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por
RODRIGO MEIRA MARTONI
Turismólogo. Mestre em Geografia, Meio Ambiente e
Desenvolvimento. Docente do Departamento de Turismo da
Universidade Federal de Ouro Preto UFOP / MG
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Introdução
O
turismo no capitalismo e, atualmente, seguindo a corrente do Estado
Neoliberal, segue a lógica da ampliação do capital. O interesse
em aproveitar e/ou reaproveitar o patrimônio natural e edificado
obedece a essa mesma lógica, ou seja, está em conformidade com as
possibilidades de lucratividade de investidores. Com o afastamento
do Estado no estabelecimento de políticas públicas e a predominância
do interesse da classe que detêm os meios de produção no interior
do Estado, ainda predomina uma visão meramente mercadológica do
turismo. Assim, a importância dada ao patrimônio está diretamente
relacionada ao seu valor de troca e não ao seu valor intrínseco.
Nesse
contexto, consideramos as estações do trecho Ourinhos-SP e
Londrina-PR da linha férrea da Rede de Viação Paraná - Santa
Catarina (RVPSC) como bens patrimoniais que caracterizam a ocupação
do norte do Paraná. Relegadas ao abandono e ameaçadas pelas ações
destrutivas do homem e do tempo, poderiam ser reaproveitadas
turisticamente como forma de manutenção de bens que caracterizam
historicamente e culturalmente uma região. Propostas de
aproveitamento ou estabelecimento de linhas férreas em outras regiões
estão ocorrendo na proporção direta das potencialidades turísticas
e viabilidade de projetos.
Diversidade
patrimonial
Até
meados do século XX, era considerado patrimônio cultural no Brasil
as grandes obras geralmente associadas às classes mais abastadas.
As edificações valorizadas historicamente eram “antigos palácios,
residências de nobres ou locais onde aconteceram fatos relevantes
para a história política de determinado local” (BARRETO, 2000,
p.09). A noção de patrimônio, considerada como um elo entre
tempos passados e atuais, pode ser mais ampla, estando associada a
manifestações artísticas e demais obras do ser humano, sejam
materiais ou imateriais.
A
antiga concepção de patrimônio cultural está associada à
historiografia brasileira que, conforme Mota (1974, p.05), esteve
baseada na escolha de atos oficiais e na elite, relatando a
“importância da liderança e a insignificância do povo [...]”.
Após a Segunda Guerra Mundial, além da história oficial, começou
a se firmar uma nova história, baseada também nos aspectos de vários
segmentos sociais e em diversos bens materiais resultantes da interação
do homem comum com o ambiente.
Com
o tempo, a consideração sobre patrimônio cultural passou a ser
mais abrangente, incluindo também os costumes próprios de um povo
ou nação. Porém, essa compreensão não é contemplada por todos:
para Barreto (2000, p.12), na academia, o patrimônio cultural é
entendido em sua amplitude (incluindo bens tangíveis e intangíveis),
mas nos órgãos oficiais “prevalece a ênfase na identificação
do patrimônio com monumentos, arquitetônicos ou escultóricos
[...]”. No entanto, esses monumentos, além de estarem vinculados
com a história oficial, relacionam-se também com a história
social, podendo ser representados por um bairro, edificações e não
somente por edificações das classes hegemônicas.
Nesse
contexto, o artigo 1º da Convenção Geral da Unesco sobre a
Salvaguarda do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural, realizada em
novembro de 1972, considera como patrimônio cultural os monumentos,
que são “obras arquitetônicas, de escultura ou de pintura
monumentais [...], estruturas de natureza arqueológica, inscrições
e cavernas”; as edificações, considerando construções independentes ou
agrupadas que, devido à sua arquitetura, caracterizam uma paisagem;
e os sítios, entendidos
como “obras do homem ou obras conjugadas do homem e da natureza,
bem como as áreas que incluam sítios arqueológicos”. Para essas
considerações, o patrimônio deve ter um valor genérico histórico,
artístico e científico (CURY, 2000, p.177).
Funções
do Turismo
A
comercialização de atividades relacionadas aos momentos de não
trabalho ocorreram na medida em que conquistas trabalhistas foram
alcançadas, as necessidades do ócio foram salientadas e em
conformidade com as possibilidades de rentabilidade. O
aproveitamento de elementos do ambiente com finalidades turísticas
acontece, primeiramente, em conformidade com o retorno econômico e,
posteriormente, com a importância histórica e cultural que um
determinado bem representa à identidade de um lugar. Esse é um
fato corrente e inerente às políticas neoliberais onde o Estado
passa a ter uma atuação mínima e interesses privados não
coletivos são impostos, aproveitando-se muitas vezes da própria
estrutura estatal.
Visto
que a manutenção de bens culturais, principalmente aqueles ligados
à história não oficial, estão relegados a segundo plano, uma
alternativa viável é o aproveitamento mediante o Turismo. Contudo,
ressaltamos a importância do planejamento turístico com base no
estabelecimento de políticas públicas que visem a coletividade e a
valorização intrínseca do patrimônio. Contra a corrente ideológica
dominante que reduz a amplitude do fenômeno turístico a uma mera
atividade econômica e com o intuito de assegurar a permanência de
determinados bens que são representativos de uma época,
salientamos três funções básicas do turismo: a social, a
patrimonial e a econômica.
A
função social está relacionada ao desenvolvimento do turismo em
consonância com a população local, ou seja, em beneficio dos autóctones;
a patrimonial diz respeito à correta utilização dos aspectos
naturais, históricos e culturais que se firmam como a base
referencial de um lugar e, portanto, de atratividade; e a função
econômica, que deve ser definida tendo como base substancial as
outras duas, tem de ser equilibrada e orientada para a distribuição
e não concentração de renda. Logicamente que os anseios privados
não podem atender as funções apontadas, sendo o Estado o responsável
por propostas estruturais que não estejam desconectadas da
realidade.
Em
consonância com essas funções, e contra a lógica de globalização
e mundialização do capital, Sachs (1986, p.98) sugere a utilização
dos recursos exclusivos de uma localidade “para atender as
necessidades básicas de seus habitantes, salvaguardando, ao mesmo
tempo [...], os prospectos a longo prazo, através da gestão
racional desses recursos [...]”. Nesse contexto está a utilização
ou reutilização de linhas férreas com finalidades turísticas.
Como exemplo concreto pode ser citado o Trem
Azul da Vale, que entrará em funcionamento no mês de abril de
2006 interligando Ouro Preto, Passagem de Marina e Marina no Estado
de Minas Gerais. A região onde o turismo não é planejado, mas
consolidado em virtude dos atrativos históricos principalmente,
contará com mais esta opção turística, financiada pela Fundação
Vale do Rio Doce. O projeto conta com a aprovação da Lei Rouanet
para captação de recursos e baseia-se no comprometimento com a
comunidade local e preservação patrimonial. Salientamos que a
repercussão positiva do projeto junto à comunidade das localidades
envolvidas depende de políticas publicas de turismo que se
respaldem nas funções básicas apresentadas anteriormente.
A
potencialidade para a utilização turística de ferrovias e antigas
estações é um fato em diversas regiões do país. Contudo, o
reordenamento ou direcionamento de investimentos deve ser dado pelo
Estado. Como exemplo de descaso com o patrimônio e compromisso com
a lucratividade da iniciativa privada, está o trecho concessionado
ligando Curitiba a Paranaguá. Muitas das edificações da época da
construção estão ruindo, sendo os passeios divulgados e
realizados pela panorâmica somente dos atrativos naturais da serra.
Outro exemplo é a da Rede Viária Paraná – Santa Catarina (RVPSC),
especificamente no trecho Ourinho – Londrina. Na contra-mão do
que ocorre em Minas Gerais, estas estão relegadas ao abandono. O
Estado não contempla a possibilidade de sua reutilização turística
e o patrimônio que explica em parte a ocupação regional está se
perdendo com o tempo.
Breve
histórico da frente de colonização inglesa: as estações da
RVPSC na linha Ourinhos - Londrina
Simon
Joseph Frazer, conhecido como Lord Lovat, foi um dos fundadores da
Brazil Plantations Syndicate Ltd. Em 1924, ele e capitalistas
ingleses começavam a plantar algodão em terras paulistas. Com a
possibilidade de expansão dos negócios via aquisição de terras
no norte do Paraná entre 1925 e 27, a Brazil Plantations foi
substituída pela Paraná Plantations Ltd, sendo sua subsidiária no
Brasil a Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP). Para o plano
de colonização, foram adquiridos mais de 500.000 alqueires (WESTPHALEN,
1969, p.215).
No
contexto da expansão imperialista inglesa, o elemento primordial
para a ocupação regional e venda de lotes eram os caminhos.
Inicialmente, além da altamente produtiva
terra roxa, um ramal ferroviário, denominado Estrada de
Ferro Noroeste do Paraná (EFNP), se constituiu em um importante
atrativo para a possível ligação das glebas de terra, divididos
estrategicamente em lotes urbanos e rurais.
Essa
linha havia sido efetivada pouco antes de Lovat visitar a região:
entre Ourinhos SP e Cambará PR estabeleceu-se o Major Antonio
Barbosa Ferraz. Em parceria com latifundiários paulistas, fundou a
Companhia Ferroviária Noroeste do Paraná, denominada
posteriormente de Estrada de Ferro São Paulo – Paraná (EFSPP). O
intuito do grupo era possibilitar o escoamento da produção do
Norte Velho Paranaense pelo Porto de Santos via Estrada de Ferro
Sorocabana. Com isso, foi viabilizado o caminho de Ourinhos a Cambará.
Este
trecho foi finalizado em 1924 e, devido a impossibilidades
financeiras do grupo, foi necessário atrair a atenção dos
ingleses, ressaltando a importância do prolongamento da via após
Cambará para a CTNP. Em 1928, a Paraná Plantation Ltd tornou-se
proprietária majoritária das ações da Cia Ferroviária São
Paulo – Paraná, sendo que, depois de firmar compromissos de
expansão da linha com o governo estadual, continuou com as obras
ferroviárias nos anos seguintes. Em 1932, a linha férrea estava ás
margens do rio Tibagi, em Jatahy. (STECA, 2002, p.147).
Denominada
posteriormente de Rede de Viação Paraná - Santa Catarina (RVPSC),
a ferrovia propiciou a integração de econômica, social e cultural
da região colonizada. Em locais estratégicos, uma serie de
terminais (ou estações) foram edificados, servindo tanto como
ponto de apoio a pessoas que partiam ou chegavam, como para a
estocagem de produtos a serem carregados. Na linha compreendida
entre Ourinhos e Londrina, diversas estações foram inauguradas
conforme a expansão da RVPSC, o que comprova a importância desse
modal de transporte para as frentes de colonização: Marques dos
Reis; Presidente Munhoz; Leoflora; Cambará; Meirelles; Niepso da
Silva; Andirá (Ingá); Timburi, Cinzas (às margens do Rio das
Cinzas); Bandeirantes; Ibiúna; Laranjinha; Santa Mariana; Guapuruvu;
Cornélio Procópio; Catupiri; Congonhas; Uraí; Serra Morena; Frei
Timóteo; Jataizinho (antiga colônia Jatahy); Ibiporã; e Londrina
(Giesbrecht, 2005).
Conforme
estudo de Humberto Yamaki (2003, p. 09) é possível observar que a
distancia media entre as estações, de aproximadamente 15,3 quilômetros,
foi idealizada para atender aos diversos lotes coloniais com cerca
de quinze alqueires cada.
Considerações
Finais
O
turismo ferroviário no Brasil, ainda incipiente, contempla mais os
atrativos da própria linha férrea ligados às atratividades
naturais do que os elementos edificados as suas margens. No Paraná,
interligadas pela via férrea a uma distância que permite o
deslocamento a pé, as estações inseridas no trecho Londrina -
Ourinhos são atrativos em potencial para o planejamento de diversas
tipologias de turismo ligadas aos aspectos histórico-culturais.
Possuindo características parecidas ou distintas, conforme o local
e data de construção, devem ser conservadas, pois se constituem em
“formas documentais a serem lidas, para, a partir delas, se
interpretar o passado” no contexto da colonização da região
(MENESES, 2004, p. 34).
Ao
Estado, de onde deve partir as propostas de planejamento turístico,
visando, ao contrário da iniciativa privada, o bem comum, cabe
inventariar o trecho e propor novos usos a partir da consolidação
das estações como atrativos turísticos regionais. Nesse sentido,
as funções do turismo devem ser priorizadas para que o fenômeno não
esteja divorciado da realidade.
Referências
BARRETO,
Margarita. Turismo e legado cultural: as possibilidades do
planejamento. 4.ed. Campinas: Papirus, 2000, 96 p.
CURY,
Isabelle (Org). IPHAN. Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (Brasil). Cartas Patrimoniais. 2.ed. Rio de Janeiro: Ed.IPHAN,
2000. p. 141-331
GIESBRECHT,
Ralph
Mennucci. Estações Ferroviárias do Estado de São Paulo.
Disponível em: http://www.estacoesferroviarias.com.br.
Acesso em: 28 de junho de 2005. MENESES, José Newton Coelho. História
e Turismo Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
MOTA,
Carlos Guilherme. Metodologia, Pesquisa e Historiografia. In:
FENELON, Dea Ribeiro. 50 Textos de História do Brasil. São Paulo:
Hucitec, 1974.
SACHS,
Ignacy. Ecodesenvolvimento: crescer sem destruir. São Paulo: Vértice,
1986.
STECA,
Lucinéia Cunha; FLORES, Mariléia Dias.
Historia do Paraná: do século XVI à década de 1950.
Londrina: EDUEL, 2002. 206p.
YAMAKI,
Humberto. Iconografia Londrinense. Londrina: Edições Humanidades,
2003.
WESTPHALEN,
Cecília Maria (et al). História do Paraná. Curitiba:
Grafipar. V.1, 1969.
por
RODRIGO
MEIRA MARTONI
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