Educadores
são sempre otimistas ...
pero
no mucho...
Só
para lembrar
Na
eleição passada, quando o atual Presidente assumiu o poder, houve
um sentimento generalizado de que, finalmente, a Educação
assumiria a prioridade que há mais de 50 anos, educadores - de
todas as tendências políticas e correntes pedagógicas - vieram
defendendo seja por meio de propostas arrojadas ou de manifestos,
iniciativas de caráter legal e processos de mobilização que
sempre tiveram como meta colocar a educação como centro irradiador
de um novo processo político e de formação de uma nova cidadania.
Há
quatro anos passados as previsões eram mais do que otimistas com
respeito ao então presidente eleito. Oriundo de um partido que
sempre colocou a Educação como prioridade de política pública e
com quadros de elevada qualificação técnico-científica,
especialmente no ambiente universitário, o
fator Lula provocou inúmeras reuniões e encontros com o
surgimento de propostas
de governo para o período 2003-2006.
Estas
propostas colocaram no centro dos debates, temas como o da efetivação
do Plano Nacional de Educação, sancionado
por FHC em janeiro de 2001, em razão dos
vetos apostos pelo então Presidente que, mediante
justificativas de natureza jurídica, impediu a vigência de
todos os dispositivos que tivessem como objetivo o aumento de
recursos destinados ao setor educativo.
Na ocasião, o então candidato Lula se comprometeu a rever
essas restrições, e até agora... nada aconteceu.
Passaram-se
quatro anos de governo e muitas coisas outras coisas ocorreram,
ademais de que os vetos continuam dormitando em algum gabinete... O
rodízio de ministros continuou a média histórica de um a cada
ano, a predominância de programas sobre as políticas seguiu seu
curso e a ausência de um projeto político-educacional, capaz de
articular as ações dos entes federados,
também é de todos conhecido.
Além
de tudo, tampouco ampliamos um centavo do PIB investido em Educação.
A síndrome dos 4.0, 4,5 % do produto interno bruto aplicado no
setor continua a denunciar que nada avançamos em relação ao que
viemos praticando ao longo das últimas décadas.
Hoje,
as pesquisas eleitorais indicam a provável vitória do atual
Presidente e talvez seja o momento de lembrar algumas questões
elementares que a história ensina a todos que desejam construir uma
sociedade mais igual e mais plural, tomando a educação como política
central para novos rumos.
Onde
está a decisão política?
Os
paises que deram certo em
Educação tiveram, em algum momento de sua história, uma liderança
política que foi capaz
de aglutinar apoios que garantiram a continuidade de uma transformação
educacional que se revelou, no tempo,
multiplicadora de benefícios às demais políticas
comandadas pelo poder executivo. Isto pode ser verificado nas várias
ações empreendidas pelos países da Europa no final do século XIX
e primeira metade do século XX, além de outras iniciativas, já no
século XX, no Leste Europeu, no Sudeste Asiático e na América
Latina e Caribe.
A
motivação da Inglaterra, no final do século XIX, para criar um
sistema de educação pública teve como processo mobilizador, entre
outras razões, a
necessidade de retirar as crianças das linhas de produção de um
processo industrial selvagem, onde estas trabalhavam até 14 horas
diárias em condições absolutamente insalubres.
A
democracia americana só foi possível graças a um sistema escolar
que envolveu a todos, sequiosos por construir uma nova pátria em
moldes que assegurassem a precedência dos direitos e garantias
individuais em detrimento das estruturas opressoras dos séculos 18
e 19 que motivaram os criadores da declaração de independência da
grande nação do Norte.
Na
América Latina e Caribe, os casos de Argentina, Uruguai, Chile,
Cuba e Costa Rica, para ficar em exemplos mais conhecidos,
representam momentos
dos séculos XIX e XX onde lideres políticos e educacionais, com
visões de grandes estadistas, tiveram oportunidades históricas de
construir estruturas que ainda hoje poderiam ser exemplares para
nosso país se estivéssemos dispostos a copiar propostas
que deram certo em outros lugares.
O
mérito dessas iniciativas, tão próximas de nós, que ainda podem
ser aproveitadas por aqueles que desejam uma revolução
pela Educação, é a de revelar
que não se faz uma política educacional num período
governamental de
quatro, cinco ou seis anos. Isto exige continuidade e compromisso
que deve ser institucionalizado de forma que não possa ser
modificado segundo os desejos do eventual ocupante do poder em
determinado momento.
Observando
o que se passou ao longo do governo FHC e do
Governo Lula podemos perceber que quase nada mudou. O centro
de decisões políticas na área da Educação está vinculado ao
setor fazendário, que determina a quantidade de recursos que devem
ser alocados. Aliás, a dar crédito ao que informam os
especialistas em estudos sobre financiamento da educação, desde a
década de 60 quando os militares assumiram o poder, o país não
foi capaz de ultrapassar a barreira dos 4.5% de investimentos do PIB
para o setor educativo.
A
lógica política que preside este raciocínio é puramente
economicista, o que possibilitou a cristalização de uma visão
perversa que afirma mais ou menos o seguinte - o problema da educação não é de falta de recursos mas a maneira
(errada, dizem ) como estes são utilizados.
Todos
os educadores concordam com esta afirmação desde que se reconheça
que os investimentos nunca são canalizados para valorizar o
professor, a melhoria das condições de funcionamento da escola,
ampliação da jornada diária do aluno na escola e outras ações
que efetivamente possam fazer a diferença da qualidade que todos
reclamam.
Construir
elefantes brancos para
atender vaidades de políticos sequiosos de notoriedade histórica,
erguer prédios para atender interesses de empresas, autorizar
quadras esportivas para cumprir
propósitos eleitorais
ou aplicar recursos escassos em programas de eficácia duvidosa,
isto sim representa
gastar mal os poucos recursos existentes. De outra parte, estes
desvios são recorrentemente
denunciados por todas as entidades sérias da área.. De outra
parte, não se conhece nenhum pais que tenha dado um salto
educativo, para um patamar de elevada qualidade, investindo apenas
4,5 % de seu PIB em Educação.
Romper
este circuito de inércia
educativa exige algo mais do que medidas de caráter
educativo-assistencialistas, enrascada em que nos metemos a partir
da gestão FHC. A primeira providencia seria a decisão de investir
o que fosse necessário para desenvolver um projeto de educação de
qualidade para todos.
Será
que estamos dispostos a inverter a lógica do gasto possível para o
investimento necessário ?
A
possível reeleição do Presidente Lula
Este
artigo foi finalizado na semana em que todas as pesquisas de opinião
davam a vitória ao Presidente Lula, para um segundo mandato, com
mais de 20% dos votos validos sobre o segundo colocado. A lenda diz
que ao vencedor as batatas.
Apenas
para ilustrar, vale a pena lembrar como está o cenário educativo
do país. Os indicadores de qualidade do ensino fundamental nos
colocam entre os piores nas listagens habitualmente divulgadas pela
Unesco. Isto significa que há uns 68-70 países melhores do que nós
em matéria educativa. Estes números envolvem questões relativas
ao que os alunos aprendem nas disciplinas básicas do ensino
fundamental e também
assuntos relacionados a percentuais de conclusões de curso, entre
outros.
A
solução de marketing, redescoberta com ares de elevada modernidade
no governo FHC e potencializada pelo atual presidente, criou vinculações
estruturais profundas entre assistencialismo e educação. Desde as
variadas formas de bolsas até
o sofisticado sistema de cotas,
criou-se em várias camadas da população a sensação de que
muito se está fazendo.
Os
vestibulares agendados (espécie
de matricula acertada por telefone) denunciam que a quantidade de
vagas de cursos superiores, em
muitos lugares, supera o número de concluintes do ensino médio .
Sair
dessa armadilha, com um contingente de 85% de alunos de ensino
superior matriculados em instituições privadas não é algo fácil
de ser superado. Por linhas tortas isto está provocando, de outra
parte, maior demanda por instituições públicas. É possível que
tenhamos um novo surto de federalizações de instituições de
ensino superior, como já advertem alguns analistas das tendências
de expansão desse ramo de ensino.
No
entanto, o que certamente marcaria indelevelmente o mandato da
reeleição do atual Presidente, como o grande transformador da
educação nacional, seria a decisão de ser articulador do pacto
nacional pela melhoria da educação. Isto exigiria algo que nenhum
Presidente decidiu assumir e que talvez valesse a pena considerar,
como indicamos a seguir:
A
Educação como prioridade nacional
Assumida
publicamente a decisão de dar à educação a prioridade que ela já
vem recebendo em discursos e documentos oficiais, exigiria o
Presidente deveria impor mudanças na condução dos assuntos
educativos enquanto política governamental.. A materialização
desta orientação implicaria em fixar para o setor educativo os
recursos que fossem necessários – nas esferas federal, estadual e
municipal e também junto às demais instituições que atuam na área:
grupos privados, setor empresarial, entidades comunitárias,
sindicatos, igrejas e tantos outros.
A
liderança deste processo, certamente, deveria ser assumida como
prioridade absoluta de governo, o que certamente provocaria modificações
na forma de conceber os orçamentos públicos para o setor
educativo. Fixadas metas a serem alcançadas em cinco, dez ou quinze
anos, deveria ser obrigatória a aplicação dos montantes de
recursos de investimentos estabelecidos
nos orçamentos, sob
pena de sanções a
serem fixadas nas leis de execução orçamentária.
Num
país federado como o nosso, onde Estados, Municípios, iniciativa
privada e mais recentemente, organizações não-governamentais e do
terceiro setor são entes importantes para a execução de uma política
educacional consistente, a presença marcante de um Presidente da
República, articulando governadores, prefeitos e sociedade em
geral, inaugurando escolas (que aliás no Brasil eles quase sempre
estão ausentes) e motivando com seu interesse toda a sociedade
seria sinal mais do que
suficiente para transformar, na prática, a educação numa autêntica
prioridade nacional.
Pelo
que se escuta nas rádio-corredores
dos ministérios, em Brasília, parece que o Presidente Lula estaria
disposto a assumir o desafio de entrar para a história política
como o Presidente da Educação, caso vença a eleição do segundo
mandato.
Questões
fundamentais
A
revisão do Plano Nacional de Educação, lei que ainda não foi
plenamente implementada, pois permanece com vetos que aguardam decisão
do Presidente, é tarefa urgente e inadiável, na medida em que isto
possibilitaria a fixação de algumas decisões relevantes para os
próximos quinze ou vinte anos.
1.
Ampliar os investimentos das esferas públicas e de outros
setores para que o país possa atingir um patamar de algo em torno
de 7- 8% do Produto Interno Bruto em Educação;
2.
Mobilizar a nação para o debate sobre um novo plano
nacional de educação, onde metas sejam casadas
com disponibilidade e aplicação de recursos;
3.
Rever a destinação e aplicação das verbas do FAT e do salário-educação;
4.
Rever as funções do Conselho Nacional de Educação, cuja
principal função seria o acompanhamento sistemático da execução
do Plano Nacional de Educação;
5.
Estabelecer mecanismos que permitam a freqüência regular de
todos os alunos às escolas, com ampliação progressiva da jornada
diária, desobstruindo
o fluxo escolar para que todos possam cumprir, pelo menos, 9 anos de
escolaridade num espaço de tempo a ser analisado e
sistematicamente checado (incorporando definitivamente, as
classes de alfabetização ao ensino fundamental);
6.
Planejar e implementar políticas de formação, atualização
e valorização de
professores em todos os níveis, identificando demandas e
necessidades regionais de ordem qualitativa e quantitativa (quantos
professores, em que níveis são necessários, quais as carências
por área de conteúdo e reativar as escolas normais e pós-normais
onde a formação em ensino superior, em muitos lugares, ainda é meta inatingível. Em tempos de crise, medidas de
emergência são necessárias);
7.
Incorporar estratégias de educação a distância à formação
continuada de professores;
8.
Estabelecer um debate em nível nacional e regional a
respeito da reabilitação e ampliação das escolas técnico-profissionalizantes;
9.
Cumprir, definitivamente, os protocolos internacionais e
erradicar o analfabetismo de jovens e adultos, identificando cidadãos
e cidadãs de 15 anos e mais que possuam 4 anos e menos de
escolaridade e criar cursos adaptados às necessidades e
possibilidades de freqüência;
10.
Identificar, através das pesquisas do IBGE, a demanda real
por educação infantil e criar núcleos regionais que planejem
alternativas para criação de creches e pré-escolas;
11.
Colocar em pauta, novamente, o piso salarial nacional para
professores;
12.
Investir em infra-estrutura de informação e comunicação e
criar tele-centros em cada uma das escolas de ensino fundamental e médio
do país;
13.
Planejar a inclusão de minorias (negros, indígenas,
portadores de necessidades especiais) nas escolas de ensino
fundamental a partir do planejamento curricular e da formação de
professores;
14.
Rever o papel das universidades públicas no cenário do
ensino superior brasileiro, onde dada a escassez de centros de formação
de qualidade, as universidades públicas, regionalmente,
disponibilizariam seus recursos humanos e de infra-estrutura,
constituindo-se em unidades de referência, acompanhamento e orientação
do ensino superior privado, em regime de parceria e colaboração;
15.
Planejar as avaliações qualitativas em todos os níveis
seguindo padrões internacionais de aferição.
Vale,
portanto, lembrar o antigo refrão:
“quem
sabe faz a hora,
não
espera acontecer...”
(Geraldo
Vandré)
Deixo
portanto a pergunta: Se sabemos... por que não fazemos?
por
WALTER
E. GARCIA
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