Herança
maldita
“_Ah,
somos todos irmãos, criaturas inquietas
e sofredoras; mas não nos reconhecemos uns aos outros. É
preciso outro amor ainda, outro amor...” (Thomas Mann)
As
eleições deixam atrás de si o fogo dos interesses, das esperanças
e dos sonhos que se transfiguram em euforia e desencanto. Em
compensação, chocam-se pela frente, com a maldição herdada do
passado colonial, do escravismo e da subalternidade generalizada.
A
brecha classe x utopia
subsiste. Dos ricos e poderosos, por olharem a realidade como se
mandar e explorar fossem um ópio. Dos oprimidos, por não entrelaçarem
privações a toda a sua força e revolta.
O
“sufrágio universal” suportou distorções chocantes. Mas
assustou os primeiros e acordou os últimos. Aqueles, porque
descobriram que perdem com rapidez uma tirania secular. Estes,
porque a cada volta do tempo sentem aproximar-se o seu momento histórico
decisivo.
O
“presidente” recebe o impacto dessa maldição, que se dissolve
lentamente, de maneira tão sórdida.
Prisioneiro
dos de cima, percebe que a “Presidência imperial” também é
uma armadilha contra ele. Não fala pela e na nação e se engana
com o “somos todos irmãos”.
Sua
liberdade de agir fica entre os humilhados aos quais não consegue
estender mãos fraternas e solidárias.
Sua
autoridade termina onde principia a autocracia da minoria dominante.
Ela regula as oscilações de promessas falsas e de opressão real,
incrustadas nas instituições quimericamente “constitucionais”.
A
maioria composta por assalariados e milhões de destituídos,
recorre à submissão ou ao confronto.
Por
sua massa poderia pulverizar o sistema que rouba, mente, divide e
esmaga. Falta-lhe penetrar no enigma de suas contradições – seu
poder de classe e a necessidade de assimilação com os sem-classe,
batendo-se com eles por reforma ou revolução.
Ou
seja, repudiar a ordem imposta como se fosse “democrática” e
todas as falácias nela contidas.
A
seu favor conta com utopias, que carecem de expurgos e unificação.
O econômico, social, cultural e político são interdependentes e
instrumentais para converter a luta de classes em fator de desalienação
e desemburguesamento.
O
“presidente” não está acima dessa pugna redentora. Se
pretender-se “neutro”, estará perdido, sem poder para governar.
Se ousar “decidir o sentido da história”, acabará tragado
pelos que o usam como refém.
Aparecerá,
quando muito, como “condottieri”
simulado de uma sociedade montada sobre iniqüidades
abissais. E facilitará as posições dos homens-lobos, que devoram
seus desafetos e impedem sua humanização.
Esse
dilema não apresenta saídas. A menos que o “presidente”
aprenda que servir à nação implica reconstruir a sociedade civil
e o Estado.
Não
basta que ele discurse sobre desemprego, fome, ignorância, doença,
etc. Urge resolver tais problemas pela transformação do homem, da
sociedade e da civilização.
É
imperativo vincular os de baixo a batalha política que redima o
Brasil da multiplicação da barbárie, liberando-se a si mesmo
junto com o povo.
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