A democracia
brasileira entre anseios e amarras
No
ensaio A Democracia Inesperada: Cidadania, Direitos Humanos e
Desigualdade Social, publicado recentemente, Bernardo Sorj se
propõe a difícil tarefa de pensar os mecanismos que sustentam a
democracia no mundo atual, tendo em vista a profunda contradição
que vem se configurando entre o fortalecimento da sociedade civil e
dos valores igualitários, por um lado, e a crescente desigualdade
econômica, por outro. O privilégio do continente latino-americano
nas observações tecidas pelo autor deve-se à grande expectativa
que a transição do regime autoritário para o regime democrático
suscitou nos vários países
em que o regime de exceção foi realidade durante as décadas de
1960 e 1970.
Para
o autor, interessou pesquisar a representação política e suas
transformações, principalmente considerando-se que os novos
sujeitos coletivos, expressão da vitalidade da sociedade civil,
reivindicam direitos cada vez mais particulares, amparados pelo
discurso dos direitos humanos. Em contrapartida, toda essa dinamização
da sociedade não diminuiu as desigualdades sociais para o conjunto
da população, e esta é, sem dúvida a grande crítica do sociólogo.
Bernardo Sorj toma este cenário de contradição _denominado pelo
autor de “Paradoxo Democrático”_ como ponto de partida para as
análises bem pouco otimistas sobre as mudanças que vieram
ocorrendo nas últimas décadas no sistema político brasileiro, e
no mundo de modo geral, e que refletem a crescente individualização
da sociedade, característica dos tempos pós-modernos.
Segundo
Sorj, é a partir da década de 1970 que as transformações que
vinham ocorrendo no interior da classe operária aceleram-se,
levando a crise desta categoria, bem como das utopias por ela
sustentadas, o que teria ocasionado um “processo de crescente
individualização dos valores e das relações sociais”,
condenando o indivíduo “a uma ação reflexiva permanente”.
Esta atividade reflexiva continuada deve-se a ausência de um
“sistema rígido de identificações coletivas ou ideológicas”.
O indivíduo passou a freqüentar grupos diversos e suas redes.
“Paradoxalmente,
a nova modernidade estaria gerando simultaneamente um indivíduo
resignado _ocupado demais para administrar seus problemas para se
dedicar a questões coletivas, mas também um indivíduo mais
igualitário, já que, destruídas as velhas fronteiras e
subculturas que separavam as pessoas _tais como status social,
classes sociais, nações, ideologias_ , não sobraria mais do que a
comum humanidade, o drama da condição humana, no qual todos os
indivíduos podem se refletir e se identificar” (SORJ, 2004; p.
47).
A
fragmentação do sujeito e, conseqüentemente, a formação de
identidades particulares decorre do descaso com a “utopia
socialmente inclusiva” que unificava a sociedade sob a questão da
“igualdade”, sustentada por valores universalizantes e por uma
perspectiva de “futuro comum”. Para o autor, o novo indivíduo não
deixou de reivindicar formas de pertencimento, reconhecimento,
solidariedades e proteção, mas passou a
buscar por identidades coletivas que se apóiem em grupos de
afinidades ou de experiências transcendentais, longe da fragilidade
e das rápidas transformações do mundo pós-moderno.
Este
processo de fragmentação identitária da sociedade “têm o
efeito de democratizar os sistemas de valores e a vida cultural”,
entretanto a reivindicação por direitos particulares (“simbólicos”
ou “imateriais”), acaba por descaracterizar a idéia de bem público
e bem comum republicana, colocando em xeque o sentimento de
pertencimento e igualdade que estão na base da noção de
cidadania.
Na
América Latina, o conceito de cidadania em seu uso pelo senso comum
possui uma forte carga normativa e encontra-se utilizado por
“praticamente todos os movimentos sociais, ONGs, mas também por
empresas (‘empresa-cidadã’), organismos internacionais e políticas
públicas”. O termo cidadania refere-se primeiramente a um
instrumento de “inclusão/exclusão”. Assim, pertencer ao grupo
dos cidadãos implica ter um “título de propriedade particular”
que dá acesso a um conjunto de direitos. Ao utilizarem-se de um
discurso de cidadania estes novos sujeitos sociais passam a
reivindicar a inclusão de novas identidades no ordenamento jurídico.
E
mais do que isso, a aplicação dos diferentes tipos de direitos
(civis, políticos e sociais) pode incorrer em antinomias. Tais
contradições referem-se a aplicação de valores _base dos
direitos _ entendidos como absolutos, transferindo para o poder
Judiciário a resolução dos conflitos. E no caso dos Direitos
Humanos (base do discurso destes novos movimentos), a antinomia
localiza-se nos dois princípios fundadores da modernidade, quais
sejam o “pleno exercício da liberdade individual” (valor
individualista) e a questão da “igualdade entre todos os cidadãos
dentro de uma comunidade nacional” (valor supra individual). Estes
princípios encontram-se relacionados propriamente ao
desenvolvimento do sistema capitalista moderno, uma vez que a classe
proprietária reclamava a defesa da liberdade individual e as
classes trabalhadoras sustentavam a questão da “igualdade e justiça
social”. Deste confronto entre liberdade individual e igualdade
entre os cidadãos, a maior expressão do período moderno deu-se no
conflito entre o liberalismo e o socialismo e comunismo.
De
acordo com Bernardo Sorj, estas novas identidades ao pautarem suas
atividades sobre valores universalizantes e não-negociáveis como
os Direitos Humanos dificultam a formulação de projetos de caráter
político-partidário, posto que o ingresso no mundo político
pressupõe a disponibilidade de negociação e escolhas.
Finalmente,
o reflexo destas transformações no sistema político-partidário
conduziram, para Sorj, a uma diminuição da distância entre os
discursos de esquerda e direita. Os partidos deixaram de ser os
portadores dos “valores e esperanças da sociedade” para
tornarem-se em “administradores de pressões”. A ausência de
ideologia, por sua vez, conduziu a um crescente esvaziamento partidário
e a uma percepção pejorativa do mundo político. Mesmo movimentos
como o MST, que são carregados de um “símbolo ético”, não
conseguem, para o cientista social, formular projetos políticos que
atinjam a maior parte da população.
A
obra de Bernardo Sorj demonstra que a democracia que se buscava não
aconteceu. O cenário explorado pelo autor é um terreno nebuloso,
onde as possibilidades de mudança encontram-se enterradas
juntamente com as ideologias. O ensaísta se propõe a explorar os
problemas da democracia atual e, a despeito das poucas páginas, o
faz com grande maestria, sempre atento à análise conceitual e a um
requintado suporte teórico.
por
JULIANA
PINTO CARVALHAL