Lembrando os 40 anos de
A Revolução Brasileira
Publicado
em 1966, o livro A Revolução Brasileira foi lido à época
como uma desconstrução das teses da feudalidade e do
antiimperialismo. Essa recepção lhe daria audiência em círculos
então radicalizados que nele buscaram amparo à proposta de uma
frente de pequenas correntes de esquerda com a qual pretendiam
enfrentar o regime de 1964. Uma frente muitíssimo mais limitada que
a que se tentara organizar em torno das “reformas de base” no
tempo de João Goulart. A interpelação de Caio Prado àquelas
teses tinha outro significado. O historiador radicava o seu
argumento na debilidade do nosso capitalismo que, entregue à sua própria
lógica, não seria capaz de modernizar o país e incorporar grandes
contingentes sociais, particularmente os excluídos do mundo rural.
A fórmula caiopradiana da revolução “nacional
e agrária”
sugeria um processo ao modo americano, no sentido de que aqui também
precisaríamos dinamizar um Oeste (o largo mercado interno do mundo
rural) que complementasse um Leste (nossa industrialização). Essa
era a perspectiva que ele atribuía à mobilização popular-agrária
concebida como uma revolução não-camponesa. Ou seja, baseada nas
reivindicações trabalhistas dos empregados dos grandes setores da
agropecuária e em sindicatos estáveis espalhados pelos municípios.
Essa visão diferia dos padrões da esquerda da época que pensava
em revolução disruptiva. É notável ver como em A Revolução
Brasileira Caio Prado concentra o seu argumento no tema da
“integração”, questão recorrente em toda sua vasta
publicística.
Caio
Prado não via no antiimperialismo daquela época base sustentável
para o chamado processo revolucionário brasileiro. Ele negava os
atributos de classe produtiva inovadora que então se conferia à
burguesia nacional e desqualificava a função dos “dispositivos
partidários” – PSD-PTB – que dominavam a cena pública
dissimulando um capitalismo de pouca incorporação social, baixa
sociabilidade e avesso à institucionalização democrática. Cenário
que ensejava o populismo e a aventura “janguista”, como o
historiador dizia às vésperas de 1964, alertando para a falta de
base política às reformas estruturais daqueles anos.
Caio
Prado via nossa modernização como uma modernização inconclusa e
nossas classes populares como classes frágeis. Mas daí o
historiador militante não
enveredava para demiurgias e messianismos. Ao contrário, ele
divisava a vontade transformadora da sociedade referida a atores sóciopolíticos
cujo campo de ação estava dado pela dinâmica da vida nacional que
se manifestava sobremaneira no mundo dos interesses, das organizações
e da política, no contexto de partidos ideológicos e de governos
administrativos políticos.
Se
lido hoje como estilo de pensar as coisas brasileiras, pode-se
lembrar de Caio Prado sua ânsia em dar substância produtiva ao
industrialismo e a idéia de que é preciso reestruturar nosso
capitalismo. Ele via o Estado como lócus de generalidade e conferia
valor estratégico à opinião pública e aos partidos. A propósito,
recorde-se que, em meio à crise do governo Goulart, Caio Prado
chegou a propor uma reorganização partidária, o que lhe custou
ser acusado de que então tinha análise abstrata à margem da
correlação de forças que, dizia-se no PCB, vinha fazendo avançar
o processo mudancista daquele tempo. Aliás, essa relação
desencontrada com o seu partido merece ser lembrada de outro modo.
Enquanto ao PCB carecia ter adotado o seu teórico do Brasil,
faltara-lhe a Caio Prado, no imediato pós-64 (à época em que
escrevera A Revolução Brasileira),
o faro político dos comunistas brasileiros que souberam
encontrar no que restara do mundo político destroçado pelos
militares e que então estava muito desacreditado – como ocorre agora após o Mensalão – o ponto de apoio para organizar a resistência democrática,
o grande empreendimento daqueles anos difíceis. Cada um – o
militante historiador e o seu PCB – sugerindo o que mais sabia
fazer.