por FLORESTAN FERNADES

In memoriam

 

 

Herança maldita

 

“_Ah, somos todos irmãos, criaturas inquietas  e sofredoras; mas não nos reconhecemos uns aos outros. É preciso outro amor ainda, outro amor...” (Thomas Mann)

 

As eleições deixam atrás de si o fogo dos interesses, das esperanças e dos sonhos que se transfiguram em euforia e desencanto. Em compensação, chocam-se pela frente, com a maldição herdada do passado colonial, do escravismo e da subalternidade generalizada.

A brecha classe x utopia subsiste. Dos ricos e poderosos, por olharem a realidade como se mandar e explorar fossem um ópio. Dos oprimidos, por não entrelaçarem privações a toda a sua força e revolta.

O “sufrágio universal” suportou distorções chocantes. Mas assustou os primeiros e acordou os últimos. Aqueles, porque descobriram que perdem com rapidez uma tirania secular. Estes, porque a cada volta do tempo sentem aproximar-se o seu momento histórico decisivo.

O “presidente” recebe o impacto dessa maldição, que se dissolve lentamente, de maneira tão sórdida.

Prisioneiro dos de cima, percebe que a “Presidência imperial” também é uma armadilha contra ele. Não fala pela e na nação e se engana com o “somos todos irmãos”.

Sua liberdade de agir fica entre os humilhados aos quais não consegue estender mãos fraternas e solidárias.

Sua autoridade termina onde principia a autocracia da minoria dominante. Ela regula as oscilações de promessas falsas e de opressão real, incrustadas nas instituições quimericamente “constitucionais”.

A maioria composta por assalariados e milhões de destituídos, recorre à submissão ou ao confronto.

Por sua massa poderia pulverizar o sistema que rouba, mente, divide e esmaga. Falta-lhe penetrar no enigma de suas contradições – seu poder de classe e a necessidade de assimilação com os sem-classe, batendo-se com eles por reforma ou revolução.

Ou seja, repudiar a ordem imposta como se fosse “democrática” e todas as falácias nela contidas.

A seu favor conta com utopias, que carecem de expurgos e unificação. O econômico, social, cultural e político são interdependentes e instrumentais para converter a luta de classes em fator de desalienação e desemburguesamento.

O “presidente” não está acima dessa pugna redentora. Se pretender-se “neutro”, estará perdido, sem poder para governar. Se ousar “decidir o sentido da história”, acabará tragado pelos que o usam como refém.

Aparecerá, quando muito, como “condottieri”  simulado de uma sociedade montada sobre iniqüidades abissais. E facilitará as posições dos homens-lobos, que devoram seus desafetos e impedem sua humanização.

Esse dilema não apresenta saídas. A menos que o “presidente” aprenda que servir à nação implica reconstruir a sociedade civil e o Estado.

Não basta que ele discurse sobre desemprego, fome, ignorância, doença, etc. Urge resolver tais problemas pela transformação do homem, da sociedade e da civilização.

É imperativo vincular os de baixo a batalha política que redima o Brasil da multiplicação da barbárie, liberando-se a si mesmo junto com o povo.

   

 

 

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Fonte: Folha de S. Paulo – 10-09-1994.  p. 1-2 

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