por ALARCON AGRA DO Ó

Docente na Unidade Acadêmica de História e Geografia da Universidade Federal de Campina Grande, Paraíba; Doutorando em História pela Universidade Federal de Pernambuco; Bolsista CAPES

 

Imagens da velhice na literatura memorialística nordestina

 

O objetivo deste texto é recuperar algumas das formas pelas quais uma obra chave da literatura memorialística nordestina (BELLO, Júlio. Memórias de um senhor de engenho. Recife, PE: Governo de Pernambuco; Fundarpe, 1985) construiu imagens acerca de experiências do envelhecimento.

A escrita deste texto contempla longas citações, em itálico, correspondentes a fragmentos do texto estudado. A escolha por este tipo de destaque se dá em função da visibilidade mesma da mescla entre o “meu” texto e o texto “de Bello”, para o quê não encontrei a mesma fluidez usando o recurso das aspas.

Os dois breves relatos de que me valho daqui em diante se referem a pessoas descritas na sua velhice. Eles, expressam, com suas formas particulares de vida, não apenas o que parecia aos olhos de Júlio Bello o mais característico do modo de ser dos homens e mulheres seu tempo mas, para além disso, oferecem ao leitor contemporâneo a possibilidade da problematização da experiência da velhice no Nordeste, na passagem do século XIX para o XX.

Manuel Francisco Pereira do Abreu era conhecido “Seu Mandu”, e foi professor de Júlio Bello – que o recebeu, em 1925, quando deputado, numa boca da noite, em meio aos preparativos para uma volta ao engenho. Ao abrir a porta, após discreta batida, Bello defrontou-se com um velhinho septuagenário, mais baixo que alto, magro e espigado, parecendo por isto mais alto, cabelo branco plantado em espeque na cabeça, desses que pente e escova não domam e que minha mãe chamava com certa originalidade “cabelo de oiti comido às avessas”, modestamente posto num indumento cossado e muito fora da moda: calças de zuarte de riscado, paletó de velho sedan negro muito lustroso já nos cotovelos e que a idade esverdinhara, pontudo na frente, camisa branca de algodão, de goma, mas em diversos pontos do peito esgarçada, gravata preta em laço antigo posto por debaixo de um colarinho alto pelado nas pontas, chapéu-coco já sem feltro e botas largas cambadas onde à guisa de lustro tinham esfregado graxa de carne.

Reconhecendo de imediato o velho professor primário, Júlio Bello o fez entrar e ouviu-lhe o pedido: um emprego para si, ou para sua filha, também professora. No seu caso, já com uma idade avançada, não conseguia nada por si mesmo, que ninguém parecia disposto a lhe proteger ou amparar; sua filha bem que ainda conseguia amealhar alguns alunos particulares, mas ganhava quase nada. Ele, no ano anterior, havia recebido uma pequena função, pela qual recebia tão pouco que só ia do trabalho à casa de dois em dois ou de três dias, dormindo ao Deus-dará e comendo o que achava e podia: sobrava sempre alguma coisa que mandava à família; estava, no momento daquela visita, desempregado. Contou ainda que enterrou a mulher, também já idosa, com o favor da caridade pública. Tudo isso foi dito com lágrimas, numa voz estrangulada pelos soluços.

Neste ponto, diz Júlio Bello, seus olhos já estavam também tomados de lágrimas, que a comoção do reencontro com alguém que vinha dos tempos de sua infância já era uma emoção considerável – o que se acentuava com a miséria daquela pessoa, ali, à sua frente. Naquele ano, Bello já contava com mais de meio século, e, para os padrões da época, já era um homem maduro, entrado mesmo na idade. Encontrar um antigo mestre escola, alguém vindo dos tempos há tantos perdidos de sua infância, e vê-lo como um homem velho, pobre, a mendigar um auxílio, tudo aquilo foi impactante. Mas não bastou a presença do velho professor para que outras tensões fossem acionadas, para que o corpo de Júlio Bello percutisse ainda mais outras vezes, premido pela emoção.

Ao pedir que uma copeira trouxesse água para o velho professor, Bello se encontrou com uma das faces mais características da experiência da velhice, naquele começo de século: a construção de um diálogo permanente com o vivido, como forma de sobreviver ao presente. Ao chegar com a água a copeira, crioulinha de quinze anos, Júlio Bello disse ao seu visitante: “Esta é neta de Rita, talvez a única sobrevivente dos escravos de meu pai”. Com isso, algo se deu na sala: a menção ao passado caiu na memória do velho como um feixe de palha seca num braseiro quase extinto de fogueira ateando a chama viva das recordações do passado. Ele lembrou dos antepassados da copeira, comovendo Bello e fazendo funcionar ali a maquinaria de uma intensa saudade. O velho lembrou dos escravos, pelo nome, muitos dos quais já esquecidos pelo filho do seu senhor, outros, mantidos na velhice, e até à morte, no engenho. Contou casos burlescos de fugidas e de furtos, falou na boêmia do pai de Júlio Bello, da sua cordialidade no trato com os cativos.

A mim e a ele, diz Bello, todos aqueles pormenores interessavam vivamente. Um sentimento de íntima fraternidade, de completa identidade de pensamentos ligava-me àquele velho naquela hora triste de uma tarde de dezembro. Nem o rumor bárbaro dos bondes elétricos e dos automóveis passando perturbava a comunhão das nossas duas almas na mesma grande hóstia: aquela saudade de um passado longínquo que ele ia evocando com a sua voz trêmula de ancião. Ele falava sem se cansar... Insensivelmente arrastado numa onda em que as lembranças ressuscitavam como num sonho em que fosse mergulhando, continuei a ouvir aquela voz amiga, porém já como uma música estranha, um indefinido murmúrio de que eu não percebia bem o sentido.

O velho professor e o seu aluno poderoso, tendo tido histórias de vida tão distantes, se aproximavam no entanto naquele momento pelo exercício da memória. Um, lembrava de quando ainda era senhor de algo, de quando o seu mundo ainda tinha alguma riqueza, algum fausto, mesmo que apenas nos seus patrões. O outro, herdeiro mais de lembranças que de bens, via na memória uma espécie de consolo pelo que havia se dissolvido no passado. Promovia-se, naquele encontro, uma conexão inesperada, uma sintonia de formas subjetivas distintas, atravessadas por um mesmo fluxo de rememoração e de significação da vida, marcado pela saudade, pela incapacidade de acolhimento do presente.

Após longos passeios na memória, o velho por fim externou seu desejo de morrer onde nasceu – na sua ilusão, diz Bello, confundia-se entre a saudade pela terra e a saudade pela mocidade. Ainda grande senhor, mesmo desprovido do fausto dos seus antepassados, Júlio Bello conseguiu uma cadeira de professora para a filha de Seu Mandu, e depois um lugarzinho de diária para ele que assim passou a viver mais a coberto de privações.

A esposa do Barão de Gindaí, por sua vez, não teve, nas memórias de Bello, o direito ao próprio nome. Bastava-lhe ser a Baronesa, apêndice da glória do marido e senhor, nada mais. Mulher pequenina e fanadinha, talvez não pesasse 40 quilos. Bem humorada, distraia sempre a assistência com os repentes mais imprevistos e engraçados do espírito. Júlio Bello diz nunca a ter visto aborrecida ou contrariada, e era capaz de, ainda que em situações mesmo sérias, sair-se com um comentário picaresco, por vezes com algum sabor de ingenuidade, que provocava o riso de todos. Seu marido, ao morrer, deixou-a após 50 anos de união. A Baronesa, tão logo soube-se viúva, mergulhou numa espécie de pavor, de assombro e surpresa, sem acreditar que a sua desgraça fosse real. Após o enterro do Barão, ela caiu com febre alta e quatro dias depois faleceu.

Seu corpo não vibrava mais, pelo menos não da forma como ela sabia experimentar, e até mesmo controlar, após o passamento da única referência de que ela dispunha: sua velhice perdia o sentido na ausência daquele a quem ela havia, um dia, jurado companhia e cuidado, mesmo que certamente assustada com a vida nova que iria assumir dali em diante com aquele relativo desconhecido. O que lhe restaria fazer, na vida, se o seu centro de gravidade, o ponto para o qual se lançava a sua energia e a sua atenção, não mais existia? De que valia suportar ainda mais esta outra face da velhice, que era a perda da sua outra metade, daquele personagem que, bem ou mal, estava ali desde sempre, impregnado na paisagem, fazendo parte do mundo, envelhecendo junto (ou até, muitas vezes, envelhecendo antes) e com isso prefigurando de algum modo os territórios que ela mesma iria seguir em breve? Melhor encerrar tudo de uma vez, renunciar a uma vida que se tornara impossível, e ceder.

A Baronesa, desprovida até de seu nome próprio, serviu a Júlio Bello para condensar numa figura uma experiência marcante da velhice feminina dos momentos de crise do patriarcado: o esvaziamento do sentido da vida, pela afirmação de um envelhecimento atravessado pela solidão, pela pior solidão: a que se demarcava pelo silenciamento da voz mais familiar.

Estes relatos, largados pelo livro de Bello, entre tantos outros, à espera de leituras e interpretações que os acordem do sono no qual repousam, nos fazem um convite ao pensamento: o que era ser velho, no Nordeste, na passagem do século XIX para o XX? E o que é ser velho, hoje?

 

por ALARCON AGRA DO Ó

   

 

 

 

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Bibliografia

ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. A invenção do nordeste e outras artes. Recife: FJN, Ed. Massangana; São Paulo: Cortez, 2001.

__________. Nordestino: Uma invenção do falo (uma história do gênero masculino – Nordeste 1920/1940). Maceió : Catavento, 2003.

BELLO, Júlio. Memórias de um senhor de engenho. Recife, PE: Governo de Pernambuco; Fundarpe, 1985.

Foucault, Michel. A vida dos homens infames. In. __________. Estratégia, poder-saber. Ditos & Escritos IV. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003, p. 203-222.

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