por EVA PAULINO BUENO

Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan (JPGS, 2003)

 

Katrina no tempo

 

Praça em New Orleans (Foto da autora)Em uma entrevista dada ao programa de televisão “Sessenta Minutos,” o prefeito de New Orleans, Ray Nagin, quando confrontado com o fato de que a cidade ainda não está toda limpa e existem montões de detritos em várias partes, respondeu com uma comparação de New Orleans e Nova Iorque, dizendo que não se deve exigir demais de New Orleans porque, mesmo depois de cinco anos o local das torres gêmeas em Nova Iorque ainda é “um buraco no chão.” Muita gente se disse ofendida com a comparação, embora muitos nova-iorquinos, cansados de ver que a reconstrução não anda, estão de acordo com o prefeito de New Orleans. E, para muitos, esta comparação das duas cidades é apta, porque as duas foram atacadas.

Mas existem muitas diferenças, obviamente. Algumas delas deveriam ter funcionado para proteger New Orleans da devastação: o sistema de diques, e o fato que todos sabiam de antemão que o furacão estava a caminho. Nova Iorque não teve nenhum aviso que seria atacada. As pessoas que saíram de suas casas de manhã para irem trabalhar nas torres gêmeas naquele fatídico 11 de setembro de 2001, não tinham nenhuma idéia do que ia ocorrer. New Orleans sabia, ou devia saber. A cada ano existe a possibilidade de um ou mais furacões. Muitos na cidade costumavam usar camisetas referindo-se a furacões enfrentados, e vencidos. Mas, olhando o desastre depois de um ano, se pode reconhecer que houve várias falhas, em vários níveis, e que a soma de todas culminou com a quase completa destruição de New Orleans e de outras cidades do Golfo.

Recapitulando, para aqueles que estavam em outro planeta nestes últimos 12 meses: o furacão Katrina, o quinto do ano de 2005, chegou à costa do Golfo em 29 de agosto como um furacão de categoria 3, depois de ter passado pela Flórida como furacão da categoria 1 (mais fraco). Em sua passagem pelo Golfo, o furacão causou grandes estragos na cidade de New Orleans, e nas paróquias situadas ao leste (de São Bernardo), e ao oeste (de Jefferson), e seguiu seu caminho devastando várias outras cidades nos estados de Alabama (Mobile), do Mississipi (Biloxi, Waveland), assim como outras cidades no estado de Louisiana.

New Orleans - Sacada (Foto da autora)Até hoje, um ano depois, apesar dos estragos terem sido devastadores também nas outras cidades, em geral a situação de New Orleans é a mais comentada, porque esta é uma cidade de grande valor histórico e cultural. New Orleans está na foz do rio Mississipi, a cidade mais importante do estado de Louisiana, que uma vez foi propriedade dos franceses. New Orleans é uma cidade fascinante, com sua cultura especial, que lhe mereceu o apelido de “The Big Easy” – A grande fácil.

Mas todos que visitaram New Orleans antes do furacão Katrina puderam constatar que o apelido escondia vários problemas. Uma vez eu li uma comparação entre New Orleans e o Rio de Janeiro que dizia que você poderia ser assaltado nas duas cidades, mas que no Rio o ladrão conversaria com você, e em New Orleans você, além de assaltado, provavelmente levaria um tiro do assaltante também. Não confirmo a veracidade desta afirmação, mas aqui registro algo que muitos acreditavam, pelo menos aqui nos Estados Unidos: New Orleans era uma cidade violenta.

A cidade era realmente pobre, com muito desemprego, e isto talvez explique o grande nível de violência. Além disso, a população era de maioria negra. Como em muitas outras cidades no mundo, os ricos (em geral brancos) viviam em alguns bairros, enquanto que os negros e pobres viviam na maioria em outros bairros, em geral os mais baixos em relação ao nível do mar. Estes foram os bairros que sofreram maior devastação.[1]

O que se conhece como “New Orleans” é um centro urbano constituído de divisões que são chamadas de “parishes” – “paróquias”. Então temos, a Jefferson Parish que fica ao oeste de  New Orleans, e é separada da cidade por um sistema de diques e pontes; a  Orleans Parish, onde se encontra a cidade de New Orleans, e a St. Bernard Parish, que fica a leste de New Orleans, e também é separada da cidade por um sistema de diques e pontes. Estas três partes sofreram a força do vento do furacão, mas a Jefferson Parish quase não teve nenhum estrago devido ao rompimento dos diques. Orleans teve estragos causados pelo furacão e pela água. Mas a paróquia que sofreu mais foi a de St. Bernard, que tinha quase 75 mil habitantes antes de Katrina, e em dezembro do ano passado tinha somente 2.700 (ver mais detalhes em http://www.popstats.com/pv/vol_1_1.htm)

Os números absolutos da tragédia, de acordo com a maioria dos analistas, dizem que quase duas mil pessoas morreram como efeito direto do furacão e das enchentes na Louisiana e no Mississipi. Mas nem os analistas estão de completo acordo quanto ao número de residentes que retornaram à cidade de New Orleans. E este número muda constantemente, porque muitos estão voltando agora, enquanto que outros, que já tentaram retornar à sua cidade, ao se depararem com a desolação, ineficiência de serviços públicos, falta de emprego, falta de hospitais e escolas, decidiram sair definitivamente. A verdade é que New Orleans vai tomar muito tempo para se recuperar. Da população de quase quinhentas mil pessoas de antes de agosto do ano passado, só se encontram de volta umas cento e cinqüenta mil. Muitos ainda estão em Houston, e outras cidades do Texas, e a maioria se espalhou pela Louisiana, especialmente na região de Baton Rouge. É possível que Katrina tenha espalhado a população da cidade em todos os estados americanos. Nas entrevistas mostradas na televisão nestes dias durante o aniversário da catástrofe, a maioria dos que estão fora de New Orleans dizem que querem voltar, refazer suas vidas, rever seus vizinhos e amigos, retomar sua rotina de antes de Katrina.

E por que, alguns perguntam, se deveriam gastar os mais de oitenta bilhões de dólares para consertar uma cidade que foi construída abaixo do nível do mar? Por que insistir neste local, já que se sabe que todo ano furacões ameaçam a costa do Golfo? Estas são perguntas que os residentes de New Orleans têm ouvido muito. De fato, pode parecer não ter sentido voltar-se a viver num lugar que está no caminho de um dos perigos naturais mais devastadores. Mas para qualquer pessoa que já foi a New Orleans e passou pelo menos alguns dias, é fácil compreender porque tantos querem e vão voltar.

A cidade tem um charme especial, uma cozinha especial, uma música especial. Tem os casarios com varandas de ferro trabalhado, as flores, os jardins, e o festivo “French Quarter.” Tem o carnaval “Mardi Gras” mais famoso dos Estados Unidos, em que as pessoas dançam nas ruas usando colares coloridos, os quais são usados como moeda para convencer as mulheres nos balcões a levantarem as blusas. Tem as bandas de música tocando na rua do French Quarter. Tem os bares com música ao vivo – blues, jazz, cajun – toda noite. Tem os restaurantes que se gabam de fazerem o melhor bolinho frito – chamado “beignet” – servido com café bem forte, a noite inteira. E, para cada pessoa, existem outras razões mais pessoais: um amor, uma amizade, uma lembrança. Mas, no fundo, a razão principal é a mesma que explica porque a pessoa do nordeste brasileiro, mesmo quando tem que vir para o Sul do Brasil para trabalhar, e acaba ficando muitos anos, sempre quer voltar ao nordeste. Muitos podem duvidar do valor de uma terra que parece tão inóspita, tão seca, tão sujeita aos azares do tempo. Mas a terra da gente, de um jeito de outro, não pode ser duplicada em nenhum outro lugar. Os moradores de New Orleans querem voltar à sua cidade como os pássaros querem voltar ao ninho, recompô-lo depois do vendaval. Quem pode criticá-los?

 

por EVA PAULINO BUENO

   

 

 

 

Clique e cadastre-se para receber os informes mensais da Revista Espaço Acadêmico

[1] O diretor Spike Lee, que se tornou famoso por abordar em seus filmes assuntos relacionados a questões raciais e de gênero, produziu um programa de 3 horas sobre New Orleans. Este programa foi feito para a estação HBO, e portanto não esteve disponível a todos os espectadores. De acordo com comentários em vários jornais (New York Times, especially), este é um trabalho que merece ser visto. Spike Lee entrevista pessoas que estão de volta, políticos, autoridades. O fato de uma falha generalizada dos governos nacional, estadual e local não pode ser escondido. As mortes na cidade poderiam ter sido evitadas com uma preparação mais cuidadosa, e mais rapidez em acionar as medidas de segurança para o público.

clique e acesse todos os artigos publicados...  

http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2006 - Todos os direitos reservados