por ROSELI ARAÚJO BARROS COSTA

Mestre em Educação em Ciências e Matemáticas pelo Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemáticas da UFPA, no Núcleo Pedagógico de Apoio ao Desenvolvimento Científico (NPADC).

 

TADEU OLIVER GONÇALVES

Doutor em Educação Matemática e docente no Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemáticas da UFPA, no Núcleo Pedagógico de Apoio ao Desenvolvimento Científico (NPADC)

 

Histórias de vidas de professores: apontamentos teóricos [1]

 

Por que história de vida?

As histórias de vida dos professores se constituíram por muito tempo, como uma espécie de paradigma perdido da investigação educacional. Para Nóvoa (1992), as histórias de vida têm sido objeto de muitas críticas originadas de diversos setores, centralizadas na fragilidade metodológica, na ausência de validade científica, no esvaziamento das lógicas sociais, na excessiva alusão a aspectos individuais e na inabilidade de entender as dinâmicas grupais de mudança social. Apesar de todas as críticas é inegável que as histórias de vida têm originado práticas e reflexões muito estimulantes, condimentadas pelo encontro de várias disciplinas e pelo recurso a uma variedade de ajustamentos conceituais e metodológicos.

Atualmente, existe um verdadeiro movimento sócio-educativo em torno de história de vidas, com enorme profusão de abordagens, que necessitam de um esforço de elaboração teórica baseada numa reflexão sobre as práticas e não sob a ótica normativa e prescritiva. Este movimento nasceu de uma mistura de anseios de fazer nascer um outro tipo de conhecimento mais próximo das realidades educativas e do cotidiano do professor. Progressivamente, este movimento tem dado uma atenção especial às práticas de ensino, o que tem sido aperfeiçoado pelo olhar dado sobre a vida e a pessoa do professor. As experiências e estudos sobre histórias de vida no âmbito da profissão docente ilustram bem toda a debilidade e complexidade da prática educativa.

O professor, enquanto profissional, expressa diferentes destrezas, informações, crenças, atitudes, inquietações e interesses durante sua carreira. Ao longo dessa trajetória ocorrem fatos, negativos ou positivos, que contribuem direta ou indiretamente para que ele se desenvolva profissionalmente. Esse desenvolvimento é visto como um fenômeno de mudança que ocorre ao longo dos anos, como um processo de aprendizado que se prolonga e acontece durante toda a vida, quando olhamos a pessoa como um todo. Para entendermos melhor como acontece esse desenvolvimento, é importante lançarmos um olhar sobre as experiências pelas quais os professores passam, buscando conhecer sua história de vida. Através dessa história, podemos detectar formas de apoio e entraves para que esse desenvolvimento aconteça, podemos olhar pontos decisivos e os focos de interesse durante sua trajetória.

[...] Ao lançar um olhar mais detido e mais arguto sobre seu passado, os professores têm a oportunidade de refazer seus próprios percursos, e a análise dos mesmos tem uma série de desdobramentos que se revelam férteis para a instauração de práticas de formação. Eles podem reavaliar suas práticas e a própria vida profissional de modo concomitante, imprimindo novos significados à experiência passada e restabelecendo suas perspectivas futuras (BUENO, 1998, p. 15).

A história de vida não diz respeito apenas ao passado. Ela garante a direção e a coerência necessárias para cada um agir no presente e pensar o futuro. Retornar à memória nos alerta que “[...] diferentemente do saudosismo, de um projeto gratuito ao passado, esse resgate se faz projeto de um futuro diferente” (VASCONCELOS, 2000, p. 11). Por sua vez, resgatar a memória ganha novo significado, revestindo-se ainda de um sentido particular.

Mas o que é memória?

Memória é tudo aquilo do que uma pessoa se lembra, como também sua capacidade de lembrar. Segundo Kessel (200-), na mitologia grega a memória era sobrenatural, um dom a ser exercitado. A memória era uma deusa, Mnemosine, que, unida a Zeus, gerou as nove musas, divindades responsáveis pela inspiração de poetas, literatos e filósofos. A deusa, mãe das Musas, protetora das artes e da história, possibilitava aos poetas lembrar do passado e transmiti-lo aos mortais. Para os romanos, a memória é considerada indispensável à arte retórica, uma arte destinada a convencer e emocionar os ouvintes por meio do uso da linguagem. O orador deveria conhecer as regras e não recorrer aos registros escritos. Halbwachs (1990, p. 160), ao definir a memória afirma que:

[...] Não é certo então, que para lembrar-se, seja necessário se transportar em pensamento para fora do espaço, pois pelo contrário é somente a imagem do espaço que, em razão de sua estabilidade, dá-nos a ilusão de não mudar através do tempo e de encontrar o passado no presente; mas é assim que podemos definir a memória; e o espaço só é suficientemente estável para poder durar sem envelhecer, nem perder nenhuma de suas partes.

Os estudos empreendidos por Halbwachs chamam a atenção para a função da memória coletiva “[...] de reforçar ou constituir um sentimento de pertinência a um grupo, classe ou categoria que participa de um passado comum” (CATANI et al 2003, p. 23). Halbwachs contribuiu definitivamente para a compreensão dos quadros sociais que compõem a memória. Para ele, a memória aparentemente mais particular remete a um grupo. O indivíduo carrega em si a lembrança, mas está sempre interagindo com a sociedade, e é, no contexto destas relações que construímos as nossas lembranças. A rememoração individual se faz na tessitura das memórias dos diferentes grupos com que nos relacionamos, ou seja, “[...] cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, [...] este ponto de vista muda conforme o lugar que ali eu ocupo, e [...] este lugar mesmo muda segundo as relações que mantenho com outros meios” (HALBWACHS, 1990, p. 51).

Se a memória traz à tona imagens do passado, fisicamente, ela é o processo de aprender, armazenar e recordar uma informação. Memória não é história. A história é a narrativa que montamos a partir de nossa memória, a (re)construção do que lembramos. Memória tampouco representa um depósito de tudo o que nos aconteceu. A memória é seletiva, pois guardamos aquilo que, por um motivo ou por outro, tem ou teve algum sentido em nossas vidas. A memória compõe o suporte essencial de uma identidade individual e coletiva. Verbalizamos a nossa memória através da memória oral. Esta é o processo da lembrança e da oralidade de nossas recordações, é a forma de registro mais primitiva que possuímos. De forma seletiva, grupos e indivíduos articulam suas experiências passadas formulando uma narrativa histórica acerca de suas trajetórias. Esta narrativa é construída e reconstruída segundo nossas perspectivas presentes e, ao mesmo tempo, constitui a base a partir da qual vislumbramos nosso futuro. A memória oral representa a forma mais antiga e mais humana de transmissão e consolidação dessa narrativa (KESSEL, 200-).

A memória é algo vivo que, ao ser contada, o passado e o presente vão se embaralhando no presente. A memória vai sendo revirada e emerge do passado e, nessa imersão, o que vem à tona é o que é relevante para o narrador. Nesse processo em que a memória é vasculhada

[...] os sentidos vão resgatando do passado as emoções, as sensações as experiências vividas em algum momento e que ficaram impressas nos corpos, nas mentes. Mas os antigos pensamentos novos, escritos na memória, são reescritos também em pausas, silêncios, vazios cheios de significado. É preciso aguçar os sentidos para tentar captar os sentidos trazidos pela palavra (repleta de tantas outras vozes que fizeram e fazem o que o (a) narrador (a) é no momento da narrativa) (JESUS, 2000, p. 23).

A imaginação flui através da memória, possibilitando misturar o vivido com o esperado, lançando luzes e nuances na memória, trazendo o que se imaginou ter vivenciado e sentido, iluminando, também, o futuro, que muito pode ter das expectativas, sensações e anseios do presente. Contudo, é a narrativa que permite que venha à tona uma nítida manifestação dessa experiência, permitindo que o tempo vivido mesmo que não possa ser plenamente ilustrado, venha a germinar e florescer.

Histórias e narrativas

As histórias e as narrativas são lugares comuns em nossa vida cotidiana. As narrativas ajudam-nos a colocar ordem e coesão à nossa experiência e a dar sentido aos acontecimentos de nossa vida. A história é a maneira como organizamos e traduzimos para o outro aquilo que reconhecemos em nossa memória. Para Benjamin, a história é:

[...] A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido [...] irrecuperável é cada imagem do presente que se dirige ao presente, sem que esse presente se sinta visado por ela (apud CATANI et al, 2003, p. 15).

A história é a reconstrução dessa memória através de uma narrativa, individual ou coletiva. Ao mesmo tempo, ela pode constituir um registro de fatos ou um mosaico de lembranças. É registro quando traduzida oficialmente em fatos narrados nos livros e manuais, e mosaico quando passa a ser o conjunto de histórias de um determinado grupo social. A narrativa consolida valores e norteia a compreensão do presente, para o indivíduo e o grupo. Reconstruir essa narrativa é uma forma de repensar nossa história, oportunizando transformar nosso presente e futuro (KESSEL, 200-).

Os protagonistas da história são as pessoas. São elas que fazem a história cotidianamente. As pessoas são, ao mesmo tempo, agentes e narradores de suas narrativas. A possibilidade de cada pessoa ou grupo organizado produzir sua história possibilita a mudança dos paradigmas dominantes da História. A rede de informação formada por essas histórias é uma ferramenta poderosa para a consolidação da cidadania de todas as pessoas. A idéia de que nossa memória tem valor social nos potencializa como agentes de nossa própria história e, também, de nosso grupo. Resgatar histórias de vida permite vôos amplos.

[...] Possibilita articular biografia e história. Perceber como o individual e o social estão interligados, como as pessoas lidam com as situações da estrutura social mais ampla que se lhes apresentam em seu cotidiano, transformando-o em espaço de imaginação, de luta, de acatamento, de resistência, de resignação e criação. Permite refletir a respeito da memória para muito além dos registros efetivos pela história oficial. Aponta para aquilo que é fabricado, inventado ou transmitido como realidade. Sinaliza também para tudo que é escondido, obscurecido, mascarado e precisa ser recuperado libertado do silêncio, tirado da penumbra (VASCONCELOS, 2000, p. 09).

Nesse resgate, os depoimentos de vida são uma fonte dinâmica e valiosa. Garantem a produção de um conhecimento gerado não por narrativas estanques, mas advindo das diversas experiências e visões das pessoas que constituem nossa sociedade. A história de vida é a narrativa que cada pessoa faz de si mesmo. É a visão de mundo que cada um transmite aos outros, isto é, o sujeito “[...] que tece a si próprio no exercício de narrar-se, explica-se e dá indícios, em sua trama interpretativa, para a compreensão do contexto no qual ele esta se constituindo” (GARNICA, 2003, p. 16). De qualquer maneira, é o indivíduo que filtra, ou não, os acontecimentos em sua memória e faz a última construção de sua narrativa. As narrativas resultam da forma como cada um vivenciou sua experiência. É o que podemos chamar de cruzamento entre o indivíduo e o grupo.

A narrativa não tem a ambição de transmitir um acontecimento, mas integrá-lo à “[...] vida do narrador, para passá-lo aos ouvintes como experiência. Nela ficam impressas as marcas do narrador como os vestígios das mãos do oleiro no vaso de argila” (BENJAMIN apud JESUS, 2000, p. 22). Entretanto, para que isso aconteça se faz necessário ouvir a história do sujeito e deixar que ele conte a sua história. O depoente, ao narrar, descreve e, ao mesmo tempo, compõe o seu cenário, estabelecendo uma comunicação com o ouvinte; e significados tendem a serem atribuídos para ambos nessa escuta recíproca. Portanto, ouvir é a melhor maneira de entender o outro e se romper preconceitos sociais e promover a pluralidade.

Bolzan (2002, p. 74), apoiando-se nas idéias de Bakthin, acredita que a palavra se constitui em material fundamental da consciência, revelando-se como produto da interação entre os indivíduos durante a comunicação, ela constitui o meio pelo qual se produzem modificações sociais. Já, Larrosa (2003), considera a palavra como o meio pelo qual cada um de nós tenta dar sentido a si mesmo, construindo-se como um ser de palavras, a partir das palavras e dos vínculos narrativos que recebemos.

Assim, como não deixar a suspeita de que a crescente abundância de nossas palavras e de nossas histórias não tem como correspondente o aumento de nossa inquietação? Talvez nós homens e mulheres, não sejamos outra coisa que um modo particular de contarmos o que somos, a partir de pedaços de histórias que recebemos. Nessas histórias, cada um configura o que ele é, sua própria história, a partir de fragmentos desconexos das histórias que recebeu,

 “[...] incorporando-as, por sua vez, negando-as, desconfiando delas e transformando-as de maneira que ainda possam ser habitáveis, que ainda conservem uma certa capacidade de pô-los de pé e abrigar, seja por um momento sua indigência” (LARROSA, 2003, p. 22).

Essas histórias ocupam o lugar de nossa inquietude, o vazio em que se abriga nossa ausência de destino. Talvez as palavras proferidas ou escritas, ouvidas ou lidas, sejam necessárias para acalmar a nossa inquietude. Quem sabe cada um de nós transforma nossa inquietude em uma história e, para tanto, contamos com os restos desordenados das histórias que recebemos? É o que Larrosa chama de autoconsciência ou identidade profissional, que tem a forma essencialmente narrativa.

Se a história tem a alma essencialmente narrativa, a história de vida é a explicação e a narrativa que montamos a partir de marcos que guardamos seletivamente em nossa memória. Essa explicação é o que nos dá identidade, nos faz reconhecer a nós próprios. As narrativas construídas, a partir de histórias de vidas são pessoais, já que refletem a história de vida de uma pessoa, e social, refletindo o contexto do conhecimento profissional de um professor. A história de um grupo é a organização do que foi seletivamente demarcado como significativo na memória social. É o que dá harmonia a um grupo e estabelece sua identidade.

Conclusão

Em resumo, o texto mostra que a memória é algo vivo e ao ser (re)contada, passado e presente vão se misturando no presente. Mostra que a memória é visivelmente particular sempre remete a um grupo, ou seja, o indivíduo carrega em si a lembrança, mas está sempre interagindo com a sociedade.

As narrativas ajudam-nos a colocar ordem e coerência à nossa experiência e a dar sentido aos acontecimentos de nossa vida. Já a história é a maneira como organizamos e revelamos para o outro aquilo que reconhecemos em nossa memória. Assim, é importante a história de vida dos professores, com a finalidade de conhecer as experiências pelas quais passam.

Todavia, é lamentável que, na maioria das vezes, quando pensamos ou nos perguntamos sobre a nossa trajetória profissional, o centro de nossas atenções está “[...] nos cursos realizados, na formação acadêmica e a experiência vivida na área profissional. Fica de fora como algo sem importância a nossa presença no mundo" (FREIRE, 1996, p. 80).  Parece que a atividade profissional do sujeito não tem nada a ver com suas experiências “[...] de menino, de jovem, com seus desejos, com seus sonhos, com o seu bem querer ao mundo ou seu desamor à vida. Com sua alegria ou com seu mal-estar na passagem dos dias e dos anos” (Idem).

Ao concluir, cabe perguntar: Como é que cada um se tornou o professor que é hoje? E por quê? Buscarmos esclarecimentos sobre essa questão e aos porquês de nossas dúvidas e dificuldades, podemos passar a entender e encontrar significado para o trabalho docente, ou seja, por meio de uma reflexão sobre a história de vida, somos capazes de começar a perceber como nos tornamos o professor que somos.

 

Referências

BOLZAN, D. P. V. Formação de professores: compartilhando e reconstruindo conhecimentos. Porto Alegre: Mediação, 2002.

BUENO, B. O. Pesquisa em colaboração na formação contínua de professores. In: BUENO, B. O.; CATANI, D. B.; SOUZA, C. P de. (Orgs).  A vida e ofício dos professores: formação contínua, autobiografia e pesquisa em colaboração. São Paulo: Escrituras Editoras, 1998.

CATANI, D. B. et al. História, memória e autobiografia na pesquisa educacional e na formação. In: CATANI, D. B. et al.(Orgs). Docência, memória e gênero: estudos sobre formação. São Paulo: Escritura Editora, 2003.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática docente. São Paulo: Paz e terra, 1996. (coleção leitura)

GARNICA, A. V. M. História oral e educação matemática: de um inventário a uma regulação. ZETETIKÉ. Campinas, SP: UNICAMP-FE-CEPEM, v. 11, n. 19. p. 09-55, 2003.

HALBWACHS, M. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990.

JESUS, R. de F. Sobre alguns caminhos trilhados...ou mares navegados...Hoje, sou professora. In: VASCONCELOS, G. A. N. (Org.).Como me fiz professora. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

KESSEL, Z. Memória e memória coletiva. Brasil, 200-. Disponível em: <http: //www.museudapessoa.net/escolas/textos_apoio.htm > Acesso em : 20 de jan. 2004.

LARROSA, J. Pedagogia Profana: danças, piruetas e mascaradas. 4. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

NÓVOA, A. Os professores e suas histórias de vida. In: NÓVOA, A. (Org). Vidas de professores. Colecção Ciências da Educação, Vol. 4. Porto: Porto Editora, 1992.

VASCONCELOS, G. A. N. Puxando um fio. In: VASCONCELOS, G. A. N. (Org). Como me fiz professora. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

 

por ROSELI ARAÚJO BARROS COSTA & TADEU OLIVER GONÇALVES

   

 

 

 

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[1] Este artigo é parte integrante da pesquisa que realizamos para a construção de nossa dissertação de mestrado, no Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Matemáticas da UFPA, no Núcleo Pedagógico de Apoio ao Desenvolvimento Científico (NPADC), redigida sob a orientação do Prof. Dr Tadeu Oliver Gonçalves.

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