por RAYMUNDO DE LIMA

Formado em psicologia, mestre em Psicologia Escolar (UGF) e Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente é professor do Depto. Fundamentos da Educação, na área de Metodologia da Pesquisa, da Universidade Estadual de Maringá (UEM)

 

Popper e o neopositivismo: equívoco ou embuste?

[nota de rodapé extraída da tese de doutorado] [1]

 

A associação indevida e equivocada de Popper com o positivismo merece ser esclarecida, mesmo que resumidamente. Há uma pergunta que não quer se calar: Karl Raimund Popper é realmente um neopositivista? Teria sido equívoco, interesse político ou má fé o que fez com que as idéias de Popper fossem associadas ao “positivismo” e ao  “neopositivismo”? De onde teria partido a intenção de estigmatizá-lo como tal?

Sem dúvida, os marxistas vulgares são os que mais prontamente associam Popper ao positivismo, talvez mais como uma reação ‘passional’ e ‘política’ aos seus argumentos epistemológicos sobre a pseudocientificidade da teoria marxista, adicionados aos equívocos ocorridos no famoso debate com Adorno[2], em 1961.

Para autores como LÖWY (1987, p.47-59) “K. Popper [...] introduz um ponto de vista novo da problemática positivista”, e, Demo (1981, p.111), considera que “o positivismo desse autor é muito sui generis. Entretanto, outros estudos fazem observações que o caracterizam como um “não positivista”.

Na verdade, três razões confirmam ser ele “não positivista”: (1) Popper nunca foi membro do Círculo de Viena (REALE &ANTISERI, 1991, v. 3, p. 1020, tb. CHACON, V. “Diálogo com Popper”. In: POPPER, K., 1978), embora existem indícios da influência de algumas de suas idéias sobre os membros deste Círculo;  (2) seu posicionamento original sobre a ciência – sobretudo sobre o critério da demarcação entre o que é ciência e o que não é ciência - o inclui dentre os filósofos “objetivistas” (CHALMERS, 1993, 160), ou um “objetivista crítico” como o próprio Popper prefere se autoposicionar (POPPER, 1978); ele próprio diz rejeitar a concepção “naturalista” ou “positivista” por não ser crítica (POPPER, 1972, p.55). Também, o livro de ensaios de Popper que tem por título, de forma significativa, Objective Knowledge, argumenta que “O conhecimento no sentido objetivo é o conhecimento sem conhecedor; é o conhecimento sem um sujeito que sabe” (POPPER, apud CHALMERS, op. cit., p. 160). Ainda, Popper declara que

“a objetividade da ciência repousa na objetividade do método crítico; a objetividade científica é baseada unicamente sobre uma tradição crítica que, a despeito da resistência, freqüentemente torna possível criticar um dogma dominante (POPPER, 1978, p.16); a objetividade da ciência não é uma matéria dos cientistas individuais, porém, mais propriamente, o resultado social de uma crítica recíproca, da divisão hostil-amistosa do trabalho entre cientistas, ou sua cooperação e também sua competição. Pois esta razão depende, em parte, de um número de circunstâncias sociais e políticas que fazem possível a crítica (Ibid., p. 23). [Portanto], é um erro admitir que a objetividade de uma ciência dependa da objetividade do cientista (Ibid., p.22); ... o cientista “objetivo” ou “isento de valores” é, dificilmente, o cientista ideal. Sem paixão não se consegue nada – certamente não em ciência pura. A frase “a paixão pela verdade” não é uma mera metáfora” (POPPER, 1978, p.25). [grifo meu].

(3) Popper, ao contrário dos positivistas, não é antimetafísico, e, não aprova a idéia de que deva existir uma teoria genuína do conhecimento, uma epistemologia ou metodologia. O positivismo inclina-se a ver, em todos os problemas ditos filosóficos, meros “pseudoproblemas” ou “charadas”, e, Popper vê nessa posição dos positivistas um dogma – o “dogma da significação”.  (POPPER, 1972, p.53).

A biografia intelectual realizada por MAGEE (1989) também afirma que

“Popper jamais foi um positivista de qualquer matiz: ao contrário, foi um antipositivista decidido, o homem que desde o princípio adiantou os argumentos que produziram (depois de um tempo excessivamente longo), o esfacelamento do positivismo lógico. O fato de Popper abordar os problemas lógicos de maneira inteiramente diversa da adotada pelos positivistas lógicos pode ser ilustrado pelo mais simples dos exemplos: estes teriam dito que ‘Deus existe’ não passa de ruído destituído de significado, de algo vazio; Popper teria dito que é um enunciado no qual está presente um significado e que poderia ser verdadeiro, não sendo um enunciado científico por não haver maneira concebível de mostrá-lo falso” (MAGEE, B. As idéias de Popper. São Paulo: Cultrix, 1989, p.50-1). [grifo meu].

A reação de Popper

Constrangido de ser estigmatizado como neopositivista, Popper se deu ao trabalho de investigar de onde teria partido essa inverdade. Dois importantes escritos seus “A lógica da pesquisa científica” (1972), no capitulo 2 – e, “Lógica das Ciências Sociais” (1978), examinam em detalhes essa questão, onde aparecem alguns nomes da Escola de Frankfurt – R. Dahrendorf, T. Adorno e J. Habermas – de onde teria partido a crítica de seu suposto “positivismo” (POPPER, 1978, p.36).

Segundo o próprio, foi “um equívoco antigo, criado e perpetuado por aqueles que conhecem a minha obra somente de segunda mão” (POPPER, 1972, p.26). Outro motivo dessa associação indevida teria sido fornecido por alguns dos membros do Círculo de Viena, que foram tolerantes quando publicou seu livro “A lógica da pesquisa científica”, editado por positivistas do Círculo, M. Schlick e P. Frank, fato este que fez com que “aqueles que julgam livros pelas suas capas (ou pelos seus editores)” criassem o mito de que Popper fora membro do Circulo de Viena, e, portanto, positivista.

Diz Popper:

“uma última palavra a propósito do termo “positivismo”. Eu não nego, decerto, a possibilidade de estender o termo “positivista” até que ele abranja todos os que tenham algum interesse pelas ciências naturais, de forma que venha a ser aplicado até aos adversários do positivismo, como eu próprio. Sustento apenas que tal procedimento não é nem honesto nem apto a esclarecer o assunto. O fato de que o rótulo “positivismo” me tenha sido aposto a priori por um erro grosseiro pode ser verificado por qualquer um que esteja em condições de ler a minha Lógica da Pesquisa Científica” (POPPER, 1978, p.47).

O autor, ainda, cita os nomes de duas vítimas rotuladas como “positivistas”, para em seguida arrematar com uma fina ironia: “Seria pior consignar aqui a sugestão de que quem quer que se  interesse pelas ciências naturais estaria condenado como positivista, o que faria positivistas não somente Marx e Engels, mas igualmente Lênin, o homem que introduziu a equação do “positivismo” e “reação”. Terminologia importa pouco, no entanto. Não deveria, porém, ser utilizada como “argumento”; e o título de um livro não deve ser desonesto nem pode servir a preconceber uma saída” (POPPER, 1978, p.49).

Comentário final...

Popper não é o primeiro nem o último a ser vítima de estigmas produzidos por um pessoa ou grupo intelectual, com o propósito mais de derrubar a “pessoa” do que  suas idéias. Ao rotular o outro de isso ou aquilo, ou desqualificá-lo, no fundo, a intenção maior do oponente é queimar sua imagem em nome de uma causa racional ou irracional. Obras sobre a arte da argumentação[3] e de filosofia da linguagem são imprescindíveis como preparo mínimo para entendermos o uso desses mecanismos e mesmo nos defendermos de tais ataques.

A suposta ‘neutralidade’ do cientista e/ou neutralidade’ da ciência foi perseguida pelos positivistas. Popper nunca advogou esse ponto de vista, visto que a ciência é realizada por cientistas com toda a sua ‘humanidade’, ‘valores’, ‘paixões’, ‘partidarismo’, interesses ideológicos; o pertencimento a um grupo que segue uma determinada cultura dominante ou paradigma científico[4] pode sabotar a pretensão tanto de neutralidade como de objetividade total. Faz sentido a valorização de Popper do método (regras da lógica formal e situacional, sobretudo o “método hipotético dedutivo”[5]) para se ter acesso a verdade e a objetividade. Contudo, neutralidade e objetividade são ‘otimismos epistemológicos’ ou ‘imperativos epistemológicos’ a serem observados pelos que investem na busca da verdade ou afastamento do mero discurso ideológico que contamina boa parte das Ciências Humanas e Sociais.

Há um estilo de ser cientista ou intelectual que também contribui para sua não neutralidade. Conforme observa Andrioli (2006),

“Um estilo intelectual, portanto, pode ser compreendido como parte integrante de uma cultura e passa a ser condicionado por impressões, resultantes do processo de validação do conhecimento científico em determinados círculos acadêmicos. Estes estilos, por sua vez, são fortemente influenciados pela cultura dominante, pois a própria atribuição de ciência está intimamente imbricada com aquilo que é intersubjetivamente aceitável nos círculos intelectuais. Parafraseando Marx, poderia se dizer que o estilo intelectual dominante em uma sociedade é o estilo da classe hegemonicamente dominante.” [grifo meu]

Embora acompanhe o autor, acima, não dá para concordar integralmente com sua paráfrase atribuída a Marx, na medida em que, o estilo intelectual dominante em uma universidade numa sociedade de classe pode não ser aquele que funciona como um apêndice da classe hegemonicamente dominante; mas sim, este pode ser hegemonicamente dominante somente dentro da cultura do próprio meio universitário. Pelo menos, enquanto este saber não for desmascarado como pseudocientífico ou ser superado por outro argumento mais consistente que melhor responde como “teoria explicativa” sobre o homem, sobre a sociedade ou a natureza, conforme demonstração conhecida de Thomas Khun (1975) na sua obra Estrutura das revoluções científicas.

O marxismo é um exemplo claro disso: por décadas, entre nós, o discurso marxista[6] dominou e explorou[7] quase todos os departamentos das universidades públicas brasileiras, sobretudo os cursos de Sociologia, História e Educação[8]. As dissertações de mestrado e doutorado tinham que ser marxistas ou pelo menos fazer uma ou outra citação de Marx, Lênin, Althusser, Gramsci, etc., para garantirem inclusão neste paradigma dominante, na época. Os livretos de Marta Hanecker M. e Grabiela Uribe (1979) sobre as principais teses de Marx funcionavam, naquela época, como catecismos para converter ou sustentar o auto-engano dos neófitos que entendiam serem suficientes para compreender a “grande teoria científica e revolucionária” marxiana. Há estudantes de Sociologia, até hoje, que não demonstram espírito suficientemente aberto para conhecer todas as teorias e todos os pensadores da sociedade, mas sim, eles parecem estar na universidade com o simples propósito de reforçar suas convicções políticas e ideológicas infelizmente já dogmáticas num Marx como ‘único e legítimo’ salvador dos pobres e oprimidos do nosso planeta. São alunos que ‘escolhem’ apenas as disciplinas e professores que, de antemão, sabem que em vez de convidá-los a pensar criticamente e ousarem ir para além da mera repetição do que o mestre disse [ipse dixti], apenas reforçam suas convicções, imprimem dogmas, ensinam slogans e palavras de ordens, e também levam os incautos pupilos a também reproduzirem estigmas, fofocas e piadinhas sobre  as teorias e autores que deliram ser seus inimigos. Karl Popper é apenas mais uma vítima do modo cruel, desonesto e cínico de perverter a verdade na academia ou fora dela em nome de alguma causa...

 

Referências

ANDRIOLI, A. I. Cultura e estilo intelectual. Disponível em: <www.espacoacademico.com.br> n. 63, publicado em agosto de 2006.

CHALMERS, A. F.  O que é ciência afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993.

DEMO, P. Metodologia científica em Ciências Sociais. São Paulo, Atlas, 1981.

FREIRE, João. Os capitalistas do saber. Publicado em: <www.espacoacademico.com.br> n. 63 – agosto de 2006.

HARNECKER, M. & URIBE, G. Cadernos de educação popular. Rio de Janeiro: Global, 1979-80.

KHUN, T. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1975.

LIMA, Raymundo de. Educação no Brasil: o pensamento e atuação de José Mário Pires Azanha. 2005. 296f. Tese (Doutorado em Educação)–Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.

LÖWY, M. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchausen. São Paulo: Busca Vida, 1987.

MAGEE, B. As idéias de Popper. São Paulo: Cortez, 1989.

POPPER, K. R. A lógica da Pesquisa científica. [trad. Leônidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota]. São Paulo: Cultrix, 1972.

_________. Lógica das Ciências Sociais. Rio de Janeiro - Brasília: Tempo Brasileiro e Ed. Universidade de Brasília, 1978.

_________. Um mundo de propensões. Lisboa: Fragmentos, 1988.

PRAXEDES, W. L. A. Repensando a recepção do marxismo no pensamento educacional brasileiro. In: Cad. de Apoio ao Ensino. Maringá: UEM, 2001, p. 5-24.

REALE, G.& ANTISERI, D.  História da filosofia. 3 v. São Paulo: Paulinas, 1990.

YAZBEK, A. C. A “disputa do positivismo na sociologia alemã”: o confronto entre Karl Popper e Theodor Adorno no congresso da Sociedade de Sociologia Alemã de 1961. Disponível em:   www.urutagua.com.br  n.  ago 2006.


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[1] A tese referida do autor deste artigo tem como título “A educação no Brasil: o pensamento e atuação de José Mário Pires Azanha” defendida na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, em 15 de dezembro de 2005. Visando transformar esse escrito de rodapé em artigo teórico procuramos fazer ligeiras alterações e acrescentamos uma conclusão, com nosso posicionamento sobre o assunto em questão. 

[2] Sobre os principais pontos deste debate, entre Popper e Adorno, conferir o artigo de Yazbek, A. C.  “A “disputa do positivismo na sociologia alemã”: o confronto entre Karl Popper e Theodor Adorno no congresso da Sociedade de Sociologia Alemã de 1961”. Disponível em:   www.urutagua.com.br  n.10 ago-set-out-nov. 2006..

[3] Sobre esse assunto, sugiro:  REBOUL, Olivier. Introdução à retórica. São Paulo: M. Fontes, 2004; Perelman, Chaïm. Lógica jurídica.  São Paulo: Martins Fontes, 2000, e schopenhauer, Arthur. Como vencer um debate sem precisar ter razão;  em 38 estratagemas (dialética erística). Rio de Janeiro: Topbooks, 1997.

[4] “O cientista ‘objetivo’ ou ‘isento de valores’ é, dificilmente, o cientista social. Sem paixão não se consegue nada – certamente não em ciência pura. A frase ‘a paixão pela  verdade’ não é uma mera metáfora” (POPPER, 1972, p. 25).

[5] Conforme observa Yazbek (op.cit. 2006), “Popper dará privilégio ao procedimento dedutivo e, ao fazê-lo, se distanciará sobremaneira dos empiristas modernos – o autor dedicará várias de suas teses no congresso para atacar o “indutivismo” e defender o método “hipotético-dedutivo”: o dado empírico serviria tão somente ao cientista enquanto um possível critério de falsificabilidade de uma “teoria” ou “hipótese”, construída, como já se disse, sempre a partir de um problema. Desta perspectiva, a função mais importante da “lógica pura dedutiva” seria a de um “sistema de crítica”  [observação acrescida/2006].

[6] Considerando que, obviamente, o discurso marxista nunca foi unívoco, entre nós; daí as várias leituras, tendências ou facções...

[7] Freire (2006), analisando o pensamento de Jan Wanclaw Makhaiski, entende que o marxismo funcionou nos meios intelectuais como “ideologia que mais bem representava os interesses da nova classe dominante: os capitalistas do saber”.  Ou seja, esse tipo de marxismo tosco que ocupou os espaços intelectuais funcionou - e ainda funciona - como se fosse uma “religião, que seduz devido ao seu culto pelo desenvolvimento intensivo das forças produtivas, devido ao seu aspecto [pretensamente] científico, legitimando assim as aspirações da elite do saber em tomar o lugar dos capitalistas privados em nome do ‘progresso’ e da ‘história’ e dissimulando a prosaica capacidade dos seus interesses de classe” (FREIRE, op. cit, 2006). OBS.: No nosso entendimento, esse tipo de marxismo ‘religioso’ atém de trair a dialética ainda não fez a necessária autocrítica de sua práxis, sobretudo seus erros históricos praticados pelo chamado “socialismo real” e pelos inúmeros enganos teóricos reproduzidos como verdades ‘científicas’ no meio acadêmico.    

[8] Conferir artigo do Prof. Walter PRAXEDES:  “Repensando a recepção do marxismo no pensamento educacional brasileiro” (2001).

 

por RAYMUNDO DE LIMA

   

 

 

 

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