Por RAIMUNDO SANTOS

Professor da UFRRJ e autor do livro Caio Prado Jr. na Cultura Política Brasileira, ed. Mauad, Rio de Janeiro, 2001

 

Lembrando os 40 anos de A Revolução Brasileira

 

Publicado em 1966, o livro A Revolução Brasileira foi lido à época como uma desconstrução das teses da feudalidade e do antiimperialismo. Essa recepção lhe daria audiência em círculos então radicalizados que nele buscaram amparo à proposta de uma frente de pequenas correntes de esquerda com a qual pretendiam enfrentar o regime de 1964. Uma frente muitíssimo mais limitada que a que se tentara organizar em torno das “reformas de base” no tempo de João Goulart. A interpelação de Caio Prado àquelas teses tinha outro significado. O historiador radicava o seu argumento na debilidade do nosso capitalismo que, entregue à sua própria lógica, não seria capaz de modernizar o país e incorporar grandes contingentes sociais, particularmente os excluídos do mundo rural. A fórmula caiopradiana da revolução “nacional e agrária” sugeria um processo ao modo americano, no sentido de que aqui também precisaríamos dinamizar um Oeste (o largo mercado interno do mundo rural) que complementasse um Leste (nossa industrialização). Essa era a perspectiva que ele atribuía à mobilização popular-agrária concebida como uma revolução não-camponesa. Ou seja, baseada nas reivindicações trabalhistas dos empregados dos grandes setores da agropecuária e em sindicatos estáveis espalhados pelos municípios. Essa visão diferia dos padrões da esquerda da época que pensava em revolução disruptiva. É notável ver como em A Revolução Brasileira Caio Prado concentra o seu argumento no tema da “integração”, questão recorrente em toda sua vasta  publicística.

Caio Prado não via no antiimperialismo daquela época base sustentável para o chamado processo revolucionário brasileiro. Ele negava os atributos de classe produtiva inovadora que então se conferia à burguesia nacional e desqualificava a função dos “dispositivos partidários” – PSD-PTB – que dominavam a cena pública dissimulando um capitalismo de pouca incorporação social, baixa sociabilidade e avesso à institucionalização democrática. Cenário que ensejava o populismo e a aventura “janguista”, como o historiador dizia às vésperas de 1964, alertando para a falta de base política às reformas estruturais daqueles anos.

Caio Prado via nossa modernização como uma modernização inconclusa e nossas classes populares como classes frágeis. Mas daí o historiador militante  não enveredava para demiurgias e messianismos. Ao contrário, ele divisava a vontade transformadora da sociedade referida a atores sóciopolíticos cujo campo de ação estava dado pela dinâmica da vida nacional que se manifestava sobremaneira no mundo dos interesses, das organizações e da política, no contexto de partidos ideológicos e de governos administrativos políticos.

Se lido hoje como estilo de pensar as coisas brasileiras, pode-se lembrar de Caio Prado sua ânsia em dar substância produtiva ao industrialismo e a idéia de que é preciso reestruturar nosso capitalismo. Ele via o Estado como lócus de generalidade e conferia valor estratégico à opinião pública e aos partidos. A propósito, recorde-se que, em meio à crise do governo Goulart, Caio Prado chegou a propor uma reorganização partidária, o que lhe custou ser acusado de que então tinha análise abstrata à margem da correlação de forças que, dizia-se no PCB, vinha fazendo avançar o processo mudancista daquele tempo. Aliás, essa relação desencontrada com o seu partido merece ser lembrada de outro modo. Enquanto ao PCB carecia ter adotado o seu teórico do Brasil, faltara-lhe a Caio Prado, no imediato pós-64 (à época em que escrevera A Revolução Brasileira),  o faro político dos comunistas brasileiros que souberam encontrar no que restara do mundo político destroçado pelos militares e que então estava muito desacreditado –  como ocorre agora após o Mensalão –  o ponto de apoio para organizar a resistência democrática, o grande empreendimento daqueles anos difíceis. Cada um – o militante historiador e o seu PCB – sugerindo o que mais sabia fazer.

 

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