MÉSZÁROS,
Istvan. (2005). A Educação para além do Capital. São
Paulo: Boitempo (77p)
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Para
uma educação para além do capital
A
educação para além do capital é um pequeno grande livro do emérito
professor da Universidade de Sussex, Istvan Mészáros, contendo
ensaio especialmente elaborado para a conferência de abertura do Fórum
Mundial de Educação, realizado em Porto Alegre, no dia 28 de julho
de 2004. Talvez pelo fato de ter sido uma comunicação dirigida a
um auditório particular, tem estilo mais suave e acessível do que,
por exemplo, em sua obra mais erudita: “Marx: a teoria da alienação”
(Zahar, 1979). Além
disto, a edição de seu ensaio no Brasil apresenta-se,
primorosamente, prefaciada pelo Professor Emir Sader e vem
acompanhada de excelentes comentários de orelhas escritos pelo
Professor Gaudêncio Frigotto.
Nesta
obra, Mészáros tem como ponto de partida e de antecipação de
suas reflexões três epígrafes (de Paracelso, José Martí e
Marx), as quais, apesar dos seus diferentes registros temporais,
enfatizam ser urgente “uma mudança que nos leve para além do
capital, no sentido genuíno e educacionalmente viável do
termo”.
Em
tese, o que nos propõe desta vez é a necessidade essencial de
ultrapassarmos os limites das mudanças educacionais radicais, feitas
às margens corretivas interesseiras do capital, como condição
para uma transformação social qualitativa e a criação de uma
alternativa educacional significativamente diferente.
Ele argumenta que as propostas de reformas educacionais de
Adam Smith e Robert Owen, por exemplo, embora estivessem revestidas
de genuínas preocupações humanitárias ou se apresentassem como
remédios contra os efeitos alienantes e desumanizantes do poder
do dinheiro e da procura do lucro, ambas, em sua perspectiva, não
escapariam à auto-imposta camisa-de-força
das determinações causais do capital. Daí é que
advoga soluções essenciais e não meramente formais, pois
considera que tais determinações afetam profundamente cada âmbito
particular com alguma influência na educação, e de
forma nenhuma apenas as instituições educacionais formais.
Para
uma educação para além do capital é essencial, em sua opinião,
que os processos de internalização que os indivíduos fazem, os
impeçam de internalizar, como suas, as metas de reprodução
objetivamente possíveis do capital. Nossa educação formal, afinal
de contas, diz-nos, tem se prestado historicamente a produzir
tanta conformidade ou “consenso” quanto for capaz, a partir de
dentro e por meio dos seus próprios limites institucionalizados e
legalmente sancionados. Assim, são insuficientes quaisquer
tentativas de reformas educacionais formais, pois, por mais
progressistas que sejam, sempre podem ser cooptadas pela lógica do
capital, bastando-lhe tão somente que permaneça impoluta como
quadro de referências orientador da sociedade.
Em
prosseguimento, defende, portanto, que a chave mestra para nos
evadirmos desta formidável prisão é o confronto e a alteração
fundamental de todo o sistema de internalização, com todas as
suas dimensões, visíveis e ocultas. As reformas educacionais
essenciais, em sua proposta, precisam ser profundas de modo a
envolver a totalidade das práticas pedagógicas da sociedade,
partindo-se do princípio que as instituições formais de educação,
responsáveis pelo sistema global de internalização, não se
restringem às escolas. Somente a mais ampla das concepções de
educação nos pode ajudar a perseguir o objetivo de uma mudança
verdadeiramente radical, capaz de nos proporcionar instrumentos
contrários à lógica mistificadora do capital.
Em
sua acepção, esta solução essencial, entretanto, ainda deve ser
entendida como um processo coletivo inevitável, produzido
por uma enorme multiplicidade de seres humanos no processo real de
mudança. Somente deste modo será impossível expropriar de todos
uma nova concepção de mundo contrária à lógica do capital,
mesmo se considerarmos a força brutal dos seus mais expertos, e
generosamente financiados, agentes políticos e intelectuais.
Cabe-nos
como tarefa inadiável e intransferível, em suas recomendações,
reivindicar coletivamente uma educação plena para toda a vida,
porque, afinal, a aprendizagem é a nossa própria vida e sem
ela deixamos de desenvolver nossas personalidades e graus
de estima. Para tanto, torna-se igualmente essencial manter sob
controle o estado político hostil, realizar a transformação
progressiva da consciência como condição de mudança das
condições objetivas de reprodução, universalizar a educação e
o trabalho como atividade humana auto-realizadora e, por fim,
garantir sua sustentabilidade, isto é, o controle consciente dos
processos sociais capazes de garantir os recursos à educação no
sentido mais amplo do termo.
Este
pequeno grande livro, em conseqüência, já nasce como um clássico
indispensável a quantos se interessam pelas questões educacionais
contrárias aos modismos economicistas, às reformas apressadas e
superficiais, e ao que Florestan Fernandes e Gaudêncio Frigotto
chamam de teorismo e subjetivismo revolucionário. É, pois, leitura
obrigatória para os estudantes dos cursos superiores, sobretudo
aqueles ligados à formação de professores.
por
ZACARIAS
JAEGGER GAMA