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por
RICARDO ANTUNES
Professor
Titular de Sociologia do IFCH/UNICAMP, acaba de publicar Uma
Esquerda Fora do Lugar (Ed. Autores Associados), do qual esse
artigo, com pequenas alterações, faz parte. Coordena as coleções
Mundo do Trabalho (Ed. Boitempo) e Trabalho e Emancipação (Ed. Expressão Popular). Recebeu
recentemente os prêmios Zeferino
Vaz (UNICAMP) e Cátedra
Florestan Fernandes (CLACSO)
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Voto
nulo?
A
política, concebida e praticada ao modo tradicional, encontra-se no
fundo do poço. Do descrédito total ao parlamento, Câmara e
Senado, à tese baseada no senso comum de que “todos são
iguais”, há bons indícios que justificam a descrença total nos
caminhos da política.
O
último grande argumento, usado para a ampliação daqueles que estão
optando pelo voto nulo, é a constatação de que a esperança
depositada no governo Lula, escoou pelo ralo. O mais expressivo
partido de esquerda do Brasil soçobrou vertiginosamente frente aos
ditames e encantos da ordem dominante. Não ofereceu nem mesmo uma
única opção de fato alternativa e contrária à pragmática
dominante, que riscasse um pouco o receituário do superávit,
ajuste fiscal, defesa dos bancos e finanças globais, incentivo aos
capitais voláteis etc.
Sua
Bolsa-Família, alguém poderia lembrar, é de um assistencialismo
que há alguns anos atrás seria recusada até mesmo pelos setores
localizados mais ao centro do espectro político, tal sua insuficiência.
É incapaz de arranhar minimamente a estrutura geradora da miséria
e da barbárie social. Passa longe disso. Da política dos transgênicos
às parcerias público-privadas, algo que Thatcher introduziu na
Inglaterra, tudo ficou pautado dentro de uma política (tradicional)
que oscilou entre o servilismo abjeto e o encantamento dos novos
ricos, espécie de “analistas simbólicos” que fizeram do
sindicalismo e do PT a escalada para servir aos detentores do poder
com volúpia assustadora. Para se converterem em verdadeiros
gestores do capital.
Na
contextualidade política marcada pelo neoliberalismo, financeirização,
mundialização, desregulamentação e precarização do trabalho, o
PT transfigurou-se, convertendo-se no mais bem sucedido exemplo de partido
da ordem. Sucumbiu à corrupção política com uma voracidade
que deixou estonteada a velha oligarquia que hoje continua
aparelhada nos corredores políticos e burocráticos do governo do
PT de Lula. Tem como aliados diretos aqueles que foram – e ainda são
– por décadas, agentes da corrupção (privada e política) mais
escandalosa do país. A última foto de Lula oferecendo a Quércia e
seu partido a vice-presidência do país é expressão aviltada do
conchavo ilimitado.
E,
com isso, rolaram, ladeira abaixo, muitas das esperanças de que
algo de novo pudesse ocorrer, mesmo que singelo. A disputa eleitoral
que se quer manter no terreno do centro, entre Lula e Alckmin, é
exemplar. Ambos, agora, não fazem outra coisa senão disputar uma
ex-donzela mais que decadente – melhor seria compará-lo a um
velho negociante, mais matreiro quanto mais o tempo avança -
presente no embolorado PMDB.
É
de se compreender, então, que as pesquisas apontem o voto nulo como
crescente e capaz de aglutinar boa votação. Pela direita, onde a
descrença despolitizada é o prato feito da direita; pela esquerda,
onde há (justas) razões para imaginar que a tragédia do PT de
Lula possa se repetir no novato PSOL ou em outras forças políticas
de esquerda.
Há
um movimento pendular, então, que oscila assim: num pólo, tem-se a
crítica tradicional da política, no qual “todos são iguais e
corruptos”; noutro, uma impulsão (compreensível) para a antipolítica,
deixando que o debate e o circo eleitorais fiquem para o engodo dos
alquimistas do marketing eleitoral que procuram vender políticos como se fossem
sabonetes.
Só
existe uma alternativa para quebrar esse pêndulo da conservação:
a composição de um pólo social e político de base, respaldado
pela força popular, que não tenha medo em oferecer ao país as
causas reais, profundas, históricas e estruturais, de nossas
mazelas sociais e políticas. Que não tenha receio em apontá-las,
para não “assustar” o “eleitor médio”. Que não queira
fazer uma campanha para ganhar a qualquer preço, deixando de falar
o que deve ser dito. Que não se assuste com a repercussão da mídia,
que tenderá rapidamente a estigmatizá-la. Que não tenha vergonha
de se apresentar, para lembrar a forte frase dita pelo sociólogo
francês Pierre Bourdieu, que cobrou da França dos anos 90 o esforço
para (re)construir uma
esquerda de esquerda. Esse é o desafio maior da Frente de Esquerda, com o PSOL/PSTU/PCB, através da candidatura de
Heloísa Helena. Uma alternativa que não acredita, como o Fukuyama,
que a história acabou. Quando ela, de fato, parece que ainda nem
começou...
por
RICARDO
ANTUNES
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