las próximas elecciones presidenciales en los EUA. También tenemos conocimiento del reiterado apoyo de los demócratas a Kubitschek y Letelier, lo que en el futuro podría influenciar seriamente en la estabilidad del Cono Sur de nuestro hemisferio. 2)

El plan propuesto por Ud. para coordinar nuestra acción contra ciertas autoridades eclesiásticas y conocidos político aocialdemócratas y demócratascristianos de América Latina y Europa cuenta con nuestro decidido apoyo. 3)

 Su información sobre Guyana y jamaica es de indudable importancia para esta Dirección.

Por creerlo de interés para Ud. le comunico que ultimamente el Gobierno de Chile tomó la decisión de liberar un grupo de presos que serán expulsados a países europeus. Le transmitiremos, a medida que nos vaya llegando, la información relativa a la actividad política de estos liberados y sus eventuales contactos con la emigración brasileña.

Lo saluada my atentamente. A) Manuel Contreras Sepulveda, coronel, Director de Inteligencia Nacional. AA.

[41] “O ex-governador Miguel Arraes conta uma história que a princípio parecia fantasiosa. Ele estava em sua casa, na Argélia, no ano de 1976, quando apareceram três pessoas pedindo uma conversa reservada. Um era agente do serviço secreto argelino e os dois outros pertenciam ao equivalente cubano. Eles levaram a informação de que as agências de informação dos países do Cone Sul estavam se organizando, junto com a célebre Central Intelligence Agency (CIA) para matar os principais líderes políticos do continente. Ninguém citou nomes, nem elaborou listas dos possíveis visados. A informação foi transmitida ao Brasil. Logo em seguida, no entanto, um senador foi assassinado na Argentina e Juscelino Kubitschek morreu no acidente na Via Dutra, rodovia que liga o Rio a São Paulo. A Comissão Especial de deputados que investiga a morte de JK concluiu que o acidente com o ex-presidente foi uma fatalidade. Mas descobriu que a Operação Condor, de fato, existiu” Stumpf, André Gustavo - “Ação do Mercosul do terror”, Brasília, Correio Brazliense, 24.1.2001. De fato, a comissão externa, presidida pelo deputado Paulo Octavio Alves Pereira concluiu que o acidente que matou Kubitschek foi uma fatalidade e que a Operação Condor e que nenhuma relação teve com a Operação Condor.

[42] Relatório do deputado Osmani Pereira (PMDB-MG) – 8a. Reunião da Comissão Externa – Morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek. N° 00189/00. Câmara dos Deputados.

[43] Carta de Ênio Silveira ao Autor, Rio de Janeiro, 17.1.1978. AA.

[44] Gordon, Lincoln - Brazil’s Second Chance: En Route toward the First World, Washington, Brookings, 2001, pp. 68.

[45] Id., ibid., pp. 66.

[46] Text of State Department telegram 1296 to American Embassy, Rio de Janeiro, dated March 30, 1964, 9:52 p.m. (Washington time), in Gordon, op. cit., pp. 68-70.

[47] Id., ibid., p. 69.

[48] “Rusk  continued by reading a long draft telegram to me, noteworthy for ist emphasis on the need of legitimacy in any anti-Goulart movement to wich we might provide military support”. Id., ibid., p. 68.

[49] “As confissões de Lacerda,” in Jornal da Tarde, São Paulo, 6-6-1977, p. 20.

[50] A pesquisa, financiada pela Friedrich Ebert Stiftung, do Partido Social-Democrata da Alemanha, resultou no livro A Reunificação da Alemanha – Do ideal socialista ao socialismo real, cuja segunda edição revista, ampliada e atualizada saiu em 2001 pela Editora da Universidade de Brasília – Editora Global.

[51] Walters, Vernon A. – Silent Missions, New York, Doubleday & Company, 1978, pp. 374-388.

[52] Id., ibid., pp. 382-383.

[53] Black, Jan K. - Black, Jan Knippers – United States Penetration of Brazil, Pennsylvania, University of Pennsylvania Press, 1977.

[54] Walters, Vernon A. – Silent Missions, New York, Doubleday & Company, 1978, p. 378.

[55] Id., ibid., p. 364.

[56] Parker, Phyllis R. – 1964 – O Papel dos EUA no Golpe de Estado de 31 de Março, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1977.

[57] Black, Jan K. - Black, Jan Knippers – United States Penetration of Brazil, Pennsylvania, University of Pennsylvania Press, 1977.

Black, Jan K. - Black, Jan Knippers – United States Penetration of Brazil, Pennsylvania, University of Pennsylvania Press, 1977.

[58] Id., ibid., p. 43.

[59] Back, Jan K. - Sentinels of Empire – The United States and Latin American Militarism, New York, Greenwood Press, 1986, p. 43.

[60] Id., ibid., p. 43.

[61] Weis, W. Michael – Cold Warriors & Coups d’Etat – Brazilian-American Relations, 1945-1964, New Mexico, University of New York Press, 1993, p. 167.

[62] Dreifuss,  René Armand – 1964 – A Conquista do Estado – Ação Política, Poder e Golpe de Classe, Petrópolis, Vozes, 2a. edição, 1981.

[63] Moraes Neto,  Geneton – Dossiê Brasil – As histórias por trás da História recente do País,  Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 1997.

 

por LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA

   

 

 

 

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