Seleção,
organização e tradução: ROBERTO
DELLA SANTA BARROS
Jornalista
(UNESP, campus Bauru), Mestrando em Sociologia na
Universidade Estadual Paulista (UNESP, campus Araraquara)
e Doutorando em Ciências da Comunicação na Universidade Autônoma
de Barcelona (UAB, campus Bellaterra) |
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Os
indiferentes
por Antonio Gramsci
Odeio os indiferentes.
Acredito que viver
significa tomar partido.
Indiferença é apatia,
parasitismo, covardia.
Não é vida.
Por isso, abomino os indiferentes.
Desprezo os indiferentes,
também, porque me provocam
tédio as suas lamúrias
de eternos inocentes.
Vivo, sou militante.
Por isso, detesto
quem não toma partido.
Odeio os indiferentes.
Fonte:
Quinzena,
nº 236. São Paulo, CPV, 31.08.96, p.32.
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Gramsci
dispensa introduções (vide a bela coletânea O
Outro Gramsci – Edmundo Fernandes Dias et. al., Xamã,
1996 – para uma perspectiva crítica sobre a obra do
revolucionário sardo), mesmo no que se refere aos textos de
sua juventude.
O
que na versão reduzida de Indiferentes
– texto publicado em extratos na imprensa do Brasil, na
forma de um poema (ver: Quinzena
nº 236, São Paulo: CPV, 31/ago./96, p.32) –
pode parecer um juízo peremptório sobre a anomia de
alguns indivíduos inertes – como quem aponta o dedo
acusador, tristemente em riste, a Cicranos e Beltranas – na
verdade é um apaixonado libelo sobre (e contra) o significado
profundo da passividade, do absenteísmo e da subalternização
coletiva – em perspectiva histórica – da vontade humana
face ao supostamente inexorável devir.
Por
muitas razões, trata-se de laboração atual e vigente – e,
apesar do pronunciado idealismo filosófico, visivelmente contra
o ideário dominante –, a ser apropriada e objetivada por
todos os jovens (e não tão jovens...) que acreditam que
outro mundo, ademais de possível, é urgentemente necessário.
Para além (e sob as ruínas) do Capital.
Neste
período Gramsci abandona a carreira universitária para se
dedicar integralmente ao jornalismo revolucionário, em Turim.
A preparação do número único de "Cittá Futura"
(“Cidade Futura”) – redigido em fevereiro de 1917 – é
exemplar: ao lado de artigos originais de teoria socialista,
Gramsci publicou escritos de Croce, Salvemini e Carlini. Neste
período, a influência de Croce – e da querela
antipositivista própria ao idealismo italiano – também se
mostra em sua (tendencialmente voluntariosa) caracterização
da revolução russa, diagnosticada como uma “revolução
contra ‘O
Capital’” (ou seja, contra a versão supostamente “determinista”
da obra capital de Marx).
A
publicação do jornal – que levava o artigo aqui tratado
– nunca ultrapassou a primeira tiragem. Foi pensado desta
forma, sumária, entre o convite e a convocatória: aos
concidadãos da cidade futura. Editado “a cura” da "Federazione
Giovanile Socialista Piemontese" (“Federação da
Juventude Socialista do Piemonte”), sob responsabilidade do
jovem Gramsci, tinha como projeto “educar e formar”
politicamente às novas gerações socialistas na perspectiva
da organização revolucionária, em meio ao fim da I Guerra
Mundial e sob a eclosão da revolução russa. Mais do que
mote utopista, a construção de um mundo novo – "la
Cittá Futura" – colocava-se à ordem do dia para
aqueles que enfrentaram a barbárie, a destruição e o horror
da primeira guerra interimperialista. Enfim: o velho e o novo,
uma vez mais em pugna.
Aos
jovens italianos Gramsci dizia, pouco antes do biênio
vermelho dos Conselhos Operários, em Turim:
“L’indifferenza è il peso morto della storia. E’ la
palla di piombo per il novatore, è la materia inerte in cui
affogano spesso gli entusiasmi più splendenti, è la palude
che recinge la vecchia città e la difende meglio delle mura
più salde, meglio dei petti dei suoi guerrieri, perché
inghiottisce nei suoi gorghi limosi gli assalitori, e li
decima e li scora e, qualche volta, li fa desistere dall’impresa
eroica”.
O
que segue abaixo, por fim, é uma primeira aproximação ao léxico
histórico, político e filosófico do jovem Gramsci, dimensões
estas já em vias de convergir em totalidade indissolúvel no
período pré-carcerário. A forma de tradução livre – ou
“exercício de tradução”, como diria Gramsci – é a um
só tempo ensaio de adaptação ao português do Brasil e
tentativa de fidelidade à letra do texto original. |
Indiferentes[1]
por
Antonio Gramsci
(Copyleft)
Odeio os indiferentes.Acredito que
viver, tal qual Friederich Hebbe, quer
dizer ser partigiani.
[N.doT.: militante,
companheiro e/ou "partidário"] Não podem
existir os apenas homens, os estranhos à cidade.
Quem vive verdadeiramente não pode não-ser concidadão,
e não parteggiare.
[N.doT.: militar,
compartilhar e/ou "tomar partido"] Indiferença
é abulia, parasitismo, velhacaria; não é vida. Por isso
odeio os indiferentes.
A indiferença é o peso morto da história. É a cadeia
de chumbo ("palla di piombo")para
o inovador, é a matéria inerte em que se afogam amiúde os
mais esplendorosos entusiasmos, é o fosso que circunda a
velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas
muralhas, melhor que o peito dos seus guerreiros; porque
engole em seus pântanos lamacentos os seus assaltantes, os
dizima e desencoraja e, às vezes, faz com que desistam da ação
heróica.
A indiferença opera poderosamente
na história. Opera passivamente, mas opera. É a fatalidade;
é aquilo com o que não se pode contar; é aquilo que
confunde os programas, que derruba os planos mais bem construídos;
é a matéria bruta que se rebela contra a inteligência, e a
destroça. Aquilo que acontece – o mal que se abate sobre
todos, o possível bem que um ato heróico (de valor
universal) pode gerar – não se deve tanto à iniciativa dos
poucos que operam quanto à indiferença, ao absenteísmo de
muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns
querem que aconteça quanto, sobretudo, porque a massa
dos homens abdica de sua vontade, deixa fazer, deixa
enlaçar os nós que, depois, só a espada pode cortar, deixa
promulgar as leis que depois só a revolta faz revogar, deixa
subir ao poder homens que, depois, só uma insurreição pode
derrubar. A fatalidade que parece dominar a história não é
outra coisa que a aparência ilusória desta indiferença,
deste absenteísmo; fatos amadurecidos à sombra – a poucas
mãos – não-submetidos a qualquer controle, que tecem a
tela da vida coletiva, e a massa dos homens ignora, porque
isso não a preocupa. Os destinos de uma época são
manipulados de acordo com visões estreitas, de alcance
imediato, de ambições e paixões pessoais de pequenos grupos
ativos; e a massa dos homens ignora, porque isso não a
preocupa. Mas os fatos que amadurecem vêm à superfície; a
tela tecida à sombra vem à tona, e então parece ser a
fatalidade a arrastar a tudo e a todos, parece que a história
não é mais do que um enorme fenômeno natural, uma erupção,
um terremoto, do qual todos são vítimas – o que quis e o
que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem esteve ativo
e o indiferente. Este último se irrita, desejaria livrar-se
às conseqüências, desejaria deixar claro que não assentiu,
que não é responsável. Alguns choramingam piedosamente,
outros blasfemam obscenamente, mas nenhum – ou poucos – se
pergunta: se tivesse eu também cumprido o meu dever, se
tivesse buscado fazer valer a minha vontade, meu juízo, teria
acontecido o que aconteceu? Mas nenhum – ou poucos – o
atribui à sua indiferença, ao seu ceticismo; a não ter dado
seus braços e atividade àqueles grupos de concidadãos que,
para evitar esse mesmo mal, combatiam; que a procurar tal bem
se propunham.
A maioria deles, ao contrário,
diante de acontecimentos consumados, prefere falar de falhas
ideais, de programas definitivamente esmagados e de outras
fanfarronices semelhantes. Recomeçam assim o seu absenteísmo
de qualquer compromisso. E já não por não verem claramente
as coisas e, por vezes, não serem capazes de divisar belíssimas
soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles
que – embora requerendo uma ampla preparação e tempo – são
todavia tão urgentes quanto. Mas essas soluções são
belissimamente inférteis; mas essa contribuição à vida
coletiva não é animada por qualquer luz moral: é produto de
curiosidade intelectual, e não do senso pungente de um
compromisso histórico que quer a todos ativos na vida, que não
admite desconhecimentos e indiferenças de nenhuma espécie.
Odeio os indiferentes também porque
me dá nojo o seu choramingo de eternos inocentes. Peço
contas a cada um deles pelo balanço do que a vida lhes pôs e
põe, cotidianamente, do que fizeram e, especialmente, do que
não fizeram. E sinto poder ser inexorável, não dever
desperdiçar a minha compaixão, não repartir com eles as
minhas lágrimas. Sou partigiano,
vivo, sinto nas viris consciências de meus companheiros já
pulsar a atividade da cidade futura que estamos construindo.
E, nesta, a cadeia social não pesa sobre poucos; qualquer
coisa que acontece não se deve ao acaso, à fatalidade, mas
é obra inteligente dos concidadãos. Não há nesta ninguém
à janela observando enquanto os poucos se sacrificam,
abnegados no sacrifício; e tampouco há quem esteja
entocaiado à janela e que pretenda usufruir o pouco bem que a
atividade de poucos busca, e afogue a sua desilusão
injuriando o sacrificado, o abnegado, porque não teve êxito
na sua tentativa.
Vivo, sou partigiano.
Por isso odeio quem não parteggia,
odeio os indiferentes.
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Nesta
tradução livre optamos pelo (algo heterodoxo) procedimento de
manter o original dos lexemas (i) partigiani,
(ii) parteggiare, (iii)
partigiano e (iv) parteggia; apenas cuidando destacá-los em negrito. Expliquemo-nos.
As soluções encontradas na tradução de Cavalcanti são,
segundo a ordem de exposição: (i) “partidários”, (ii)
“[ser] partidário”, (iii) “militante” e (iv) “[toma]
partido”. Coutinho, para a última ("parteggia"),
utiliza a forma"se compromete". Apesar de não
contribuir para qualquer prejuízo do significado geral dos
mesmos, incorre-se em dois problemas centrais: arranca-se a raiz
comum entre os substantivos partigiano (singular) e partigiani
(plural) e o verbo parteggiare
/ parteggia (nas
formas infinitiva e presente, respectivamente) por um lado e,
por outro, perde-se a força (algo taumatúrgica) reivindicada
pelo autor – em torno a tais unidades de sentido – em oposição
à indifferenza e aos indifferenti,
ao longo do fundamental de sua argüição histórico-filosófica.
Ainda, em perspectiva sincrônico-diacrônica, a palavra ("partigiano")
sedimentou-se na posterior história social italiana como símbolo
da resistência antifascista – vide, por exemplo, o
cancioneiro revolucionário da Itália, em especial Bella Ciao. E não se trata de um passado remoto. A figura do partigiano
("militante, companheiro, partidário") ecoou vívidamente
nas avenidas de Florença (capital da Toscana, na Itália)
cantado nas vozes dos mais de 1.500.000 manifestantes – de
todas as partes do mundo – que acudiram à marcha contra a
Guerra do Iraque durante o encerramento do I Fórum Social
Europeu, em pleno ano de 2002, no alvorecer do século XXI. Ao
apoderar-se de mentes e corações de milhões em movimento e,
dessa forma, engrandecer a tarefa a ser realizada pelas novas
gerações, o signo em questão revigora-se e se atualiza,
convertendo-se em verdadeira força material – base para o
aprendizado de seu "novo idioma". Como queria o poeta,
tranformar a vida para, então, cantá-la. Por isso tudo: parteggia,
partigiano.
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Indifferentti
Odio
gli indifferenti. Credo come Federico Hebbel che "vivere
vuol dire essere partigiani".[1]
Non
possono esistere i solamente uomini, gli estranei alla
città. Chi vive veramente non può non essere cittadino, e
parteggiare. Indifferenza è abulia, è parassitismo, è
vigliaccheria, non è vita. Perciò odio gli indifferenti.
L'indifferenza
è il peso morto della storia. E' la palla di piombo per il
novatore, è la materia inerte in cui affogano spesso gli
entusiasmi più splendenti, è la palude che recinge la
vecchia città e la difende meglio delle mura più salde,
meglio dei petti dei suoi guerrieri, perché inghiottisce nei
suoi gorghi limosi gli assalitori, e li decima e li scora e
qualche volta li fa desistere dall'impresa eroica. L'indifferenza
opera potentemente nella storia. Opera passivamente, ma opera.
E' la fatalità; e ciò su cui non si può contare; è ciò
che sconvolge i programmi, che rovescia i piani meglio
costruiti; è la materia bruta che si ribella all'intelligenza
e la strozza. Ciò che succede, il male che si abbatte su
tutti, il possibile bene che un atto eroico (di valore
universale) può generare, non è tanto dovuto all'iniziativa
dei pochi che operano, quanto all'indifferenza, all'assenteismo
dei molti. Ciò che avviene, non avviene tanto perché alcuni
vogliono che avvenga, quanto perché la massa degli uomini
abdica alla sua volontà, lascia fare, lascia aggruppare i
nodi che poi solo la spada potrà tagliare, lascia promulgare
le leggi che poi solo la rivolta farà abrogare, lascia salire
al potere gli uomini che poi solo un ammutinamento potrà
rovesciare. La fatalità che sembra dominare la storia non è
altro appunto che apparenza illusoria di questa indifferenza,
di questo assenteismo. Dei fatti maturano nell'ombra, poche
mani, non sorvegliate da nessun controllo, tessono la tela
della vita collettiva, e la massa ignora, perché non se ne
preoccupa. I destini di un'epoca sono manipolati a seconda
delle visioni ristrette, degli scopi immediati, delle
ambizioni e passioni personali di piccoli gruppi attivi, e la
massa degli uomini ignora, perché non se ne preoccupa. Ma i
fatti che hanno maturato vengono a sfociare; ma la tela
tessuta nell'ombra arriva a compimento: e allora sembra sia la
fatalità a travolgere tutto e tutti, sembra che la storia non
sia che un enorme fenomeno naturale, un'eruzione, un
terremoto, del quale rimangono vittima tutti, chi ha voluto e
chi non ha voluto, chi sapeva e chi non sapeva, chi era stato
attivo e chi indifferente. E questo ultimo si irrita, vorrebbe
sottrarsi alle conseguenze, vorrebbe apparisse chiaro che egli
non ha voluto, che egli non è responsabile. Alcuni
piagnucolano pietosamente, altri bestemmiano oscenamente, ma
nessuno o pochi si domandano: se avessi anch'io fatto il mio
dovere, se avessi cercato di far valere la mia volontà, il
mio consiglio, sarebbe successo ciò che è successo? Ma
nessuno o pochi si fanno una colpa della loro indifferenza,
del loro scetticismo, del non aver dato il loro braccio e la
loro attività a quei gruppi di cittadini che, appunto per
evitare quel tal male, combattevano, di procurare quel tal
bene si proponevano.
I
più di costoro, invece, ad avvenimenti compiuti, preferiscono
parlare di fallimenti ideali, di programmi definitivamente
crollati e di altre simili piacevolezze. Ricominciano così la
loro assenza da ogni responsabilità. E non già che non
vedano chiaro nelle cose, e che qualche volta non siano capaci
di prospettare bellissime soluzioni dei problemi più urgenti,
o di quelli che, pur richiedendo ampia preparazione e tempo,
sono tuttavia altrettanto urgenti. Ma queste soluzioni
rimangono bellissimamente infeconde, ma questo contributo alla
vita collettiva non è animato da alcuna luce morale; è
prodotto di curiosità intellettuale, non di pungente senso di
una responsabilità storica che vuole tutti attivi nella vita,
che non ammette agnosticismi e indifferenze di nessun genere.
Odio
gli indifferenti anche per ciò che mi dà noia il loro
piagnisteo di eterni innocenti. Domando conto ad ognuno di
essi del come ha svolto il compito che la vita gli ha posto e
gli pone quotidianamente, di ciò che ha fatto e specialmente
di ciò che non ha fatto. E sento di poter essere inesorabile,
di non dover sprecare la mia pietà, di non dover spartire con
loro le mie lacrime. Sono partigiano, vivo, sento nelle
coscienze virili della mia parte già pulsare l'attività
della città futura che la mia parte sta costruendo. E in essa
la catena sociale non pesa su pochi, in essa ogni cosa che
succede non è dovuta al caso, alla fatalità, ma è
intelligente opera dei cittadini. Non c'èin essa nessuno che
stia alla finestra a guardare mentre i pochi si sacrificano,
si svenano nel sacrifizio; e colui che sta alla finestra, in
agguato, voglia usufruire del poco bene che l'attività di
pochi procura e sfoghi la sua delusione vituperando il
sacrificato, lo svenato perché non è riuscito nel suo
intento.
Vivo,
sono partigiano. Perciò odio chi non parteggia, odio gli
indifferenti.
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La
Città futura", pp. 1-1 Raccolto in SG, 78-80.
(Fonte: http://www.antoniogramsci.com//cittafutura.htm#indifferenti)
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