Sent: Saturday, September 30, 2006 10:13 PM


Boa  noite,

Acabei de ler sua matéria sobre "O Direito ao Voto Nulo" no Espaço Acadêmico. Achei sua matéria ao pesquisar "voto nulo legitimidade" no google. Gostaria antes de mais nada de lhe dizer meu "background" político. Sou Duval Guimarães, um aluno de Relações Internacionais na American University, de Washington DC. Nasci numa cidadezinha no interior de Mato Grosso, chamada Rio Branco, onde convivi com politicagem e corrupção política desde criança! Ao crescer, fui percebendo que tenho em mim aspirações políticas, e que devo buscar, da melhor forma possível contribuir para que haja mudanças na sociedade da maneira que eu me tornar capaz. A meu ver, a política, quando praticada com coerência, e acima de tudo honestidade e boa vontade, e' o meio mais eficiente!

Desde o segundo turno de 2002 que passei a acreditar no voto nulo. Na época, não me lembro qual foi a fonte, fui informado que o Voto Nulo era uma opção judicial no processo eleitoral, apesar de não ser uma opção clara na urna eletrônica. Acreditava que se o numero de votos nulos fosse maioria, haveria a necessidade de uma nova eleição com novos candidatos... apos tantas discussões recentes sobre o assunto, já' não sei mais se isso procede no quesito judicial. Gostaria de saber de você onde posso ter informações oficiais sobre o assunto. Li a lista de perguntas freqüentes do TSE sobre o assunto, cujo link e' fornecido no seu artigo, e achei muito ambígua. Ao mesmo tempo que minhas "informações" anteriores procedem, em partes, o TSE parece descartar essa opção. Enfim, o voto nulo, se for a opção de 50% + 1 dos eleitores, causa renovação do pleito em nova eleição ou não? Pelo que entendi, por favor me corrija se estiver errado, o voto nulo so' causa nova eleição se 50% + 1 dos eleitores votarem NULO (o que requer educação política da população sobre o Voto Nulo - e poderia ser realizado com mais efetividade se a esquerda se unisse nesse sentido, como você propõe) e o candidato com maior numero de votos validos não tiver 50% + 1 dos votos validos, e' isso?? Ou seja, o voto nulo, judicialmente falando, so' tem o poder de mudar o sistema eleitoral de proporcional para majoritário dos candidatos, e so' em caso de o candidato não conseguir 50% + 1 dos votos que não foram anulados haveria renovação do pleito em nova eleição... Judicialmente falando, e' isso mesmo???

Quanto ao direito de votar nulo como uma questão política, concordo em gênero numero e grau com você! Eu não tinha ainda pensado sobre o assunto com tanta profundidade como você fez, principalmente quanto a esquerda. Acho desnecessário eu escrever aqui meu ponto de vista sobre esse caso em si, ate' porque, como disse em resumo, eu estou plenamente de acordo com você! Gostaria de te parabenizar pela matéria, e agradecer por você não me deixar desiludir quanto ao direito, senão necessidade, de votar nulo!!!

Atenciosamente,

Duval Guimarães

From: Cesar Viero

Sent: Friday, September 29, 2006 11:13 AM

Subject: VOTO NULO


Caro Sr. Antonio,

Li seu artigo sobre voto nulo. Concordo plenamente. Pela primeira vez em minha vida vou anular meu voto

Acho uma total falta de respeito com o cidadão esse "papo" de que o eleitor é o patrão e blá-blá-blá...

Se eu fosse patrão certamente os políticos corruptos não estariam mais em Brasília, e os que ficassem teriam salários justos, com direito a se aposentarem depois de cumprirem os 35 anos de contribuição, fator previdenciário e receber o teto máximo de 10 salários de contribuição, se para isso tiverem contribuído, como sói deste país.

Nunca vi tanta INJUSTIÇA e falta de RESPEITO ao CIDADÃO.

Também não consigo antever um Brasil melhor antes que se passem séculos. É preciso haver uma mudança radical na CONSCIÊNCIA, nos VALORES e PRINCÍPIOS e num sentido de RESPONSABILIDADE que devem nortear o viver diário de cada um.

Este é o meu pensamento e esperança!

Cordialmente.

Cesar Viero
Porto Alegre/RS.

Sent: Tuesday, September 19, 2006 5:32 PM

Subject: Governo Lula: uma avaliação crítica

 

Governo Lula: uma avaliação critica

Eduardo Stotz



Agora que o governo de Luis Inácio Lula da Silva chega ao fim do mandato é possível fazer uma avaliação mais clara do seu significado político. Qualquer processo avaliativo é, contudo, sempre relativo a uma determinada perspectiva. Nesta que apresentamos ao leitor, a avaliação se faz sob a ótica da luta pela superação do capitalismo.

Iniciamos nossos comentários pela seguinte afirmação: o governo Lula representa um governo de colaboração de classes. Significa dizer que a hegemonia do capital financeiro, convergência dos interesses do capital industrial, agrário e bancário na condução da política pública, reforçou-se, no governo Lula, com a desmobilização dos trabalhadores, isto é, com o abandono de sua organização e métodos próprios de luta. Para usar uma expressão de Frei Beto, a Central Única dos Trabalhadores, núcleo do ABC de onde emergiram Lula e o PT, foi picada pela 'mosca azul' do poder.

Hegemonia significa dominação consensual ou servidão voluntária: assim, enquanto os sindicatos de base da CUT pautam suas negociações com os capitalistas com base na participação dos trabalhadores nos lucros das empresas (PL), adotando na prática o 'sindicalismo de resultados' da Força Sindical, do ponto de vista político advogam o apoio ao governo em troca de medidas como micro-crédito (endividamento a juros mais baixos) e alteração nas faixas de tributação do imposto sobre a renda. O horizonte é o capitalismo 'popular', a se espraiar lenta e progressivamente (para isso, pensa-se, será necessário um segundo mandato de Lula) com a formalização do vínculo de trabalho perseguida pelos dirigentes cutistas no Ministério do Trabalho e Emprego, compensado, obviamente, para os sem trabalho, com o programa Bolsa Família. É também querer abrir a brecha da agricultura familiar no campo do agro-negócio, pretendendo contornar a dinâmica concentradora do capitalismo.

Os limites acanhados deste capitalismo 'popular' se evidenciam no pequeno crescimento do emprego ocorrido a partir de 2004, manifesto nas vagas de baixos salários e reduzida escolarização, na persistente taxa de desemprego anual em torno de 10%, na "reforma agrária em migalhas", na violência social orquestrada simultaneamente pelo crime organizado e pela polícia e no agravamento do custo ambiental imposto pelos 'sojicultores' na região amazônica.

Certamente o verdadeiro estado de insegurança social em que vivemos não é responsabilidade exclusiva do governo: a criação de vagas na economia capitalista, por exemplo, é uma necessidade estrutural do capitalismo, pois não há capital sem exploração da força de trabalho. O fato da maioria destas vagas serem de 'baixa qualidade', como se diz na literatura econômica, indica o tipo de economia capitalista organizada nesta parte do planeta. Talvez não vá demorar o dia em que enquanto a classe média alta importará automóveis produzidos pela China, a burguesia agrária estará exportando para aquele país a soja transgênica colhida no ampliado "arco do desmatamento da Amazônia".

Quanto mais o governo Lula seguiu o receituário neoliberal da estabilidade econômica (adoção do superávit fiscal primário, câmbio flutuante, livre circulação dos capitais especulativos) e adotou o pressuposto de que precisa diminuir o 'custo Brasil', mais vulnerável ficou na medida em que as forças produtivas nacionais estão se reduzindo aqueles setores que podem ser internacionalmente competitivos, devido aos preços baixos da força de trabalho e à completa desregulamentação em matéria de preservação ambiental, com a China, Índia e alguns países do sudeste asiático. Para evitar a 'perda da competitividade' e a desindustrialização talvez uma parte das classes trabalhadoras – a mais organizada, a que se nucleia na CUT – esteja disposta a pagar o "custo Brasil" com a flexibilização das leis trabalhistas e uma nova reforma da previdência social em troca da conquista de contrato coletivo de trabalho e o monopólio da representação sindical que um segundo mandato de Lula pode lhe trazer.

Hegemonia burguesa significa também a conversão dos antigos opositores do sistema aos valores do capitalismo, valores regidos pela ótica dos negócios (mais ou menos juros, câmbio favorável ou não) e pela 'grande política' (democracia formal, governabilidade, reforma política). A eles se aplica a conhecida lei da política: "um coice à esquerda provoca um deslocamento à direita".

Impressiona (e entristece) ler uma entrevista [1] na qual Marilena Chauí denuncia o equívoco de Lula e do PT terem aderido a um governo de transição [2] – pois deveriam ter feito uma ruptura com a política neoliberal de FHC – mas não faz qualquer menção à alternativa do uso do governo para fortalecer a democracia participativa. O fato é que esta participação foi bloqueada pelo próprio governo Lula em nome da governabilidade em maio de 2003, quando Genoíno advertiu os movimentos sociais contra o perigo da 'radicalização'. A mesma Marilena, na entrevista citada, prefere falar de proporcionalidade eleitoral e organização partidária e não da democracia participativa, isto é, dos mecanismos de participação capazes de democratizar a máquina do Estado e enfraquecer o poder político da burguesia. Aliás, como não podia deixar de ser, o vocabulário político petista oficial sequer admite o termo burguesia.

Por último, a hegemonia burguesa é política do ponto de vista institucional. Internamente, sacramenta-se a democracia representativa com a configuração de um novo "centrão" constituído pelo PT e PMDB e, tudo indica, parte do PSDB (Aécio Neves em 2010?), após o naufrágio, no redemoinho das CPIs, do projeto de um 'governo exclusivamente petista' sustentado na corrupção sistêmica dos 'pequenos' partidos. Externamente, somos vistos pelos EUA e a União Européia como um país "responsável" pois, ao iniciar o ajuste estrutural da economia e governar nos estreitos limites da democracia formal, o governo Lula, um governo oriundo da classe operária, mostra que a 'terceira via' é possível também na periferia do mundo capitalista, em contraposição ao 'populismo de esquerda' de Chaves e Morales, alinhados com Cuba. E Lula faz muito bem este jogo no cenário internacional.

A questão de fundo da hegemonia burguesa é desmobilização política dos trabalhadores, por causa de sua crença de que, por pior que seja, melhor pouco do que nada, antes Lula do que FHC (ou seus sucessores). Um raciocínio de quem não se acha capaz de lutar por si próprio, de quem delega sua vontade a outrem. Até quando? Possivelmente até a ruptura das ilusões de que o capitalismo possa de fato ser 'popularizado', um processo histórico objetivo e subjetivo. Neste sentido, a tarefa de ajudar os trabalhadores a perceber as contradições do desenvolvimento do capitalismo e da impossibilidade de humanizá-lo, no mesmo passo em que se busca abrir caminhos para a superação deste sistema, a exemplo da criação e organização de fundos públicos controlados democraticamente pelo povo, é a incumbência difícil, porquanto imaginativa e espinhosa, de pessoas em movimentos e organizações empenhadas na construção de uma sociedade participativa, socialmente igualitária e ambientalmente sustentável. É a chamada luta contra-hegemônica. Numa época em que a alienação prevalece, precisamos acreditar nos versos de Cecília Meireles: a vida somente é possível reinventada.

[1] "É preciso democratizar o estado: entrevista com Marilena Chauí". Fórum, 42: setembro de 2006. http://www.revistaforum.com.br/vs3/artigo_ler.aspx?artigo=d543c1f1-2689-46c3-b0a2-63887b17bc09

[2] Governos de transição foram pensados no movimento socialista internacional ao longo do século XX como uma tática para enfrentar situações em que revolucionários chegaram ao governo mas ainda não conquistaram o poder, a exemplo do que aconteceu na Bolívia em 1953, em Cuba em 1959 e no Chile em 1970. Governos de transição constituem uma tática porque se trata da mobilização de forças numa batalha ainda não ganha e que, para ser vitoriosa, precisa aprofundar o processo revolucionário. Foi o que os revolucionários cubanos fizeram em 1960. Por isso não nos parece adequado o uso do conceito de "governo de transição" por Marilena Chauí para caracterizar o governo Lula: "Não se podia fazer com a política neoliberal do FHC uma transição", afirma ela na entrevista.

Rio de Janeiro, 19 de setembro de 2006

Sent: Monday, September 18, 2006 4:09 PM

Subject: Proposta para um novo sistema político


Prezado Antônio,

Gostaria de primeiro parabenizá-lo pelo excelente artigo (em parte, pelo menos) sobre o Voto Nulo intitulado "O direito ao voto nulo". Mas a razão do meu contato é outro. Peço que leia com bastante atenção e carinho a minha proposta abaixo (Concurso Público seguido de Eleição) para acabar com toda essa situação insustentável em que nossa sociedade (sobre)vive hoje:

1. Você tocou em um ponto extremamente importante em seu artigo, o mais importante deles na verdade: o completo e total "fracasso" do sistema político-partidário! E é aí que entra a minha proposta de substituição desse sistema corrupto e corrompedor que foi, desde o início, especialmente projetado para manter as chamadas elites no poder e o povo subjugado:

PROPOSTA:

O problema são os políticos? A solução é muito simples: vamos acabar com todos eles!

Não, não estou falando em acabar com eles fisicamente (se bem que a idéia, por um breve momento, agrada os meus "instintos mais primitivos", como diria Bob Jeff) pois sou contra a violência e sei que ela não leva a nada. Então como acabaremos com eles? Bem, eu já tenho um esboço de um novo sistema que acredito que resolveria essa situação, e rapidinho. Comentários, sugestões e críticas construtivas serão mais do que bem-vindas:

Cada nação tem o governo que merece, bem como o sistema político que merece.

Esse "merecer" pra mim não tem um sentido de Punição ou Recompensa caso a população de um determinado país seja Ignorante ou Consciente, respectivamente. É mais uma questão de causa e efeito: uma sociedade consciente inevitavelmente produzirá um sistema político e governantes eficientes e "justos".

Mas o que está claro pra mim é que não há e jamais houve Democracia, até porque o povo em sua maioria é completamente manipulado e alienado.

Um dos principais problemas com o atual sistema político da maior parte das "Democracias" ocidentais é que ele é partidário. Os partidos nada mais são do que pontos-chave que permitem o controle de toda e qualquer "Democracia".

A primeira e principal medida que todos nós devemos tomar é acabar com TODOS os partidos, com TODOS os políticos e substituí-los por Administradores Públicos, que por sua vez seriam divididos em Administradores Teóricos e Práticos (legisladores e executores - estes últimos substituiriam os cargos de presidentes, prefeitos, governadores).

O acesso ao cargo primeiro se daria por Concurso Público seguido de uma Eleição com tudo pago pelo governo e tempo igual para todos os candidatos. Os detalhes desse novo sistema ainda estão sendo aprimorados por mim e apreciaria sugestões.

O ponto básico dele é que praticamente impossibilita toda e qualquer manipulação partidária-governamental pois todos que serão eleitos não serão conhecidos e virão de fora do atual sistema partidário corrupto e corrompedor. Todos esse problemas de mensalão, cúpulas criminosas de partidos, uso da máquina pública para arrecadar dinheiro, fraudes em licitações e etc, que estamos vendo hoje seriam evitados.

É preciso que seja compreendido que Democracia é uma Ditadura disfarçada.

Sendo assim, de certo modo ela é até pior do que a própria Ditadura pois não se pode lutar contra o que não se vê ou não se sabe que exista.

Um novo sistema político, sem partidos e milhares de vezes mais democrático e seguro do que o atual é fundamental para que possamos nos libertar do julgo da elite global que governa este planeta.

2. Base legal para o Voto Nulo - O Voto Nulo continua sim anulando as eleições. O Ministro-Ditador está deliberadamente IGNORANDO/PASSANDO POR CIMA de toda a jurisprudência que sempre afirmou e reafirmou que as Votos Nulos por vontade do eleitor são sim uma NULIDADE. Os 2 últimos ministros do TSE já se posicionaram à respeito afirmando que não há a menor dúvida quanto a essa questão, e o próprio ministro do TSE havia admitido em um programa de televisão ( http://www.youtube.com/watch?v=aJugkp5W2D4 ) que "brancos e nulos" anulavam sim a eleição. Contudo, cerca de uma semana depois simplesmente "voltou atrás" (sem base legal alguma) e passou a afirmar para os quatro ventos que agora os votos nulos não anulam mais.

O Presidente da AMB também havia admitido que os Votos Nulos anulam as eleições e o próprio site do TSE, na seção de perguntas e respostas (FAQ), manteve no ar por pouco mais de duas semanas um texto que afirmava sem sombra de dúvida que as eleições podiam sim ser anuladas (o texto anterior também afirmava o mesmo só que não era muito claro). E logo depois, certamente por ordem do Ditador Marco Aurélio "Collor" de Mello e dos seus comparsas, a referida resposta Nº 15 foi alterada e passou a dizer que agora não há mais anulação por votos nulos por vontade do eleitor. E o acórdão em que essa "nova interpretação" se baseia até agora não foi publicado, é o popular "ninguém sabe, ninguém viu"! Há mais detalhes nessa história sórdida, só comparável a um verdadeiro golpe de estado, e caso queira posso lhe esclarecer todo o resto dela.

Estou à disposição para quaisquer esclarecimentos e também no aguardo de suas considerações à minha proposta para um novo sistema e demais colocações.

Atenciosamente,

Jackson Macêdo Felício - Representante/Ativista do Movimento Popular Voto Nulo

From: Adriano de Sousa Santos
To: <
aosilva@uem.br>
Sent: Wednesday, September 13, 2006 11:36 AM
Subject: RE: REA 64

 

Caro Antonio Ozaí, 

 

parabenizo pela matéria que versa sobre a defesa do  direito a votar nulo.A desconfiança nos representantes políticos é cada vez mais crescente e estigmatizada na sociedade,dai o direito a votar coerentemente com a autocrítica.Sucesso.

 

Obrigado e ótimas realizações.

Sent: Wednesday, September 13, 2006 11:29 AM

Prof. Ozaí,

Sou Diego Mendes Cipriano, estudante de História da FURG (Fundação Universidade Federal do Rio Grande) /RS. Li o seu artigo "Política e Religião: entre o mal e o bem", publicado na Revista Espaço Acadêmico de setembro (2005), e nele percebi uma sólida conexão existente entre política, violência e religião.

O artigo me levou a refletir ainda mais sobre essa ligação. Nesse sentido, penso a religião tanto como símbolo de resistência contra o poder estabelecido (cristianismo), bem como sustentáculo do mesmo poder (caráter divino dos imperadores romanos).

Salvo as diferenças existentes entre as concepções cristã e pagã sobre o divino, é possível perceber essa "volubilidade" da mentalidade religiosa.

O tema de minha monografia é "Alexandre, o Grande: entre o humano e o divino", e visa tornar mais cristalina a construção ideológica do rei macedônio como filho de Zeus-Amon e o novo herói da epopéia, associações e assimilações que evidenciam a religião como legitimadora do empreendimento imperial que Alexandre levou a cabo.

As dificuldades para a pesquisa são muitas: escassez de fontes, bibliografia, falta de professores especialistas na área e um pouco de ousadia por parte dos acadêmicos, docentes ou não.

Atualmente estou em busca de uma fonte primária (fragmentos), o processo do orador grego Hipérides movido contra Demóstenes, intitulado "Contra Demóstenes", no qual figura um ácido discurso que ou condena o orador em questão de aceitar o culto à Alexandre com deus vivo ou apenas acusa-o como colaboracionista do poder macedônio.

Existem divergências sobre as duas versões do discurso, oriundas das interpretações lançadas nas entrelinhas do mesmo, no tom do orador. Daí a necessidade da fonte, para que se possa analisá-la diretamente.

Ao mesmo tempo, juntamente com alguns colegas do curso, tenho despertado profundo interesse pela associação, na história, entre poder, política e religião. E fiquei sabendo que já existe uma disciplina na UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) intitulada "Estado, religião e poder", a qual visa inserir o estudante no debate relativo às formas com que poder e religião se integram na história.

Entretanto, o fato que me entristece é a indiferença da Academia para com o meu trabalho. Confesso que o mesmo é frágil e de caráter iniciante, mas propõe uma reflexão razoável sobre o tema, nesse caso a manifestação do mesmo no período helenístico da história da Grécia.

Um abraço,

Diego.

De: Ezio Flavio Bazzo

Para: Antonio Ozaí da Silva

Data: 10.09.06

Assunto: Razões pelas quais não é conveniente voltar

 

 

Razões pelas quais não é conveniente votar

(Ezio Flavio Bazzo)

 

“L’himne national c’est l’hymen idéal: celui du patriote et de la Patrie”

J. Sternberg

 

[1] Por um lado, porque é mentira que o voto é a “expressão máxima” de cidadania, e por outro, porque todo “cidadão” tem sido historicamente apenas um número, em CPF, um estômago, um alienado e um monstro nesta República fajuta;

[2] Porque não é verdade que a abstenção, que o voto nulo, que o voto em branco e que a indiferença eleitoral irá favorecer os governos de direita, inclusive, porque todos os governos são de direita e porque todos os candidatos são oportunistas, arrivistas e reacionários;

[3] Não deves votar, entre outras mil razões, porque o voto é obrigatório e secreto;

[4] Porque o que se chama “Partido”, é sempre e sempre algo como uma seita, como uma tribo, como um clube, uma confraria, uma quadrilha, uma religião sectária e inquisitória;

[5] Porque para as elites, para os ricos, para os empresários, para os intelectuais, para os membros da pequena legião de privilegiados, em suma, para os “candidatos” e seus cúmplices, é sempre mais fácil rapinar o país e sugar os cofres públicos com teu aval;

[6] Porque a história, (mesmo a escrita pelas elites) não deixa dúvidas de que o candidato seja ele da facção que for, vem pensando e agindo como um manipulador, um charlatão, um vaidoso, um messias, um pulha e um ditador desde o Primeiro Grau, onde já era tesoureiro do grêmio estudantil;

[7] Porque os candidatos emergem sempre de meios que tu não fazes parte e porque são engendrados sempre na cúpula desta ou daquela organização corporativista, autoritária, voraz, cheia de vícios e de manhas, sempre de olho num Ministério ou numa Comissão e visando sempre e sempre o poder;

[8] Não deves votar porque a história dos últimos 117 anos registra, invariavelmente, o enriquecimento ilícito de vereadores, de prefeitos, de deputados, de governadores, de senadores, ministros e presidentes da república;

[9] Porque é inconcebível que tu, desempregado, sub-empregado ou recebendo um salário de misericórdia, se alimentando quase como um suíno, vestindo-se quase como um indigente, sigas elegendo esses homens demagogos e estelionatários que, no curto período de seus mandatos, passam do chinelo para a botina e logo depois para as pantufas, entrincheirados atrás da imunidade parlamentar e dos guarda-costas que a república lhes garante;

[10] Não deves votar porque nada, absolutamente nada do que se considera “benefício social”, “bens públicos” etc, foram conquistados através deles;

[11] Porque o Congresso Nacional e as Câmaras Legislativas, apesar dos cacarejos populistas e da propaganda enganosa, não são, nunca foram e não serão nunca, um instrumento de Representação Popular, mas, pelo contrário, uma instituição de que gera revolta, arrependimento e humilhação social;

[12] Porque a tal “esquerda”, a tal “direita”, o tal “centro” e todas as demais denominações fantasiosas e delirantes que esses homens inventam para confundir-te, são farinha do mesmo saco, estão apoiadas sobre o mesmo eixo, isto é, sobre a mesma hipocrisia e sobre a mesma ânsia de poder, de status e de dinheiro;

[13] Porque tu, mesmo que queiras, não descobrirás nenhuma diferença significativa entre o “programa de governo” de uns e o “programa de governo” de outros;

[14] Não deves votar porque com teu voto, estarás fazendo com que a responsabilidade por toda a roubalheira, por todo cinismo, por todo atraso, por toda a esterqueira nacional que é invariavelmente promovida por esses senhores recaia basicamente sobre ti e sobre teus descendentes;

[15] Porque o profissionalismo político é uma praxe de mercenários onde, como no submundo da máfia, do jogo do bicho e da prostituição só se avança para postos superiores depois de já ter uma história pessoal recheada de mutretas, de falcatruas, de cumplicidades, de sabotagens, de golpes e de crimes;

[16] Não deves votar porque tens consciência de que todos os candidatos, antes de lançarem suas candidaturas, vão a todo tipo de igrejas fazer promessas, pedir apoio e benção aos banqueiros, aos traficantes, aos credores internacionais, aos gerentes das multinacionais de medicamentos, de telefonia e a outros abutres que vivem no país empurrando suas merdas para nossa população ingênua, aproveitando-se de nossa ignorância e de nosso subdesenvolvimento…

[17] Porque os candidatos, sem exceção, penhoram o cérebro e a “alma” junto aos chefões das igrejas, mesmo sabendo que elas são sempre reacionárias, absolutistas, especialistas em propaganda enganosa e ninhos de hienas que precisam da miséria e do sofrimento das massas para sobreviverem… Sem falar de que, num Estado pretensamente laico, esses acordos são, no mínimo, paradoxais e criminosos;

[18] Não deves votar porque teu voto é sempre uma procuração em branco para esses bandidos, para esses excêntricos, para esses estranhos cuja vaidade não tem limites, cujo nepotismo não tem fronteiras e que mesmo quando se apresentam com ares de vacas mortas, são sempre testas-de-ferro de algum cacique poderoso;

[19] Porque independente de tua escolha, desde 1889 estás votando nas mesmas famílias, nos mesmos sindicalistas, nos mesmos religiosos, nos mesmos oligopólios e, em suma, no mesmo tipo de gente que já acumulou capital e influência suficiente para que  inclusive seus netos e bisnetos pisoteiem e oprimam teus netos e teus bisnetos por mais um século;

[20] Não deves votar porque as vagas no Congresso Nacional vêm sendo passadas de pai para filho; de amigo para amigo, de suplente para suplente, de amante para amante, de um crápula para outro crápula desde o nascimento do Estado Moderno, e porque o próprio Estado Moderno não é mais do que uma variação ardilosa das monarquias medievais;

[21] Porque tua vida não se resume apenas ao voto e porque tua escolha terá de ser feita entre aqueles que já foram escolhidos nas paróquias, nos sindicatos, nos festins das elites, nas reuniões de banqueiros ou nas bebedeiras da canalha;

[22] Não deves votar porque o Congresso Nacional só funciona três vezes por semana, porque os parlamentares passam meses e anos discutindo assuntos que poderiam ser resolvidos em horas e porque por esse fútil jogo de cena, ganham praticamente 50 mil dólares mês, cada um, para gastos com seus apadrinhados e com seus gabinetes;

[23] Porque no Congresso Nacional 30% dos congressistas representam os latifundiários; 30% os industriais; 30% os banqueiros, 10% as seitas religiosas e 0% o povo. E porque apesar das promessas demagógicas, nenhum deles alterará essa perversidade secular;

[24] Não deves votar porque pudestes ver no caso da recente rapina dos cofres públicos, o corporativismo mais canalha e inominável. Porque a liberdade de escolha que querem fazer-te acreditar que tens, é a mesma que uma pobre dona de casa, num Carrefour, diante da prateleira de sabão, tem de escolher uma entre aquelas sete ou oito marcas…

[25] Porque não saberias como explicar a teus filhos e às gerações futuras o respaldo que destes a esses bandos;

[26] Porque não é admissível que os candidatos disponham de tanto dinheiro, de tanto poder e de tanto marketing para seduzir-te e para comprar-te;

[27] Não deves votar porque estas diariamente assistindo aos programas de propaganda política, porque podes ver o que há por detrás daqueles olhares e o perigo que aquelas palavras vazias, tolas e sem nexo representam para tua inteligência e para tua integridade;

[28] Porque não estas nem entre os 60% de eleitores analfabetos que vendem seu voto por duas arrobas de carne, e nem entre os 10% de proprietários do país, a quem, nada é mais importante do que um Estado e uma polícia onipotente que os proteja da fome, do desamparo e da indignação da turba desvairada;

[29] Não deves votar porque teu voto apenas mudará a fachada do circo e do espetáculo nacional, enquanto que o que se pretende é alterar de forma radical seus alicerces mais profundos;

[30] Mesmo que nada disso te convencer, não deves votar em respeito ao princípio elementar de amor próprio, de auto-estima e de consciência libertária.

[31] Enfim, se pretendes mudar radicalmente tua vida e a sociedade, é bom que comeces questionando o jogo mafioso e melancólico da política e do próprio Estado. É bom que comeces questionando teu próprio espírito bovino, essa tua mansidão otimista que te faz passar toda a existência fazendo campanhas, publicidade, e votando em alguém, para alguém que amanhã te cuspirá literalmente na cara e que te olhará com asco desde as alturas do Congresso Nacional ou dos altares da Cúria Metropolitana. E me refiro apenas a esses dois antros, porque por um lado, os padres, os pastores, as freiras, e os seminaristas se infiltraram astutamente nas artérias do Estado e por outro, porque os políticos de todos os naipes incorporaram malandra e cegamente em sua praxe, o discurso e o cinismo de todos os cleros. Se queres mudar as regras dessa sociedade histérica e monótona, não podes deixar tuas idéias pararem nos limites do Estado, da Igreja e da Política, como se eles representassem o último reduto de todos os pensamentos, pois a história deixa bem claro que as tragédias sociais foram sempre e sempre agravadas tanto pelo “homo politicus” como pelo “homo religiosus”. E depois - aqui entre nós -, porque não é verdade que o voto seja algo revolucionário. Pelo contrário, ele simboliza apenas um gesto esquivo, servil, esquizóide, obrigatório e quase demente da manada, realizado às escondidas numa urna guardada por párias, policiais e por juízes.

Finalmente, seja qual for a estratégia de mudança que um dia pretendas levar a cabo, ela deve estar sempre apoiada na consciência de que este Brasil é ainda um imenso e falido Portugal, submergido – como dizia Camões – no gosto da cobiça e na rudeza de uma austera, apagada e vil tristeza.

Sent: Sunday, September 10, 2006 10:25 PM

Subject: votar nulo

 

Por que votar nulo?

(Eduardo Stotz)

 

Ouvi uma senhora com aparência miserável dizer para o cabo eleitoral de um político: se quiser o meu voto vai ter de me pagar. Uma amiga que é professora perguntou-me: sei que você conhece melhor, então poderia me indicar um bom candidato a deputado federal? As duas pessoas têm uma atitude comum, a saber, a de delegar sua vontade a terceiros. Mas entre elas há uma diferença política de classe: enquanto a primeira não tem qualquer ilusão de que seu voto possa modificar o status quo, a segunda, aparentemente mais esclarecida, ilude-se com a possibilidade de escolha entre "bons candidatos".

Para o funcionamento deste sistema denominado democracia representativa a motivação do eleitor é indiferente. Importante é que votem, isto é, deleguem sua vontade a terceiros. A alienação é consubstancial à democracia representativa. Ainda mais nos últimos vinte e cinco anos, porquanto as eleições não podem mais, dentro do sistema capitalista, operar qualquer mudança substantiva. Caro, ainda há países onde sufrágio universal é um indicador da consciência política de uma parcela da população, de uma vontade de mudança que se articula com a continuidade da participação após as eleições. Mas não é o que se observa num país como o Brasil. O nosso sistema político tem limitações de tal monta que justificam a adoção do voto nulo, isto é, uma atitude de negá-lo abertamente.

Senão, vejamos. Para que seja possível a compra de votos por dinheiro, é necessário que a dilapidação da verba pública seja favorecida por um processo público, mediante superfaturamento de obras ou serviços e a criação de dupla contabilidade ("caixa dois") – o que, aliás, supõe o envolvimento de um certo número de agentes governamentais. Poder-se-ia alegar que tal prática é um desvio a ser corrigido. Mas entre nós, desde o fim do regime militar, a corrupção tornou-se sistêmica por meio das emendas parlamentares, prática mantida inclusive pelo governo atual, o de Lula, com a participação do PT. Assim, uma CPI que investiga como a "máfia dos sanguessugas" atua, inevitavelmente chega à destinação de um percentual do orçamento da União para garantir as emendas dos parlamentares que, obviamente, tem a intermediação de empresários que fornecem ambulâncias. Isso vale para a construção de estradas, hospitais, asfaltamento de ruas, etc. Ora, tudo isso acontece sem que o Congresso de fato exerça sua pretendida função constitucional, a de legislar, pois o poder executivo assumiu-a por meio das Medidas Provisórias.

Poder-se-ia dizer que a corrupção é o "menor dos males" se para isso for necessário contar com uma maioria capaz de governar em favor dos trabalhadores, a maioria da população. Algo parecido como a política de Adhemar de Barros, um velho populista da direita paulista que afirmava: "roubo mas faço". Esse argumento não peca apenas pela sua imoralidade política. É também uma falácia: o governo atual não é essencialmente diferente do governo anterior. Pior, abriu mão de sua própria história, ao abandonar o caminho da participação popular em nome da governabilidade...com corrupção.

O programa petista real, aquele que foi implementado pelo governo com o qual se identifica, é um programa de coalizão com a burguesia. Talvez seja melhor dizer: somente com Lula (e o PT) é que a hegemonia burguesa se materializa, incluindo, obviamente, a CUT no Ministério do Trabalho. Por isso temos juros reais elevadíssimos, superávit fiscal primário e Bolsa Família. O programa é capitalista com a compensação social num nível de abrangência tal que o PSDB não foi capaz de fazer. A razão do ódio tão profundo de Arthur Virgilio & Cia é que Lula os ameaça de morte política.

Hoje volta a se falar numa suposta polarização entre esquerda e direita. Alegar que é preciso votar em Lula para evitar a vitória da direita é ignorar que, no pleito atual para a presidência da república, a direita já capitulou. A escolha de Alckmin é a falta de alternativa da direita. Caso tivesse chances, o PSDB teria escolhido Serra. Optou pela prática tradicional da "cristianização" na política brasileira, com a escolha de um candidato a ser sacrificado porque o adversário praticamente já ganhou.

O voto nulo é um voto de protesto contra o sistema político vigente. A democracia representativa, tal como se encontra organizada, é um instrumento de manipulação da vontade popular, de corrupção institucionalizada e de impedimento da redistribuição da renda. Votar nulo tem o sentido de deslegitimar este sistema, sem a ilusão de que possa, alterar, pela aritmética política, a situação vigente. Um novo sistema político somente advirá se os movimentos sociais assumirem uma "cara" política, a exemplo do que aconteceu na Bolívia com o MAS. A possibilidade da democracia representativa vir a propiciar, mesmo nos limites do sistema capitalista e de domínio burguês, a expressão dos diferentes interesses sociais em nosso país passa, portanto, pela construção da democracia participativa. O voto nulo é apenas uma tomada de posição numa luta maior.

Sent: Sábado, 26 de Agosto de 2006 20:49

Subject: Brilhante

 

Boa noite Ozaí,

Nem sempre consigo ler o que preciso e menos ainda o que gostaria. Mas nessa noite chuvosa tive tempo e deleite de ler o seu artigo ¨... porque escrevo¨.

Parabéns! Senti que você cumpriu muito bem o dilema doloroso mas também inebriante de uma escrita que fica - para o sentimento e ação.

Abraços.
Wânia.


Wânia Rezende Silva
Universidade Estadual de Maringá - UEM
E-mail: waniasilva@yahoo.com
Homepage: http://www.geocities.com/waniasilva/

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