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por
FERNANDA FIORAVANTE
Mestranda em História Social pelo
PPGHIS- UFRJ – Bolsista CAPES
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As festas
barrocas nas Minas Coloniais e seu significado político
O
presente artigo tem como objeto central a dimensão política
assumida pelas festas nas Minas setecentistas – fossem elas
solenidades ligadas a ocasiões religiosas, fossem elas realizadas
em razão de eventos associados à família régia –, com vista a
perceber seu uso tanto por parte da coroa, como por parte dos
poderes locais.
As
festas barrocas promoviam um espetáculo de luzes, cores e sons na
cidade. As luminárias e fogos de artifício; os carros alegóricos
e vestimentas ricamente adornadas; as músicas, as danças e os
jogos encantavam o público. As casas enfeitadas e as ruas limpas
esperavam a passagem da procissão ou da imagem do rei. As
dificuldades cotidianas talvez fossem momentaneamente esquecidas
para, então, vivenciar-se o universo criado pelas festas.
Contudo,
esses eventos também possuíam o poder de introjetar valores,
destacar as posições de mando e publicizar a imagem do rei. Nesse
sentido, no presente artigo interessa-nos a função política
assumida pelas festas barrocas enquanto legitimadoras tanto do poder
régio como do local, possibilitando a melhor administração e
atendimento dos interesses da metrópole bem como a afirmação dos
poderes locais e a inserção de valores necessários à ordenação
e domínio sobre a sociedade mineira.
A
descoberta de ouro em fins do século XVII na região das Minas
despertou a ganância de muitos, atraindo um grande número de
aventureiros, tornando estes confins palco de violência,
instabilidade e insegurança (SANTIAGO, 2001: 30). Todavia, o século
seguinte foi marcado por um vigoroso processo de urbanização para
o qual confluiria a implantação e atuação de dois importantes órgãos,
quais sejam, as irmandades e as câmaras.
Nas
Minas, as irmandades precederam aos poderes burocrático e militar,
constituindo-se nas primeiras instituições das terras auríferas.
Além disso, tiveram destacado papel na ordenação da sociedade na
medida em que, ao prestar assistência aos vassalos, aliviavam as
tensões provenientes do modo de vida precário de então,
promovendo a coesão social, a disciplinarização e a hierarquização
da sociedade por meio da incorporação de
valores morais. Dessa forma, e para a coroa, as irmandades tiveram
proeminente papel como auxiliar no processo de colonização ao
tentar reproduzir, nas possessões do além mar, os padrões da Metrópole
(BOSCHI, 1986: 36). Juntamente às irmandades, as câmaras tiveram
grande relevância nos quadros da governabilidade do Império
Português, uma vez que estas instituições, sustentáculos da
sociedade colonial, garantiam a transplantação e adaptação das
instituições metropolitanas no ultramar (BOXER, 2002: 286).
Parte
integrante das atribuições das irmandades e da Câmara, as festas
contribuíram para a estruturação social e política do espaço
mineiro, dando impulso a um poderoso mecanismo
de controle e definição do espaço social e político nas Gerais,
especialmente tendo em conta que em um primeiro momento, de acordo
com Laura de Mello e Souza, “as normas e as regras foram deixadas
de lado”(MELLO E SOUSA, 2001: 185).
As
festas, em função do papel tranqüilizante do rito processional,
representavam um meio de melhor suportar as agruras cotidianas,
fazendo com que as camadas subalternas encontrassem, nestes eventos,
“uma válvula de escape” (DEL PRIORE, 2000: 90; RAMINELLI, 2000:
233,234).
No entanto, no presente artigo, interessa-nos o impacto que o espetáculo
de fogos-de-artifício, carros alegóricos e as ornamentadas
vestimentas promoveram na esfera do poder político: de um lado, as
festividades cumpriam o papel de estabelecer o reconhecimento e a
lealdade a El-Rei; de outro, ao definirem valores a serem seguidos,
estratificavam a sociedade, estabelecendo espaços de prestígio e
distinção, os quais levavam à consolidação dos instrumentos de
mando dos poderes locais.
No
contexto do Império Português, dada as precárias condições da
manutenção do controle militar e burocrático nas possessões
ultramarinas, (BOXER, 2002: 286) o domínio da coroa contaria em
larga medida com uma série de símbolos e rituais, responsáveis
pela transmissão de valores comuns ao Antigo Regime (FURTADO, 1997:
252). Assim, mediante a ocupação do espaço público, as
festividades, sem fazer uso da coerção, constituíam-se em um
sofisticado instrumento persuasivo.
Coincidindo
com o período áureo das Minas, o reinado de D. João V foi marcado
pela pompa e pela suntuosidade, tanto em decorrência da imitação
e da disputa abertas em relação à França de Luiz XIV, (BOXER,
2002: 173) como pelas condições amplamente favoráveis propiciadas
pelo ouro mineiro (MONTEIRO, 2002:323). Assim, as festas, fossem
elas civis ou religiosas, eram revestidas com admirável requinte.
Ao apropriar-se em larga medida de signos religiosos como forma de
afirmação e legitimação do poder,
o rei envolvia-se com uma “aura mística”, posicionando-se entre
o humano e o divino, crescendo em importância diante de seus
vassalos.
Nesse
sentido, o período joanino seria, então, identificado como ápice
da solenização e da profusão de festividades. Fossem as festas
relacionadas a comemorações relativas à família real ou
religiosas, elas se constituíam em um eficiente mecanismo de
publicização do poder régio português, seja em terras reinóis
seja no ultramar.
A
título de exemplo, há de se destacar as Entradas Solenes
promovidas pela Casa Real no reino. Nessas solenidades, que algumas
vezes contaram com a presença do rei, a imagem régia era
apresentada como sendo sublime e magnificente.
O sentimento de lealdade e de reconhecimento da autoridade do
rei contava com o uso e repetição do aparato simbólico e alegórico,
além de recorrer à recordação do evento por vários meios, como
relações de festa ou poesias. Tais recursos, ao estabelecer
ancestralidade e continuidade no proceder das festas, tornavam legítimos
os valores difundidos e, como trataremos adiante, atendiam aos
interesses das autoridades locais participantes do evento (CARDIM,
2001: 107-108).
Se
no reino algumas solenidades contaram com a presença do Rei (CARDIM,
2001: 101) no ultramar a imagem régia seria representada por seu
retrato, que, aliado a insígnias relacionadas à coroa,
presentificaria seu poder frente aos súditos (SANTOS, 2000: 27;
SANTIAGO, 2001: 38). Assim, as festas, embuídas de sentido
religioso e de júbilo do poder monárquico com seus símbolos,
alegorias e demais instrumentos compunham o que Affonso Ávila
denomina de “encantatório-perssuasivo”. Tal mecanismo, a serviço
da “enunciação triunfalesca do poder”, (ÁVILA, 1994: 45)
estendia metaforicamente a presença régia no além mar (SANTIAGO,
2001: 34) contribuindo sobremaneira no processo de ordenação das
Minas setessentistas. Nesse sentido, as Câmaras municipais, tendo
como um de seus atributos a realização das festas, tinham papel
fundamental na ampliação e afirmação do poder da coroa,
confluindo para que fossem atendidos os interesses régios
concernentes ao maior controle de seus domínios no reino e no
ultramar.
Todavia,
para que as câmaras atuassem segundo as determinações e
interesses metropolitanos, era necessário que seus funcionários
fossem reconhecidos enquanto autoridades locais.
Tendo
em vista o caso da colonização das Minas, dada, por um lado, a sua
importância para a coroa em decorrência da descoberta de ouro e,
por outro, o seu conturbado processo de povoamento - marcado pela
instabilidade, pela violência e pelo abandono das regras, como foi
dito anteriormente - , era fulcral o reconhecimento pela população
de um centro de poder. Nesse sentido, as vestimentas, as moradias,
as insígnias demarcavam o espaço social ocupado, conferindo status
e prestígio ao indivíduo, os quais refletiam não só em seu
reconhecimento e distinção, como também na amplitude de seu poder
político (SANTIAGO, 2001: 32).
Desse
modo, as festas destacaram-se como sendo um importante espaço de
afirmação e legitimação do poder local. Lugar de expressão de
fidalguia,(ARAÚJO, 1997: 148) “nessas ocasiões, os camaristas
exibiam-se em ‘corpo de câmara’, ou seja, devidamente
hierarquizados, trajados e paramentados, ostentando as insígnias do
conselho e o estandarte” (SANTIAGO, 2001: 12). As festas, aliadas
ao teatro, mostravam-se como um eficiente artifício de persuasão
ao ressaltar o brilho, a grandeza e o poder. Dessa forma, e conforme
José Maravall, faz-se necessário destacar a caracterização da
festa pública barroca como sendo uma “festa por contemplação”,
a qual, organizada pelas autoridades, procurava ostentar o poder de
forma que o povo permanecesse limitado à posição de espectador
passivo (MARAVALL, 1997: 44). Um exemplo disso era a atração por
meio de fogos de artifício e outros recursos cênicos. Ao criar a
ilusão de grandiosidade, produzia tal impacto sobre o público que,
segundo Berenice Cavalcante, os incapacitava de ação (CAVALCANTE,
2002: 304).
Desse
modo, ocupando lugares de destaque na festa, seguindo um cerimonial
que colocava a população a par dos modos de proceder do reino e da
hierarquia de poder, ao apresentar um evento espetacular, os funcionários
da câmara e as demais autoridades, tais como os militares e
religiosos, poderiam ser reconhecidos enquanto autoridades a serviço
do rei, possibilitando a eles a administração dos domínios da
coroa segundo a vontade régia.
Numa
sociedade de Antigo Regime, marcada por símbolos, rituais e valores
voltados para a distinção e nobiliarquia, o respeito às regras do
cerimonial e a ocupação das posições de destaque eram
fundamentais para o reconhecimento de fidalguia e das autoridades,
tanto religiosas quanto civis. Por outro lado, o desrespeito a essas
regras resultava em queixas e desagrado.
Esse
é o caso, por exemplo, de António Ramos dos Reis. Cavaleiro
professo da Ordem de Cristo e mestre de campo, ocupando, portanto,
posição de destaque nas Minas setecentistas,
António Ramos dos Reis argumentou que, sendo seu posto
investido de honras e preeminências, agiu-se com impropriedade por
se lhe negarem assento imediato ao vereador - que portava o
estandarte - e diante do governador e da Câmara. Segundo António
Ramos do Reis, seu lugar teria sido dado aos Tenentes Generais e
Ajudantes de Tenente de Sala, que "gozaram de todas as honras,
privilegios, liberdades, izenções, e franquezas" (AHU, Cons.
Ultram.- Brasil/MG, cx. 41, doc. 10.)
Por
volta de 1748, em Mariana, o provedor da Irmandade do Santíssimo
Sacramento e os demais membros da mesma solicitaram ao rei para que
o Juiz de Fora, e também presidente da Câmara, não impedisse que
o provedor da Irmandade, ou qualquer outro que viesse a substituí-lo,
seguisse em procissão atrás do palio, posição esta que, de
acordo com Beatriz Santos, conferia grande prestígio (AHU, Cons.
Ultram.- Brasil/MG, cx. 52, doc. 27) .
Destaca-se
por fim, o caso de Bernardo da Fonseca Lobo, cavaleiro professo da
Ordem de Cristo e capitão-mor em Vila do Príncipe. Bernardo foi
provido por Francisco da Costa, capitão-mor de Sergipe del Rei, no
distrito da cidade da Bahia, no assento sob o arco da igreja nas
ocasiões de festa. Não obstante, em requerimento enviado ao rei,
Bernardo revela preocupação em função da contenda surgida ente
Francisco da Costa e o Ouvidor geral, também de Sergipe del Rei,
Manoel Gomes Coelho, no que dizia respeito às regalias e preeminências
do assento em tal ocasião. Assim, Bernardo da Fonseca Lobo solicita
que, conforme a provisão dada por Francisco da Costa, o rei lhe
fizesse mercê de declarar que ele poderia ter assento sob o arco da
Igreja (AHU, Cons. Ultram.- Brasil/MG, cx. 56, doc. 63).
Diante
da dificuldade de dispor de meios militares ou burocráticos,
inviabilizando, portanto, a administração, especialmente no
ultramar pelas vias coercitivas, faziam-se necessárias outras
formas de dominação. Desse modo, as festas ganham relevo por sua
capacidade persuasiva em meio o espetáculo apresentado à população.
Ao
colocar em destaque a imagem do rei e as principais autoridades
locais, somando a isso uma série de símbolos e ritos, as
solenidades se tornavam espaço para a consolidação de valores e
legitimação de poderes, confluindo para a melhor ordenação da
sociedade - o que nos parece ter sido imprescindível no caso das
Minas - e para a administração do Império. Dessa maneira, para além
dos momentos de congraçamento, através do qual podia-se dar alívio
aos dissabores da vida cotidiana, as festas representavam um
importante meio de domínio político por parte da coroa, assim com
um espaço para disputas e reafirmações de espaços políticos
pelos poderosos locais.
por
FERNANDA FIORAVANTE
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