Novos
tempos, novos caminhos
O
elemento mais promissor das crises é sua capacidade de nos obrigar
a repensar as concepções. Táticas e lógicas políticas que eram
inquestionáveis e naturais passam a ser repensadas. As análises de
conjuntura deixam de ser leituras factuais, imediatistas e passam a
enfrentar temas estratégicos. O debate se qualifica.
Os
últimos 30 anos se caracterizaram pela centralidade da luta
eleitoral. A possibilidade de vitória da candidatura Lula
converteu-se na meta-síntese unificadora da esquerda, arrastando os
instrumentos de luta e a militância em torno da disputa eleitoral.
Durante todo esse período, nenhum outro momento gerava tamanha
unidade entre as chamadas esquerda partidária e social. Não é
casual que a crise desta tática coincida com o cumprimento desta
meta-síntese, isto é, a vitória de Lula.
Se
considerarmos a vitória do MDB em 1974, pela primeira vez, nestes
últimos 30 anos, as eleições não serão o elemento definidor da
correlação de forças. Por primeira vez, nestes 30 anos (talvez
com exceção de 1982), não haverá uma clara unidade da esquerda
em torno de uma candidatura ou partido que expresse a perspectiva de
transformação. Durante os últimos 20 anos, a esquerda estava
basicamente organizada num mesmo instrumento político, o PT, mas
com projetos e programas diferentes. Nestas eleições teremos
militantes e organizações de esquerda defendendo as candidaturas
de Lula, Heloisa Helena e o voto nulo.
Estamos
assistindo a crise estrutural das condições que possibilitaram,
momentaneamente, o desenvolvimento do capitalismo num marco de
democracia política. De um lado as grandes decisões estratégicas
da economia são retiradas do Estado, que cada vez decide menos no
que importa, de outro lado cresce a necessidade de fortalecer o
aspecto repressivo. Gradativamente a função policial vai ocupando
o centro do Estado brasileiro, impulsionada pelo terrorismo dos
meios de comunicação. Nesta eleição estaremos votando nos
administradores de um Estado que cada vez menos pode decidir sobre o
que importa realmente para o nosso povo, mas que tem o papel de
administrar uma crescente máquina policial.
Nossas eleições somente permitem a alternância “democrática”
entre líderes e partidos que se submetem às regras do projeto
neoliberal. As margens de decisão política são cada vez mais
estreitas e podem ser exercidas somente se não afetarem as bases
determinantes da política e economia. A monitoração externa dos
atos de governo tornou-se rotina e os centros decisórios mais
importantes têm sido colocados à margem de qualquer controle
social. Nenhum contrato firmado nos marcos do neoliberalismo pode
ser alterado.
Por
outro lado, a imposição da agenda neoliberal desmascara os limites
da “alternância de poder”. Eleito no desgaste do governo
anterior, cada sucessor se vê aprisionado pelos limites legais,
impulsionando a mesma agenda econômica e desgastando em pouco tempo
sua legitimidade. Cada vez mais, as classes dominantes são
obrigadas a aperfeiçoar sua engenharia política que possibilite
viabilizar seus candidatos. A
percepção geral é que será apenas o momento de escolher quem vai
fazer mais do mesmo.
O
fim da experiência socialista soviética gerando o chamado mundo
unipolar e possibilitando essa fase neoliberal do capitalismo tornou
desnecessária para os Estados Unidos as ditaduras militares em
nosso continente. Desde então, o processo de dominação
imperialista sobre os nossos países passou a se dar em torno da
afirmação das “democracias representativas” formais como única
forma de governo legítima.
Os
regimes “democráticos” que superaram as ditaduras militares não
foram apenas o resultado da luta de massas em torno das bandeiras
democráticas – ainda que esse tenha sido um elemento central.
Correspondem, também a uma estratégia de dominação, que objetiva
neutralizar os projetos revolucionários. Por sua complexidade,
absorvem com muito mais eficácia os conflitos e tensões sociais.
Sob essa forma de dominação, as classes dominantes apostam em um
Estado que exerça o papel de cooptação, marginalização, atomização,
contenção e fracionamento dos processos de organização da luta
popular, reservando a repressão aos setores que não aceitam as
condições de luta política que impõe.
Nosso
sistema de representação política, ou melhor, nosso regime democrático
formal, converteu-se num mecanismo formidável para a reprodução e
blindagem do sistema de dominação. Um de seus mecanismos
principais é a capacidade de absorção e cooptação dos que
tentam transforma-lo a partir de suas regras.
A
terrível pressão do calendário eleitoral do regime democrático
burguês delimitou os horizontes das organizações de esquerda. A
própria estrutura de funcionamento se adaptou ás exigências jurídicas
do Estado, formando militantes cuja perspectiva é a construção de
bem sucedidas carreiras parlamentares que enxergam cada nova liderança
como um potencial cabo eleitoral.
Por
mais que cada organização política que se lance á luta
eleitoral, reafirme que essa não terá sua centralidade (como fez o
PT em seu surgimento), a dinâmica é arrasadora. A estratégia política,
isto é, a estratégia em relação ao poder, gradativamente,
resume-se à estratégia de conquistar postos eleitorais. Isto não
se deu, apenas por ingenuidade, incompreensão ou menosprezo teórico.
Esta confusão foi alimentada e determinada pela própria dinâmica
eleitoral. Mesmo agora, com toda a crise que abala o PT, esse debate
quase nunca aparece, mesmo entre as hostes dissidentes.
Hoje,
os abnegados militantes que persistem na concepção de uma luta
interna que possa devolver o PT para os trilhos da transformação,
rebaixam suas perspectivas e se contentam cada vez com pequenas
migalhas do bolo. Já os que optaram pela construção de uma outra
ferramenta eleitoral acabam se deparando com os mesmos desafios que
domesticaram o PT. Por mais que busquem não se limitar ao calendário
eleitoral acabam dependentes e aprisionados na mesma lógica.
Aliás,
não são apenas a agenda e as prioridades que são determinadas
pela lógica da disputa eleitoral, os valores, o perfil da militância
e a composição da direção política também são gradativamente
moldados para adaptar-se ao objetivo. O acesso à mídia burguesa,
torna-se um elemento imprescindível para galgar postos eleitorais.
Atuando como o verdadeiro partido político da classe dominante, a mídia
burguesa premia os dirigentes comportados e condena ao ostracismo os
militantes incômodos, construindo lideranças que interferem na
luta interna de cada organização eleitoral. Mesmo organizações
que viveram experiências guerrilheiras como a FSLN (Frente
Sandinista de Libertação Nacional), FMLN (Farabundo Marti de
Libertação Nacional) e os Tupamaros, ao se dedicaram á luta
eleitoral padecem dos mesmos efeitos da lógica eleitoral
enfrentando os mesmos debates internos que se verificam na chamada
“Crise do PT”.
No
sistema político brasileiro, as regras eleitorais reforçam essa
dinâmica através do voto em candidatos e não em partidos, dotando
cada parlamentar de uma máquina administrativa (assessores e
recursos) que o fortalecem na estrutura interna do partido político.
Exigem a apresentação de candidaturas somente através de partidos
que cumpram requisitos mínimos e se legalizem com um ano de antecedência.
Quem determina o ritmo de funcionamento, agenda e calendário de um
partido de esquerda são os prazos do Tribunal Superior Eleitoral.
Em
resumo, as tendências burocratizantes a que se submetem as organizações
centralizadas pela luta eleitoral não são fatores circunstanciais,
mas constituem mecanismos objetivos que acabam determinando o
programa, valores, método e o próprio posicionamento de classe.
Nesta lógica, cada passo na viabilidade eleitoral do partido
implica em seu rebaixamento de objetivos e domesticação dentro da
ordem.
Ante
a estratégia das “democracias controladas” como força de
dominação, qual é o balanço que podemos fazer sobre a tática
centrada na luta eleitoral? Avançamos na elevação do nível de
consciência do povo? Desenvolvemos a organização autônoma das
massas? Qual a proposta de superação que se desenvolveu?
O
capitalismo jamais confunde o regime eleitoral com os direitos
democráticos das massas. Liberdades democráticas não se confundem
com o regime democrático formal burguês. Para as gerações que se
formaram nos últimos 20 anos de “Ciclo Eleitoral” essa é uma
estranha afirmação. Para a maioria expressiva da atual militância
de esquerda, a democracia representativa burguesa existente hoje no
Brasil é o único regime possível e nosso papel é defendê-la e
aprimorá-la. Questioná-la poderá “fazer o jogo do
autoritarismo”. Superá-la é algo impensável.
Limitados
a este horizonte, o objetivo estratégico será sempre a preservação
do Estado burguês. Conseqüentemente, a estratégia não pode
trabalhar com a hipótese da ruptura, obrigando que os partidos se
conformem com as regras e a lógica da disputa institucional.
Colocada nestes termos uma revolução que altere as estruturas de
dominação se torna inviável. Pois, se o caminho é alcançar a
vitória eleitoral e quando a alcançamos não podemos mudar nada
para preservá-la. Estamos aparentemente encalacrados.
Sabemos
que a revolução não é um ato, mas um processo de transformação
permanente, com idas e vindas. Todavia, desenvolver uma estratégia
para este processo que não comporta a perspectiva de ruptura,
equivale a torná-lo impotente ante a forma de dominação. Ou então,
implica em trabalhar com uma perspectiva histórica linear que não
comporte descontinuidades.
Este
é o aspecto central que determinou o posicionamento do Movimento
Consulta Popular. Após um intenso debate nacional deliberamos que
nossa posição política, neste momento da história, não está
centrada em torno das eleições, na opção de voto e nem na indicação
de candidatos, mas em torno de um conjunto de propostas estratégicas
que apresentamos ao debate na sociedade brasileira. Nosso desafio é
resgatar a possibilidade de ação política fora desta lógica da
disputa eleitoral de governos. A luta eleitoral converteu-se numa
armadilha para grande parte da esquerda. O que era um meio tornou-se
um fim em si mesmo. A agenda de uma parte da esquerda se limitou à
preparação das eleições. Essa é a lógica que queremos mudar.
Queremos contribuir para formar uma geração disposta a enfrentar
os desafios da transformação de nosso país, com tudo que isso
implica e não de pequenos “políticos” que enxergam cada jovem
militante como um potencial cabo eleitoral para seu projeto pessoal.
Nossa preocupação central deve estar direcionada para a construção
de um ator coletivo, consciente dos limites do sistema
representativo da democracia representativa formal, comprometido com
a construção de um Projeto Popular para o Brasil.
Entendemos
que nosso caminho estratégico é outro. Nós lutamos para derrubar
esse regime democrático formal e construir uma verdadeira
democracia. Para isso nossa preocupação central é construir poder
próprio desde abaixo. Estimular as lutas e as experiências democráticas
do povo, como as assembléias populares.
Construir
o poder popular, desde abaixo implica em desenvolver territórios,
espaços e movimentos que não se abandonam. Detentores de formas de
auto-organização. Capazes de partir de demandas econômicas, mas
impulsionar a luta em torno do programa do Projeto Popular. Capazes
de gerar experiências concretas de democracia. Capazes, enfim, de
gerar exemplos pedagógicos que disputem as consciências com as
classes dominantes.
Construir
a força social do Projeto Popular é empreender ações que
permitam a maior participação possível dos setores populares,
desenvolvendo iniciativas solidárias com outros setores em luta. Ações
e campanhas que possibilitem a construção da consciência de
classe e ajudem a compreender que cada problema reivindicativo, por
mais setorial que se aparente, integra um problema mais profundo,
com causas estruturais que exigem a construção deste Projeto
Popular. O Exemplo Pedagógico e a solidariedade de classe são as
armas para enfrentar a banalização do discurso e concretizar a
necessidade do Projeto.
Como
se vê, são estratégias opostas. Podem estar aliadas na
conjuntura, mas, se guardam alguma coerência, irão se expressar
também em táticas opostas e arrisco dizer, em instrumentos políticos
distintos.
Neste
momento conjuntural, não acreditamos que a esquerda possa se
reunificar em torno de uma candidatura eleitoral. A unidade se dará
em torno de campanhas e lutas de massa que sintetizem as transformações
necessárias. Respeitamos
aqueles que investem no caminho eleitoral como forma privilegiada de
acumular forças e apostamos que um dia nossas táticas distintas
possam ser complementares.
Lutar
pela superação desta “democracia” representativa formal é um
componente de nossa estratégia que deve se expressar em cada
manifestação da tática. Pois a bandeira da democracia pertence
aos povos e não a burguesia. A nova sociedade socialista, enquanto
projeto alternativo exige uma permanente construção coletiva e
pressupõe a maior radicalidade democrática.
Temos
consciência da relação indissolúvel entre a luta social e a luta
política. Mas o processo histórico determinou características
específicas, bastante diferenciadas entre os que se dedicaram á
luta política e os que investiram centralmente na luta social. Os
movimentos sociais que surgem nos anos 80, quase sempre a partir de
um eixo específico, não desenvolvem inicialmente qualquer estratégia
de poder, nem apontam a necessidade de um programa nacional.
Orientam suas resistências ante as investidas neoliberais que
destroem as condições de vida, valores culturais e identidade
enquanto povo. Constituem o pólo dinâmico que pode ter um papel
decisivo no próximo ciclo da esquerda brasileira.
Essa
esquerda social pode se converter no elemento dinâmico do processo
de reorganização de um novo ciclo político dos projetos
transformadores, na medida em que manteve o trabalho de base, a
formação política ideológica de sua militância e a capacidade
de gerar lutas que cumprem o papel de exemplos pedagógicos. Além
disso, converteu-se num pólo capaz de criar espaços de poder. Mas
o elemento principal que lhe confere uma condição de pólo dinâmico
é a capacidade de entender a política não como o acúmulo
quantitativo de postos administrativos, mas como a arte de construir
força social tornando possível, no futuro, aquilo que hoje aparece
como impossível.
O
Movimento Consulta Popular, construído a partir desta esquerda
social, tem consciência de que os movimentos sociais,
desarticulados de um centro político, não constituem uma
ferramenta adequada para disputar a contra-hegemonia e construir uma
alternativa de poder. Nosso desafio é contribuir para a construção
de um instrumento político, dotado de uma estratégia de poder e de
um programa nacional que represente um salto de qualidade no plano
organizativo.
por
RICARDO
GEBRIM
|