RESENHA
Octavio
Brandão. Agrarismo
e Industrialismo: Ensaio marxista-leninista sobre a revolta de São
Paulo e a guerra de classes no Brasil – 1924. São Paulo:
Editora Anita Garibaldi, 2006.
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Agrarismo
e industrialismo: o primeiro encontro do marxismo com o Brasil
A
Editora Anita Garibaldi acabou de relançar uma obra
fundamental do pensamento político brasileiro: Agrarismo e
Industrialismo: Ensaio marxista-leninista sobre a revolta de São
Paulo e a guerra de classes no Brasil – 1924. Seu autor era um dos
principais dirigentes e ideólogos do Partido Comunista do Brasil
que, na ocasião, dava seus primeiros passos no país.
Não
deixa de ser sintomático o fato de que, apenas agora, quando o
livro completa 80 anos de existência, tenha conseguido uma merecida
segunda edição. Vários fatores contribuíram para este prolongado
esquecimento.
O
primeiro deles, sem dúvida, é a cultura autoritária de nossas
elites econômicas e políticas. O livro foi produzido e começou a
circular em meio ao estado de sítio imposto pelo governo de Arthur
Bernardes. A Revolução de 1930, que pôs fim ao domínio da
oligarquia, também não deu trégua aos comunistas. Ainda em 1931,
Octavio Brandão e sua família foram exilados pelo novo regime e só
puderam voltar ao país após o fim do Estado Novo.
A
legalidade do Partido, conquistada em 1945, durou menos de dois
anos. Ao longo do século XX, o Brasil conheceu ainda o governo
autoritário do General Dutra (1946-1950) e uma ditadura militar que
durou mais de 20 anos (1964-1985). Essas rupturas democráticas
ocasionaram também rupturas na memória da esquerda brasileira.
Foram muitos os re-começos e muitos os esquecimentos.
Nasce
um clássico
“A
28 de julho de 1924, os revoltosos evacuaram a cidade de São Paulo.
O governo Bernardes delirou com a ‘vitória’. Os pequenos
burgueses urbanos ficaram muito desanimados (...) No fundo da sala
de jantar, sentado no primeiro degrau de uma escada de ferro, ouvi a
narrativa da derrota e, serenamente, comecei a escrever Agrarismo e
Industrialismo. Terminei a parte fundamental menos de um mês
depois, a 22 de agosto de 1924. Tirei imediatamente cópias à máquina
e espalhei-as entre os amigos”. Assim, Octavio Brandão descreveu
o início da produção da obra que teria um impacto decisivo na
vida do Partido Comunista do Brasil naqueles anos.
No
entanto, passaria mais de um ano e meio para que o livro pudesse,
finalmente, vir a público. Tempo que Brandão aproveitou para
adicionar-lhe mais duas partes: Síntese, datada de março de 1925,
e A revolta permanente, de março de 1926.
Quando
estava sendo composto, a polícia política do governo Bernardes
invadiu a tipografia. Ela pretendia dar o flagrante e apreender a
edição que supunham estar quase pronta. Rapidamente, sem que se
percebesse, os operários “jogaram toda composição nas caldeiras
das linotipos”. Não conseguindo as provas que necessitavam, os
policiais tiveram que se retirar cabisbaixos. Na mesma noite,
reiniciou-se o trabalho de composição e impressão daquela que
entraria para história como a primeira tentativa de interpretação
marxista e leninista do Brasil.
Em
abril, ainda como a capital da República sob estado de sítio,
Agrarismo e Industrialismo começou a circular. Ele trazia como
autor um tal de Fritz Mayer e a informação que havia sido editado
em Buenos Aires. Os comunistas espalharam que Mayer era um oficial
alemão que havia participado do levante tenentista de São Paulo e
fugira para Argentina. Tudo isso foi feito com o objetivo de
despistar a polícia brasileira. A artimanha parece ter dado
resultados.
Naquele
mesmo ano, mais de uma dezena de exemplares foi levada à Moscou e
um acabou chegando às mãos do líder dos tenentes revolucionários
Luís Carlos Prestes. Mas, os mais entusiasmados com aquela obra
foram os operários ligados ao PC do Brasil. A grande imprensa, como
era de se esperar, ignorou solenemente a sua publicação.
Uma
obra pioneira e original
Os
objetivos centrais de Agrarismo e Industrialismo eram: expor a dinâmica
da revolução democrática em marcha no país e apresentar uma
estratégia adequada para o jovem movimento comunista. Não havia,
até então, nenhuma formulação tática ou estratégica mais
consistente que norteasse a ação política da esquerda marxista
brasileira. Por isso as teses ali expostas tiveram um forte impacto
nas formulações do Partido Comunista e influenciaram as resoluções
dos seus II e III Congressos, realizados em 1925 e 1928.
Octavio
Brandão procurou apresentar as peculiaridades da revolução
brasileira e o papel das diversas classes naquele processo. Ele foi
um dos primeiros a compreender os danos causados pelo domínio
imperialista e identificar a luta existente entre os interesses do
imperialismo inglês, decadente, e o norte-americano, ascendente.
Por fim, teve o mérito de compreender a importância da luta que se
travava entre a oligarquia latifundiária (os agraristas) e os
setores vinculados à indústria (os industrialistas).
Antes
mesmo que o VI Congresso da Internacional Comunista (1928) viesse a
estabelecer o cânone da predominância de relações feudais (ou
semi-feudais) na totalidade dos países da América Latina e Ásia,
Brandão já afirmava o caráter feudal da nossa formação econômica,
política e social. Escreveu ele: “Dominado por esse agrarismo
econômico bem centralizado, o Brasil tinha de ser dominado pelo
agrarismo político (...) O agrarismo político é a dominação política
dos grandes proprietários (...) O fazendeiro de café, no sul, como
o senhor de engenho, no Norte, é o senhor. O senhor feudal implica
a existência do servo. O servo é o colono sulista das fazendas de
café, é o trabalhador de enxada dos engenhos nortistas. A organização
social proveniente daí é o feudalismo na cumeeira e a servidão no
alicerce”.
A
chamada “tese feudal” teria uma longa vida no interior do
movimento comunista brasileiro, até começar a ser questionada mais
fortemente por marxistas como Caio Prado Jr. na década de 1960. Os
Partidos Comunistas (PCdoB e PCB) somente vieram a superá-la no início
da década de 1990.
Uma
estratégia leninista para o Brasil
Para
enfrentar o agrarismo dominante propôs a constituição de uma
frente única poli-classista: “O fazendeiro de café só será
derrubado pela frente única momentânea do proletariado com a
pequena–burguesia e a grande burguesia industrial”. A estratégia
da revolução no Brasil teria como paradigma a revolução francesa
de 1789 e russa de fevereiro de 1917. Buscou reproduzir, ao seu
modo, a tática leninista indicada por Lênin em 1905.
Continuou
ele: “Apoiemos, como aliados independentes, como classe
independente, a pequena-burguesia na sua luta contra o fazendeiro de
café, pois, segundo Marx, é preciso sustentar os partidos
pequeno-burgueses quando estes resistem à reação. Empurremos a
pequena-burguesia à frente da batalha (...) Procuremos arrastar as
grandes massas operárias e camponesas em torno de palavras de ordem
simples, concretas, práticas e imediatas. Não esqueçamos que o
Brasil, como a Rússia, é um país agrário (...) Empurremos a
revolução da burguesia industrial – o 1789 brasileiro, o nosso
12 de março de 1917 – aos seus últimos limites, afim, de
transpostas a etapa da revolução burguesa, abrir-se a porta da
revolução proletária, comunista”, escreveu ele.
Brandão
tinha a convicção de que ocorreria uma terceira revolta e que esta
seria uma conseqüência das duas revoltas tenentistas anteriores,
ocorridas em 1922 e 1924. As contradições que geraram aquelas
conflagrações armadas continuavam de pé e se agravando.
Tendo
por base esta perspectiva, ele fez uma previsão genial sobre a
crise revolucionária que se abriria alguns anos depois: “Temos,
pois em perspectiva, sérias batalhas de classe, isto é uma situação
revolucionária. Se os revoltosos pequeno-burgueses souberem
explorar a rivalidade imperialista anglo-americana e a luta entre os
agrários e os industriais, se procurarem uma base de classe para a
sua ação, se o proletariado entrar na batalha e se essas contradições
coincidirem com a luta presidencial e as complicações financeiras,
será possível o esmagamento dos agrários (...) Dada esta situação
objetiva, a vitória da pequena-burguesia aliada a grande burguesia
industrial e, posteriormente, a vitória do proletariado, serão
meras questões subjetivas. Dependerão da capacidade dos revoltosos
pequeno-burgueses e dos revolucionários proletários”.
As
resoluções do 2º Congresso do PC do Brasil (1925), baseadas no
esboço inicial de Agrarismo e Industrialismo, apontavam a
"luta entre o capitalismo agrário semi-feudal e o capitalismo
industrial moderno como sendo a contradição fundamental da
sociedade brasileira após a República".
Tendo
em vista as particularidades da primeira etapa da revolução
brasileira, os comunistas a definiram como revolução democrático-pequeno-burguesa.
Baseavam tal formulação na destacada participação política das
classes médias urbanas, através do movimento tenentista, nos
processos revolucionários que vinham ocorrendo.
Era
nítida a confusão entre o conteúdo social das tarefas a serem
realizadas pela revolução – burguesa ou proletária – e as forças
sociais que teriam um papel mais destacado no processo revolucionário
em curso. No entanto, devemos destacar que o próprio termo
utilizado para definir a revolução brasileira (democrático-pequeno-burguesa)
visava distingui-la da revolução ocorrida na Rússia em 1917; ou
seja, procurava captar as suas peculiaridades e sua originalidade.
Afinal, no Brasil, as classes médias urbanas estavam tendo uma
importância política e social bem maior que a dos camponeses. A
situação brasileira era bastante diferente da que existiam na Rússia
e na China revolucionárias.
Foi
dentro desse esquema teórico-político – nascido com Agrarismo e
Industrialismo - que Astrojildo Pereira, secretário-geral do PCB,
elaborou o relatório sobre a situação brasileira, que foi enviado
ao Secretariado Sul-americano da Internacional Comunista e publicado
na revista Correspondência Internacional em 1928. Vejamos o que
afirmavam os comunistas brasileiros: “a situação econômica e
política do país, objetivamente examinada, faz prever uma
conjuntura francamente revolucionária, que resultará da coincidência
dos seguintes fatores: 1) Crise econômica resultante de uma catástrofe
na política cafeeira (...); 2) crise política vinculada ao
problema da sucessão presidencial no Brasil (1930); 3)
possibilidade de uma repetição de um novo 5 de julho”.
Diante
desta terceira revolta que se aproximava e “que tomará proporções
muito maiores que as de 24/26”, afirmaram que não era de se
“supor que as massas trabalhadoras se mantivessem indiferentes ou
neutras (...) Nessas condições, o dever do partido comunista
consistirá em colocar-se à frente das massas, procurando
conquistar não somente a direção da fração proletária, mas a
hegemonia de todo o movimento”.
Para
derrotar as possíveis tendências direitistas existentes no
movimento tenentista, eles apresentavam sua proposta tática: “No
nosso entender, a intervenção decidida do Partido Comunista no
movimento, em estreita aliança como os revolucionários
pequeno-burgueses, na primeira fase do movimento, na luta comum
contra o inimigo, pelo menos dificultará e poderá vencer como
maior facilidade essa tendência fascista”.
Esses
parágrafos demonstram a capacidade teórica e política que aqueles
jovens dirigentes comunistas haviam adquirido. Eles previram, com
anos de antecedência, a crise revolucionária de 1930 - e o fim da
República Oligárquica - e apresentaram uma estratégia bastante
ajustada àquela situação, especialmente tendo em vista o domínio
ainda limitado que tinham do instrumental teórico fornecido pelo
marxismo e pelo leninismo.
A
guinada esquerdista e a crise no PCB
Em
1929 o movimento comunista pendeu perigosamente para a esquerda. Ao
lado do esquerdismo começavam a predominar práticas autoritárias
e sectárias – a política leninista de proletarização se
transformava em “obrerismo”. Foi nesse ambiente, marcado pela
intolerância, que foram analisadas a tática e a estratégia dos
comunistas brasileiros.
As
idéias de Octávio Brandão e Astrojildo Pereira sobre a terceira
revolta e a política de aliança centrada na pequena burguesia
urbana – traduzidas nas resoluções dos 2º e 3º Congressos do
PCB - foram duramente criticadas pela Internacional Comunista (IC).
Na Conferência do Bureau Sul-Americano da IC, realizada entre abril
e maio de 1930, Astrojildo e Brandão foram acusados de desvios de
direita e de serem "pequenos burgueses". A sua tese sobre
o caráter "democrático-pequeno-burguês" da revolução
brasileira foi acusada de ser menchevique, anti-marxista e
anti-leninista por, supostamente, negar a hegemonia do proletariado
na revolução democrática e superestimar o papel da pequena
burguesia urbana (os tenentes) em detrimento das massas camponesas.
Logo
após a Conferência Sul-americana, Brandão e vários outros
camaradas foram retirados do Comitê Central. Em novembro de 1930
foi à vez de Astrojildo Pereira ser afastado da Secretaria-Geral,
que exercia desde 1922, e do próprio Comitê Central. Assim, em
poucos meses, quase toda antiga direção, forjada no curso das
lutas dos anos 1920, foi afastada de seus postos e substituída por
novos militantes, que em sua maioria eram operários com pouquíssima
experiência partidária.
Uma
das resoluções do pleno que afastou Brandão afirmava: “O
Partido Comunista do Brasil deverá acrescentar sua atividade em sua
luta política, estabelecendo sua própria fisionomia, tendendo a
adquirir a todo preço a hegemonia do movimento revolucionário que
se desenvolve no Brasil, cujas principais forças motrizes serão o
proletariado, a massa de assalariados agrícolas e os camponeses
pobres”.
Esta
era uma aplicação mecânica das resoluções da Internacional
Comunista. Elas não tinham em conta o processo revolucionário real
que já vinha se desenvolvendo no país e refletiam um profundo
desconhecimento das forças sociais em presença, subestimando o
papel das classes médias urbanas e superestimando o papel dos
camponeses.
A
partir de então o esquerdismo e o obreirismo, também, passaram a
imperar no interior do partido. Abandonou-se a proposta de aliança
preferencial com a pequena-burguesia urbana, através do movimento
tenentista. Os prestistas foram considerados os principais inimigos
do proletariado revolucionário. No final de 1930 o Bloco Operário
e Camponês – órgão de frente única criado pelos comunistas -
foi fechado pela direção partidária.
Renegando
tudo o que tinha defendido poucos meses antes, Octavio Brandão
afirmou na tribuna da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro: “O
que caracteriza a Aliança Liberal é a sua demagogia. Demagogia
caracteristicamente fascista, empregada por Mussolini quando quis
apoderar-se do poder, em 1922 (...) O fascismo declarado dos
presidentes Washington Luis e Júlio Prestes a ninguém ilude. Mas o
fascismo disfarçado da Aliança Liberal ilude muita gente”. Aqui
temos uma adaptação da nefasta teoria do social-fascismo ao
Brasil.
Em
setembro de 1930, às vésperas da revolução, um documento do PC
do Brasil afirmaria que “a Coluna Prestes era o inimigo
pronunciado do movimento revolucionário, defendia os interesses dos
capitalistas estrangeiros, sustentava os feudais e estava pronta a
lutar contra todo verdadeiro movimento de massa”. A palavra de
ordem dos comunistas passou a ser: “Criai o governo operário e
camponês, baseado nos Sovietes!” e “Pela União das Repúblicas
Soviéticas da América Latina!”.
As
reflexões originais sobre a formação econômica e social
brasileira foram abandonadas e substituídas por esquemas mais rígidos
que não correspondiam a nossa realidade. O resultado foi que
quando, em outubro de 1930, chegou a “terceira revolta”,
prevista por Octavio Brandão e Astrojildo Pereira, os comunistas
estavam desarmados teórica e politicamente.
Os
sucessivos erros políticos levaram ao isolamento do Partido em relação
às massas populares e às correntes progressistas. Ao lado da crise
política, ocorreu uma séria crise de direção que desorganizou
quase completamente o Partido. Nos quatro anos que se seguiriam à
destituição de Astrojildo, o PCB teve seis secretários-gerais.
Da
crítica a reabilitação
Tendo
em vista os nítidos limites teóricos deste trabalho pioneiro,
alguns intelectuais buscaram, consciente ou inconscientemente,
desqualificar o livro. Em geral, esses críticos caíram num
evidente anacronismo ao cobrarem do jovem dirigente comunista um nível
de conhecimento do instrumental teórico marxista que ele - e ninguém
no Brasil - poderia ter naqueles anos. È bom lembrarmos que o
Manifesto do Partido Comunista (1848) de Marx e Engels – obra
seminal do socialismo científico – foi publicado no Brasil apenas
em 1924, traduzido do francês pelo próprio Brandão.
Na
década de 1980, Michel Zaidan Filho escreveu uma série de
trabalhos que, entre outras coisas, enalteciam as contribuições
originais de Octavio Brandão e Astrojildo Pereira.. Nos anos 1990
Agrarismo e Industrialismo foi analisado, sem preconceito, por
autores marxistas como Marcos Del Roio, Paulo Cunha, Ângelo José
da Silva e Quartim de Moraes. Este último, no seu ensaio introdutório,
escreveu: “A justiça histórica é lenta como a dos tribunais,
mas às vezes não falha (...) Agrarismo e Industrialismo, assim,
foi encontrando o lugar que merecia no pensamento marxista
brasileiro”. O seu relançamento fortalecerá o processo ainda em
curso de revalorização da elaboração teórica dos primeiros
comunistas brasileiros.